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Margarida Salomão: O vírus da anticiência, altamente letal, pode provocar uma hecatombe no Brasil
Política

Margarida Salomão: O vírus da anticiência, altamente letal, pode provocar uma hecatombe no Brasil


11/02/2020 - 07h22

O vírus da anticiência, um perigoso risco para o Brasil

por Margarida Salomão*, especial para o Viomundo

No ano passado, os sinais  já alertavam.

O estrangulamento orçamentário do CNPq, as ameaças à integridade institucional das principais agências de fomento à ciência no Brasil (CAPES, CNPq, FINEP), o assédio à autonomia das universidades, tudo indicava que uma maligna tendência no cenário mundial — o ódio às ciências — tinha finalmente chegado ao poder no Brasil.

Sabemos que o terraplanismo, o negacionismo climático e outras tolices assemelhadas encontram na internet internacional fluxo seguro.

Campanhas contra a vacinação ou pela abstinência sexual. Afirmativas de que Hitler era de esquerda ou de que não houve ditadura militar no Brasil. Alegações em favor da supremacia branca e da inexistência da categoria social de gênero.

Toda sorte de bobagens proclamadas em português, inglês, em francês, em espanhol, em alemão. E provavelmente também em hindu, em persa, em mandarim…

A trágica singularidade brasileira não está em participar desta orgia de imbecilidades.

Está em o atual governo transferi-la para o comando de posições estratégicas na gestão das políticas públicas: educação, relações exteriores, meio ambiente, direitos humanos e, agora, ciência e tecnologia.

O desgaste do Brasil no cenário internacional (tanto no campo diplomático como no da opinião pública) é consequência direta da ideologização exacerbada de funções para cujo desempenho se requer precisamente preparação técnica, capacidade de exercer a representação pública com decoro e respeito à pluralidade política.

A indicação para a presidência da Capes de Benedito Aguiar (o ex-reitor do Mackenzie, além de adepto do criacionismo,defende sua disseminação já na educação básica) só pode ser classificada como um disparate da mesma ordem que as desastradas demissões praticadas na Casa Rui Barbosa.

Nas duas situações, substituem-se pesquisadores de competência comprovada e reputação reconhecida por pessoas incapazes de sequer compreender o trabalho que têm a missão de desenvolver.

A presença de um criacionista confesso e programático na presidência da Capes confronta a Constituição Brasileira que veda que o estado favoreça, como política pública, a disseminação de uma crença religiosa sobre qualquer outra.

Além disso, como já observado por associações científicas e por tantos intelectuais renomados, o criacionismo é, do ponto de vista científico, tão plausível quanto a afirmativa de que a terra é plana.

Portanto,o risco de torná-lo foco de recursos da agência, que já são esse ano 33% menores do que o montante alocado ano passado, é uma ameaça real ao desenvolvimento das ciências e à formação de pesquisadores no Brasil.

A essa afronta, de envergadura, somam-se outras menores:

portaria reduzindo as possibilidades de intercâmbio internacional dos pesquisadores (limitando viagens para participação em congressos), revogada agora em 07 de fevereiro;

dificuldades para nomeação de professores e técnicos das universidades, devidamente aprovados em concurso e aguardando integração nos quadros profissionais das instituições;

ofensas malucas sobre a “balbúrdia” nos campi, caracterizando momentos pontuais da convivência acadêmica como situações típicas do ambiente de trabalho na educação superior pública…

Deprimente.

O aspecto mais lamentável dessa chuva de trapalhadas é o profundo desentendimento pelo governo e pelos governantes do que constitui a investigação científica como prática social: uma exposição continuada e estruturante de toda investigação à crítica; à revisão pelos pares; à construção coletiva (e sempre temporária) de certezas e consensos.

Tudo isso extrapolando os limites do departamento, da instituição, do país. Nos melhores casos, até da disciplina.

Por si mesma, a ordem científica oferece vacinas contra adeptos. Não que esses não existam. Entretanto, é difícil que resistam num ambiente de tantas avaliações cruzadas.

Para prosperar, esse tipo de desenvolvimento requer processos estáveis e de longo prazo tanto para a investigação como para a formação dos investigadores.

Como também requer uma política regular e previsível de investimento público com a mesma grandeza que outras potências internacionais (como a China, os Estados Unidos, a Coreia, a Alemanha…) vêm praticando há décadas. E com êxito.

O vírus da anticiência, vetor de grande letalidade (física e metafórica) no mundo, no Brasil poderá gerar uma hecatombe.

Primeiro, porque já entramos com atraso na competição científica mundial.

Não obstante a argúcia visionária dos pioneiros da década de cinquenta do século passado, só no limiar do século XXI nos atrevemos a massificar a educação universitária;.

E ainda assim, o fazemos com grande insuficiência, em termos comparativos até com nossos vizinhos da América Latina.

Afinal, as potências científicas contemporâneas deixam patente o quanto a liderança intelectual demanda não só massa crítica como diversidade social no quadro de pesquisadores.

Em segundo lugar, a economia contemporânea, não por acaso, tem sido denominada “economia do conhecimento”.

Despriorizar políticas de pesquisa e de formação de pesquisadores nesse momento é resvalar numa disposição impatriótica e, inescapavelmente, suicida.

No momento em que escrevo, todas as manchetes nacionais e internacionais tratam do risco de uma pandemia provocada pelo coronavírus.

Isso devia nos fazer lembrar, como argumenta Steven Pinker no jovem clássico “O Iluminismo Agora”, de 2019, “o conhecimento científico erradicou a varíola, uma doença dolorosa e desfiguradora que só no século XX matou 300 milhões de pessoas”.

O potencial de defesa da vida que podemos esperar da ciência, por si só, deveria engendrar sua defesa por todos aqueles que cultivam valores benignos.

Mas há um elemento a mais pelo qual lutar: pela liberdade de pensamento, pela insubordinação intelectual diante de toda autoridade e pela ampliação da esfera pública que daí resulta como direito de todos à participação.

Há, portanto, boas razões pelas quais devemos ativamente trabalhar pela erradicação do vírus da anticiência, risco real à democracia, à justiça e ao desenvolvimento de nosso país.

*Margarida Salomão é deputada federal PT-MG; foi reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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8 comentários

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Zé Maria

11 de fevereiro de 2020 às 23h03

“Patrícia Campos Mello é atacada pela milícia digital bolsonarista
que a CPMI das Fake News investiga.
Enquanto TSE, o MP e a Polícia Federal não agirem,
essa rede criminosa vai seguir ameaçando opositores e jornalistas.
Solidariedade a @camposmello !”

https://twitter.com/GuilhermeBoulos/status/1227376491211743232

Responder

Zé Maria

11 de fevereiro de 2020 às 20h15

Infectologistas estão em dúvida se BolsoAsno
é um parasita ou um coronavírus, ou ambos …

Responder

    Zé Maria

    12 de fevereiro de 2020 às 01h38

    https://twitter.com/i/status/1227329884856487947

    Com o devido perdão aos identitários,
    mas esse capitão-do-mato mentiroso
    e canalha da Yacows, que trabalhou
    na Campanha de Fake News para
    eleger Jair Bolsonaro, em 2018,
    merece ser gentilmente convidado
    a passar uma temporada na Cadeia.
    O Criminoso estava tão seguro da impunidade
    que sequer pensou na consequência da Mentira.
    Certamente continua bancado por muita grana
    e de alguém muito poderoso lá em Brasília.
    Dudu Pintinho, o 03 do Jair,
    que estava na Bahia
    de visita ao Capitão Adriano,
    teve vir correndo de lá,
    para dar assistência ao meliante
    na CPMI das Fake News no Congresso,
    e nem pode ir ao velório
    do Ex-PM do BOPE-RJ
    amigo de longa data
    da FamíGlia Bolsonaro.
    https://twitter.com/natbonavides/status/1227395521096146951
    Hans River Nascimento deu informações falsas a CPMI; Eduardo Bolsonaro difundiu ofensas contra a Jornalista Patrícia Campos Mello e fez insinuações levianas e mentirosas durante e após o depoimento.
    https://twitter.com/DeputadoFederal/status/1227409485607534592

Zé Maria

11 de fevereiro de 2020 às 19h49

Pesquisadores ‘parasitas’ desenvolvem embalagem biodegradável
como alternativa ao uso de sacolas plásticas
Algumas embalagens plásticas podem demorar mais de 100 anos
para se degradarem.
A desenvolvida por pesquisadores da UFPR leva em torno de 5 (cinco) Meses [!!!]

https://t.co/c9KBlMjtLm
https://twitter.com/Saense1/status/1220406880289394688

Os Pesquisadores ‘parasitas’ da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
pedem esmola ao Governo para dar prosseguimento à Pesquisa
“Produção de Filmes Biodegradáveis”, coordenada pela professora
Michele Rigon Spier, do Departamento de Engenharia Química e
do Programa de Pós-graduação em Engenharia de Alimentos (PPGEAL)
da UFPR.

O produto trata-se de uma nova alternativa aos plásticos,
pois usa matéria-prima renovável e não polui o meio ambiente.

Este projeto de pesquisa teve início em 2018 e encontra-se em andamento
com dissertações e teses sobre o tema.

O estudo alcançou resultados interessantes do ponto de vista das propriedades
mecânicas dessas novas embalagens.
De acordo com Michele, algumas propriedades mecânicas são similares
às propriedades de filmes plásticos de petróleo, tal como o polietileno
de baixa densidade (PEBD).
“Os filmes que produzimos poderiam ser aplicados em filmes para recobrimento
de produtos, para a produção de sacolas plásticas e mesmo para produção
de sacos de armazenamento de lixo.
Variando algumas propriedades, podemos inclusive produzir copos, canudos
e outros recipientes plásticos”.

Para a pesquisadora, é essencial que as pessoas parem de usar sacolas plásticas
oriundas do petróleo.
“É importante a utilização das sacolas e outras embalagens que são naturalmente
degradadas em poucos meses (até cinco), sem poluir ou desequilibrar
o ecossistema, como já é comum em lugares da Europa, dos Estados Unidos
e Canadá”.

O projeto busca apoiadores para ser levado adiante.

“Precisamos do suporte institucional governamental, estadual e municipal
para tornar esse sonho realidade. Outra alternativa é a iniciativa privada”,
diz a professora.

Além dela, dois alunos de mestrado e uma aluna de doutorado
[todos correndo risco de perderem as Bolsas de Pós-Graduação]
estão trabalhando nesta linha de pesquisa.
O laboratório situa-se no Centro Politécnico da UFPR e é laboratório satélite
do Departamento de Engenharia Química e do PPGEAL.

https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/pesquisadores-da-ufpr-desenvolvem-embalagem-biodegradavel-como-alternativa-para-uso-de-sacolas-plasticas/

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