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Pastor morre de coronavírus nos Estados Unidos — e se torna personagem de debate sobre futuro da pandemia
Culto do lado de fora de igreja nos Estados Unidos; o pastor e esposa; as filhas pediram orações. Fotos das redes sociais
Política

Pastor morre de coronavírus nos Estados Unidos — e se torna personagem de debate sobre futuro da pandemia


26/03/2020 - 22h41

Da Redação

“Meu pai desmaiou em um posto de gasolina na Carolina do Norte, quando estava a caminho de casa na Virgínia. O oxigênio no sangue dele estava em 50%, está confirmado que ele tem pneumonia dupla e mais cedo ele testou positivo para COVID-19”, escreveu em 17 de março no Facebook uma das filhas de Landon Spradlin.

O pastor da New Wave Ministries International era uma talentoso guitarrista e cantor.

As filhas de Landon — Pauline, Naomi e Jesse — todas elas cantoras, fizeram uma emocionante transmissão ao vivo na rede social — uma espécie de oração coletiva pela recuperação do pai.

“Ele está em um respirador, e minha mãe [Jean] não pode vê-lo muito, nem ficar por perto de qualquer pessoa, porque faltam testes e ela só será liberada depois que for testada pelo CDC [Center for Diseases Control]. Por favor orem pela saúde dele e de minha mãe — eles dependem um do outro e neste momento estão sós, em quarentena”, informou a mesma postagem de Pauline.

Na tarde do dia 24, terça-feira, a página do músico informou: “Jean [a esposa] está melhor, os médicos dizem que ela estava desidratada e acreditam que a dificuldade para respirar se deveu ao estresse. Obrigado por suas orações. Ainda estamos acreditando na cura total para Landon e Jean!”

Eram 21:47 quando Pauline, a filha do pastor, fez um apelo desesperado: “Todos esperamos um milagre — nem consigo imaginar se já falei com meu pai pela última vez — por favor, orem, não sabemos mais o que fazer”.

O pedido veio acompanhado da informação de que os médicos acreditavam que Landon não sobreviveria.

O pregador, de 66 anos de idade, morreu às 4:29 da madrugada de ontem em Concord, na Carolina do  Norte.

Landon e a esposa Jean tinham passado o Carnaval em Nova Orleans, Louisiana, onde provavelmente ele se contaminou.

O pastor levou música cristã à “festa da perdição”. Foto Wikipedia

Lá, ele cantou no bar Santos e Pecadores e se apresentou em uma praça da cidade. Levou música cristã ao Mardi Gras (Terça-feira Gorda).

Depois do estado de Washington, de Nova York e de Los Angeles, Nova Orleans está se tornando o que os médicos chamam de hot spot para a disseminação do coronavírus.

Até quarta-feira havia 827 casos na cidade e arredores.

Porém, foi a morte do pregador que causou furor particular.

Tudo por causa de um meme.

No dia 13 de março, Landon disseminou em sua página no Facebook “informação” sugerindo que o surto do coronavírus era histeria da mídia.

O meme mentiroso

O meme acima — e variações dele — está sendo espalhado por apoiadores de Donald Trump nos Estados Unidos.

Sugere que sob Trump existe “histeria” quanto ao coronavírus, mas o mesmo não aconteceu com a gripe H1N1, quando o presidente era Barack Obama.

“Você vê o quanto a mídia manipula sua vida?”, pergunta o meme.

O Facebook, no entanto, está alertando os usuários da rede: o meme é parcialmente falso.

O checador do Facebook, Ryan Cooper, escreveu:

“Algumas variações do meme têm números mais precisos ou recentes, mas todas as variações apresentam os números de maneira altamente enganadora, omitindo o fato de que os casos e mortes por H1N1 são por mais de um ano inteiro e os casos de coronavírus ocorreram em apenas algumas semanas, início de uma curva que (ainda) está aumentando exponencialmente. O H1N1 também foi muito menos letal para aqueles que infectou em comparação com o coronavírus atual (que tem uma taxa de mortalidade 100 vezes maior, de acordo com estimativas recentes)”.

Os Estados Unidos têm 81.578 casos da doença, com 1.180 mortos — a curva é ascendente.

O presidente Donald Trump disse nesta quinta-feira, no entanto, que planeja medidas para retomar o funcionamento do país já na semana que vem, ainda que parcialmente.

Porém, dados do próprio governo indicam que outros hot spots da doença estão surgindo em Detroit e Chicago, dois grandes centros urbanos.

Morto, o pastor Landon Spradlin, de Gretna, Virgínia, tornou-se involuntariamente personagem do debate.

A discussão é exatamente a mesma que acontece no Brasil: bolsonaristas — como os partidários de Trump nos Estados Unidos — pregam a reabertura das escolas e a volta ao trabalho.

Infectologistas argumentam que isso é prematuro.

A página do pastor Landon está recebendo centenas de comentários.

Internautas postam memes.

Em um deles, a figura de Donald Trump convida idosos a buscar ajuda médica logo ali, no topo da montanha, antes de se despedir.

Meme postado na página do pastor Landon

Um dos comentaristas escreveu:

Todas essas pessoas atacando o morto. Coisa triste. A culpa é deste governo e de sua empresa de relações públicas, a Fox News. As mesmas pessoas que são enganadas pelos golpes da loteria nigeriana reproduzem memes fraudulentos, como se fossem educacionais ou informativos. Pessoas vão a essas igrejas que permanecem abertas durante pandemias com medo de serem vistas como menos fiéis se ficarem em casa. Trump e esses infotainers da Fox falam muito bem e robôs das redes sociais sabem que estas pessoas são presas fáceis para espalhar notícias falsas. Esse homem [Landon] era parte do problema, mas os verdadeiros culpados são aqueles que têm posições de liderança em nosso governo, que dizem a uma Nação que tudo está bom, tudo está sendo resolvido e que a culpa é da mídia.

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9 comentários

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Claudio

27 de março de 2020 às 10h43

Acho que bozo vai vencer essa guerra, seus seguidores não tem capacidade de raciocinar, simplesmente não questionam e espalham enxurradas de fake news pelo whatsap. Eu já joguei a toalha, não desminto nenhuma fake e ainda apoio. O que perdermos no fogo encontraremos nas cinzas.

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a.ali

27 de março de 2020 às 09h16

lá que nem cá…a boiada vai atras do boi de piranha, direto para o abatedouro!

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Edgar Rocha

27 de março de 2020 às 04h41

Nasci em 1972. Me dei conta de uns tempos pra cá que, durante toda a minha vida nunca consegui equacionar a seguinte questão: qual o valor da verdade? Seria azar de minha parte, ter nascido numa era em que o conceito de verdade tem sido gradualmente dilacerado por uma sociedade insana? Ou será que tal questão sempre permeou as relações sociais em todas eras? Há algo de específico neste momento em que se passa minha existência que o torna diferente dos períodos anteriores da História humana?
Cheguei ao ápice de meu incômodo com o conceito de verdade quando li, estarrecido, a declaração de Bolsonaro recusando-se a mostrar seu exame médico: “Minha palavra vale mais”. Ponto final. E, não duvido, ainda há os que apoiem tal postura!
Em outras experiências particulares já me deparei com situações igualmente capazes de desarmar qualquer raciocínio lógico. É incrível a sensação: um misto de impotência, descrença, abandono, fraqueza moral, imobilidade… É como deparar-se subitamente com uma serpente grande e venenosa na sua frente, com o bote armado, dependendo apenas de seu movimento pra se arremessar contra seu calcanhar e acabar com tua vida! Exatamente assim. Você fica congelado, inerte, sem saber ao certo como reagir e, igualmente, hipnotizado com a postura segura e agressiva daquele ser impiedoso e perigoso. Um horror que beira o constrangimento, sem que você saiba qual sentimento é mais paralisante.
Há uma técnica nisto. Não é possível que não haja. E todo o Governo Bolsonaro, com seus ministros e generais, são a prova cabal de sua existência e sua eficácia.
Voltando à comparação com a serpente, tudo que nos vem em mente são os riscos a serem assumidos com a execução de algum movimento. Olhamos à nossa volta e tentamos superar a perplexidade inicial da forma mais segura e acertada. Como é que eu saio desta, é a pergunta que não nos sai da cabeça. Buscamos um ponto de fuga seguro, um porrete mais à mão com o qual possamos nos defender, enfim, planejamos uma reação de forma atabalhoada e sem muito planejamento, fixados mais nos riscos do que nas possibilidades de sairmos ilesos. Contudo, precisamos ser rápidos e ágeis, caso contrário, não haverá tempo pra reação.
Não sem total pesar, posso confessar que por vezes, fui lento demais. Deixei-me envenenar a ponto de perder algumas partes de minha alma. Ainda sinto-me fraco e não duvido que muitos, com o avanço de um setor da sociedade que optou por agir feito a serpente, se sintam incapazes de reagir ao ninho de cobras que hoje infesta este país. Não culpo a ninguém por tal fragilidade. Não é fácil superar e, ao mesmo tempo, ao que parece, é algo novo. E se não é novo, ao menos, nunca foi tão intenso. O máximo que podemos fazer é curar feridas e purificarmos do veneno que nos enfraqueceu.
Bolsonaro é a nêmesis de uma sociedade niilista, edonista, feita por e para pessoas auto-centradas e desprovidas de qualquer senso de solidariedade, ética ou compaixão em relação ao próximo. Uma hora, a natureza responderia como sempre respondeu: em terra onde só há cobras, surgem espécies que se alimentam do que tem pra comer. Com o avanço coronavírus, a ofidiofagia agora é inevitável. Veremos cobra comendo cobra, até que se faça algum equilíbrio. Só a partir deste momento, aqueles que aprenderam algo sobre o medo gerado pelo cinismo poderão evitar novas infestações.
Por enquanto, a verdade – único antídoto para tal veneno – continua paliativa e sem muito efeito. A reação ainda depende do número de pessoas envenenadas e do número de cobras ao nosso redor. Trocando em miúdos, nosso tempo trocou o valor da verdade pela força das relações e dos interesses nelas contidos. A verdade é incapaz de vencer a condescendência com o cinismo e o poder de destruição dos que dele dependem. Num tempos onde todos agradecem por ser o outro o alvo do bote, ninguém se move para defender ninguém. Todos são incitados a tirar proveito da desgraça alheia, ao menos evitando não ser o próximo a ter de enfrentar o bote.
A alma humana mereceria mais do que igualar-se a algo que rasteja.

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    Ana Celia

    08 de abril de 2020 às 12h10

    Nasci também na década de 70, interior de Minas Gerais. Entendo perfeitamente quando o Presidente Bolsonaro disse que sua palavra valia mais, porque cresci ouvindo isso. O caráter, hombridade, honestidade eram valores fundamentais na minha cidadezinha. Me lembro que em todas as casas, á noite, eram deixadas sacolas de pano, dependuradas nos alpendres para o padeiro deixar o pães. Ele sabia a quantidade de pães que cada família queria. Os alpendres eram abertos e NINGUÉM entrava pra roubar. No final do mês acertavam as compras. O dinheiro era deixando embrulhado num papel, debaixo de um vaso ou pedra na janela. Havia confiança e honestidade, algo que foi-se perdendo ao longo do tempo. Nos armazéns e lojas existiam os cadernos de anotações das compras e no final do mês o acerto era feito. Se não dava pra pagar tudo, o debito era “jogado mais pra frete”, pois havia a certeza de que seria pago. O nome da pessoa era tudo, era o seu bem mais preciosos. Saudades de um tempo que não volta mais.

Zé Maria

27 de março de 2020 às 01h16

Cara! O Zemavírus continua impressionando em Minas Gerais.
Há 153 Casos Confirmados de Infecção por Coronavírus no estado mineiro.
E 17.409 (dezessete mil e quatrocentos e nove) Casos Sintomáticos Suspeitos de COVID-19 não testados.

https://noticias.r7.com/minas-gerais/mg-tem-153-casos-confirmados-e-17409-suspeitos-de-covid-19-26032020

Responder

Zé Maria

26 de março de 2020 às 23h36

Hoje (26/3), o Ministério da Saúde informou o registro 2.915 Casos Confirmados e 77 Mortes por COVID-19 (SARSARS-COV-2) no Brasil

Comorbidades e Perfil
das Vítimas Fatais
do COVID-19 no País

68% das mortes são de
pacientes homens;
A maioria das vítimas tinha mais de 60 anos;
31% sofriam de cardiopatias;
19% eram diabéticos; e
13% tinham alguma pneumopatia.

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