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Chomksy: Emissora que defendesse derrubada de governo (como a Globo no Brasil) não seria tolerada nos EUA; veja vídeos
Foto Luiz Carlos Azenha
Falatório Política

Chomksy: Emissora que defendesse derrubada de governo (como a Globo no Brasil) não seria tolerada nos EUA; veja vídeos


17/09/2018 - 23h35

Mesmo em países que estavam sob direto ataque militar, como a Nicarágua nos anos 80, o governo [sandinista] nunca fechou o principal jornal, que estava abertamente apoiando a guerra [dos Estados Unidos] contra a Nicarágua. A mesma coisa aconteceu na Venezuela depois do golpe militar [contra Hugo Chávez, em 2002]. O que acontece aqui é normal, os governos esquerdistas foram surpreendentemente abertos ao deixar a mídia funcionar. E eles foram amargamente atacados no Ocidente [EUA e Europa] em casos de leve assédio, mas no Ocidente [a mídia] seria suprimida instantaneamente e os donos e gerentes teriam sorte se fossem para a cadeia. É um fato dramático e o Brasil é mais um caso. Chomsky sobre Lula e a Rede Globo

por Luiz Carlos Azenha

Dentre os vários títulos informais concedidos ao linguista Noam Chomksy está o de Sócrates dos Estados Unidos, uma tarefa que desempenhou “nas sombras” por mais de meio século — ou seja, fora das páginas do New York Times e longe das lentes das redes ABC, NBC ou CBS.

Aos 89 anos de idade, ele é também uma espécie de ombudsman da hipocrisia ocidental, região compreendida aqui como os EUA e seus aliados europeus.

Foi essa a tarefa que Chomsky desempenhou na noite da segunda-feira, 17, ao se encontrar com blogueiros, jornalistas e ativistas na sede do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, no centro de São Paulo.

[No pé deste post, veja a participação de Chomsky no seminário promovido pela Fundação Perseu Abramo, motivo da vinda dele ao Brasil]

Chomksy começou sua palestra com um resumo da perversa supressão de informações que testemunhou ao longo de décadas nos Estados Unidos, patrocinada pelas mega corporações que vendem notícias e produzem na população estadunidense o que chamou, citando Gramsci, de “senso comum hegemônico internalizado”.

Seriam limites invisíveis não só ao que as pessoas podem dizer, mas pensar — um gulag intelectual forjado pela censura e autocensura.

Deu dois exemplos, relativos à guerra do Vietnã e à invasão do Iraque.

No primeiro caso, a opinião mais à esquerda era a do jornalista Anthony Lewis, do New York Times, que atribuía o início do conflito à “tentativa desajeitada de fazer o bem” dos Estados Unidos.

Quando a tentativa colapsou, nos anos 70, Lewis dizia que o custo seria muito alto para que os norte-americanos “impusessem a democracia e a liberdade ao Vietnã”.

Chomsky contrastou isso com as pesquisas de opinião segundo as quais 70% dos norte-americanos entrevistados consistentemente diziam que a guerra do Vietnã era “imoral”, não um erro como sustentava Lewis — pesquisas cujos resultados foram majoritariamente suprimidos da mídia e do debate sobre a guerra nos Estados Unidos.

No caso da ocupação do Iraque, a opinião mais à esquerda foi do próprio presidente Barack Obama, que descreveu o conflito como um “erro estratégico”.

Chomsky lembrou que foi exatamente assim, como um “erro estratégico”, que generais de Hitler descreveram a desastrada tentativa de abrir duas frentes na Segunda Guerra Mundial, contra a Europa Ocidental e a União Soviética.

Não é preciso dizer que o paralelo entre o que diziam os generais nazistas e Obama nunca foi traçado pela mídia nos Estados Unidos.

OUTRAS PESQUISAS DE OPINIÃO

Chomsky utilizou outros exemplos sobre a contradição entre o resultado de pesquisas de opinião e a opinião publicada — num dos casos, da mídia altamente concentrada e direitista da América Latina.

Relatou que, no Chile, estranhou o antichavismo de intelectuais locais, justamente quando pesquisas de opinião do Latinobarómetro, baseado em Santiago, registravam que os venezuelanos estavam entre os maiores apoiadores da democracia e de seu governo, ao lado dos uruguaios.

A oposição a Hugo Chávez havia, assim, penetrado no “senso comum” dos chilenos, mal informados pela imprensa local.

Exemplos de antichavismo epidérmico não faltam no Brasil.

Aqui, lembra o Viomundo, mesmo um doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, como Celso Rocha de Barros, ao atacar ideias bolsonaristas na Folha de S. Paulo, fez uma comparação bizarra.

O colunista, lembrando a proposta do vice de Bolsonaro, o general Hamilton Mourão, de fazer uma Constituinte de notáveis, escreveu:

Segundo o plano de Mourão, essa Constituição depois teria que ser aprovada por referendo. Nada contra referendos, mas, se você segue o noticiário sobre a Venezuela, já viu para onde isso vai.

Uma bobagem, já que a realização de referendos está prevista na Constituição da Venezuela, aprovada com amplo apoio popular: transcorrido metade do mandato, cumpridas determinadas regras, o governante pode enfrentar um referendo revogatório, uma medida eminentemente democrática.

Chávez, aliás, enfrentou um referendo revogatório, com o potencial de apeá-lo do poder — e venceu.

Outro exemplo de Chomsky refere-se à pesquisa Gallup feita em 2013, sobre qual país do mundo era a maior ameaça à paz mundial.

Nos Estados Unidos, os mais citados foram o Irã e a Coreia do Norte.

No resto do mundo, os Estados Unidos ganharam de lavada como “a maior ameaça à paz”.

Os resultados da pesquisa Gallup não foram divulgados na mídia corporativa dos Estados Unidos — e o instituto de pesquisas nunca mais incluiu a pergunta em seus levantamentos.

O professor Laurindo Leal Filho cumprimenta Chomksy, na sede do Barão do Itararé; foto Luiz Carlos Azenha

A GLOBO E O BRASIL

Em sua palestra, Chomsky disse que os governos de esquerda da América Latina nunca de fato suprimiram a imprensa, como quiseram fazer parecer os barões midiáticos da região.

Ele lembrou que foi convidado por um amigo a visitar a Nicarágua quando o governo sandinista era acusado de limitar a tinta de impressão disponível para o diário La Prensa, o de maior circulação.

Porem, em sua investigação, Chomksy constatou que o jornal defendia abertamente os contras, guerrilheiros que promoviam guerra civil contra o governo sandinista com apoio militar dos Estados Unidos.

Chomsky disse que, nas mesmas circunstâncias, nos Estados Unidos, os donos do La Prensa provavelmente seriam colocados diante de um pelotão de fuzilamento, por apoiar a derrubada de um governo eleito instalado na Casa Branca.

Quando perguntando por que o presidente Lula não enfrentou a Globo no Brasil quando estava no poder, sem citar a emissora Chomsky disse que este é um padrão dos governos de esquerda em toda a América Latina: nunca de fato ameaçaram a mídia hegemônica.

Reafirmou que emissoras que promovessem ou tentassem promover a derrubada de governos jamais seriam toleradas nos Estados Unidos ou nos países aliados europeus — como o Reino Unido e a França.

Os donos destas emissoras, frisou, seriam no mínimo presos.

OS EUA E A AMÉRICA LATINA

Chomsky não acredita numa invasão militar da Venezuela pelos Estados Unidos, embora as tentativas de sabotagem e subversão sejam conhecidas desde o golpe contra o governo Hugo Chávez.

Segundo ele, uma invasão vai além da capacidade de Washington.

Para fazer uma comparação histórica, lembrou que o golpe de 64 no Brasil foi planejado nos Estados Unidos e descrito pelo então embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, como a maior “vitória para a democracia” da metade do século passado.

Dois anos antes, em 1962, o presidente John Kennedy havia determinado que os exércitos da América Latina deveriam mudar de prioridade, da defesa do Hemisfério (herança da Segunda Guerra Mundial) para a doutrina de segurança nacional, ou seja, combater o próprio povo.

Tal era o grau de comando de Washington sobre seu “quintal”, frisou Chomksy.

Nos últimos 15 anos, no entanto, ele acredita que a América Latina esteve livre do “controle total direto” dos Estados Unidos, como se viu nos anos 60 e 70.

A ONU E LULA

Sobre a decisão do Brasil de desconhecer liminar do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que pediu a autoridades brasileiras que permitissem ao ex-presidente Lula concorrer ao Planalto, Chomsky disse acreditar que não haverá consequências internacionais.

Os Estados Unidos, lembrou, desprezam o Conselho e a própria ONU.

Destacando o “excepcionalismo” dos Estados Unidos quanto às regras internacionais, Chomsky apontou para a lei aprovada pelo Congresso norte-americano que permite aos Estados Unidos resgatar com uso de força militar qualquer soldado estadunidense que porventura for submetido à Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda.

Na Europa, a lei é conhecida jocosamente como “Lei da Invasão da Holanda”.

GOVERNO SOCIALISTA NOS ESTADOS UNIDOS

Chomsky afirmou que não vê no horizonte a eleição de um governo socialista nos Estados Unidos, embora o democrata Bernie Sanders se defina como socialista.

Segundo ele, a opinião pública moveu-se tão à direita nos EUA que hoje um governo social democrata moderado provocaria arrepios nos conservadores.

Um governo como o do general Eisenhower, por exemplo, poderia muito bem ser taxado de “socialista”, ironizou Chomsky.

Ele afirmou, no entanto, acreditar na construção de instituições socialistas dentro da ordem capitalista — como cooperativas e empresas controladas por trabalhadores, o que vem acontecendo nos Estados Unidos.

PACTO SUICIDA

Chomsky falou em sua apresentação sobre a gravidade da crise ambiental.

Justamente no momento em que o aquecimento global ameaça, em duas gerações, provocar um aumento de dez metros de altura nas marés, a sociedade capitalista decidiu “maximizar o uso de combustíveis fósseis”.

Segundo ele, os bancos internacionais abriram os cofres para financiar a exploração petrolífera, mesmo diante da ameaça de extinção dos humanos.

O lucro acima de tudo, “sejam quais forem as consequências”, embala o que Chomsky chamou de “pacto suicida” do capitalismo.

BOLSONARO E A ECONOMIA

Um dos entrevistadores perguntou a Chomsky sobre os juizes e promotores brasileiros que foram treinados nos Estados Unidos e agora servem à Operação Lava Jato.

Ele traçou um paralelo com os economistas da região que foram treinados na Universidade de Chicago com as ideias de Milton Friedman — os “Chicago Boys”.

Coube a eles, por exemplo, implantar o plano econômico do governo Pinochet, no Chile, à base de torturas, assassinatos e desaparecimentos.

Foi um projeto piloto do neoliberalismo, que colapsou nos anos 80 e ganhou, então, o apelido irônico de “Chicago Road to Socialism”, estrada de Chicago rumo ao socialismo.

Chomsky encerrou a resposta com a lembrança de que o economista que mandará no Brasil, se Jair Bolsonaro for eleito, será um “Chicago Boy”, Paulo Guedes.

“Vocês podem imaginar o que viria por aí”.

Leia também:

Jeferson Miola: Em caso de vitória de Haddad, Bolsonaro ameaça com “tormenta militar”





6 comentários

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Nelson

20 de setembro de 2018 às 21h56

A realidade, o que se passa verdadeiramente em nosso planeta e nas relações entre os países, é cuidadosamente escondida pela avassaladora propaganda ideológica do sistema dominante.

Os órgãos da mídia hegemônica de praticamente todos os países são os principais instrumentos de divulgação dessa propaganda. Tal propaganda cria uma espessa cortina de fumaça que impede a grande maioria da humanidade de enxergar essa realidade.

Noam Chomsky é um dos autores mais indicados a quem quiser transpor essa cortina de fumaça. A leitura de seus livros e artigos é como um clarão a iluminar as consciências eternamente alienadas e, não raro, imbecilizadas pela propaganda ideológica.

Se tu desejas, realmente, escapar à gigantesca manipulação e ao ludibrio protagonizados pelo PIG, se desejas aprender sobre como funciona o nosso mundo, Lulipe, sugiro embrenhar-se nos escritos de Chomsky.

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lulipe

18 de setembro de 2018 às 15h28

É melhor JAIR se acostumando Mr. Chomsky.

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Julio Silveira

18 de setembro de 2018 às 12h34

Poucos falam mas esta é outra das varias aberrações deixadas pelo golpe dos milicos, associados com as oligarquias, porque previsavam da voz goebelliana do convencimento da massa ignara necessaria para firmar o golpe como “revolução” kkkk. Ação como outras vindas dessa gente para garantir status e poder para a turma que vem causando a tragédia historica do Brasil. Tragédia essa feita de subalternismo, entreguismo e corrupção, que se mantem até hoje se firmando como um traço cultural.

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Eduardo

18 de setembro de 2018 às 10h39

A Globo está muito perdida e nervosa com os próprios erros do passado e de agora! As pesquisas eleitorais indicam que ela perderá em 1° turno de balaiada! No próximo governo seus negócios e sua atividade poderão ser adequadamente regulamentados! Consequentemente, teria que tentar vender concessōes deficitárias, interromper atividades que exerce apenas para enganar o governo e o povo, mudar posturas que julgava acima do governo, das instituiçōes e do povo! Enfim assistir seu seu império fraquejar em inúmeras açōes que exerce e sustenta hoje com seu nefasto Poder! Tudo que é construído em bases falsas pode ruir! Como diz a cultura do povo que pouco ou nada sabe ler, mas que sabe entender: “A mentira tem pernas curtas! “ Dizem nas ruas: O povo não é bobo! Menos bobos são os verdadeiros representantes do povo!

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Roberto

18 de setembro de 2018 às 09h25

Olha, peço licença para discordar do Chomsky.
A mídia dos EUA é controlada por seis famílias (já vi isso em algum país) e praticamente todas as emissoras de TV, jornais e revistas têm batalhado com afinco pela derrubada de Trump. Essa mídia não tem pruridos em mentir, falsificar notícias e distorcer informações com esse objetivo. A mídia queria MUITO que a Killary vencesse. Foi derrotada e não aceitou a derrota. Essa cruzada pelo impeachment de Trump é liderada pela CNN e seguida caninamente pelos veículos menos importantes.

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Antonio

18 de setembro de 2018 às 08h46

Os órfãos da mídia vão chamar Bolsonaro de “papai”?
POR FERNANDO BRITO · 17/09/2018, NO TIJOLAÇO

Eles bem que tentaram arranjar alguém.

Ia ser o Luciano Huck, que em vez de pedir voto está ganhando um bom dinheiro vendendo carro japonês na TV.

Depois, o Joaquim Barbosa, mas o “tio” achou que era melhor ficar no seu “doce far niente” do que ter de participar de reuniões chatas, levar agarrões de correligionários e ainda aguentar repórteres feito carrapatos em seus pés, daquela turma que ele mandou ir “chafurdar no lixo”.

Também não deu e ficaram reduzidos ao “Chuchu”, sem gosto mas com o trunfo da televisão que tudo pode e tudo faz.

Não funcionaria, embora quase todos pensassem o contrário.

Não funcionou, de fato e, agora, sobrou Jair Bolsonaro.

Será um espetáculo inesquecível ver os colunistas dos jornais defendendo a barbárie do ex-capitão.

Já mantém um silêncio obsequioso sobre o que ele e seu general energúmeno dizem, diante dos quais só reagem por ordem patronal, ditada pelo ponto eletrônico, como a gaguejante e patética nota de Miriam Leitão.

Fernando Gabeira tenta se explicar pelo silêncio:

Eu mesmo fui criticado por não ter respondido ao general Mourão sobre heróis e tortura. As pessoas talvez desconheçam a fronteira entre uma entrevista e um debate. Como jornalista, ouço as pessoas, registro no meu caderno ou gravo as opiniões colhidas. Às vezes, refaço a pergunta, apenas para obter mais transparência nas ideias e projetos.

Gabeira parece que não vê, quando convém, o capitão do jornalismo de seus patrões, William Bonner, não é?

Não importa o quanto de cinismo haverá, mas o fato de terem de apoiar Bolsonaro lhes impõe uma postura de covardia de de subterfúgios constrangedora.

Foram poucos, na verdade raríssimos os que, mais de 24 horas depois da acusação de um plano de fraude e de um apelo ao golpe no caso de derrota, reagiram às sandices de Bolsonaro, como não reagiram aos espasmos autoritários do seu vice – de goela aberta -, o general Mourão.

Quem se acoelha diante do fascismo, fascista vira.

Não pode esperar o respeito dos leitores.

Ficarão, no máximo, com os leitores fanáticos que construíram.

Mas serão, na primeira objeção que apresentarem à escalada fascista, devorados por eles.

Mas, sabujos que são, vão adular seu carrasco.

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