Por Paulo Capel: Saúde, Cuba!

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Donald Trump age como um bandoleiro do velho oeste. Num mundo cheio de problemas, desrespeita o direito internacional, ignora as leis, viola a soberania dos países. Em Cuba, o bloqueio que mantém impiedosamente, mata crianças, idosos e doentes crônicos

Por Paulo Capel Narvai*, A Terra é Redonda

1.

Silvio Rodríguez, o cantor cubano, revolucionário até os ossos, entrevistado pelo jornal espanhol El país, na semana passada, falou de política. Sempre fala, mas indiretamente. Foi direto, porém, desta vez.

Comentou a situação internacional e os efeitos internos, em seu país. O título da entrevista dá o tom: “O mundo está sendo dirigido por um regime autoritário, belicista e ladrão. E não é Cuba”.

Cuba segue sob o implacável bloqueio econômico dos Estados Unidos, intensificado desde que, logo após o triunfo da Revolução Cubana (1959), o governo liderado por Fidel Castro decidiu nacionalizar, sem indenização, empresas de propriedade de estadunidenses.

A resposta dos EUA às nacionalizações foi decretar, em 1960, embargo às exportações para Cuba, excetuando-se inicialmente alimentos e medicamentos.

Mas o democrata John Kennedy, três semanas após sua posse na presidência dos EUA, ocorrida em 20/1/1961, ampliou o embargo que se tornou o instrumento político que estrangula Cuba até hoje.

Atinge alimentos, medicamentos, equipamentos e instrumentos de saúde. De 1961 até o momento as relações entre EUA e Cuba só pioraram.

Nesses primeiros meses de 2026, ao estrangulamento econômico causado pelo bloqueio, juntaram-se insatisfações populares motivadas por sucessivos cortes de energia elétrica e pela escassez de produtos de primeira necessidade.

Há algum tempo o governo vem convivendo com manifestações e protestos. Mas segue reprimindo quando o tom sobe e há risco de as manifestações evoluírem para violência de rua. De acordo com o El país, em 11 de julho de 2025 foram detidos entre 1.000 e 1.500 manifestantes.

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Bloqueio e insatisfações produziram um cenário que, hoje, mata crianças, idosos, doentes crônicos… Mata de fome e de falta de remédios e assistência médica.

A situação é dramática e há risco de se criar na ilha caribenha um cenário similar ao de Gaza. Não é exagero falar em uma mortandade iminente, pois se houver invasão, haverá resistência. Armada. E as consequências são, como sempre nessas situações, imprevisíveis. É urgente construir uma solução política para o problema, envolvendo governos, países e organismos internacionais.

2.

É cruel o quadro cubano, pois após a vitória da Revolução o país construiu, ao longo das últimas décadas, um sistema de saúde com acesso universal e assistência gratuita, de excelente qualidade, reconhecido como um dos melhores do mundo.

Os resultados são bem conhecidos, com impacto sobre os principais indicadores de saúde, como a mortalidade infantil, a mortalidade materna, a cobertura vacinal e a prevenção e controle de doenças.

Cuba tem sido, em todas as ocasiões de catástrofes em outros países – inclusive nos EUA, por ocasião do furacão Katrina, em agosto de 2005 –, um país solidário, que nunca mediu esforços para enviar profissionais de saúde e outros recursos em socorro das vítimas. Não obstante, crianças estão morrendo em Cuba, hoje, agora.

E a causa das mortes não se localiza internamente, em Havana ou algum outro ponto da ilha. Está mais ao norte, em Washington, de onde emanam as ordens de Donald Trump.

O presidente estadunidense, que na campanha eleitoral prometeu “levar a paz a todos os países” segue espalhando guerra, sofrimento e morte.

Sem limites ao que supõe ser um poder imperial inerente ao presidente dos EUA, Donald Trump age como um bandoleiro do velho oeste, num mundo cheio de problemas. Desrespeita o direito internacional, ignora as leis, viola a soberania dos países.

Com suas ações belicistas, não contribui para resolver nenhum problema e, com sua política internacional, cria muitos outros.

Analistas políticos o consideram refém do governo colonialista de Israel, pois Benjamin Netanyahu teria em mãos informações estratégicas do “dossiê Epstein”, comprometedoras de Donald Trump como pedófilo – o que o desmoralizaria internamente e poderiam levar o Congresso dos EUA a aprovar seu impeachment.

Porém, a despeito do modus operandi de Donald Trump, o fato histórico é que os EUA têm um retrospecto de intervenções na América Latina e no Caribe.

Muitas intervenções, militares ou, mais recentemente, institucionais, levaram à deposição de presidentes legitimamente eleitos em seus países, como, dentre outros, João Goulart (Brasil, 1964), Salvador Allende (Chile, 1973), Isabelita Perón (Argentina, 1976), Hugo Chávez (Venezuela, 2002), Jean-Bertrand Aristide (Haiti, 2004), Manuel Zelaya (Honduras, 2009), Fernando Lugo (Paraguai, 2012) e Dilma Rousseff (Brasil, 2016).

Os EUA jamais respeitaram as escolhas dos povos latino-americanos e caribenhos sobre os destinos dos seus países. Neste período histórico, Donald Trump, por assim dizer, “segue a linha”. Segue, portanto, “tocando o terror” e matando, de Gaza a Teerã, passando por Caracas.

3.

O movimento “No Kings” é uma reação, no interior dos EUA, para pará-lo. Suas sandices mobilizam forças políticas internas naquele país, preocupadas com o rumo do governo, dentro e fora do país, e as consequências, duradouras nas relações internacionais, dos atos praticados pelo bandoleiro de Washington.

Até onde irá o No Kings não se consegue avaliar neste momento. Mas vem crescendo o apoio, tanto interno quanto internacional, ao movimento que expressa uma importante reação da cidadania dos EUA.

Enquanto não é deposto, vitimado por sua irresponsabilidade, Donald Trump segue caçando imigrantes internamente e invadindo e ameaçando em escala global.

Cuba sofre mais do que ameaças, pois as consequências do embargo, que já há muitos anos não se restringe “às exportações dos EUA”, atinge todos os países que, de algum modo, se utilizam de componentes industriais produzidos por empresas estadunidenses. Todos os países exportadores, como o Brasil, ficam impedidos de enviar seus produtos para Cuba.

Silvio Rodríguez disse à jornalista Noor Mahtani, do El país, que estará com seu fuzil Kalashnikov em mãos se houver invasão da ilha cubana.

Há coerência na declaração de um músico popular que durante toda a vida cantou e saudou a revolução, seus líderes e ideais, seus mártires e a guerrilha. “Em minhas canções há politização, mas não propaganda” – disse, lamentando que esteja prevalecendo no atual governo cubano uma visão “ortodoxa e fechada” no âmbito econômico.

Dizendo-se favorável a mudanças que mantenham o rumo do socialismo, mas que este seja compreendido de modo menos “quadrado e idealista”, o cantor repudiou a manifestação ocorrida em Miami em março, com cubanos pedindo que a ilha seja invadida e o governo derrubado à força: “não vou te dizer o que penso desses que querem que o seu próprio país seja bombardeado e invadido”. Mas o que você pensa disso? – insistiu a jornalista. “Você pode imaginar”, respondeu o artista.

De vários países saíram em socorro de Cuba, do modo como puderam, no início de 2026, os integrantes do “Comboio Nossa América”. Levaram à ilha tudo o que puderam e que o país pediu, de placas solares a medicamentos e instrumentos cirúrgicos.

Tendo em vista as enormes necessidades de Cuba, o valor das doações é evidentemente simbólico, pois o enfrentamento dos problemas requer medidas estruturais e soluções políticas e econômicas, que devem partir do governo e do povo cubano e requerem o fim imediato do bloqueio imperialista.

Para a oposição, porém, tudo não passa de “turismo ideológico”. Perguntado sobre o comboio e a reação da oposição, Silvio Rodríguez respondeu que “me parece lógico que os que querem afundar Cuba coloquem nomes tristes nas atitudes de solidariedade. É parte de uma estratégia de descrédito a que estamos submetidos há muitos anos”.

4.

Um livro intitulado Saúde e revolução: Cuba, edição conjunta Cebes-Achiamé foi publicado aqui no Brasil, em 1983.

Trata-se de uma antologia de autores cubanos, cujo conteúdo relata os caminhos e mostra as bases teórica sobre as quais Cuba foi construindo o seu sistema de saúde, num período em que pouco se sabia sobre o que aquele país vinha fazendo na área da saúde.

Nesse livro, e em outras produções teóricas, a experiência cubana de universalizar o acesso e assegurar a integralidade da atenção à saúde inspirou e contribuiu, de modo inestimável, para as lutas que, no Brasil, levaram à criação do SUS.

Temos, portanto, os que defendemos o SUS, um dever ético-político com a manutenção e a sustentabilidade do sistema de saúde cubano, parte estratégica do sistema de proteção social daquele país.

Cuba segue precisando de paz e do fim do bloqueio dos EUA. Até as pedras sabem que precisa também de reformas.

Sobre isso, na entrevista ao jornal espanhol, Silvio Rodríguez disse que “Cuba sempre se esforçou para ser um país onde todos têm direitos, podem ir à universidade e receber qualquer tipo de cirurgia. Por muitos anos, prosperamos, mas, por sermos ‘comunistas’, esse rótulo ficou marcado. Eles te chamam de ‘comunista’ e você pensa: ‘Ah, é mesmo?’ Cuba cometeu erros? Teríamos que ver como teríamos sido sem o embargo. Isso é outra utopia. Eles não nos deixaram ver.”

No Vietnã e na China, dois países que, como Cuba, ousaram por abaixo a ordem capitalista e buscar novos caminhos sociais e econômicos, as relações mercantis foram restauradas, na dimensão microeconômica, sob controle político do Estado.

O argumento principal para essa decisão é o reconhecimento de que tais relações não são inerentes ao capitalismo, mas, historicamente, precedem esse modo de produção.

No socialismo, portanto, não é uma questão de princípio que o Estado seja o proprietário nem tenha de administrar “tudo e todos”, atendo-se ao controle dos meios fundamentais de produção e ao controle do sistema financeiro. Trata-se, evidentemente, de um tema bastante complexo e polêmico.

Seja como for, não cabe aos EUA, nem a qualquer outro país, intrometer-se nesses assuntos, nem em Cuba, nem onde quer que seja. As intromissões que os EUA vêm fazendo em países da América Latina, desde sua independência no século XVIII, produziram apenas monstruosidades políticas.

Hoje, agora, Cuba segue resistindo e precisa do apoio e da solidariedade de todos que defendem a democracia socialista e a soberania dos povos. A morte de pessoas, de todas as idades, pela asfixia do bloqueio precisa ter fim o quanto antes.

Saúde, Cuba!

*Paulo Capel Narvai é professor titular sênior de Saúde Pública na USP. Autor, entre outros livros, de SUS: uma reforma revolucionária (Autêntica). [https://amzn.to/46jNCjR]

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