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Diário da Resistência


Umberto Trigueiros: “No meio da multidão, vimos caças passando para atacar La Moneda; escutamos o último discurso de Allende num radinho”
Política

Umberto Trigueiros: “No meio da multidão, vimos caças passando para atacar La Moneda; escutamos o último discurso de Allende num radinho”


12/09/2018 - 00h06

Pedro Pomar, sobre este áudio histórico: ”Foi também numa terça-feira, 11 de setembro, há 45 anos, que este discurso foi feito.  É uma coincidência e tanto”

por Umberto Trigueiros*

Há 45 anos.

Santiago, 11 de setembro de 1973.

Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2018.

Levantei por volta das 7h da manhã, talvez um pouco antes e fui para a cozinha fazer um café.

Vi que Gregório já tinha saído para o trabalho, numa fábrica de doces, acho que lá para as bandas de San Bernardo.

Portuga, o outro companheiro que morava conosco na casa, ainda dormia.

Ato seguido liguei o pequeno rádio de pilhas que sempre me acompanhava.

Eram dias tensos no Chile, a insurreição de setores reacionários, da burguesia e de elementos das forças armadas contra o Governo da Unidade Popular já era escancarada.

A iminência de um golpe de estado estava nas ruas, na imprensa, na preocupação dos partidos de esquerda, sindicatos.

Também, claro, dos milhares de refugiados políticos latino-americanos que, como eu, se abrigavam no Chile democrático do terror das ditaduras e de governos de direita do Brasil, do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia, dos diversos países da América Central.

No dia 29 de julho passado, uma unidade de blindados, a de Nº 2, já tinha se rebelado e tentado assaltar o Palácio do Governo, mas fracassou.  A Unidade Popular com apoio de parte do Exército e de intensa mobilização popular resistiu.

Salvador Allende enviou ao Parlamento  pedido de Estado de Sítio para combater os golpistas.

O Congresso, ainda com pequena maioria da centro-direita, recusou. O impasse estava criado.

O Governo sem instrumentos legais para combater os criminosos fardados não queria rasgar a Constituição e destruir a democracia.

Comecei a ouvir no rádio as primeiras notícias do golpe: a sublevação da Marinha, em Valparaíso, a movimentação de tropas, os comunicados do Governo.

Nos comunicados, o governo dizendo que o Presidente Allende já estava no Palácio La Moneda e  não negociaria com qualquer tentativa golpista, e chamando os partidos de sua coalizão, sindicatos, Central Única de Trabalhadores, militares democratas e a população a defender o seu Governo.

A CUT decretou a Greve Geral. Parece que ainda estimavam que tinham algum controle da situação.

Verifiquei que algumas emissoras de rádio estavam fora do ar, outras tocavam marchas militares. Escutei os primeiros comunicados de uma tal Junta dos Comandantes em Chefe, exigindo a renúncia do Presidente.

Sintonizei no dial a rádio Mineria,  depois a rádio Magallanes, que era do Governo e deixei aí.

Acordei o Portuga e o coloquei a par da situação. Era o Golpe.

Nos vestimos rapidamente, tratamos de limpar a casa de documentos e outros materiais comprometedores. Peguei minha pistola Browning 7,65mm com dois carregadores e abandonamos a casa.

Era terça-feira, 11 de setembro de 1973, uma manhã fria e cinzenta em Santiago, como ainda costumam ser as manhãs de setembro, final de inverno. Não imaginava que esse dia marcaria a minha vida para sempre, tinha 25 anos então.

A casa onde morávamos ficava no bairro de Conchalí, perto da Avenida Independéncia, uma das grandes vias da cidade. Levava para um dos setores suburbanos.

Ficava numa “población” (bairro popular) habitada por servidores e militares subalternos da FACH (a Força Aérea Chilena). Na verdade, verdade, era uma das 3 casas (aparelhos) onde eu morava, pois já vivia praticamente numa semiclandestinidade.

Saímos,Portuga e eu, sempre com o radinho ligado, atentos às notícias.

Caminhamos até a Av. Independéncia, tratando de tomar uma condução para o centro da cidade. Nosso destino: fazer contato com os companheiros do setor militar do partido Socialista, a quem eu estava ligado.

Pela rua, as pessoas estavam assustadas e tensas, era visível nas suas expressões.

A duras penas, conseguimos subir numa “liebre” ( lotação) superlotada. Mas bem antes de chegar à Estação Mapocho (estação de trens que ficava ao lado do rio do mesmo nome), sob protestos dos passageiros, o motorista avisou que tínhamos de descer, que ele não ia prosseguir.

Fizemos a pé silenciosamente o percurso de muitos quarteirões até a ponte do Mapocho.

À medida em que nos aproximávamos mais do centro, escutávamos cada vez mais fortes os disparos incessantes de armas automáticas e também alguns tiros de canhão, deviam ser de tanques.

Enquanto caminhávamos, ouvimos o primeiro discurso do Presidente Allende, reafirmando sua decisão de não renunciar em hipótese alguma e denunciando os comandantes em chefe das Forças Armadas e de Carabineiros como traidores da pátria, da Constituição e do povo chileno.

E também os primeiros comunicados militares, dizendo que todos aqueles que resistissem aos soldados, ou que fossem encontrados com armas seriam fuzilados sumariamente.

Ah…, todos os estrangeiros deviam se apresentar imediatamente às autoridades policiais ou militares

Ao chegarmos à ponte sobre o rio Mapocho, que ligava o setor de Independéncia ao centro, vimos que ela estava tomada por tropas do Exército e que não deixavam passar.

Não tínhamos ideia se eram golpistas ou forças leais ao Presidente. Decidimos margear o rio em direção leste e tentar cruzar por outra ponte e, assim, o fizemos.

Por fim, conseguimos chegar à Alameda Bernardo O’Higgins (via central de Santiago), através do setor de Plaza Italia, e começamos a caminhar por ela na vã tentativa de alcançarmos a sede do Partido Socialista.

Para isso teríamos que passar em frente ao Palácio de La Moneda e ao Ministério de Defesa, ou seja, em pleno campo de batalha.

Nossa empreitada foi curta, no entanto. Ao passarmos em frente ao Ministério das Relações Exteriores, fomos rendidos de surpresa por uma patrulha de Carabineros que nos encostaram na parede do prédio, junto com outras pessoas e nos revistaram.

Fazia frio e andávamos com pulôver e também casacos.

Eu levava minha Browning na cintura, por debaixo dos casacos. Era uma arma pouco volumosa, bem chatinha. Um dos carabineiros que me revistou passou a mão por sobre a pistola, mas ligeiramente.

Em seguida, o sargento que comandava a patrulha nos liberou e disse que tínhamos que voltar, que havia intenso combate mais embaixo (se escutavam a todo momento os tiros), que era muito perigoso, o caminho estava bloqueado…

Regressamos à Plaza Italia e nos sentamos ao pé de um monumento. Respiramos fundo, olhamos um para o outro, estávamos lívidos, tínhamos acabado de escapar da morte quase certa.

Nunca saberei se o Carabinero que me revistou sentiu a pistola na minha cintura e fingiu que não viu ou não. Ficou essa incógnita.

Portuga não conhecia bem a cidade. Eu estava mais enraizado, morava no Chile há mais tempo, já tinha militância no Partido Socialista, tinha vários contatos e amigos.

Combinei com ele que iríamos para Santiago Oeste, o bairro popular de Barrancas, onde eu dividia um quartinho junto com outro refugiado brasileiro, o companheiro Rogério e conhecia muita gente. Ele aceitou, não tinha opção.

O bairro ficava longe, muito longe e não havia nenhuma condução circulando em Santiago. Iniciamos nosso caminho em direção a Barrancas, margeando o Mapocho.

Escutamos o último discurso histórico e emocionante do companheiro Allende pelo radinho:

(…) Otros hombres superarán esse momento gris y amargo en que la traición pretende imponerse. Sigan uds. sabiendo que, mucho más temprano que tarde se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor. Viva Chile! Viva el Pueblo! Viva los trabajadores (…)

Pudemos ver os caças da FACH passando para bombardear o Palácio de La Moneda, ouvir os impactos das bombas, o deslocamento de ar, a fumaça que subia de lá…

Nós caminhávamos junto a uma multidão de rostos espantados, assustados, com medo, marcados pela incerteza e pela desesperança, que tinham a cicatriz da derrota daquele momento terrível marcada em seus semblantes, expressões das quais nunca me esquecerei.

Depois de horas de caminhada, finalmente chegamos a Barrancas e nos encontramos com os companheiros de lá.

Nos reunimos na casa de uma senhora, éramos muitos. Foi lá que soubemos as primeiras notícias da tomada do La Moneda e da morte de Allende.

No princípio, não acreditávamos. Foi uma enorme depressão coletiva. Soldados e helicópteros começavam a chegar ao bairro, um bastião da Unidade Popular. Era o começo do terror.

Decidimos nos separar, cada um com seus esquemas e seus contatos. Não pude nunca mais regressar a nenhuma das minhas casas.

A rotina passou a ser dormir, a cada dia, em casas diferentes, de gente que nunca tinha visto. Fugir de cercos,.  Dormir vestido, com os sapatos calçados e armado.  Escapar rápido das casas das pessoas que nos abrigavam, pois se nos encontrassem lá, sendo estrangeiros e considerados “terroristas”, elas podiam ser presas ou fuziladas de imediato.

Aliás, ver pessoas sendo assassinadas e encontrar corpos (mãos amarradas e tiros na nuca) nas ruas e barrancas passou a ser a realidade cotidiana.

E começava também a organização da resistência que duraria muitos anos e que custaria milhares de vítimas. Mas, esse já foi o desenrolar e o aprofundamento da história.

Nos primeiros dias de novembro de 1973, consegui por fim entrar no campo de refugiados montado pela ONU num seminário de padres jesuítas, em Padre Hurtado, nas imediações do bairro de Maipú. Aí, mais de 1000 pessoas das mais diferentes nacionalidades, homens, mulheres, jovens, crianças, velhos (a maioria latino-americanos) se abrigavam, aguardando o visto de algum país para sair do Chile.

Em fins de janeiro de 1974, mais ou menos, finalmente consegui salvo-conduto para embarcar para Cuba, com a minha companheira e também outros refugiados. Começava meu segundo exílio.

Sobrevivi graças à ajuda militante de centenas de companheiros e companheiras chilenas que arriscaram suas vidas para proteger refugiados e perseguidos como eu e tantos outros.

Muitas dessas pessoas não me conheciam, nunca tinham estado comigo e várias delas nem eram militantes ou ativistas políticos.

Devo também a minha sobrevivência ao amor e carinho de minha companheira Gabriela e à ajuda da sua família que, apesar de alvo da perseguição da ditadura, me acolheu e ajudou.

Hoje, 11 de setembro de 2018, faz 45 anos do golpe contra uma das mais belas experiências democráticas da América Latina, o governo do Presidente Allende e da Unidade Popular.

Fica aqui essa memória e essa singela homenagem ao companheiro Presidente Salvador Allende e a todos os que caíram.

Para que não se esqueça! Para que nunca mais aconteça!

*Umberto Trigueiros é jornalista.

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4 comentários

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Morvan

14 de setembro de 2018 às 11h53

Boa tarde.
Umberto Trigueiros, o seu depoimento é muito importante, não só pelo resgate histórico, factual, mas por que vossa mercê enaltece aquelas pessoas humildes, em meio a toda sorte de esbulhos, mas tão generosas, a ponto de arriscarem suas vidas para proteger uns aos outros. Que cenas lindas, pungentes. Obrigado.
Saudações “Haddad & Manu para continuarmos a sonhar; #LulaLivre!
Morvan, Usuário GNU-Linux #633640. Seja Legal; Seja Livre. Use GNU-Linux.

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a.ali

14 de setembro de 2018 às 09h57

abraço umberto, estamos na luta por igualdade, mesmo que mts. na sua ignorância e mesquinharia, queiram perpetuar a indiferença, apartar, as idéias, o viver solidário…

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Morvan

12 de setembro de 2018 às 16h49

Boa tarde.
O verdadeiro Onze de Setembro; o outro, como reza o aforisma, viria como farsa, mas sempre a justificar a apropriação das riquezas dos outros países pela predadora geral; no poeta que mareja a vista e descreve com traços orfeônicos a desigualdade perpetrada pelos ignominiosos, a grita por Justiça & Paz, binômio indissociável. Salvador Allende vive. Nos homens e mulheres que nunca deixaram de sonhar com um mundo menos desigual, menos desencantado e nazistoide. Vivamos povos da América do Sul, que resistem e resistirão aos prepostos da odiosa metrópole.

Saudações “Haddad & Manu para continuarmos a sonhar; #LulaLivre!
Morvan, Usuário GNU-Linux #633640. Seja Legal; Seja Livre. Use GNU-Linux.

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João Lourenço

12 de setembro de 2018 às 08h54

Foi a melhor coisa que aconteceu na América do Sul ,se matou um grande mal que surgia e que seja um alerta sempre que o comunismo com seus disfarses surgirem.

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