Schabib Hany: Quem desdenha quer comprar

Tempo de leitura: 5 min
Os parceiros Jair Bolsonaro e André Mendonça Foto: Reprodução

Na tentativa de embaraçar o processo eleitoral, André Mendonça usa a toga para impactar a sociedade com medidas nada republicanas, papel que entrará para a história como ativismo político igual ao da Lava Jato, de triste memória, e que como não foi devidamente punida pela mais alta corte, hoje seu expertise se volta contra a guardiã da Constituição, sob acintosa ameaça da Casa Branca, ávida por meter as garras no território brasileiro

Por Ahmad Schabib Hany*, em O caminho se faz ao caminhar

15 de setembro de 2026. Durante parte da manhã e parte da tarde o plenário do Supremo Tribunal Federal foi objeto da atenção de milhões de espectadores do Brasil e do mundo, a 19 dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026, quando cada eleitor brasileiro irá exercer seu sagrado e soberano direito de eleger, solitária e livremente, o presidente da República e seu vice-presidente, senadores e deputados federais, governador e vice-governador, deputados estaduais e distritais.

O pivô do ataque ao principal bastião do Estado Democrático de Direito, um medíocre burocrata saído das hostes bolsonaristas sob o rótulo da religiosidade mais cínica, conseguiu, sim, uma vitória parcial: afinal, após longa e obscura hibernação no posto para onde foi guindado, transformou-se em herói por meio do consórcio golpista — mercenários digitais comandados desde Miami, políticos conservadores, oligarcas da mídia corporativa, financeiras, agronegócio, mineração, fé mercantilizada, burocratas desviados do judiciário, das procuradorias de justiça e dos órgãos de segurança e, pasmem, chefes do crime organizado em suas diferentes ramificações –, que, cúmplice da patranha, mandou confeccionar um “pixuleco” — boneco inflável –, tentando repetir o êxtase das hordas ensandecidas da década anterior.

Não fosse a vigorosa defesa do Estado Democrático de Direito pelos ministros Gilmar Mendes (Decano da Corte), Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin, a trama golpista articulada desde Miami — afinal, a direita brasileira deu provas de sua falta de inteligência durante o desgoverno do inominável, de cujo gabinete ministerial o autodeclarado ‘ungido’ foi pinçado para o STF e até pouco mais de um mês não havia dito a que viera, para desespero do clã miliciano que sangrou a soberania nacional em todas as dimensões — teria sido avassaladora.

A simpática e erudita ministra Cármen Lúcia, eloquente defensora do vernáculo, continua relativizando a sobrevivência do Estado Democrático de Direito e seu papel histórico na Corte. Luiz Fux e Dias Toffoli, decorrida uma década e meia das provações a que a história os submeteu, ainda não compreenderam o valor emblemático da toga, que parece ter ficado maior que a própria personalidade. Fachin, a despeito da digna biografia pré-tribunal, até agora está à procura de seu rumo — dá impressão de que vive sob pressão de alguém que o faz refém.

Pequenos burocratas?

Longe de pretender competir com os eficientes estudiosos deste intrincado e nada generoso contexto histórico, mas não é preciso ser brilhante analista para compreender que por trás da crise motivada por Mendonça já deflagrado o processo eleitoral (e a despeito da encenação de ator canastrão que caracteriza seu desempenho de aprendiz de feiticeiro): ao tentar deslegitimar a eficiente condenação dos golpistas de 8 de janeiro, o terrivelmente ungido não só mirou na grandeza do colega, como na relevância da Corte como guardiã do Estado de Direito, da Democracia e da Soberania, a serviço dos aliados dos dois filhos do ex-presidente que o indicou há quatro anos.

E se isso fosse pouco (o que não é, e ele tem clareza disso), fragilizar a Corte guardiã da Constituição neste momento de polarização política e de assédio estrangeiro é criar ambiente propício para eventual golpe, frustrado quatro anos atrás por conta da postura do presidente Joe Biden, cujos interlocutores receberam um não rotundo quando lhe propuseram essa aventura sinistra — atualmente a posição é exatamente oposta, tanto que um dos filhos do patriarca golpista abandonou o cargo eletivo para de dentro da Casa Branca negociar tudo o que Donald Trump quiser para apoiar o plano entreguista do clã.

Por que defender o binômio Democracia-Soberania?

Essa conquista — hoje, aliás, desdenhada — levou mais de vinte e cinco anos para se concretizar, período em que inúmeros brasileiros perderam não apenas a liberdade, mas a integridade física e a saúde mental, quando não a própria vida nas masmorras clandestinas dos centros de tortura e de execução de seres humanos descartados por um regime não muito diferente ao de Adolf Hitler, cujos jagunços são até hoje idolatrados pelos seus sequazes.

Os mesmos facínoras que protagonizaram a intentona golpista de 8 de janeiro de 2023 estão, sem qualquer dissimulo, a atiçar a cadela no cio do fascismo que desde a Casa Branca atenta contra a Soberania, a Democracia e o Estado de Direito: covardes, sentem-se fortalecidos pela agressão continuada do império em franca decadência, com quem pactuaram entregar todas as riquezas naturais e a vida do povo brasileiro, como moeda de troca por sua ingerência eleitoral.

Apoie o VIOMUNDO

Como bem ensina o ditado popular, os mesmos que banalizam as instituições democráticas que fazem do Brasil uma das maiores democracias do planeta são aqueles que se servem delas para atingir seu funesto objetivo: acabar não só com as liberdades democráticas, mas com todas as prerrogativas constitucionais sabiamente construídas durante os últimos 38 anos, com muita luta e habilidade.

É hora de agir, de virar o jogo

Sobretudo às mulheres, jovens e idosos, é hora de conversar civilizadamente e tentar virar o jogo desde dentro de suas próprias famílias e grupos de amigos: cada voto é uma conquista. Trata-se da sobrevivência da Democracia, do Estado de Direito e da Soberania, e isso representa a garantia de um salário digno, com poder de compra e correção monetária, direito de aposentadoria a todos os que trabalham, existência do SUS pleno e manutenção da educação pública, desde a alfabetização até a universidade.

Certo de já ter conseguido o que pretendia com ajuda de Mendonça, Zero-hum (Flávio, o filho-candidato) já apresentou, ao lado de sua assessora econômica, o que seria seu ‘plano de governo’, assumidamente ‘inspirado’ na experiência do desgoverno de Javier Milei na Argentina: redução de salários e aposentadorias, o que está levando a suicídios de pessoas da terceira idade, além da redução de postos de trabalho, das privatizações e dos cortes orçamentários na educação, saúde e assistência social. E o mais grave: a entrega de reservas de minerais críticos e terras raras, territórios paradisíacos como a Patagônia e Terra do Fogo, expulsando por meio de repressão os povos originários.

Diante disso, não se trata de gostar ou não de Lula. Votar nele neste momento é um ato de sobrevivência do povo brasileiro, da soberania, da democracia, e do Estado de Direito — o que representa a manutenção dos programas sociais para garantir a sobrevivência das pessoas da base da pirâmide social, os concursos para preenchimento de cargos de carreira no serviço público e, sobretudo, a garantia de aposentadoria e reajustes salariais periódicos aos trabalhadores. Isso em um tempo de conflitos bélicos em todos os continentes representa um ganho para quem vive de seu trabalho e conta com programas sociais para deixar um fôlego às famílias das camadas populares.

Quem viver verá.

*Ahmad Schabib Hany é graduado em História, já lecionou a disciplina em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Ativista de movimentos por democracia, direitos humanos, cidadania, saúde pública, povos indígenas, preservação do meio ambiente. Atualmente, está empenhado na criação da Universidade Federal do Pantanal, em torno da qual se reúne o Movimento UFPantanal

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

Leia também

Antonio Martins: A bravura de Dino e o que se espera de Lula

Paulo Kliass: Lula, não se renda ao financismo!

Luis Felipe Miguel: 13 motivos para votar em Lula

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também