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Rodrigo Vianna: A União Europeia ameaça desabar. E agora para a esquerda na América Latina?
Política

Rodrigo Vianna: A União Europeia ameaça desabar. E agora para a esquerda na América Latina?


25/06/2016 - 12h52

cameron, holande e merkel

União Europeia ameaça ruir. E agora?

por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador

“É a segunda vez que minha geração tem a sensação de ´fim-do-mundo-tal-como-o-conhecemos”.

A frase acima é de Antonio Luiz M. C. Costa, e foi retirada do twitter do jornalista – que escreve sobre temas internacionais na revista CartaCapital. Antônio se refere, é claro, à decisão dos eleitores do Reino Unido, de sair da União Europeia.

A primeira vez que nossa geração (dele e minha) teve essa sensação foi quando a União Soviética ruiu, há 25 anos. Agora é a arquitetura política do mundo capitalista que também ameaça desabar.

A decisão dos britânicos, tomada por estreita margem, se baseou num discurso conservador, de ódio aos imigrantes que estariam “roubando os empregos dos britânicos”. A ultra-direita avança, explorando o tema do nacionalismo. Isso é evidente no Reino Unido, nos EUA com Trump, na França e em boa parte do mundo europeu. E aí a política se entrelaça à economia…

A crise subprime de 2008, que arrasou os países do sul europeu, e deixou os Estados Unidos também em situação mais frágil, encerrou a temporada de bonança e otimismo – que de certa forma vinha desde o pós segunda guerra (com altos e baixos).

Vejam que a direita “liberal” britânica (falo especificamente de David Cameron, um conservador herdeiro de Tatcher, e que defendia a União Européia como forma de permitir mais circulação de capitais e mercadorias) foi atropelada pela direita quase fascista do “fora, imigrantes”.

Sim, a “BREXIT” é uma vitória da direita extremada. E significa um solavanco sem precedentes na ordem política capitalista desde a Segunda Guerra. Mas o curioso é observar que parte da esquerda também apoiou a saída do Reino Unido da União Europeia. E o fez por entender que a abertura de fronteiras e o enfraquecimento dos estados nacionais são uma plataforma que interessa sobretudo ao capital, mas não aos trabalhadores.

Ou seja: a “BREXIT” foi uma vitória da direita extremada. Mas significou o retorno de um velho tema que a esquerda (no mundo e também no Brasil) negligenciou nos últimos anos: a questão nacional.

Sim, é possível ser nacionalista de direita (valorizando o discurso xenófobo, preconceituoso, excludente). Mas é possível, também, ser nacionalista de esquerda, na medida em que nacionalismo possa significar o fortalecimento do estado nacional na luta contra o Imperialismo (essa palavrinha que parecia “fora de moda”) e os arranjos do capitalismo financeiro (a União Europeia sob hegemonia germânica, claramente, é um desses arranjos, bem como a tentativa dos Estados Unidos de recolonizar a América Latina, ora em curso).

Notemos que no Brasil o projeto da direita extremada, que se reúne sob Temer, é nada menos do que liquidar a própria ideia de um estado nacional independente. O projeto é a submissão completa ao projeto capitalista comandado pelos Estados Unidos.

De certa forma, o renascimento do nacionalismo de direita na Europa (e no mundo) vai obrigar a esquerda a encarar esse dilema: vamos defender os estados nacionais como ferramenta de desenvolvimento e de garantia da democracia? Ou vamos nos concentrar nas batalhas transnacionais de combate à injustiça?

O importante pensador Slavok Zizek acaba de escrever sobre o tema. E ele acredita na segunda vertente: acha que não se pode combater o nacionalismo de direita com uma esquerda mais nacionalista – https://blogdaboitempo.com.br/2016/06/24/zizek-precisamos-entender-a-esquerda-que-apoiou-o-brexit/

Mas será que isso vale para nossa realidade? Brasileira e latino-americana?

Na Europa (e entre intelectuais brasileiros que transplantam para a América Latina temas europeus, sem levar em conta as condições locais), a tendência é geralmente olhar o nacionalismo como algo regressivo e conservador. Na Europa, historicamente, até, isso pode ser verdade – e por isso compreende-se a reflexão de Zizek…

Mas na América Latina ser de esquerda passa por defender um estado forte e democrático, capaz de capitanear o desenvolvimento (já que a “burguesia nacional”, no Brasil e em boa parte da América Latina, sonha mesmo é com um apartamento em Miami) e de reduzir as desigualdades.

A crise gerada pela “BREXIT” pode ser uma chance para repensar essa questão. O nacionalismo está de volta.

 Leia também: 

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



16 comentários

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Paulo José

26 de junho de 2016 às 15h51

A saída da Inglaterra obviamente é ruim, dado o discurso político sobre os imigrantes.
Mas acredito que lá o voto pela saída tem outros motivos, maiores que a imigração.
O mapa dos votos deixa claro que as únicas regiões que votaram pela permanência foram a de Londres e Escócia, onde o setor financeiro é predominante. Os pequenos agricultores e industriais não aguentam mais a financeirizacao da economia. Como a solução proposta para o fim da crise europeia focou em socorrer os bancos,

Responder

Eu

26 de junho de 2016 às 04h21

Permito-me discordar de um ponto no ótimo artigo de Rodrigo Vianna. Embora realmente exista uma tentativa de resposta nacionalista da esquerda europeia, presente nas diversas variações sobre o tema dos indignados (Podemos, Syriza, etc.), não o vi como polo catalisador do Brexit. Em minha opinião, a exploração vencedora do discurso nacionalista pela extrema direita populista xenófoba associou-se à descrença na democracia partidária como representação política. Tal fenômeno, tão ou mais em expansão que o neo-fascismo, é bem mais numeroso que os movimentos nacionalistas da esquerda e explica melhor a votação maciça obtida pelo processo de separação de caráter nacional em relação a UE. Até por ser transversal, agregando parte da juventude à população de meia-idade. Vejo mais a jovem classe baixa britânica não-londrina, politicamente revoltada contra a representação partidária nas últimas décadas, associada aos bem mais velhos (que sonham com grandezas nacionais representativas de seus tempos), aos indivíduos do precariado (ciosos apenas de sua posição no mercado de trabalho) e, claro, aos separatistas ligados à ideologia da extrema direita, como subgrupos dos votantes pela saída. Não necessariamente integrados, mas comungando do mesmo voto. A esquerda nacionalista e anti-liberal é de classe média e mais ilustrada, daí ter menor força numérica. E estrangeiros, claro, são numerosíssimos mas não votaram. Se a leitura fosse sobre a população francesa, ela encaixaria como uma luva. Mas no Reino Unido há muita defasagem na escolarização dos “asbos” sobre política e sociedade, o que os torna aptos a saberem apenas o que não querem, mesmo sem saber exatamente o que querem.

Responder

    FrancoAtirador

    27 de junho de 2016 às 13h44

    .
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    Muito Boa a Leitura.
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FrancoAtirador

25 de junho de 2016 às 23h41

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Chanceler* Serra, Entusiasmado
com Separatismo Britânico,
Lança Slogans, Dando Início
à Campanha Aqui no PaíZ:

PetroBRexit e BRoff Pré-Sout

Responder

FrancoAtirador

25 de junho de 2016 às 21h32

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Revolta dos Dândis
(Humberto Gessinger)

Por Engenheiros do Hawaii
https://youtu.be/kJuOcrREidI

Entre um rosto e um retrato
O real e o abstrato
Entre a loucura e a lucidez
Entre o uniforme e a nudez
Entre o fim do mundo e o fim do mês
Entre a verdade e o rock inglês
Entre os outros e vocês

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Entre mortos e feridos
Entre gritos e gemidos
A mentira e a verdade
A solidão e a cidade
Entre um copo e outro
Da mesma bebida
Entre tantos corpos
Com a mesma ferida

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Entre americanos e soviéticos
Gregos e troianos
[Entre a crença e os fiéis
Entre os dedos e os anéis]*
Entra ano e sai ano
Sempre os mesmos planos
Entre a minha boca e a tua
Há tanto tempo, há tantos planos
Mas eu nunca sei pra onde vamos

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem

*[No Acústico MTV 2004: (https://youtu.be/xjfVDxttN7Y)]

https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Revolta_dos_D%C3%A2ndis#Faixas
https://www.vagalume.com.br/engenheiros-do-hawaii/discografia/a-revolta-dos-dandis.html

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Responder

FrancoAtirador

25 de junho de 2016 às 19h33

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“Vamos defender os estados nacionais
como ferramenta de desenvolvimento
e de garantia da democracia?
Ou vamos nos concentrar nas batalhas
transnacionais de combate à injustiça?”
.
1. Um Estado Nacional pressupõe
a Existência de um Estado Soberano
e uma Nação com um Ideal Comum.

Parece que aqui, ao Longo da História,
o Povo Brasileiro confunde os Termos:
O Único Ideal é Derrubar o Soberano.
.
2. A Definição do Sistema Econômico
e a Participação Popular Direta, no Poder,
são Condições Objetivas Indispensáveis
para o Uso Adequado das Ferramentas
de Desenvolvimento Material e Humano.

3. Garantia da Democracia? Garantia?
Ou, Antes, Democracia? Qual? Onde?
Com a Polícia, o MPF e os 3 Phodêres?
.
.
“Porque A Vida
Não Anda Para Trás
E Nem se Demora
Com os Dias Passados”

Gibran Kahlil Gibran
Em: O Profeta

http://www.paralerepensar.com.br/gibran.htm
http://www.clube-positivo.com/biblioteca/pdf/profeta.pdf
.
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Responder

Julio Silveira

25 de junho de 2016 às 17h29

Eu acho que faltou aos conservadores perdedores conversarem com os conservadores vencedores. Por que nessa história quem venceu foram os interesses por segurança e emprego, que estavam sendo negociados pela tal globalização sem considerar os reais perdedores, os inseguros, os que de fato perdem empregos e ficam à margem, na estatística. Faltou aos analistas conservadores perdedores, pró globalização, não esquecerem que o tal capitalismo deve ter a preocupação com o bem estar social nos países e não desprezar a força das culturas nacionais. Senão não passa de expansão de império ainda que sob a falsidade de uma paz sob coerção aos mais humildes.

Responder

Bacellar

25 de junho de 2016 às 16h14

RV tem razão em regionalizar as análises. Embora eu pense que o caminho da esquerda brasileira tem de expandir as fronteiras do nacionalismo para abarcar a luta latino-americana como um todo; integrando as esquerdas estejam nos governos estejam nas oposições.

Responder

Lorelei Lee

25 de junho de 2016 às 13h37

Fascismo não é aquela ideologia de “tudo no estado e nada fora do estado”? rs

Responder

    Bacellar

    25 de junho de 2016 às 16h19

    FrancoAtirador

    25 de junho de 2016 às 18h42

    .
    .
    Não LeLe Le.

    “O Fascismo
    é um estado de Ser,
    não um ser de Estado”

    O Fascismo é uma Doença Social
    que se Dissemina por Contágio
    de um Micróbio Manipulador
    fazendo Uso de uma Retórica
    Dicotômica Simplista e Simplória,
    em Nome de uma Moral Hipócrita.
    .
    .

Joaquim

25 de junho de 2016 às 13h25

Para que serve o Mercosul mesmo?

Responder

    FrancoAtirador

    25 de junho de 2016 às 22h16

    .
    .
    Para Ser Desmontado
    pelo Chanceler* Serra.
    .
    *Nome do Cavalo
    do USA’s President
    .
    .

    Hell Back

    26 de junho de 2016 às 12h47

    O MERCOSUL é a antítese do neoliberalismo e a sua mais recente criação: o TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership)
    (Parceria Transatlantica de Comércio e Investimento)

    Paulo José

    26 de junho de 2016 às 16h21

    Caro Joaquim, dentre outras coisas, o mercosul serve para ter superavit comercial somente com a Venezuela de 5 bi de dólares. Serve pros argentinos lotarem as praias brasileiras. Serve para desburocratizar o comércio entre os seus membros. Serve pra garantir o que a constituição federal de 1988 diz sobre a união e integracao entre os povos da América do Sul e latina. Blz?


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