Nelice Pompeu: Carta aberta ao prefeito Ricardo Nunes

Tempo de leitura: 2 min
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, chamou o ex-ministro da Educação e candidato ao governo do Estado, Fernando Haddad, de professorzinho Foto: Reprodução

Por Nelice Pompeu*

Em matéria publicada no Metrópoles, neste sábado, 1º de agosto, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, afirmou que o governador Tarcísio de Freitas “vai dar um coro” em Fernando Haddad e se referiu ao ex-prefeito, ex-ministro e professor da USP como “professorzinho de nariz empinado”. Foi durante a convenção que oficializou a candidatura de Tarcísio à reeleição.

Quando o senhor chamou Fernando Haddad de “professorzinho”, não ofendeu apenas um adversário político. O senhor ofendeu uma categoria inteira. Ofendeu milhões de professores e professoras que todos os dias entram em uma sala de aula para construir o futuro deste país.

O diminutivo não foi um detalhe. Foi uma tentativa de diminuir, ridicularizar e desqualificar alguém justamente por ser professor. E isso revela muito sobre a forma como o senhor enxerga a educação.

Fernando Haddad é professor da Universidade de São Paulo (USP), formado em Direito, mestre em Economia e doutor em Filosofia. Foi ministro da Educação, prefeito de São Paulo e ministro da Fazenda. Como ministro da Educação, ajudou a consolidar políticas que ampliaram o acesso de milhões de jovens ao ensino superior por meio do Enem, do Sisu, do Prouni e do Fies. Como prefeito, implantou políticas públicas reconhecidas em áreas como mobilidade urbana, educação e direitos sociais. Concordar ou discordar de suas posições é legítimo. Tentar diminuí-lo por ser professor, não.

Mas talvez sua fala explique aquilo que nós, educadores da rede municipal de São Paulo, sentimos todos os dias.

Agora entendemos por que somos tratados com tanto descaso.

Agora entendemos por que nossas reivindicações são ignoradas.

Agora entendemos por que direitos são retirados, carreiras são desvalorizadas, profissionais são sobrecarregados e a educação pública é tratada como um problema, e não como prioridade.

Quem chama um professor de “professorzinho” deixa claro o valor que dá aos educadores.

Apoie o VIOMUNDO

E isso não é um ataque apenas ao Haddad.

É um ataque à professora que alfabetiza crianças.

Ao professor que enfrenta salas lotadas.

À educadora que acolhe estudantes em situação de vulnerabilidade.

Ao profissional que trabalha muito além do horário, levando planejamento para casa, comprando material do próprio bolso e resistindo às dificuldades porque acredita na educação.

É um ataque a todos nós.

Infelizmente, essa fala também se soma a um discurso que, nos últimos anos, transformou professores em alvo de ataques, desconfiança e desrespeito. Em vez de reconhecer a importância da educação, parte da extrema direita escolheu desqualificar quem ensina, como se conhecimento fosse um problema e professor fosse um inimigo.

Professor nunca foi motivo de vergonha.

Professor é motivo de orgulho.

Todos os profissionais passaram por uma sala de aula. Todos tiveram alguém que lhes ensinou a ler, escrever, pensar e sonhar. Inclusive o senhor.

Os mandatos passam.

Os cargos passam.

Os discursos agressivos passam.

Mas os professores permanecem formando gerações.

Por isso, quando o senhor diz “professorzinho”, nós respondemos com orgulho: somos professores.

E não aceitaremos que nossa profissão seja usada como ofensa.

Porque atacar um professor é atacar a educação.

E atacar a educação é atacar o futuro do Brasil.

*Nelice Pompeu é professora e integra o Movimento Escolas em Luta.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Leia também

Roberto Amaral: Commodities ou indústria — que país queremos?

‘Nós, cubanos, não aceitaremos a subjugação’, diz deputada em discurso emocionante. VÍDEO

Stiglitz elogia o Pix: ‘Trump não quer que o Brasil tenha seu próprio sistema de pagamentos’

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também