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Diário da Resistência


Aline Blaya: Olha o mundo, rapaz! Olha o mundo!
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Aline Blaya: Olha o mundo, rapaz! Olha o mundo!


12/01/2022 - 17h51

Olha o mundo, rapaz! Olha o mundo!

Por Aline Blaya Martins*, especial para o Viomundo

Estou de férias. Tipo férias. Férias de professor, sabe o que é isso?

Pois, como amanhã viajo com as crianças e semana que vem recomeçam as aulas, tenho tentado me organizar o máximo que posso para poder sair sem que aconteça nenhum infortúnio maior.

Então, hoje tirei o dia para organizar os ambientes virtuais das disciplinas e para ir até a reitoria para assinar alguns certificados de conclusão de curso de pós-graduação.

Acordei cedo, fiz as minhas tarefas e me fui à rua a passos largos. Os colegas da reitoria haviam marcado um horário para eu assinar os diplomas.

Em tempos de pandemia, de praticamente dois anos de invasão domiciliar (home office não existe, porque como disse a sábia Eliane Brum, onde tem home não tem office e onde tem office não tem home), e de universidade de portas praticamente fechadas, é preciso marcar hora para qualquer coisa.

Contudo, ao chegar ao Campus Central tive a impressão de fazer uma viagem no tempo e de me transladar.

Não sei bem se foram 17 anos ou 78. Me senti dentro da cabeça da pequena Ofélia adentrando no Labirinto do Fauno, filme do mexicano Guilhermo Del Toro de 2006, ambientado em 1944.

Para ser a menina Ofélia era preciso apenas fechar os olhos, ouvir as vozes da floresta, sentir a brisa invadir o ambiente, o perfume do orvalho e o farfalhar que as folhas possuem ao tocarem-se.

Depois seria necessário lembrar que o mundo está em colapso, que o seu país é governado por um líder fascista, que acaba de passar por uma grande guerra civil e que sua figura paterna é um dos fiéis desse governo antidemocrático e que você e sua mãe dependem dele pra sobreviver.

Este era basicamente o cenário da vida da pequena que foi levada por sua mãe para viver no moinho onde o fascista capitão Vidal fazia frente contra os rebeldes ao governo de Franco.

A vida diante de um regime fascista, em estado de exceção capitaneado por um machista sádico não era nada fácil para uma menina e simbolicamente a criança precisou encontrar em um universo surreal, cheio de criaturas horripilantes e em um ambiente sombrio, um jeito de dar forma ao mal. Ela se vale de um reino de fantasia nada principesco. Seus protetores, fadas e o próprio fauno em seu labirinto, são feios como a realidade imposta a menina.

Hoje me senti perto dela.

Um grande parque se coloca entre a minha casa e a reitoria da universidade. No caminho, ouvi os sons do parque, senti a brisa tocar meu corpo, o perfume das flores e o farfalhar que as folhas ao tocarem-se. Lembrei que meu país está em colapso e que é governado por um fascista e que o mandatário maior da reitoria é… Deixa para lá…

Voltemos a mim e a Ofélia. O caso é que, nesta semana, em plena disseminação descontrolada da variante Ômicron da Covid-19 e de influenza e sem testes, em pleno debate da mudança constitucional chilena para a criação de um sistema de saúde universal como o nosso, em pleno colapso da natureza com enchentes na Bahia, secas no Rio Grande do Sul e desabamentos em Minas Gerais…

Uma das maiores e mais qualificadas universidades da região sul do país amanheceu cheia de grades e com barreiras dignas de um labirinto muito bem projetado.

Caminhei mais de uma hora até sair da floresta/parque e conseguir encontrar a sala da reitoria em que deveria assinar o diploma de uma profissional de saúde que está no front como um dos rebeldes que resistia à ditadura de Franco no Labirinto do Fauno.

Devo ter sido barrada por pelo menos meia-dúzia de portões trancados com cadeado. Contudo, após contornar o mundo e desbravar o campus inteiro, consegui, como a pequena Ofélia, fazer a tarefa que me esperava.

Mas, o Fauno que abriu para mim, era terrível também e os rebeldes que habitavam o prédio estavam ali trancados a chave. Só entrei e saí porque eu tinha o giz que abria as portas do submundo.

Saí dali assim que consegui e pensei no tamanho das dificuldades que estarão nas próximas tarefas. Fiz todos os caminhos até chegar de volta a floresta. Caminhando, caminhante, como Eduardo Galeano, só pensava que os monstros mais assustadores são aqueles que habitam o lado de fora e que determinam o que é feito lá dentro.

Pensei em como podiam ter colocado tantas e tantas grades, tantos cadeados em um lugar que deveria estar muito mais cheio que o shopping, muito mais aberto do que as praias justamente por ser este um dos momento onde o país mais precisou de conhecimento, da ciência e de todos lutando uns pelos outros. Daí lembrei da Ofélia, do labirinto, do sadismo do Capitão Vidal, e das tarefas da menina.

O filme ora parece lento, ora frenético, sempre nebuloso e soturno. Saí da universidade nesta perspectiva. Quando cheguei ao prédio das Biociências, antigo prédio da Medicina, li um pequeno cartaz todo estropeado com as seguintes palavras “NO ERAN DELINQUENTES Y SÍ ESTUDIANTES” e pensei no regime de exceção que vivemos e na ironia que é ter tal dizer na porta deste prédio e do labirinto de onde acabei de sair justo neste momento histórico.

Segui meu caminho. Sou apenas uma pequena Ofélia caminhante criando e vencendo meus labirintos em busca de dias melhores onde viveremos sem labirintos, sem barreiras, sem fascismos e sem o negacionismo que coloca uma universidade cada vez mais distante do povo que justifica sua existência e que precisa entender que ela é dele e não do 1% que detém o dinheiro e as chaves dos cadeados.

Na floresta, de volta a minha casa, viajando, longe, escuto um homem gritar para o outro:

— Olha o mundo, rapaz! Olha o mundo!

Volto como quem acorda de um longo pesadelo. Mas, não. Não era um pesadelo, é só o nosso mundo e eu sigo absorta nos meus pensamentos… Queria tanto que nos déssemos conta do que há por trás deste labirinto. Queria tanto que Ofélia soubesse que há tantas dela neste mundo aqui fora.

Aline Blaya Martins: Mulher, mãe, militante social do Coletivo Célia Sánchez, professora, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFRGS.





3 comentários

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Zé Maria

16 de janeiro de 2022 às 12h02

Sobre “O Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue
(http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000018.pdf)

Por Marilena Chauí: (https://artepensamento.ims.com.br/item/sobre-o-direito-a-preguica)

Responder

    Zé Maria

    16 de janeiro de 2022 às 14h11

    Leia também:

    “A Universidade e a Sociedade” e outros Escritos.

    Por Marilena Chauí (UNESP 2000)

    (https://uspcaf.files.wordpress.com/2011/11/escrito-sobre-a-universidade.pdf)

    Zé Maria

    16 de janeiro de 2022 às 14h24

    .
    .
    “O Ser Humano Não Nasceu Portador do Gene Para a Escravidão.
    Ao Contrário, a Genética Prepara a Mente Humana para Ser Livre.”
    (FrancoAtirador).
    .
    .
    A seguir, excertos do Livro “O Horror Econômico”, da Escritora Francesa Viviane Forrester que prenunciou a Catástrofe Global, quando, a partir da Década 1980, o Estado de Bem-Estar Social Sucumbia na Europa diante do Poder Hegemônico do Mercado, tal como hoje se aprofunda em todo o Mundo, sob o Comando Corporativo Privado dos Conglomerados das Finanças Virtuais – um Oceano em que tragicamente o Titanic Brasil naufragou depois do Golpe Midiático de 2016, Endossado por todos os Phodêres, pota do Iceberg “Operação Lava-Jato” articulada por atuação dos Suspeitos Moro e DD:
    .
    “Não Há Nada Mais Mobilizador que o Pensamento.”
    .
    ‘Há uma Sociedade “Anestesiada pela Cantilena” Midiática Corporativa
    cuja Único e Real Objetivo “é Ensurdecer e Embrutecer” a População’
    .
    “Em Compensação, a Vocação da Cultura [Intelecto e Arte]
    consiste em Suscitar a Crítica aos Pedantismos Imbecis
    [- e aos Artifícios do Marketing -] e fornecer os Meios para tal.
    .
    Em Fazer Ouvir
    Uma Coisa Diferente
    Situada Mais Além,
    Nem Que Seja o Silêncio.
    .
    Aprender a ouvir, permitir
    que esses Rumores cheguem até nós,
    perceber suas Linguagens,
    deixar propagar-se um Som,
    definir-se um Sentido, e um Sentido Inédito,
    é uma Maneira de Libertar-se um Pouco
    do Falatório Ambiente,
    ficar Menos Preso à Redundância,
    oferecer algum Campo ao Pensamento.
    .
    Pensar é algo que certamente não se aprende;
    é a Coisa Mais Compartilhada do Mundo,
    a Mais Espontânea, a Mais Orgânica.

    Mas aquela também da qual se é Mais Afastado.
    .
    Pode-se desaprender a pensar.
    Tudo concorre para isso.
    .
    Entregar-se ao Pensamento demanda
    até mesmo Audácia quando tudo se opõe,
    e, em primeiro lugar, com muita freqüência,
    a Própria Pessoa!
    .
    Engajar-se no Pensamento reclama algum Exercício,
    como esquecer os Adjetivos que o apresentam
    como Austero, Árduo, Repugnante, Inerte, Elitista,
    Paralisante e de um Tédio Sem Limites;

    Frustrar as Artimanhas que fazem crer
    na Separação entre o Intelectual e o Visceral,
    entre o Pensamento e a Emoção.

    Quando se consegue isso,
    é como se fosse a ‘Eterna Salvação’!
    .
    E isso pode permitir a Cada Um tornar-se,
    para o Bem ou para o Mal,
    um Habitante de Pleno Direito,
    Autônomo, seja qual for seu Estatuto.
    .
    Não é de surpreender que isso Não Seja,
    nem um pouco, Encorajado.

    Porque Não Há Nada
    Mais Mobilizador
    do que o Pensamento.
    .
    Longe de representar uma Sombria Demissão,
    ele é o Ato em sua Própria Quintessência.
    .
    Não existe Atividade
    Mais Subversiva do que Ele.
    Mais temida.

    Mais Difamada Também;
    E Não é Por Acaso,
    Não é Inocente:
    O Pensamento é Político.

    E não só
    o Pensamento Político.
    Nem de longe!
    Só o Fato de Pensar
    já é Político.
    .
    Daí a Luta Insidiosa,
    Cada Vez Mais Eficaz,
    Hoje Mais do Que Nunca,
    Contra o Pensamento.
    Contra a Capacidade de Pensar.

    A qual, entretanto, representa
    e representará, cada vez mais,
    Nosso Único Recurso” …

    “Vejamos o que representa o ‘crescimento’ [do PIB] para o ‘apóstolo da produtividade’
    nos Estados Unidos, Stephen Roach (Le Monde, 29/5/1996), que hoje renuncia à sua paixão
    pelo ‘downsizing’ (termo americano, um pouco mais decente que o nosso [francês] ‘dégraissage’,
    para ‘cortar gorduras’), o que não o impede de conjurar a Europa
    a sair dos tempos merovíngios em que se acha incrustada, nem de indignar-se:
    ela ‘nem sequer começou a considerar o tipo de estratégias que adotamos
    nos Estados Unidos’… as mesmas que hoje ele recusa!
    .
    Estratégias que, em compensação, ele aconselha a esta Europa retardatária,
    prometendo-lhe resultados sedutores. Assim, ‘ao longo dos progressos’ que prescreve
    – e que define como ‘desregulamentação, globalização e privatização’ –,
    ele garante que ‘inevitavelmente, por mais triste que isso possa parecer, haverá demissões’!
    .
    Se ele recomenda ao seu próprio país que se resigne hoje a contratações,
    a Europa, em compensação, não deve de modo algum ater-se a semelhantes detalhes:
    nossos países atrasados não devem absolutamente ‘abrigar-se atrás da experiência americana
    ou usar o pretexto da (sua) nova análise da situação para defender-se contra a necessidade de reestruturar;
    (isso) seria renunciar a ser competitivo’.
    .
    Ora, francamente! Um homem de experiência num país superdesenvolvido!
    .
    Seríamos bem idiotas de não tirar proveito de suas lições, de não interromper nossas vacilações,
    a fim de chegar, como ele, com os mesmos métodos, ao estágio… no qual ele se plantou!
    .
    Por que razão, aliás, ele julga que pegou um ‘caminho errado’: o mesmo que nos aconselha a tomar?
    .
    Primeiro, ele não pegou ‘caminho errado’; quer dizer, não realmente:
    os outros é que não seguiram ao pé da letra suas prescrições.
    .
    E depois, ele não pode resistir às suas louváveis inclinações:
    no seu ‘roteiro da retomada econômica pela produtividade’,
    ele tinha imaginado, conforme nos diz, um entorno de baixa inflação
    e crescimento sustentado dos lucros, portanto muito positivo para as ações e obrigações,
    mesmo que o crescimento da economia fosse muito lento’.
    .
    O crescimento não teria mais prestígio a seu ver? Ai de nós!
    .
    Mas Roach prossegue: –Eu via, paralelamente, uma forte tendência ao ‘downsizing’, à compressão dos custos da mão-de-obra, favorecendo um clima econômico muito construtivo.
    .
    Não! O crescimento decididamente não é a preocupação maior do ‘apóstolo da produtividade’.
    .
    O poder de compra, alegremente ‘comprimido’, também não.
    .
    Sua anulação ou seu enfraquecimento constituem, ao contrário, as condições
    de um ‘clima econômico’ que ele julga ‘muito construtivo’.
    .
    Gostaríamos de saber a opinião da ‘mão-de-obra’ e dos ‘downsizados’, heróis desse sucesso!
    .
    Nosso ‘apóstolo’ nos mostra assim outro aspecto desse crescimento tão em evidência, revelando com que entusiasmo ele é considerado pela economia real.
    .
    Entusiasmo compartilhado por governos que praticam com ardor aqueles cortes sombrios
    (sempre dezenas de milhares de empregos), desta vez nas fileiras de consumidores,
    como, por exemplo, funcionários públicos, que não dependem do setor privado,
    mas que não deixam de ser considerados ‘rentáveis’, segundo os critérios dos mercados.
    .
    Não necessários ou competentes, mas ‘ren­táveis’ – em relação a que instância sagrada?
    .
    Pouco importa se, malgrado os clichês repetidos com tanto prazer e que os descrevem
    como preguiçosos abastados, aproveitadores desleixados, vampiros sedentos,
    eles, por outro lado, são necessários como professores, funcionários da saúde,
    dos serviços públicos, ou mesmo como… consumidores!
    .
    A falta de pessoal nos hospitais, nas escolas, nos trens etc. é um fato demonstrado,
    mas, por economia (visando a quê? para obter o quê?), esse pessoal
    é objeto de ‘cortes de gorduras’ maciços.
    Aqui, a automatização que permite economizar mão-de-obra
    preservando os resultados não é responsável por essas demissões,
    por essas compressões de efetivos. Só o desprezo é que é.
    .
    E também o fato (absolutamente surpreendente) de ter conseguido fazer
    que esse desprezo fosse compartilhado por um público
    sobre o qual ele é exercido com prioridade!
    E que sofre suas conseqüências.
    .
    Contradição flagrante entre a precariedade criada desordenadamente
    e a tão propalada expressão de um crescimento ardentemente esperado,
    por assim dizer, apresentado como um remédio a todos os males.
    .
    Será que o objetivo verdadeiro seria mesmo esse crescimento, que eliminaria esses males?
    E não um crescimento das especulações financeiras e dos mercados mais ou menos virtuais
    – um ‘capitalismo eletrônico’ – tão dissociados do crescimento em questão?
    .
    Mas, em semelhante contexto, onde está a publicidade que parece tão capital
    e que, presente em tudo, nos faz viver num mundo não mais reificado,
    mas rotulado, onde, se as pessoas vêem seus nomes substituídos por siglas,
    as coisas, por sua vez, trazem nomes próprios, a ponto de formar uma população de rótulos
    que assombra os espíritos, deixando-os obcecados, focalizando as pulsões?
    .
    A tal ponto que, no limite, os nomes de ‘marcas’ poderiam perfeitamente
    acabar não correspondendo a nenhum produto?
    .
    Por meio de seduções e artimanhas que nenhuma cortesã, nenhum fanático jamais cultivaram,
    a golpes de evocações e de associações libidinosas, é por rótulos que nos fazem desmaiar.
    .
    Nossas fantasias, nossas reações mais subliminares são dissecadas em praça pública.
    .
    Quer sejamos de direita ou de esquerda, sabem como vender a todos nós
    o mesmo ravióli, da mesma maneira. Ou um perfume, um queijo. Ou…
    desemprego.
    .
    Quer sejamos consumidores ou não, sabem que consumiremos. E o que consumiremos.
    .
    Talvez o verdadeiro interesse da publicidade [e da própria Imprensa]
    resida cada vez mais nessas últimas funções:
    na poderosa distração que ela suscita;
    no ambiente cultural que ela satura,
    mantendo-o o mais perto possível do grau zero;
    mas, sobretudo, no desvio do desejo,
    nessa ciência do desejo que permite condicioná-lo,
    persuadir primeiro que ele existe;
    depois, que ele existe apenas lá onde é indicado.
    E, sobretudo, que não existe em outro lugar.
    .
    Talvez o papel da publicidade seja mais político que econômico,
    mais catequético que promocional.
    Talvez ela sirva, sobretudo, para suprimir ‘Mallarmé e sua metralhadora’.
    .
    Será que, à revelia até dos que a praticam, o papel do consumidor, depois de satisfeito,
    tem muito pouca importância e não representa mais o verdadeiro objetivo?
    .
    Talvez nos deixem ainda essa ilusão, mas só por gentileza.
    Por prudência também, não sem uma certa paciência:
    nunca se sabe, essas crianças podem ficar por demais insuportáveis;
    como adivinhar o que elas ainda podem inventar?
    .
    Stephen Roach, ele também, está muito consciente disso.
    Se ele se alegra pelo fato de que, ‘num mundo em que a competição
    é cada vez mais intensa, é sempre o empregador que tem o poder’,
    não deixa, entretanto, de suspirar: –Mas, na arena da opinião pública,
    as regras do jogo são diferentes: os chefes de empresa e os acionistas
    são objeto de ataques sem precedentes.
    .
    É de perguntar se por acaso ele não fantasia um pouco sobre a importância
    e as conseqüências potenciais desses ataques.
    Mas é sobretudo interessante notar que toda resistência tem um impacto,
    já que Roach se vê obrigado a concluir:
    ‘A verdade é que não se pode espremer eternamente a mão-de-obra como um limão’.
    Cremos ouvir aqui soluços na voz.
    .
    Enquanto isso, há as liquidações [de postos de trabalho].
    Praticam-se cortes enérgicos nos efetivos de todos os lados,
    embora proclamando e prometendo (sempre a gentileza) amanhãs de trabalho.
    .
    Sabotam-se os níveis de vida fazendo apelo à confiança.
    .
    Desintegram-se instituições, degradam-se conquistas sociais,
    sempre, porém, para preservá-las, para dar-lhes uma última oportunidade:
    –É para melhor te salvar, meu filho!.
    .
    Tudo isso, sempre em nome de catástrofes suspensas, como espadas de Dâmocles
    com as quais somos entretidos sem muitos detalhes, a golpes de ‘déficits’,
    de ‘buracos’ a serem preenchidos com urgência.
    .
    A inquietação administrada, mas em razão de quê?
    .
    Onde foram parar aquelas supostas calamidades prestes a desabar sobre nós e nos devorar…
    se não nos deixamos devorar antes por aqueles que fizeram essa publicidade?
    .
    Que precisões nos dão? Esse ‘déficit’, por exemplo, que monstro ele representa?
    .
    Exatamente que desastre, o que seria pior que os desastres
    fomentados pelas medidas destinadas a evitá-lo?
    .
    Não existe uma alternativa pelo menos possível de ser considerada,
    nem que fosse para voltar atrás depois?
    .
    O que se tem em vista? O bom andamento dos ‘mercados’
    ou o bem-estar, a sobrevivência das populações?
    .
    E, depois, esse dinheiro que está faltando, ele existe!
    Distribuído de maneira muito particular, mas existe”…
    .
    “Continuamos a fazer as mesmas perguntas fantasmas que, como se sabe,
    ninguém responderá, exceto o desastre das vidas que esse silêncio destrói,
    enquanto esquecemos que cada uma delas representa um Destino.
    .
    Inúteis, angustiantes, essas perguntas obsoletas nos evitam uma angústia pior:
    a do desaparecimento de um mundo em que elas ainda podiam ser feitas.
    .
    Um mundo onde seus termos se fundamentavam numa realidade.
    Ou melhor: fundamentavam essa realidade.
    .
    Um mundo cujo clima se mistura sempre às nossas respirações
    e ao qual pertencemos de maneira visceral, seja pelo prazer ou pelo sofrimento.
    .
    Um mundo cujos vestígios nós trituramos, preocupados em tapar buracos,
    em remendar o vazio, em construir simulacros em torno de um sistema
    não só desmoronado, mas até mesmo desaparecido.
    .
    Em que sonho somos mantidos, entretidos com crises, ao fim das quais sairíamos do pesadelo?
    .
    Quando tomaremos Consciência de que não há Crise, nem Crises,
    mas Mutação?
    .
    Não Mutação de uma Sociedade, mas Mutação Brutal de uma Civilização?
    .
    Participamos de uma Nova Era, sem conseguir observá-la.
    .
    Sem admitir e nem sequer perceber que a Era Anterior desapareceu.
    .
    Portanto, não podendo enterrá-la, passamos os dias a mumificá-la,
    a considerá-la atual e em atividade, respeitando os Rituais de uma Dinâmica Ausente.
    .
    Por que essa Projeção Permanente de um Mundo Virtual, de uma Sociedade Sonâmbula Devastada por Problemas Fictícios?
    .
    O único Problema Verdadeiro é que esses problemas não são mais problemas,
    mas, ao contrário, tornaram-se a Norma dessa Época,
    ao mesmo tempo, Inaugural e Crepuscular que não assumimos.
    […]
    Deve-se lembrar também como é pouco importante a sorte das almas
    e dos corpos camuflados nas estatísticas e usados apenas como um modo de calcular.
    .
    São as cifras que contam, mesmo que não correspondam a nenhum número verdadeiro, a nada de orgânico, a nenhum resultado, mesmo que designem apenas a exibição de uma trucagem…
    .
    Mas, enquanto alguém diverte assim a platéia, milhões de “pessoas”
    (digo bem: “pessoas”, colocadas entre aspas), por tempo indefinido,
    talvez sem outro limite a não ser a morte, têm direito apenas à miséria
    ou à sua ameaça mais ou menos próxima, à perda muitas vezes de um teto,
    à perda de toda consideração social e até mesmo de toda auto-consideração.
    .
    Ao drama das identidades precárias ou anuladas.
    .
    Ao mais vergonhoso dos sentimentos: a Vergonha.
    .
    Porque cada um então se crê (é encorajado a crer-se) dono falido de seu próprio destino,
    quando não passou de um número colocado pelo acaso numa estatística.
    .
    Multidões de seres lutando, sozinhos ou em família, para não deteriorar-se,
    nem demais nem muito depressa.
    .
    Sem contar inúmeros outros na Periferia, vivendo com o temor
    e o risco de cair nesse mesmo estado.
    .
    Não é o desemprego em si que é nefasto, mas o sofrimento que ele gera
    e que para muitos provém de sua inadequação àquilo que o define,
    àquilo que o termo ‘Desemprego’ projeta, apesar de fora de uso,
    mas ainda determinando seu estatuto.
    .
    O fenômeno atual do desemprego já não é mais aquele designado por essa palavra,
    porém, em razão do reflexo de um passado destruído, não se leva isso em conta
    quando se pretende encontrar soluções e, sobretudo, julgar os desempregados.
    .
    De fato, a forma contemporânea daquilo que ainda se chama desemprego jamais é circunscrita, jamais definida e, portanto, jamais levada em consideração.

    Na verdade, nunca se discute aquilo que se designa pelos termos ‘Desemprego’ e ‘Desempregados’;
    mesmo quando esse problema parece ocupar o centro da preocupação geral.
    .
    O fenômeno real é, ao contrário, ocultado.
    .
    Um desempregado, hoje, não é mais objeto de uma marginalização provisória, ocasional,
    que atinge apenas alguns setores, agora, ele está às voltas com uma implosão geral,
    com um fenômeno comparável a tempestades, ciclones e tornados,
    que não visam ninguém em particular, mas aos quais ninguém pode resistir.

    Ele é objeto de uma lógica planetária que supõe a supressão
    daquilo que se chama ‘trabalho’; vale dizer: ’emprego’.
    .
    Mas – e esse desencontro tem efeitos cruéis – o social e o econômico pretendem ser
    sempre comandados pelos intercâmbios efetuados a partir do trabalho,
    ao passo que este último desapareceu.
    .
    Os desempregados, vítimas desse desaparecimento, são tratados e julgados
    pelos mesmos critérios usados no tempo em que os empregos eram abundantes.
    .
    Responsabilizados por estarem desprevenidos, eles são ludibriados,
    acalentados por promessas falaciosas anunciando o pronto restabelecimento
    daquela abundância e a pronta reparação das conjunturas prejudicadas por alguns contratempos.
    .
    Resulta daí a marginalização impiedosa e passiva do número imenso,
    e constantemente ampliado, de ‘Solicitantes de Emprego’ que, ironia,
    pelo próprio fato de se terem tornado tais, atingiram uma norma contemporânea;
    norma que não é admitida como tal nem mesmo pelos excluídos do trabalho,
    a tal ponto que estes são os primeiros a se considerar incompatíveis
    com uma sociedade da qual eles são os produtos mais naturais.
    .
    São levados a se considerar indignos dela, e sobretudo responsáveis pela sua própria situação,
    que julgam degradante (já que degradada) e até censurável.
    .
    Eles se acusam daquilo de que são vítimas.
    .
    Julgam-se com o olhar daqueles que os julgam,
    olhar esse que adotam, que os vê como culpados,
    e que os faz, em seguida, perguntar que incapacidade,
    que aptidão para o fracasso, que má vontade,
    que erros puderam levá-los a essa situação.
    .
    A desaprovação geral os espreita, apesar do absurdo dessas acusações.
    .
    Eles se criticam – como são criticados – por viver uma vida de miséria
    ou pela ameaça de que isso ocorra.
    .
    Uma vida freqüentemente ‘assistida’ (abaixo, por sinal, de um limite tolerável).
    .
    Essas críticas que lhes são feitas e que eles próprios se fazem
    se baseiam em nossas percepções defasadas da conjuntura,
    em velhas opiniões outrora sem fundamento, hoje redundantes
    e ainda mais pesadas, mais absurdas, sem nenhuma ligação com o presente.
    .
    Tudo isso – que não tem nada de inocente – os leva a essa vergonha,
    a esse sentimento de ser indigno, que conduz a todas as submissões.
    .
    A abjeção desencoraja qualquer outra reação de sua parte que não seja uma resignação mortificada.
    .
    Pois não há nada que enfraqueça nem que paralise mais que a Vergonha.
    .
    Ela altera na raiz, deixa sem meios, permite toda espécie de influência,
    transforma em vítimas aqueles que a sofrem, daí o interesse do poder
    em recorrer a ela e a impô-la; ela permite fazer a lei sem encontrar oposição,
    e transgredi-la sem temor de qualquer protesto.
    .
    É ela que cria o impasse, impede qualquer resistência, qualquer desmistificação,
    qualquer enfrentamento da situação.
    .
    É ela que afasta a pessoa de tudo aquilo que permitiria recusar a desonra
    e exigir uma tomada de posição política do presente.
    .
    É ela, ainda, que permite a exploração dessa resignação, além do pânico virulento que contribui para criar.
    .
    A Vergonha deveria ter cotação na Bolsa:
    ela é um Elemento importante do Lucro
    [no Mercado Financeiro].
    .
    A vergonha é um valor sólido, como o sofrimento que a provoca ou que ela suscita.
    .
    Não é de espantar, portanto, o furor inconsciente, digamos instintivo,
    para reconstituir aquilo que está na sua origem: um sistema falido e extinto,
    mas cujo prolongamento artificial permite aplicar sub­-repticiamente castigos e tiranias de alto quilate, protegendo a ‘coesão social’.
    .
    Desse Sistema emerge, entretanto, uma pergunta essencial, jamais formulada:
    .
    –É preciso ‘merecer’ viver para ter esse direito?…
    .
    Uma ínfima minoria, já excepcionalmente munida de poderes,
    de propriedades e de privilégios considerados implícitos, detém de ofício esse direito.
    .
    Quanto ao resto da Humanidade, para ‘merecer’ viver, deve mostrar-se
    ‘útil’ à Sociedade, pelo menos àquela parte que a administra e a domina:
    a Economia, mais do que nunca confundida com o Comércio, ou seja, a Economia de Mercado.
    .
    ‘Útil’, aqui, significa quase sempre ‘Rentável’, isto é, lucrativo ao Lucro.
    .
    Numa palavra: ‘Empregável’ (‘Explorável’ seria de mau gosto!).
    .
    Esse ‘mérito’, esse ‘Direito à Vida’, mais precisamente passa, portanto, pelo dever de trabalhar,
    de ser empregado, que se torna então um direito imprescritível, sem o qual o Sistema Social
    nada mais seria do que um amplo caso de assassinato coletivo: um Genocídio.
    .
    Mas o que ocorre com o direito de viver, quando este não mais opera,
    quando é proibido cumprir esse dever que lhe dá acesso,
    quando se torna impossível aquilo que é imposto?
    .
    Sabemos que hoje em dia estão permanentemente fechados esses acessos
    ao trabalho, aos empregos, eles próprios excluídos pela imperícia geral,
    pelo interesse de alguns ou pelo sentido da história – tudo isso impingido sob o signo da fatalidade.
    .
    Será normal, então, ou mesmo lógico, impor justamente aquilo que está faltando?
    .
    Será que é legal exigir o que não existe como condição necessária de sobrevivência?
    .
    Teima-se, entretanto, em perpetuar esse fiasco.
    .
    Insiste-­se em considerar norma um passado extinto, um modelo apodrecido;
    em dar sentido oficial às atividades econômicas, políticas e sociais,
    essa corrida aos espectros, essa invenção ‘ersatz’, essa distribuição prometida
    e sempre adiada daquilo que não existe mais;
    continua-se fingindo que não há impasse, que se trata apenas de atravessar
    algumas seqüências desagradáveis e passageiras de descuidos reparáveis.
    .
    Que impostura!
    .
    Tantos destinos massacrados com o único objetivo de construir a imagem
    de uma sociedade desaparecida, baseada no trabalho e não na sua ausência;
    tantas existências sacrificadas ao caráter fictício do adversário que se promete vencer,
    aos fenômenos quiméricos que se pretende reduzir e sufocar!
    .
    Por quanto tempo ainda vamos aceitar ser enganados e considerar
    únicos inimigos aqueles que nos são designados adversários desaparecidos?
    .
    Permaneceremos cegos ao perigo em curso, aos verdadeiros escolhos?
    .
    O navio já naufragou, mas nós preferimos (encorajam-nos a isso) não admitir
    e continuar a bordo, afundar sob a proteção de um ambiente familiar,
    em vez de tentar, talvez em vão, algum meio de salvação.
    .
    Desse modo, continuamos com rotinas bem estranhas!
    .
    Não se sabe se é cômico ou sinistro, por ocasião de uma perpétua, irremovível
    e crescente penúria de empregos, impor a cada um dos milhões de desempregados
    – e isso a cada dia útil de cada semana, de cada mês, de cada ano –
    a procura ‘efetiva e permanente’ desse trabalho que não existe.
    .
    Obrigá-lo a passar horas, durante dias, semanas, meses e, às vezes, anos
    se oferecendo todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, em vão,
    barrado previamente pelas estatísticas.
    .
    Pois, afinal, ser recusado cada dia útil de cada semana, de cada mês e, às vezes, de cada ano,
    será que isso constituiria um emprego, um ofício, uma profissão?
    .
    Seria isso uma colocação, um ‘job’, ou mesmo uma aprendizagem?
    Seria um destino plausível? Uma ocupação razoável?
    Uma forma realmente recomendável de emprego do tempo?
    .
    Todas essas recusas, essas rejeições em cadeia, não seriam sobretudo uma encenação destinada a persuadir esses ‘solicitantes’ de sua própria nulidade?
    .
    Para inculcar no público a imagem de seu fracasso e propagar a idéia (falsa)
    da responsabilidade, culpada e castigada, daqueles que pagam pelo erro geral
    ou pela decisão de alguns, pela cegueira de todos, inclusive a deles?
    .
    Para exibir o espetáculo de um mea culpa ao qual, aliás, eles aderem. Vencidos.
    .
    Tantas vidas encurraladas, manietadas, torturadas, que se desfazem, tangentes a uma sociedade que se retrai.
    .
    Entre esses despossuídos e seus contemporâneos,
    ergue-se uma espécie de vidraça cada vez menos transparente.
    .
    E como são cada vez menos vistos, como alguns os querem ainda mais apagados,
    riscados, escamoteados dessa sociedade, eles são chamados de ‘Excluídos’.
    .
    Mas, ao contrário, eles estão lá, apertados, encarcerados, incluídos até a medula!
    .
    Eles são absorvidos, devorados, relegados para sempre, deportados,
    repudiados, banidos, submissos e decaídos, mas tão incômodos: uns chatos!
    .
    Jamais completamente, não, jamais suficientemente expulsos!
    .
    Incluídos, demasiado incluídos, e em descrédito.
    .
    É dessa maneira que se prepara uma Sociedade de Escravos,
    aos quais só a Escravidão conferiria um Estatuto.
    .
    Mas para que se entulhar de escravos, se o trabalho deles é supérfluo?
    .
    Então, como um eco àquela pergunta que ’emergia’ mais acima, surge outra que se ouve com temor:
    –Será ‘útil’ viver, quando não se é lucrativo ao Lucro? …
    .
    Aqui desponta, talvez, a sombra, o prenúncio ou o vestígio de um crime.
    .
    Não é pouca coisa que toda uma ‘população’ (no sentido apreciado pelos sociólogos)
    seja mansamente conduzida por uma sociedade lúcida e sofisticada
    até os extremos da vertigem e da fragilidade:
    até as fronteiras da morte e, às vezes, mais além.
    .
    Não é pouca coisa também que aquelas mesmas pessoas que o trabalho escravizaria
    sejam levadas a mendigar, a procurar por um trabalho, qualquer um,
    a qualquer preço (quer dizer, o menor).
    .
    E quando todos não se dedicam de corpo e alma a essa solicitação inútil,
    a opinião geral é que deveriam fazê-lo.
    .
    Não é pouca coisa ainda que aqueles que detêm o Poder Econômico,
    vale dizer, o Poder, tenham a seus pés aqueles mesmos agitadores
    que ontem contestavam, reivindicavam, combatiam.
    .
    Que delícia vê-los implorar para obter aquilo que vilipendiavam
    e que hoje consideram o Santo Graal.
    .
    Mais uma vez, não é pouca coisa ter à sua mercê aqueles outros
    que, providos de salários, de empregos, não protestarão,
    com medo de perder conquistas tão raras, tão preciosas e precárias,
    e ter que se juntar ao bando poroso dos ‘Miseráveis’.
    .
    Ao ver como se pegam e se jogam homens e mulheres
    em virtude de um Mercado de Trabalho errático,
    cada vez mais imaginário, comparável àquela “Pele de Onagro”
    que se encolhe, um Mercado do qual eles dependem,
    do qual suas vidas dependem, mas que não depende deles;
    .
    Ao ver como já não são contratados com tanta freqüência,
    e como vegetam, em particular os jovens, numa vacuidade sem limites, considerada degradante, e como são detestados por isso;
    .
    Ao ver como, a partir daí, a Vida os maltrata e como a ajudamos a maltratá-los;
    .
    Ao ver que, para além da exploração dos homens, havia algo ainda pior:
    a ausência de qualquer exploração – como deixar de dizer que, não sendo sequer exploráveis,
    nem sequer necessárias à exploração, ela própria inútil,
    as multidões podem tremer, e cada um dentro da multidão?
    .
    Então, como um eco àquela pergunta: –Será ‘útil’ viver quando não se é ‘lucrativo’ ao Lucro?,
    ela própria eco daquela outra: –É preciso ‘merecer’ viver para ter esse Direito?,
    surge o temor insidioso, o medo difuso, mas justificado, de ver um grande número,
    de ver o maior número de Seres Humanos considerados ‘Supérfluos’.
    .
    Não subalternos nem reprovados: Supérfluos. E por essa razão, Nocivos.
    .
    E por essa razão [Elimináveis?] … Esse Veredicto ainda não foi pronunciado,
    nem enunciado e, certamente, nem pensado de modo consciente.
    .
    Vivemos numa Democracia.
    .
    Para o conjunto da população, esse mesmo ‘conjunto’ ainda é objeto
    de um interesse real, ligado a suas culturas, a afetos profundos, adquiridos ou espontâneos,
    mesmo se uma indiferença crescente se instaura em relação aos viventes.
    .
    Esse ‘conjunto’ representa também, não nos esqueçamos, uma clientela eleitoral e consumidora
    que gera outro tipo de ‘interesse’ e leva os políticos a mobilizar-se
    em torno dos problemas do ‘trabalho’ e do ‘desemprego’,
    agora questões de rotina, a oficializar esses falsos problemas,
    pelo menos os problemas mal colocados, a ocultar qualquer constatação
    e a fornecer a curto prazo sempre as mesmas respostas anêmicas a questões factícias.
    .
    Não que se deva – nem de longe! – isentá-los de encontrar soluções
    mesmo parciais, mesmo precárias.
    .
    Mas seus remendos têm como principal efeito manter sistemas
    que se esforçam em fazer de conta que funcionam, mesmo mal,
    e sobretudo permitir a recondução de jogos de poderes e hierarquias,
    eles próprios ultrapassados.
    .
    Nossa velha experiência dessas rotinas nos dá a ilusão de uma espécie
    de domínio sobre elas, conferindo-lhes assim um ar de inocência,
    deixando-as marcadas por um certo humanismo,
    cercando-as sobretudo de fronteiras legais como verdadeiras barreiras de defesa.
    .
    Vivemos realmente numa Democracia.
    .
    Entretanto, aquilo que nos ameaça está a ponto de ser dito, e já é quase murmurado: ‘Supérfluos e portanto…’.
    .
    E se acontecesse de não estarmos mais numa Democracia?!?
    .
    Esse ‘excesso’ (que só está aumentando) não correria então o risco
    de ser Formulado? ‘Pronunciado’ e, portanto, ‘Consagrado’?
    .
    O que aconteceria se o ‘mérito’, do qual dependeria mais do que nunca
    o ‘direito de viver’, e esse ‘direito de viver’, ele próprio,
    fossem argüidos e administrados por um Regime Autoritário?
    .
    Já não ignoramos, não podemos ignorar que ao horror nada é impossível,
    que não há limites para as decisões humanas.
    .
    Da exploração à exclusão, da exclusão à eliminação,
    ou até mesmo a algumas inéditas explorações desastrosas…
    Será que essa seqüência é impensável?
    .
    Sabemos, por experiência própria, que a Barbárie, sempre latente,
    combina de maneira perfeita com a Placidez daquelas Maiorias
    que sabem tão bem amalgamar o Pior com a Monotonia Ambiente.
    .
    Como se vê, ante certos perigos, virtuais ou não, ainda é o sistema
    baseado no trabalho (mesmo reduzido ao estado atual) que faz o papel de muralha,
    o que talvez justifica nosso apego regressivo a algumas de suas normas
    que não estão mais em vigor.
    .
    Mas esse sistema não deixa de assentar-se sobre bases carcomidas,
    mais permeável do que nunca a todas as violências, todas as perversidades.
    .
    Suas rotinas, aparentemente capazes de atenuar o pior e retardá-lo,
    giram no vazio e nos mantêm entorpecidos naquilo que em outro lugar
    eu chamei de ‘Violência da Calma’ (Forrester, 1980).
    .
    É a mais perigosa, a que permite que todas as outras se desencadeiem sem obstáculo;
    ela provém de um conjunto de opressões oriundas de uma longa,
    terrivelmente longa, tradição de leis clandestinas.
    .
    ‘A calma dos indivíduos e das sociedades é obtida pelo exercício
    de forças coercitivas antigas, subjacentes, de uma violência e de uma eficácia tal
    que passa despercebida’, e que, no limite, não é mais necessária,
    por estar inteiramente integrada;
    essas forças nos oprimem sem ter mais que se manifestar.
    .
    Só aparece a calma a que fomos reduzidos antes mesmo de nascer.
    .
    Essa violência, escondida na calma que ela própria instituiu, sobrevive e age, indetectável.
    .
    Ela cuida, entre outras coisas, dos escândalos que ela própria dissimula,
    impondo-os mais facilmente e conseguindo suscitar uma tal resignação geral
    que já não se sabe mais ao que se está resignando: de tão bem que ela negociou seu esquecimento!
    .
    Não existe arma contra ela, a não ser a exatidão, a frieza da constatação.
    .
    Mais espetacular, a crítica é menos radical, já que entra no jogo proposto
    e leva em conta suas regras que, desse modo, ela cauciona, nem que seja por oposição.
    .
    Ora, ocorre que ‘desarmar’ representa, pelo contrário, a palavra-chave.
    .
    Desarmar a imensa e febricitante partida planetária cujos valores em jogo
    jamais se sabe muito bem quais são, nem que espetáculo nos é dado,
    por trás do qual se jogaria outro.
    .
    Para fins dessa constatação, nunca será demais pôr em dúvida
    até mesmo a existência dos problemas, nem pôr em causa seus termos
    ou pôr em questão as próprias questões.
    .
    Em particular quando esses problemas implicam os conceitos de ‘trabalho’ e de ‘desemprego’,
    em torno dos quais se cantam as melopéias políticas de todas as tendências
    e se entoam as ladainhas de soluções fúteis, apressadas, repisadas,
    que sabemos que são ineficazes, que não atacam a desgraça acumulada,
    que nem sequer a visam.
    .
    Assim – e esse é o maior exemplo –, os textos, os discursos que analisam
    esses problemas, do trabalho e do desemprego, só tratam, na verdade,
    do Lucro que é sua Base, que é sua Matriz, mas que jamais mencionam.
    .
    Permanecendo nessas zonas calcinadas como o Grande Ordenador,
    o Lucro, entretanto, é mantido em Segredo.
    .
    Ele continua pairando, como um pressuposto tão evidente que nem sequer é mencionado.
    .
    Tudo é organizado, previsto, proibido e suscitado em razão dele,
    que dessa maneira parece inevitável, como que fundido
    à própria semente da vida, a ponto de não se distinguir dela.
    .
    Ele opera à vista de todos, mas despercebido.
    .
    Ativo, propaga-se por toda parte, mas jamais é citado,
    a não ser sob a forma daquelas pudicas ‘criações de riquezas’
    que pretendem beneficiar toda a espécie humana
    e ocultar ‘tesouros’ de empregos.
    .
    Tocar nessas ‘riquezas’ seria então criminoso.
    .
    É preciso preservá-las a qualquer preço, não discuti-las,
    esquecer (ou fingir esquecer) que elas beneficiam sempre o mesmo pequeno número,
    cada vez mais poderoso, mais capaz de impor esse Lucro (que lhe toca) como a Única Lógica, como a própria Substância da Existência,
    o Pilar da Civilização, a garantia de toda Democracia, o móvel (fixo) de toda mobilidade, o centro nervoso de toda circulação, o motor invisível e inaudível, intocável, de nossas animações.
    .
    A prioridade vai então para o Lucro, considerado original, uma espécie de Big-Bang.
    .
    Só depois de garantida e deduzida a parte dos Negócios – a da Economia de Mercado –
    é que são (cada vez menos) levados em conta os outros setores, entre os quais os da cidade.
    .
    Em primeiro lugar, o Lucro, em razão do qual tudo é instituído.
    .
    Só depois é que as pessoas se arranjam com as migalhas dessas famosas ‘criações de riquezas’,
    sem as quais, dizem, não haveria nada, nem mesmo essas migalhas, que por sinal estão diminuindo
    – nenhuma ou quase nenhuma outra reserva de trabalho, de recursos.
    […]
    Análises, ou melhor, resenhas peremptórias, segundo as quais a Modernidade, reservada apenas às esferas dirigentes, só se aplica à Economia de Mercado,
    e só é operante nas mãos daqueles que decidem.
    .
    Fora daí, julga-se que vivemos à moda antiga, numa espécie de ‘Espetáculo de Som e Luz’,
    numa retrospectiva em que o presente não desempenha nenhum papel
    nem confere nenhum outro, onde somos relegados a um Sistema
    que não existe mais, onde somos condenados.
    .
    Diante disso, é no mínimo estranho que jamais se pensa
    num modo de organização a partir da ausência de trabalho,
    em vez de provocar tanto sofrimento, tão estéreis e tão perigosos,
    desmentindo essa ausência, esse desaparecimento, apresentando-o
    como um simples intervalo que se ignora ou se pretende preencher,
    ou até suprimir, dentro de prazo e de tempos imprecisos,
    incessantemente renovados, enquanto se instalam a Desgraça e o Perigo.
    .
    Promessa de uma Ressurreição de Espectros, que permite pressionar ainda mais,
    enquanto ainda é tempo, ou colocar fora de jogo aqueles que essa ausência
    logo reduzirá à Condição de Escravos, se já não o fez.
    .
    Ou os conduzirá ao Desaparecimento: À Eliminação.
    .
    Em vez de esperar, em condições desastrosas, os resultados de promessas
    que não se concretizarão; em vez de esperar em vão, na miséria,
    o retorno do trabalho, a rápida chegada do emprego,
    seria por acaso insensato tornar decente, viável por outros meios, e hoje,
    a vida daqueles que, na ausência – dentro em breve – radical do trabalho,
    ou melhor, do emprego, são considerados decaídos, excluídos, supérfluos?
    .
    Ainda é tempo de incluir essas vidas, nossas vidas, no seu sentido próprio,
    no seu Sentido Verdadeiro:
    o Sentido Muito Simples, da Vida, da sua Dignidade, de seus Direitos.
    .
    Ainda dá tempo de subtraí-los ao bel-prazer daqueles que os ridicularizam.
    .
    Seria insensato esperar, enfim, não um pouco de Amor, tão vago, tão fácil de declarar,
    tão satisfeito de si, e que autoriza a fazer uso de todos os castigos,
    mas a audácia de um sentimento áspero, ingrato, de um rigor intratável
    e que se recusa a qualquer exceção:
    o RESPEITO?”
    .
    VIVIANE FORRESTER
    “O Horror Econômico”
    UNESP (1997).
    Tradução: Álvaro Lorencini.
    Íntegra: (https://bit.ly/33HdaMJ)

    Em Español: (https://ddooss.org/libros/Viviane_Forrester.pdf)


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