Ricardo Kotscho: Na rejeição a Messias pelo Senado, Lula derrotou Lula

Tempo de leitura: 3 min

Por Ricardo Kotscho, no UOL

Desta vez, Lula (PT) não tem ninguém para culpar pela maior derrota dos seus 50 anos de vida política.

Com certeza, não leu o assustador perfil do seu algoz Davi Alcolumbre (União-AP), escrito por Camille Lichotti e Alan de Abreu, sob o título “O onipresente”, publicada na revista Piauí de abril e reproduzida ontem aqui no UOL.

Para quem leu, não deve não deve ter surpreendido a arapuca que o ACM do Amapá lhe armou em aliança com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para derrotar seu candidato, Jorge Messias, no plenário do Senado.

Após tantos anos de convivência, Lula também não pode alegar que não conhecia o presidente do Senado, um deputado do baixo clero que, primeiro, derrotou Renan Calheiros (MDB-AL) e, depois, se elegeu pela segunda vez, quase por unanimidade.

Desde o começo desta novela que durou cinco meses, foi Lula quem pavimentou a própria derrota, ao não articular, antes de lançar a indicação do seu preferido, com um Alcolumbre cada vez mais poderoso, que tinha outro candidato, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), e não admite ser derrotado em sua casa

Viajando pelo mundo para participar de reuniões multilaterais sem fim, envolvido nos grandes temas mundiais, Lula deixou tudo por conta da sua articulação política no Congresso e, quando se deu conta do desastre, só na tarde de ontem, já era tarde demais.

Como poderia dar certo, se o seu líder no Senado, o velho amigo Jaques Wagner (PT-BA), estava rompido com o presidente Davi Alcolumbre, sem conseguir falar com ele desde o final do ano passado?

Nesse meio tempo, surgiu um fato novo: a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que disparava nas pesquisas enquanto Lula murchava.

Preocupado com sua própria reeleição em 2027, Alcolumbre vislumbrou ali uma oportunidade de se vingar de Wagner e Lula ao mesmo tempo e se aliou ao principal adversário do presidente, apostando na expectativa de poder representada por Flávio.

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De quebra, impôs uma derrota também à ala do STF que apoiava abertamente Messias, um combo que pode culminar hoje com a derrubada dos vetos de Lula ao projeto de dosimetria, algo que, na prática, invalida em grande parte todo o processo que levou à condenação dos golpistas do 8 de Janeiro.

Lula foi vítima da sua própria soberba e teimosia, achando que, como das outras vezes, bastaria uma boa conversa dele com Alcolumbre, acertar alguns cargos e verbas, para resolver o impasse da nomeação de Messias. Isso não aconteceu, e restou a Lula jogar na sua celebrada intuição, que desta vez não deu certo.

Sem ideologia, projeto de país nem partido, aonde o presidente do Senado quer chegar?

Ao contrário de Lula, Alcolumbre não quer ser presidente da República. Como os velhos coronéis, quer o poder pelo poder de mandar no presidente e cevar seu quintal eleitoral no Senado e no Amapá. Não quer ser admirado, mas temido, assim como foi o ACM baiano, que afrontou FHC no segundo mas perdeu.

Com uma enciclopédia de erros neste episódio fatal, Lula colocou em risco não só o seu final de mandato, mas o seu próprio futuro político e o do partido, diante desta aliança entre o bolsonarismo e o Centrão costurada por Alcolumbre e Flávio Bolsonaro, sob os olhares perplexos dos líderes petistas.

Já vi Lula cair e se levantar de novo inúmeras vezes como um nirvana, mas acho que nunca enfrentou uma situação tão desfavorável e delicada como agora, com a popularidade em baixa e a rejeição em alta, hostilizado pelo Congresso, a mídia e o mercado, como se estivesse com o prazo de validade vencido, a menos de seis meses da eleição.

Se nada mudar, Lula pode perder a eleição para ele mesmo, qualquer que seja o adversário, como aconteceu ontem.

Vida que segue.

*Ricardo Kotscho é colunista convidado do UOL

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