VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Aldemario Araujo Castro: Se gritar pega Centrão… (vejam o general cantando)
Reprodução
Você escreve

Aldemario Araujo Castro: Se gritar pega Centrão… (vejam o general cantando)


16/07/2021 - 13h45

Vídeo da página de Renato Reseno, sugerido por Conceição Lemes

SE GRITAR PEGA CENTRÃO …

Por Aldemario Araujo Castro*

O termo “Centrão” foi utilizado para designar um grupo suprapartidário de parlamentares, com claro viés de direita, criado no final do primeiro ano da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988.

O agrupamento político em questão assegurou ao então presidente da República José Sarney a manutenção do sistema presidencialista e o mandato de cinco anos.

Um dos líderes do antigo Centrão cunhou a famosa máxima “é dando que se recebe”.

Em outras palavras, como identificou a imprensa na ocasião, o “dando” significava apoio parlamentar e o “recebe” dizia respeito à indicação de cargos no Executivo e o “recebimento” de verbas orçamentárias.

O antigo Centrão aparentemente deixou de existir com o final do governo Sarney. Mas, sem essa denominação e sem tanta organicidade política, seus principais líderes apoiaram a candidatura de Fernando Collor.

Seguindo a lógica “se há governo, sou a favor”, integraram os governos Collor, Itamar e Fernando Henrique.

Os governos Lula e Dilma conviveram, com profunda intimidade, com um novo Centrão. Matéria do “Estadão” (jornal O Estado de S. Paulo), de 9 de março de 2021, intitulado “Centrão de Bolsonaro já foi de Lula… Pode voltar a ser? Veja o cenário”, afirmou:

“O Centrão é o Centrão. Suprapartidário, o bloco nunca deixou de ser governo. E nada indica que está disposto a deixar de ser. Ex-deputado ‘dissidente’ em bancadas do bloco informal, o presidente Jair Bolsonaro sabe bem que a ideologia desses partidos se resume a cifras, cargos e palanques.

Com novos rostos, o Centrão aliou-se a Bolsonaro sem cerimônias depois de ignorá-lo na eleição de 2018 e de ter passado todo o período de governo do PT no poder, como base de apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. (…)

O exemplo mais nítido da instabilidade dos acordos com o Centrão ocorreu em 2016. O bloco se desgarrou do petismo quando a ex-presidente Dilma Rousseff deu sinais de que não resistiria ao processo de impeachment, enquanto o então vice-presidente, Michel Temer (MDB), indicou que abriria o orçamento e os cargos da Esplanada aos parlamentares do Centrão novamente. Os ministérios e as emendas, na ocasião, não bastaram”.

A referência, realizada na matéria jornalística, de que o Centrão tem uma compulsão irresistível pela presença no governo de plantão, qualquer que seja ele, fica bem demonstrada com a desenvoltura com que suas lideranças integraram os últimos governos da República.

O deputado Ricardo Barros, por exemplo, figurou como líder ou vice-líder, no Congresso Nacional, de quase todos os governos após a ditadura militar.

A forte presença do Centrão nos vários governos das últimas décadas “coincide” com o frequente envolvimento de seus integrantes nos principais esquemas de corrupção que vieram a público (imagine os que permaneceram nas sombras).

O “mensalão” e o “orçamento paralelo” (ou secreto) são dois exemplos típicos, um mais “antigo” e o outro mais recente.

Na ementa do acórdão da Ação Penal n. 470, que julgou o escândalo do “mensalão” no Supremo Tribunal Federal (STF), consta:

“Conjunto probatório harmonioso que, evidenciando a sincronia das ações de corruptos e corruptores no mesmo sentido da prática

criminosa comum, conduz à comprovação do amplo esquema de distribuição de dinheiro a parlamentares, os quais, em troca, ofereceram seu apoio e o de seus correligionários aos projetos de interesse do Governo Federal na Câmara dos Deputados”.

O “orçamento secreto”, conforme revelou o “Estadão”, consiste num esquema organizado pelo governo federal, no final do ano de 2020, para ampliar a base de apoio parlamentar. Foi criado um “orçamento paralelo” de cerca de 3 bilhões de reais em emendas.

A maior parte dessas proposições orçamentárias, operadas por membros do Centrão, foi destinada à compra de tratores e equipamentos, especialmente agrícolas, por preços até 259% acima dos valores de referência fixados pela própria Administração Pública.

Em função do que foi destacado, a imagem do Centrão esteve e está (pelo visto, estará) umbilicalmente vinculada às práticas políticas e administrativas mais condenáveis.

O atual Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, resumiu, numa paródia, o conceito experimentado por esse bloco político. Cantou o militar: “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão” !!!!!

Em texto recente, o professor Wilson Gomes fez as seguintes e incisivas indagações:

“E se eu lhe perguntasse qual o partido político brasileiro que há anos é líder do ranking dos que têm o maior número de parlamentares denunciados, indiciados ou condenados por crimes contra a Administração Pública? Ou qual o partido teve o maior número de políticos investigados durante a Lava Jato? Ou qual o partido cuja bancada mais cresceu na Câmara dos Deputados nas últimas eleições? Você saberia dizer?”

A resposta é Partido Progressista (PP), considerado o núcleo do Centrão. Essa agremiação política (“Progressistas”) foi mencionada 1.206 vezes no aludido acórdão da Ação Penal n. 470 (“Mensalão”).

Aliás, o professor Wilson Gomes, no texto citado, fez uma pertinente observação. As atenções, notadamente midiáticas, para o Centrão “escondem” os Progressistas (ex-PP), o PL (ex-PR), os Republicanos (ex-PRB) e o PTB, agremiações que efetivamente recebem votos.

Quando essa turma se junta a um governo disposto ou vocacionado ao “toma-lá-dá-cá” a “festa” está armada. Infelizmente, é uma festa ou farra com o dinheiro público e que produz invariavelmente corrupção e malversação em níveis consideráveis e crescentes.

Vale uma palavra acerca da vocação do núcleo político do governo federal para as práticas suspeitas ou diretamente desonestas. Imagine, só imagine, uma família com atuação política regional e limitada pelo raio de ação do “baixo clero”.

As presepadas foram efetivadas com o que estava ao alcance: a) milícias (com integrantes homenageados e incorporados como assessores); b) rachadinhas (repartição de remunerações de servidores dos gabinetes); c) frequentes operações com imóveis (com uma curva ascendente) e d) lavagem de dinheiro em empresas de menor expressão (comércio varejista de chocolates, por exemplo).

O envolvimento em corrupção “grossa” ou “pesada” dependia da ação numa arena política mais ampla e com o concurso dos parceiros certos e experientes.

Portanto, somente a cegueira seletiva ou a ingenuidade em alta dose pode alimentar alguma ilusão acerca da incolumidade do núcleo familiar que conduz, de forma atabalhoada (para dizer o mínimo), os destinos políticos do País.

A corrupção sistêmica existente no Brasil por décadas (e séculos) continua operando em todos os níveis governamentais, com novos e velhos atores, com novos e velhos métodos.

É crucial o combate à corrupção, independentemente das colorações político-partidárias. Pelo menos duas cautelas devem estar presentes nessa cruzada.

São elas: a) não gastar a maior parte das energias nas medidas repressivas ou punitivas (os instrumentos preventivos são muito mais eficientes, embora menos pirotécnicos) e b) não considerar que a corrupção é o principal problema do Brasil (a profunda e inaceitável desigualdade socioeconômica ocupa esse posto).

Cumpre ressaltar que a corrupção (em sentido estrito, localizada nas esferas político-administrativas) tem sido instrumentalizada para esconder os mecanismos de concretização de uma sociedade extremamente injusta.

É preciso uma grande conscientização e mobilização populares para que o espaço da política, intermediação entre as estruturas socioeconômicas e a sociedade civil (considerados todos os seus segmentos, classes e diversidades), possa ser utilizado para desenvolver uma governança institucional que ataque as raízes da abissal e vergonhosa desigualdade presente na sociedade brasileira.

*É advogado, mestre em Direito e procurador da Fazenda Nacional





8 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Zé Maria

16 de julho de 2021 às 21h36

Se verificar, a Maior Parte dos Parlamentares do tal Centrão – senão a totalidade – integram a Bancada BBB (Boi, Bíbla, Bala)
que representa o que há de mais Atrasado e Reacionário no País.
A Maioria ainda se encontra na Monarquia Absolutista Colonial.

Responder

    Zé Maria

    16 de julho de 2021 às 21h53

    O pior é que essa Bancada a cada eleição aumenta mais.
    Talvez porque os eleitores representados se multiplicam.
    O Reacionarismo é uma forma ideológica de Fascismo.

    Zé Maria

    16 de julho de 2021 às 21h56

    Um político que pode servir
    de paradigma do Centrão
    é Luiz Carlos Heinze (PP-RS).

    lulu Resanto

    17 de julho de 2021 às 21h15

    É preciso saber que fomos formado pelas mentalidades mais podres e imundas expulso da Europa (essa hoje é de mentalidade avançada por ter nos usado como latrina das suas podridões humanas). Assim, estamos em nível colonial é um grandioso avanço e deveria ser celebrado ter grupos fortes como o centrão comandando o núcleo de poder

Elói Matias

16 de julho de 2021 às 21h30

Se gritar pega general nao fica um, meu irmao. Poucos se salvam.
Até o tribunal deles é só para eles.

Responder

Zé Maria

16 de julho de 2021 às 21h14

Quem diria: o Milico Mijão dançando com o Centrão !

Responder

abelardo

16 de julho de 2021 às 16h55

Quá, Quá, Quá, Quá!!!!!
Quem diria!
Quando o general cantou “pega ladrão”
para fazer gracinha
nem ele sabia que seu fogo amigo iria atingir
alguns de seus pares
“na cabecinha”

Responder

marcio gaúcho

16 de julho de 2021 às 16h08

Onde tem prefeitura sob o comando do PP (Progressistas) tem treta. Hoje, aliados com o MDB, PTB e outros partidos fedelhos ligados às igrejas evangélicas, navegam com bons ventos e desenvoltura na política nacional. Uma vergonha que se agiganta, baseada na impunidade.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding