Pedro Pinho: Guerra e paz no século 21 — o conhecimento levará ao fim da escravidão.

Tempo de leitura: 7 min
Guerra e Paz no século 21

Por Pedro Augusto Pinho*, Monitor Mercantil

O gênio Darcy Ribeiro, tratando das forças transformadoras da sociedade, ressalta as duas revoluções tecnológicas — a Revolução Mercantil e a Revolução Industrial — como forças de uniformização de uma civilização humana comum (“Os Povos Americanos”, em “Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos”, Fundação Darcy Ribeiro, 2013).

Perdoe-nos o grande mestre, mas, seguindo suas próprias palavras, “a contribuição da Antropologia ao conhecimento do processo de formação das sociedades nacionais modernas e dos seus problemas de desenvolvimento é muito menor do que seria desejável. Também é, provavelmente, muito menor do que seria possível, apesar das evidentes limitações metodológicas com que se defrontam as ciências sociais” (do ensaio publicado em Current Anthropology, v. 11, nº 45, 1970).

O mundo inicia o mês de março de 2026 com a perspectiva de uma guerra que vai além da disputa econômica e geopolítica.

Inêz Oludé, que se qualifica como artista plástica e poeta, fez chegar, pelas redes sociais, sob o título Choro pelo Irã, choro pela humanidade — a crapulagem dos que normalizam a barbárie, algumas considerações que merecem uma detida e reflexiva análise: O que está efetivamente ocorrendo na civilização humana neste século 21?

Antes de iniciar nossas reflexões, transcrevemos o título do artigo e o primeiro parágrafo de Inêz Oludé:

“Choro pelo Irã, choro pela humanidade: a crapulagem dos que normalizam a barbárie”.

“Li hoje uma manchete que me gelou a alma. Não pela novidade, mas pela confirmação de que o jornalismo brasileiro atingiu um novo patamar de miséria moral. ‘Ninguém vai chorar pelo Irã’, estampou o Estadão, como quem sentencia quem merece ou não ser pranteado neste mundo. Como quem define, de cima de um púlpito podre, quais vidas importam e quais podem ser reduzidas a escombros sem que uma lágrima seja derramada”.

E a notícia que se oculta é que, com o aiatolá Ali Khamenei, também morreram, segundo a Agência Fars, iraniana, a filha, o genro, a neta de Khamenei e uma das noras do líder.

As autoridades do Irã confirmaram 85 mortos no ataque de Israel contra a escola primária para meninas Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do país. O presidente Masoud Pezeshkian classificou o episódio como “ato bárbaro”.

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A ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em outubro de 2014, e defensora da educação feminina, Malala Yousafzai afirmou: “eram meninas que iam à escola para aprender, com esperanças e sonhos para o futuro. Hoje, suas vidas foram brutalmente interrompidas”. E qual a razão? Morarem num país rico em petróleo, desejado por pessoas sem escrúpulo, honra nem humanidade.

Buscando na antropologia do mestre Darcy a origem das falsidades, encontramos no “homo sapiens” a ideia de que fosse o único resultante da evolução do “homo erectus”, do qual todos nós descenderíamos.

Nada menos correto para ocultar a miscigenação e a pluralidade que formaram a civilização humana como a conhecemos.

Nos mesmos 400 a 300 mil anos, fruto do “homo heidelbergensis”, espalhados pela África, partes da Europa e da Ásia, temos o “homo sapiens”, o neandertal e o denisovano, com características físicas diferentes, pois enfrentavam situações climáticas, altitudes e condições de sobrevivência distintas.

Porém, como há diversas comprovações antropológicas, esses “primos” são responsáveis pelos olhos puxados dos orientais, pela capacidade respiratória dos tibetanos, pelo tronco largo dos neandertais, entre outras características que identificam traços físicos e culturais dos humanos.

A glaciação Würm também foi importantíssima na evolução dos humanos. Restringiu sua expansão territorial, mas possibilitou, com o recuo do gelo, o surgimento de uma temporária área florestal e de pradarias que permitiram o avanço do homem coletor-caçador.

A guerra que se apresenta é civilizacional: de um Ocidente em acentuado retrocesso frente a um Oriente que se modifica.

E é sobre esses dois instantes simultâneos que iremos refletir com o prezado leitor.

Darcy trata do Ocidente pós-Revolução Industrial, quando se esperava um mundo mais igual pelo trabalho e pelo avanço de tecnologias em diferentes áreas do conhecimento. No entanto, esse pensador otimista não levou em consideração o local da revolução e a sociedade que lá existia.

Os males causados pela aristocracia inglesa só têm similar, na degradação da sociedade humana, ao judaísmo e seus filhos: o cristianismo e o islamismo. De um lado, temos o poder fundiário que se transforma em mercantil e, em seguida, financeiro. Do outro, apela-se para o poder inacessível, pois extraterreno.

Em livro de 1899, que trata da “História dos Crimes Monetários”, Alexander del Mar (1836-1926), diretor do Bureau de Estatística dos Estados Unidos da América (EUA), discorre apenas sobre eventos ocorridos no Reino Unido e no país que lhe sucedeu na ganância e desumanidade, os EUA. E são escolhidos somente cinco crimes.

O desmoronar do ocidente com o petróleo e o neoliberalismo financeiro

Pode-se datar o desmoronamento do Ocidente pelo controle da comercialização do petróleo.

Os EUA foram autossuficientes até o fim da II Grande Guerra, tornando-se importadores líquidos a partir de 1945.

No entanto, desde o Acordo de Achnacarry (1928), empresas estadunidenses, britânicas e anglo-holandesa (Standard Oil of New Jersey, Anglo-Persian — BP —, Gulf Oil, Esso Indiana e Royal Dutch Shell) mantinham o preço do óleo cru estável.

Mas a produção era cada vez maior em países que iam se libertando da colonização estrangeira (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela), que, em setembro de 1960, em Bagdá (Iraque), resolveram constituir a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Tirar o poder dos países produtores passou a ser objetivo do Reino Unido, dos EUA e dos países europeus importadores de petróleo, para o que iniciaram o ataque aos males que os combustíveis fósseis provocariam na humanidade e no clima terrestre.

Conseguiram, assim, impor novos equipamentos e métodos de produção de energia, denominados então “energia limpa”. E, mais uma vez na história, a farsa, a falácia e a mentira tomam o lugar do debate e dominam o “entendimento” da população.

Afinal, quem, senão o capital, pode manipular a comunicação de massa, as denominadas pesquisas científicas, os prêmios Nobel e quantos mais se criem para difusão de inverdades e fraudes?

Mas, como é óbvio, houve consequências. A produção industrial caiu, e a informática passou a substituir o homem por máquinas. O desemprego aumentou, e a ignorância também.

Entre 2000 e 2020, o foco mudou para “resultados de competências”, evidenciado por avaliações internacionais, como o PISA e o PIAAC (OCDE), que mostram que, embora a maioria da população saiba ler, uma parte significativa apresenta níveis baixos de letramento funcional, especialmente nos EUA e em alguns países europeus.

O vocabulário também ficou mais restrito, e as comunicações por imagens e expressões chulas chegam a modificar até comportamentos morais.

Temos uma nova escravidão, pela ignorância e pela miséria. E isso ocorre inclusive nos EUA, que votam em Donald Trump.

Na França, que foi um farol para o mundo no século 18 e hoje é governada por um empregado dos Rothschild, que atuam no setor da gestão de patrimônio, assessoria financeira e vinhos.

O que dizer do Reino Unido, que retirou a ascendência para a liderança política na composição da Câmara dos Lordes? E nada disso significa maior democracia, pois o povo imbecilizado não sabe o que fazer.

Na década de 1980, adota-se a ideologia neoliberal, que se materializa no Consenso de Washington (1989), um decálogo transformado em Constituição do Mundo Globalizado.

Para o Ocidente em queda, nada mais resta do que a guerra. Se não consegue enfrentar a Rússia com o circense Zelensky no governo da Ucrânia, colocado pela “Revolução Laranja”, pelas farsas da Praça Maidan (praça central da cidade de Kiev) e agressões irresponsáveis à Rússia, que se agrida a Venezuela, Cuba e o quintal latino-americano e, aliado ao sionismo genocida de Benjamin Netanyahu, coloque-se fogo no Oriente Médio.

Para os demais, as taxações nas importações estadunidenses elevam a inflação nos EUA, provocam queda na produção interna e aumentam a miséria, a doença e o desemprego; mas, com a guerra, é esperado que os republicanos mantenham a maioria na eleição de 2026.

Enquanto se prepara para desembarcar na África, onde a China está fazendo seu papel desenvolvimentista com a Iniciativa do Cinturão e Rota, Trump já deixou entrever, atacando a Nigéria, que precisa — e muito — de petróleo. E o óleo e gás do fracking, em folhelhos betuminosos, não têm a mesma qualidade do petróleo de reservatórios de arenitos, dentro dos poros e fraturas de rochas sedimentares.

O oriente e o desenvolvimento consciente, igualitário e pacífico

A China vem se transformando desde o início do século 20. Em 1º de janeiro de 1912, foi proclamada a República, marcando o fim de mais de 2.000 anos de governos imperiais. Foi resultado da ação de Sun Yat-sen, que estabeleceu o Governo Provisório em Nanjing.

Em julho de 1921, é fundado o Partido Comunista Chinês, influenciado pela Revolução Russa de 1917 e pelo Movimento Quatro de Maio, de 1919, considerado o despertar do nacionalismo chinês.

Em 1º de outubro de 1949, Mao Tse Tung proclamou a República Popular da China (RPC), após derrotar os nacionalistas (Kuomintang) na Guerra Civil Chinesa.

Porém, Mao não teve que enfrentar apenas os ideologicamente oposicionistas, ocidentais e orientais — Japão e Índia. Também a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) viu uma dissidência e passou a combater a RPC.

Desse modo, para levar a revolução adiante, Mao empreendeu a Revolução Cultural (1966-1976). Houve indiscutíveis progressos, mas também muitos fracassos, principalmente nas colheitas, com a urbanização e a redução dos camponeses. Mao faleceu em 1976.

Em 1978, ainda que sem cargo de direção, Deng Xiaoping leva a China para a abertura ao capitalismo até 1992 e morre, em 19 de fevereiro de 1997, em decorrência de complicações causadas pelo mal de Parkinson.

Segue um período de mudanças e acomodações até assumir Jiang Zemin, em 1989, como o 5.º presidente da República Popular da China, de 1993 a 2003. De algum modo, ele consegue disciplinar as instituições e entregar o poder apaziguado a Hu Jintao, em 15/3/2003.

O grande feito de Hu Jintao foi amoldar as condições do século 21 ao pensamento que sempre esteve, de algum modo, no inconsciente chinês: as lições de Confúcio.

Foi fundamental para o sucesso da direção de Xi Jinping e impulsionar a China a se transformar na maior potência deste segundo quartel do século 21.

Um dos grandes feitos de Xi Jinping foi a criação da Iniciativa do Cinturão e Rota, cujo Memorando de Entendimento já foi assinado por 149 países, sendo 61 da África, 37 da Ásia, 29 da Europa e 22 das Américas.

Juntamente com a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), não só a China se desenvolve como promove o desenvolvimento, principalmente, da África e da Ásia.

Internamente, a China eliminou o analfabetismo, o desemprego e a falta de moradia e tem, certamente, o melhor sistema de mobilidade do mundo, não somente urbano, mas também entre cidades. Fica realmente difícil para o Ocidente em crise ter que se defrontar com a China.

Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

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