VIOMUNDO

Diário da Resistência


Dalva Garcia e Ione Ishii: De novidade, o Novo Ensino Médio só tem o nome e marketing; os alunos foram enganados
Trans-formar 20/06/2022 - 00h11

Dalva Garcia e Ione Ishii: De novidade, o Novo Ensino Médio só tem o nome e marketing; os alunos foram enganados


Por Dalva Garcia

Por Dalva Garcia e Ione Ishii*

A memória é irmã do esquecimento.

Lembro-me de inúmeros produtos lançados no mercado que povoaram minha infância: elixir Biotônico Fontoura, Omo – a revolução para lavar as roupas… Claro!

Eu não poderia deixar de falar das balas Juquinha ou ainda da groselha vitaminada Millani, com os jingles que voltam à memória dos que já esqueceram do número de sua carteira de identidade, com todo respeito aos mais velhos.

Mas aqui me limitarei a um exercício simples: retomar as designações de uma etapa do Ensino Básico que já ganhou várias nomenclaturas e embalagens ao longo das últimas seis décadas.

Me refiro, especificamente, ao atual ensino médio ou Novo Ensino Médio, como está sendo vendido.

É o antigo curso Colegial ou Secundário, como era chamado. Ou, ainda, ensino de segundo grau.

Certamente quem tem mais de 60 anos neste “jovem país que vai para frente”, exterminando povos indígenas e assassinando lideranças populares, defensoras dos direitos humanos, já desistiu de designar essa etapa que antecede o ingresso na Faculdade ou Universidade.

Já ouvi inúmeras vezes: “meu neto ainda está na escola, naquela etapa do finzinho, quase na formatura para poder se formar na faculdade”.

“Quase na formatura para poder se formar na Faculdade” não é nem nunca foi contradição ou ignorância dos afastados dos jargões educacionais.

Aliás, para os “esquecidos” considerar como Básica essa etapa do ensino custou muita luta de educadores e sociedade civil.

Não me refiro à extensão de 8 anos de formação escolar para 11 anos que resultou na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996.

Estou me referindo aqui a um cenário de indeterminações criado pelas políticas públicas de educação para esta etapa de ensino que se iniciou com o dever do Estado de contemplar os anseios de uma população que, embora pequena, sonhava ir além das agruras da alfabetização e dos conhecimentos fundamentais da tradição formal.

Chegar ao Colegial implicava – não muito tempo atrás – em concorrer no “vestibulinho” para obter uma vaga nas poucas escolas públicas que disponibilizavam essa remota oportunidade aos filhos de trabalhadores que conseguiam se safar do trabalho infantil, muitas vezes, escravo.

O Secundário ganhava outros objetivos vinculados ao objetivo de oferecer alguma inserção no mercado de trabalho através da educação tecnicista e os manuais de estudo dirigido.

O fracasso dessa tentativa fez surgir o “novo segundo grau” com certo teor de formação geral humanista no sonho da democratização do país.

Mas a fratura tinha criado cicatrizes profundas demais.

Filosofia, sociologia e psicologia aparecem como disciplinas optativas e o mercado editorial dos livros didáticos ganha força nas licitações governamentais.

Era bem ruim, mas eram livros que buscavam sintetizar algum tipo de ciência e não bíblias de edição barata como nas negociações do Ministério da Educação, como consta nas investigações do presente ano desse novo século.

Universalização do Direito à Educação e analfabetismo funcional foi o resultado desse cálculo não muito difícil de se equacionar.

Em 1996, a etapa é consagrada como Ensino Médio.

Mediocridade de discurso e circo de novas metodologias que avançam com o uso de recursos tecnológicos que chegam às escolas já sucateadas.

Salários de professores aviltantes e ultrajantes mas, mesmo assim, o vislumbre de alunos ao acesso às Universidades Públicas por meio de políticas de inclusão: ciência sem fronteiras, pró-UNE, financiamento universitário, cotas raciais.

Mas era preciso pensar o NOVO de NOVO.

Nova nomenclatura, nova carga horária, novo currículo.

Por que pensar o NOVO de NOVO?

Talvez por que esses jovens, mesmo diante do sucateamento crescente das escolas e profissionais da educação submetidos à miséria intelectual incessante, descobriram a ação?

Tiraram as cadeiras pobres e podres das salas de aula e as colocaram nas ruas: não só em São Paulo, mas em todo país.

Ocuparam o espaço público para denunciar uma política educacional que sempre os negligenciou nesta faixa etária.

Alguns afirmam: “O NOVO veio para ficar.”

Se veio para ficar já veio velho, eu diria. Mas dizem que é o início.

É fato que não há professores, recursos tecnológicos.

Arrumaremos, dizem os gestores!

Força tarefa para contratação temporária de profissionais sem qualificação adequada e sem vínculo com escolas é a solução imediata aqui em São Paulo, aonde o novo é nomenclatura de uma antiga política conhecida.

Mas, é preciso respeito e cuidado até porque não se pode jogar a criança com a água do balde.

O balde foi pintado com cores vibrantes, nova nomenclatura, mas o ditado é o mesmo.

A água é a mesma como o Novo OMO multiação, um pouco mais cara, com designer mas está suja ainda.

Ganhou NOVO NOME.

Como na canção: “o que era novo, jovem, hoje é antigo, precisamos todos rejuvenescer…” talvez com menos atenção às novas nomenclaturas oficiais e ouvindo quem de fato é jovem e ainda não engole os jargões oficiais.

Ou seja, lamentavelmente os alunos foram enganados por um novo que não enfrenta antigos problemas estruturais e ignora todos os esforços de décadas de trabalho.

Mesmo que por pouco tempo, produtos novos apresentam alguma qualidade para fidelização dos consumidores.

O novo ensino médio só fideliza as editoras e as empresas que vendem produtos educativos.

De novidade, portanto, o Novo Ensino Médio só tem o nome.

Coisa típica de marqueteiros.

Deram nova embalagem ao que de tão antigo veio para ficar.

Com um detalhe: o produto do NOVO — leia-se conteúdo — é muito pior, mais deteriorado e mais caro que o antigo.

*Dalva Garcia é professora de filosofia da rede pública de São Paulo.

Ione Ishii é professora doutora pela USP e efetiva de biologia da rede pública do estado de São Paulo.





1 comentário

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Zé Maria

21 de junho de 2022 às 06h45

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) Ajustado às Desigualdades Sociais Multifatoriais e Pressões sobre o Planeta Terra (Biodiversidade)
cai muito no Brasil em 2019 (ONU) [Antes da Pandemia de Covid-19]

País havia caído da 79ª para a 84ª posição no Ranking Global IDH
e passado para o Sexto Lugar entre os Países da América do Sul,
mas perde 20 Posições entre os 189 Países Avaliados pela ONU
quando consideradas as Desigualdades Sociais Multifatoriais

(Vide “Tabela 3” às Páginas 351 a 354 do Relatório (365 a 368 do pdf)*

“Os Desequilíbrios Sociais e Planetários Reforçam-se Mutuamente”

“Estamos a entrar numa nova era geológica: o Antropoceno.
A era dos seres humanos.

Pela primeira vez na nossa história, os riscos mais graves e imediatos são de origem humana e ocorrem à escala planetária, desde as alterações climáticas à pandemia de Covid-19, passando pelo aumento das desigualdades.”

Trata-se de uma história sobre os riscos que se nos deparam
à medida que nos adentramos numa nova realidade, descrita
como o Antropoceno, a era dos humanos, em que as alterações
em nível planetário, sem precedentes em termos de alcance,
escala e velocidade, impulsionadas pela atividade humana,
constituem riscos para as pessoas e para todas as formas de vida.

Estes riscos, porém, não nos afetam a todos do mesmo modo.
A Covid-19 sobrepôs-se a um mundo caracterizado por profundas
e crescentes desigualdades no nível do desenvolvimento humano.

Tem, de resto, vindo a agravar o fosso entre os que têm mais e
os que têm menos capacidade para lidar com esta realidade.

Entretanto, os fatores subjacentes a choques como a Covid-19 radicam,
em última instância, nas interações desequilibradas entre as pessoas
e o planeta.

Além disso, estes fatores são acentuados pelos desequilíbrios
de oportunidades, de riqueza e de poder, acentuados tanto
entre os indivíduos como entre os países.”

“A humanidade alcançou feitos incríveis, mas levamos a Terra ao limite.
As alterações climáticas, as desigualdades fraturantes, os números recorde de pessoas forçadas a abandonar os seus lares pelo conflito
e pela crise – tudo isto é o resultado de sociedades que valorizam
aquilo que medem, em vez de medirem o que valorizam.”

“Nos dias de hoje, em pouco mais de uma década, a crise financeira
mundial, a crise climática, a crise da desigualdade e a crise da Covid-19
demonstraram que a resiliência do próprio sistema está a colapsar.

Os sistemas de amortecimento estão atingindo o seu limite.

As ligações que em tempos foram maleáveis podem tornar-se frágeis,
o que as deixa mais propensas a quebrar do que a curvarem-se,
desestabilizando ainda mais o sistema terrestre.

O resultado é que as perturbações se convertem, mais facilmente,
em contágio – quer econômico quer ambiental ou viral –
disseminando-se, indiscriminadamente, pelas fronteiras porosas
dos Estados-Nação e escalando as paredes ilusórias que dividem
as pessoas e o planeta.

Manter tudo como está, simplesmente, não irá resolver.

O mesmo se aplica ao conceito de desenvolvimento humano,
que deve ser continuamente renovado, de forma a dar resposta
aos desafios do nosso tempo.

Não se trata de descartar os seus princípios basilares, que permanecem
fulcrais para os múltiplos desafios da atualidade, mas antes de
os mobilizar para a nossa orientação numa nova e turbulenta
era geológica.

O objetivo do desenvolvimento humano é tão pertinente como
sempre foi – o de que as pessoas vivam vidas que valorizem.

Além disso, esse objetivo comporta o potencial de nos guiar por entre
o nosso dilema, quanto mais não seja porque a manutenção do atual
estado de coisas implica que as pessoas, incluindo as futuras gerações,
se deparem com conjuntos cada vez mais restritos, ao invés de amplos,
de escolhas de vida.

O alívio das pressões sobre o planeta exige a compreensão do modo
como toda a vida existente no mundo – a biosfera – subjaz a uma parte
tão expressiva daquilo que damos por garantido, como o ar que
respiramos.

Este fato sublinha a importância de uma biosfera regenerada e
não esgotada.

Implica, de igual modo, a compreensão do modo como as sociedades
utilizam a energia e os materiais.

Em que medida as fontes de energia são indefinidamente renováveis – como a do sol – e até que ponto os materiais são reciclados, ao invés de
retirados do ciclo, sob a forma de resíduos e poluição?

A acumulação de dióxido de carbono na atmosfera e de plástico
nos oceanos são apenas dois entre imensos exemplos que ilustram
os riscos da dependência de combustíveis fósseis e de ciclos abertos
de materiais.

Um outro é a perda de biodiversidade, frequentemente paralela à
perda de diversidade cultural e linguística, empobrecendo,
culturalmente, as sociedades.”

“A utilização diferenciada de recursos naturais no seio das sociedades
e as consequentes diferenças ao nível da deterioração ambiental
são fundamentais para compreender o modo como as desigualdades
passam de uma geração para a seguinte e como contribuem para a
evolução das pressões ambientais.”

“Os grupos dominantes podem legar os seus privilégios aos respetivos descendentes, enquanto os grupos desfavorecidos se deparam com escolhas extremamente restritas.”

Íntegra do Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas:
*(https://hdr.undp.org/system/files/documents/global-report-document/hdr2020ptpdf.pdf)

https://www.brasildefato.com.br/2020/12/15/brasil-cai-5-posicoes-no-ranking-do-idh-quando-considerada-a-desigualdade-cai-20

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