Osvaldo Coggiola: América Latina – de semicolônia a protetorado?

Tempo de leitura: 8 min
Imagem: J. Amill Santiago

A reatualização agressiva da Doutrina Monroe e a conversão de nações em protetorados expõem a estratégia norte-americana de expulsar rivais geoeconômicos e controlar ativos estratégicos

Por Osvaldo Coggiola*, em A Terra é Redonda

1.

O último relatório da Cepal definiu a situação econômica latino-americana como uma fase de “estagnação neocolonial secular que inibe qualquer projeto de desenvolvimento independente para melhorar as condições de vida da população”, sublinhando como o modelo herdado do colonialismo, baseado na economia extrativa, conduziu o subcontinente a um pântano de baixo crescimento difícil de reverter, na ausência de mudanças profundas na estrutura produtiva.

O relatório indica como, na América Latina e no Caribe, a taxa média de crescimento anual para a década 2015-2024 foi de apenas 0,9% e que há uma necessidade absoluta de “estimular o crescimento para responder aos desafios ambientais, sociais e laborais que enfrenta atualmente”.

Quase um epitáfio da onda nacionalista e socialmente reformista que conheceu nosso continente a partir da transição entre dois séculos, embalada pelo conjuntural aumento dos preços internacionais das matérias-primas. Em 1990, o “Foro de São Paulo”, reunindo quase todas as principais tendências da esquerda continental, anunciou a “onda rosa” que se impôs na transição para o novo século.

Seu balanço foi contraditório: milhões de pessoas foram tiradas de baixo do limiar de pobreza absoluta e do analfabetismo através de programas sociais, o intercâmbio comercial interno foi estimulado com inúmeros acordos regionais e bilaterais, chegando-se a formular a ideia de uma integração energética continental independente, além de alianças políticas anti-imperialistas, como a ALBA.

Ao mesmo tempo, a recuperação comercial derivou em reprimarização produtiva, retrocesso industrial, desemprego formal e informalização crescente do mercado de trabalho, com retrocessos enormes na legislação trabalhista.

Ao não se atacar de raiz os problemas histórico/estruturais – dependência tecnológica, industrial e financeira, hiper concentração agrária e mineira, domínio absoluto do capital monopolista, financeiro e industrial – os avanços sociais foram sendo postos em questão pelas ondas da crise econômica mundial, que conheceu um novo pico em 2008 e se acentuou depois.

Novos embates políticos foram sua consequência, com a emergência do fantasma mundial do neofascismo, centrado na aventura política mundial do magnata Donald Trump. Este retomou, já no seu primeiro mandato, toda a tradição imperialista regional e mundial dos EUA, projetando-a para um novo patamar, aprofundado até o paroxismo no seu segundo mandato.

2.

O relançamento da Doutrina Monroe, com seu corolário trumpista, confirmou que os Estados Unidos entraram em uma nova fase de ataques a territórios com recursos para se apoderarem deles; que nenhum povo da região estaria isento dessa tendência.

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Sob o aparente retorno aos princípios do colonialismo clássico, porém, jazem os estertores de um imperialismo financeiro em processo de decadência, detentor da maior dívida pública do planeta. Para buscar revertê-la, a primeira e obrigada tarefa dos EUA é recompor e aprofundar seu domínio sobre sua plataforma histórica, a América Latina.

Com a militarização provocadora da região atlântica do Caribe, e os ataques contra embarcações sob bandeira venezuelana, se precisou o objetivo do controle da riqueza petrolífera e mineral da Venezuela, através da imposição de um regime político submetido aos ditames imperiais dos EUA.

Depois do “tarifaço” de meados de 2025, destinado a impor novas condições de dominação dos EUA sobre seu histórico quintal, o ataque militar dos EUA contra a Venezuela no alvorecer do novo ano incorporou diretamente a América Latina a um cenário de guerra de alcance mundial.

Todo o sistema jurídico internacional, incluindo o dos Estados Unidos, foi abalado em 3 de janeiro de 2026. A intervenção militar dos EUA contra a Venezuela, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, e os anúncios de planos para instalar um governo apoiado pelos EUA remeteram à era da colonização e da lei do mais forte.

O ataque testemunhou a maior derrota e humilhação sofrida pelo exército venezuelano em sua história. Donald Trump declarou que a Venezuela seria governada por ele e sua equipe mais próxima, em benefício das companhias petrolíferas e mineiras norte-americanas.

Foi o primeiro passo da estratégia internacional dos EUA, a “Estratégia de Segurança Nacional”, para reverter seu declínio histórico e restabelecer sua supremacia mundial, tanto no Sul Global quanto no Norte Global: uma lei da selva internacional e uma ordem neofascista em casa e no que considera seu “quintal”, a América Latina e todo o hemisfério Ocidental.

Donald Trump transformou a Venezuela em um protetorado de fato dos EUA e também anunciou a suspensão das exportações de petróleo para Cuba, com o mesmo objetivo de estabelecer um protetorado na ilha caribenha. O governo venezuelano passou a jogar o papel de administrador “crítico” do processo neocolonial.

A retórica histérica, racista e anti-imigração do governo de Donald Trump, caluniando a Venezuela como um “Estado narcoterrorista”, e todos os povos latino-americanos como a causa dos males sociais nos EUA, como desemprego, criminalidade, “narcotráfico”, é dirigida à multidão interna embriagada com o MAGA (Make America Great Again), ao ICE (Immigration and Customs Enforcement) como guarda pretoriana presidencial e a todas as forças de repressão do Estado, mobilizando-os contra o “inimigo em casa”, os trabalhadores, minorias oprimidas e pessoas empobrecidas, em condições de desintegração social.

A ofensiva neofascista, no entanto, já provocou enormes reações populares, como o movimento “No Kings”, que ensejam um aliado poderoso da luta mundial anti-imperialista nos próprios EUA, situados assim no coração da crise política mundial.

3.

O objetivo explícito do governo dos EUA é “negar aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”.

O novo “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é muito mais ousado e abrangente do que o já velho de Roosevelt: seria “uma restauração sensata e potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos”.

Os alvos internacionais são a União Europeia, à qual a nova estratégia declara uma guerra comercial (sem falar na intenção declarada de se apropriar da Groenlândia, atualmente administrada pela Dinamarca), mas também a Rússia e, sobretudo, a China, o principal inimigo estratégico, que ocupa uma posição econômica central em toda a América Latina, com vastos investimentos em infraestrutura e empréstimos.

A “restauração do poder americano” representa um salto na escalada bélica imperialista internacional, com objetivos estratégicos não limitados por qualquer área hemisférica, Norte e Sul, Oriente e Ocidente: a colonização e fragmentação do antigo espaço soviético e da República Popular da China, e a recolonização da América Latina.

Com a exceção de sua resistência a atuar diretamente junto aos EUA no desbloqueio do Estreito de Ormuz, e da rejeição pela Espanha ao uso de suas bases militares para o ataque selvagem ao Irã, a União Europeia se adaptou sem muitos protestos ao processo de “americanização do mundo” encabeçado pela equipe governamental dos EUA, evidenciando a decadência do imperialismo europeu.

No novo ano, nos ataques letais contra embarcações venezuelanas no Caribe e no sequestro de Nicolás Maduro, depois da retórica inicial logo se passou ao comércio (o petróleo) e a instalar um “civilizado” balcão de vendas do que está sendo tomado pelos EUA pela violência.

Donald Trump declarou sem papas na língua que, na medida em que os EUA detêm o exército mais poderoso do mundo, se sentem autorizados a fazer o que desejam ou consideram justo, sem submeter essa “justiça” a qualquer instância, onde e contra quem quiserem, manifestando desprezo contra os discordantes, inclusive nos próprios EUA.

“América para os americanos” (Monroe), assim, virou a base da doutrina de “o mundo para os americanos”: um único elo unifica os diversos cenários de guerra, atropelos e massacres que percorrem o mundo (Ucrânia, Irã, Iêmen, Venezuela, Palestina, Groenlândia, sem esquecer a intenção declarada de devolver aos EUA a posse e controle do canal do Panamá), cuja mola mestra são as convulsões do capital financeiro norte-americano.

Convulsões que raiam o genocídio no bloqueio total imposto a Cuba, privada de recursos energéticos, medicinais e até de suprimentos alimentares básicos, comprometendo não já o nível de vida, mas a simples sobrevivência dos habitantes da maior ilha caribenha, punida pelo pecado de ousar encabeçar a luta anti-imperialista continental na segunda metade do século XX.

4.

A busca da transformação de Cuba e Venezuela, mediante meios político-militares, em protetorados de fato dos EUA não é exemplo isolado, determinado por motivos ideológicos, mas a ponta de um iceberg que visa reformular inteiramente a situação internacional e interna de toda a América Latina em proveito dos interesses imperialistas dos EUA, provocando, se necessário, uma catástrofe social.

A expressão aberta dessa política é a extrema direita e o neofascismo, com os governos de Javier Milei na Argentina ou de Nayib Bukele em El Salvador, que conquistaram importantes vitórias em diversos países, mas ela não prescinde de composições com forças políticas de origem nacionalista ou até de esquerda, na medida que se adaptem ao processo neocolonialista.

Venezuela, onde os restos do chavismo implementam, desde o governo, as mudanças sociais (precarização e arrocho) e econômicas (mudanças na Lei de Hidrocarbonetos) necessárias à escalada do trumpismo, é o exemplo acabado disso.

A implementação dos novos instrumentos políticos da investida dos EUA avançou velozmente no ano em curso. O “Escudo das Américas”, promovido por Donald Trump em março de 2026, reuniu 17 governos do continente com o objetivo de implementar um regime intervencionista e repressivo em toda a região, sob o pretexto de combater o narcotráfico. Uma reedição aggiornata da Operação Condor.

O fascista ianque pretende instalar escritórios do FBI e da CIA em todo o continente para monitorar de perto seus novos protetorados. O alcance da operação é maior: o recente bombardeio da fronteira colombiana pelo Equador de Daniel Noboa pressiona um dos governos que não está explicitamente alinhado com a política de Donald Trump.

Daniel Noboa começou instigando uma guerra comercial contra a Colômbia, envolvendo-a em retórica belicosa: Donald Trump consegue criar assim conflitos por procuração na América Latina, trazendo os enfrentamentos mundiais para a região, para manter todos os países do continente sob seu controle. O Equador, como um instrumento de pressão dos EUA, representa uma ameaça imediata para a Colômbia.

5.

O “Escudo das Américas” inclui o direito de usar força militar letal nos países signatários. Em relação à população imigrante, acordou estender as políticas persecutórias de Donald Trump e do ICE a todos os países; os signatários se comprometeram a receber os deportados dos EUA, estabelecendo “campos de trânsito” até que sejam deportados para seus países de origem.

Os compromissos assinados concedem ao governo de Donald Trump o poder de intervir nos países signatários sempre que julgar que seus termos estão sendo violados. É o que o imperialismo estadunidense está tentando fazer com os três principais países que não fizeram parte do acordo, México, Brasil e Colômbia. Suas administrações tentam apaziguar Donald Trump com concessões, na esperança de evitar intervenções políticas ou militares.

Mas, no México, a CIA e Donald Trump estabeleceram um entendimento direto com as Forças Armadas passando por cima do governo mexicano.

Em nome do combate aos cartéis da droga que Donald Trump e Marco Rubio declararam “transnacionais”, a militarização do país avança.

No Brasil, os EUA conspiraram com Jair Bolsonaro para orquestrar um golpe interno, contando com a ajuda das milícias repressivas do Rio de Janeiro para realizar um massacre nas favelas cariocas, que resultou em mais de 120 mortes, incluindo numerosas execuções, tornando-se a ação policial mais letal da história do Brasil.

O “Corolário Trump” à doutrina Monroe” (“Donroe”) busca transformar a América Latina em um elo nas cadeias produtivas controladas pelo capital e pelo Estado dos EUA e em vassalos político-bélicos do império do Norte, para destruir as cadeias produtivas com participação chinesa, significativas no Brasil, no México, no Peru e na Argentina. A China não possui os meios internacionais para se opor militarmente a esse processo.

Assim, a América Latina é chamada a um novo protagonismo, marcado pela crise e desagregação do capitalismo, centrado no único imperialismo de alcance mundial, o norte-americano.

O intervencionismo político direto dos EUA nas eleições colombianas e brasileiras deste ano está posto na agenda política imediata. O volume da crise e da ofensiva capital-imperialista supera largamente as políticas baseadas na defesa do status quo ante ou nas composições geopolíticas que ignoram (e até boicotam) a luta de classes.

O que está em jogo não é só a sobrevivência das nações latino-americanas como entidades independentes, mas também a sobrevivência física, em condições minimamente dignas, de suas enormes populações exploradas.

Um programa e uma liderança política à altura da crise e da ofensiva imperialista só pode emanar desses mesmos explorados, e enfrentar de raiz os problemas históricos que, durante cinco séculos de exploração e dois séculos de fragmentação, fizeram da América Latina o paraíso dos lucros colonial-imperialistas, da desigualdade social e da exploração desapiedada.

Estão em jogo séculos de luta dos povos originários, dos escravos africanos, dos operários, camponeses e explorados de todas as origens, no nosso continente. Num quadro mundial em que a unidade política dos explorados do mundo todo está posta mais do que nunca diretamente sobre o cenário histórico, e menos do que nunca concretizada em qualquer tipo de organização política internacional.

Este é o desafio histórico, inédito, dramático e contraditório, da atual geração de lutadores político-sociais.

*Osvaldo Coggiola é professor titular sênior no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]

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Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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FrancoAtirador

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Por que a Bolívia Está em Chamas

Multidões tomam La Paz
e exigem a renúncia do
presidente boliviano –
eleito em outubro.

Como tudo mudou, em seis meses?
A curiosa estratégia de Rodrigo Paz.
A traição e as leis neoliberais.
A crise do MAS, a grandeza e
debilidade do movimento popular.

A expectativa de um pacto entre
o Estado e a sociedade – baseado
no poder político para as organizações
sociais e no investimento estatal –
não se desfez com a saída de Evo,
Arce ou com a vitória de Paz.
Segue vigente no imaginário coletivo
e orienta as expectativas populares
a respeito do Estado.

Por Arián Laguna Quiroga *, no Diario Red |
Tradução: Antonio Martins | Outras Palavras

Embora a Bolívia nunca deixe de surpreender politicamente, as mobilizações populares atuais e os crescentes pedidos de renúncia, apenas 6 meses após o início do governo de Rodrigo Paz podem parecer incompreensíveis e até insensatos.
Não são.
Os mineiros, camponeses, professores e vizinhos que hoje protestam e exigem a renúncia de Paz são os que votaram por ele, em outubro de 2025.
O que aconteceu para que, apenas no meio do ano depois, exijam sua saída?

Uns meses antes das eleições de 2025, ninguém atribuía a Rodrigo Paz mais de 3% de intenções de voto. Como foi capaz de ganhar o primeiro turno com 27% e a disputa final, com 54%?

A resposta principal relaciona-se à disputa interna do Movimento ao Socialismo (MAS), entre Luis Arce e Evo Morales, que atravessou toda a gestão de Arce (2020-2025) e se desdobrou em uma crise econômica marcada pela recessão e pelo desabastecimento dos combustíveis.

O mal-estar profundo do bloco popular diante dessa disputa traduziu-se em um voto-castigo contra o MAS, que terminou sendo canalizado para Rodrigo Paz. Cerca de metade do voto histórico do MAS – tradicionalmente próximo aos 54% – migrou para Paz no primeiro turno, e quase todo, no segundo.

A chave do sucesso eleitoral da dupla Rodrigo Paz – Edman Lara foi sem dúvida o candidato a vice-presidente. Lara é um ex-policial que se tornou famoso denunciando no Tik Tok a corrupção dos altos comandos policiais e da classe política boliviana em geral.

Mas Rodrigo Paz também desempenhou um papel importante: membro da casta tradicional boliviana – filho do ex-presidente Jaime Paz e sobrinho-neto do ex-presidente Victor Paz – foi capaz de se projetar como uma opção de mudança moderada e não racista – à diferença de outros candidatos de direita, como Tuto Quiroga e Samuel Doria Medina.

Teve a ideia lúcida de fazer campanha nos bastiões rurais e urbanos populares do MAS, onde reinava o descontentamento diante da disputa Evo-Arce, e também o fez sob o falso – porém, atraente — lema de “capitalismo para todos”.

Ao votar por Paz e Lara, o setor popular na Bolívia não votou contra o Estado Plurinacional, mas sim contra quem parecia estar se degradando com sua disputa visceral.
Foi um voto para renovar o Estado Plurinacional, com a crítica agressiva de Lara à corrupção das elites políticas e com a promessa de paz de um Estado Plurinacional mais propenso à economia popular.

A expectativa de um pacto entre o Estado e a sociedade – baseado no poder político para as organizações sociais e no investimento estatal – não se desfez com a saída de Evo, Arce ou com a vitória de Paz.
Segue vigente no imaginário coletivo e orienta as expectativas populares a respeito do Estado.

No entanto, a oferta de Paz para manter esse pacto sob uma versão renovada foi apenas um aceno demagógico. No dia da posse, nem uma única organização popular foi convidada. O gabinete de ministros foi novamente dominado pelas gravatas e caras brancas.

O revertério não foi apenas simbólico, mas econômico. Em dezembro, Paz aumentou o preço da gasolina em 86% e do diesel em 163%. Paralelamente, pretendia-se legalizar a venda de recursos naturais “fast track” (o termo foi redigido em inglês no Decreto Supremo), medida revertida graças às mobilizações populares de dezembro e janeiro de 2026.

A isso somaram-se políticas menos visíveis, mas que repercutiram fortemente entre o público, como a eliminação de impostos sobre grandes fortunas e lucros extraordinários, além de diversos atos de corrupção.

As duas medidas que fizeram o copo transbordar, ao desencadear vasto descontentamento popular, foram a chamada política da “gasolina adulterada” e a lei de reclassificação de terras. Não só os preços dos combustíveis aumentaram drasticamente, numa sociedade já em recessão econômica, como também houve a distribuição de gasolina adulterada, danificando veículos particulares, transporte público, motores e maquinário agrícola.

Além disso, a aprovação da Lei 1720 abriu a possibilidade de converter pequenas propriedades camponesas — historicamente isentas de confisco — em propriedades de médio porte, sujeitas a juros e execução hipotecária. Isso despertou desconfiança em um dos setores mais sensíveis de um país predominantemente indígena que, em 1953, viveu uma das reformas agrárias mais radicais do mundo.

Esses dois eventos desencadearam um novo ciclo de mobilização contra Paz, precisamente por parte daqueles que votaram nele e em Lara, na esperança de uma renovação do Estado Plurinacional e não de uma virada neoliberal racista e excludente.

Os horizontes do protesto
A mobilização tem sido maciça e absolutamente decidida no departamento de La Paz: praticamente todas as suas estradas estão bloqueadas. No entanto, o conflito ainda não se espalhou para o resto do país, e isso pode determinar suas chances de vitória. Enquanto isso, apoiadores de Evo Morales de Cochabamba iniciaram uma marcha em direção à cidade capital, onde devem chegar nos próximos dois dias.

Até o momento, o governo respondeu aos protestos com três estratégias. A primeira foi atribuir as mobilizações a uma conspiração de Evo Morales; no entanto, essa narrativa não convenceu nem mesmo os setores conservadores, já que é evidente que o apoio a Evo está concentrado em Cochabamba, enquanto o epicentro dos protestos é La Paz.

A segunda consistiu em fragmentar o movimento popular por meio de negociações e concessões a alguns dos setores mobilizados. Essa estratégia parece fadada ao fracasso, já que a base superou a liderança e também ameaçou puni-la severamente, caso faça um acordo com o governo.

Finalmente, desde sexta-feira à noite, o governo recorreu à repressão, mobilizando a Polícia e o Exército, o que deixou pelo menos dois cidadãos mortos, provavelmente inflamando ainda mais a situação em uma sociedade acostumada a responder à repressão com mais rebelião.
Apesar das dificuldades do governo em conter os protestos, a situação é complexa. O movimento popular, embora forte em sua capacidade de mobilização, ainda carece de líderes fortes capazes de unir e liderar um bloco eleitoral em caso de eleições.
Além disso, ainda não surgiu uma agenda econômica que ofereça uma alternativa progressista para superar a crise econômica.

Extrema direita à espreita
Enquanto isso, Rodrigo Paz alinha-se cada vez mais com grupos de extrema-direita — Tuto Quiroga, Manfred Reyes e as elites de Santa Cruz — que lhe ofereceram abertamente a oportunidade de governar a partir daquela cidade, distante das “hordas” indígenas e populares.

No entanto, Paz sabe que buscar refúgio nesse setor tem um preço: eles exigem cargos-chave no governo, pacotes de leis neoliberais e níveis de repressão que só alimentarão a rebelião popular.

Paz encontra-se claramente entre a cruz e a espada. Mesmo que consiga sobreviver a esta segunda onda de protestos populares, provavelmente sairá tão enfraquecido que a implementação de seu tão desejado pacote de leis neoliberais será extremamente difícil.

Além disso, setores da direita boliviana começam a vê-lo como uma figura fraca, incapaz de liderar uma reestruturação neoliberal da sociedade boliviana, e começam a sondar alternativas.

Rodrigo Paz é vítima do seu próprio jogo.

Chegou ao poder explorando expectativas e ressentimentos acumulados, e agora precisa responder a eles. Por ora, torna-se cada vez mais improvável que consiga escapar de seu próprio labirinto.

* Sociólogo e pesquisador no El Colegio de México, seus livros publicados incluem ‘Nossos Inimigos da Alma’: Elites Proprietárias de Terras e Discursos Racistas na Bolívia (Observatorio del Racismo, 2013) e De ‘Selvagens’ a Indígenas?: Casamento e Estratégias Étnicas no Território Indígena El Pallar (Observatorio del Racismo, 2016).
Desde o início de sua pós-graduação (2016), ele tem trabalhado em um projeto de longo alcance inicialmente intitulado “As Origens do Poder Camponês na Bolívia” que, a partir de uma perspectiva sociológica histórica, busca compreender o desenvolvimento econômico e político das regiões camponesas andinas no século XX.

https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/por-que-bolivia-esta-em-chamas/

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