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Diário da Resistência


Política

Marcos Coimbra: A “síndrome de Collor”, engano recorrente


17/05/2013 - 16h56

Em 2002 foi a vez de Ciro Gomes, que ficou pelo caminho. E Campos?

Meteoros e Cometas

por Marcos Coimbra, em CartaCapital

A “síndrome de Collor” é comum em candidatos que aparecem muito mal pontuados em pesquisas de opinião. Todos se acham capazes de reverter os números e vencer. É um engano recorrente.

A irrupção meteórica de Fernando Collor no cenário nacional e o que aconteceu nos breves meses em que esteve à frente do governo federal marcaram a cultura política brasileira contemporânea.

Algumas consequências são óbvias, como o aumento da aversão ao risco do eleitor comum, que desenvolveu, a partir daquela experiência, ojeriza aos “candidatos-surpresa”, os que lhe são apresentados na última hora e parecem sedutores. Como vimos nas principais eleições realizadas desde então, o espaço para intervencionismos diminuiu de forma considerável. Na dúvida, a vasta maioria dos eleitores prefere não arriscar.

Outros efeitos são menos evidentes, mas também significativos.

Um dos mais curiosos poderia ser chamado de “síndrome Fernando Collor” e atinge os políticos profissionais e os aspirantes a sê-lo.

É uma condição típica dos candidatos que as pesquisas mostram ter poucas chances nas disputas majoritárias.

Ante qualquer ponderação realista a respeito de suas possibilidades de vencê-las, respondem: “Se Collor terminou ganhando a eleição de 1989, apesar de não ter mais de 5% no início do ano, por que isso não poderia ocorrer comigo?”

Ao pensar assim, enchem-se de brios e vão adiante, lançando-se a aventuras que o bom senso recomendaria evitar. Acham que são Collor, no sentido de vencedores contra prognósticos razoáveis.

Já tivemos inúmeros candidatos a prefeito, governador e presidente da República afetados por essa síndrome.

Nos institutos de pesquisa, aparecem a cada eleição, sempre a carregar na algibeira aquele repto em tom de pergunta: “E seu eu for o Collor de agora?” É seu modo de lidar com a decepção de ver números que desanimariam qualquer cidadão normal.

Nos dias de hoje, o mais saliente exemplo de político acometido por essa moléstia é o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. Não é o único.

Campos já esteve do outro lado: quando disputou seu segundo mandato de governador, manteve-se durante toda a campanha favorito a permanecer no Campo das Princesas, sede do governador pernambucano. Se olharmos a série de pesquisas do Datafolha naquela eleição, ele nunca obteve menos de 59% das intenções de voto.

O adversário mais próximo, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) – hoje seu aliado, diga-se de passagem –, chegou a 28%, mas não se sustentou e foi a menos de 15% no último levantamento do instituto, às vésperas das eleições. Os demais candidatos, entre eles Edilson Silva (PSOL), Fernando Rodovalho (PRTB) e Sérgio Xavier (PV), alcançavam no máximo cerca de 1%.

Ante Dilma, Campos é atualmente uma espécie de nanico, não muito diferente, em termos numéricos, daqueles seus antigos adversários. Ela beira atualmente os 60% e ele tem menos de 3%. O socialista por pouco não repete o desempenho dos Rodovalho em 2010.

Apesar de ter estofo e densidade política maiores, algo semelhante aconteceu com o ex-governador Aécio Neves, do PSDB mineiro. Também o tucano, quando disputou a reeleição em Minas Gerais, era uma barbada.

Segundo o mesmo Datafolha, sempre teve cerca de 70% das intenções de voto, enquanto seu principal oponente, Nilmário Miranda (PT), ficava, de acordo com o instituto, em torno dos 6% (na urna, recebeu 22% dos votos válidos, mas essa é outra história).

Se Campos está para Dilma como Rodovalho estava para ele, para Aécio o caso seria uma comparação a Nilmário. Candidatos respeitáveis, mas, tudo indica, a caminho da derrota. E, de fato, terminaram por perder a corrida eleitoral.

Mas lá está o “caso Fernando Collor” para encher de esperança os dois oposicionistas. Ambos, juntamente com os que torcem por eles e os que nem sequer os apreciam, mas querem que derrotem o PT, preferem ignorar sua trajetória, a fim de continuar a crer que a eleição de 2014 “está em aberto”.

O problema? O “caso Collor” é irreproduzível. Nada daquela eleição vai se repetir no próximo ano. O Brasil é outro, os eleitores são outros, o governo é outro, os candidatos são outros. E porque o “caso” já aconteceu e deixou sequelas.

De parecido, só uma coisa: em uma estranha coincidência, a cada 12 anos, como se fosse um cometa que orbita o Sol nesse período, surge, no Nordeste, um jovem governador, audaz e bem falante, querendo ser presidente.

Em 1989, Collor conseguiu e sabemos em que acabou. Em 2002 foi a vez de Ciro Gomes, que ficou pelo caminho. E Campos?

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23 comentários

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Mauricio Dias: Aécio e Eduardo Campos disputam o espaço onde só cabe um - Viomundo - O que você não vê na mídia

24 de maio de 2013 às 14h23

[…] Marcos Coimbra: A “síndrome de Collor”, engano recorrente […]

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sérgio

19 de maio de 2013 às 19h58

Eduardo Campos é manipulado pela mídia, não passará de 5% dos votos caso candidate-se a presidente. A conferir.

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Rose PE

19 de maio de 2013 às 08h47

Mais candidato a ficar pelo caminho! Pergunta se alguns micro empresários lá votam nele? É mais um candidato midiático.

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Isidoro Guedes

18 de maio de 2013 às 14h37

Eduardo viveu algo parecido na corrida pelo Governo de Pernambuco em 2006, mas o contexto era completamente diferente.
Naquele ano Eduardo começou com 3% das intenções de voto, num cenário amplamente desfavorável e que apontava para uma provável vitória do vice-governador Mendonça Filho (PFL – já que ainda não existia o DEM), candidato apoiado pelo governador Jarbas Vasconcelos (PMDB, ainda no primeiro turno.
Eduardo sequer era o segundo colocado, posto ocupado pelo ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT). E de aparentemente tão frágil muitos acreditavam que ele seria varrido do mapa eleitoral de Pernambuco.
Campos saíra muito fragilizado das eleições de 1998, quando o avô (Miguel Arraes), na corrida pela reeleição ao governo pernambucano, perdeu de forma acachapante para Jarbas Vasconcelos. Tudo na esteira do “escândalo dos precatórios”, um suposto esquema financeiro denunciado pela oposição, que teria lesado os cofres do estado.
Anos mais tarde Arraes e Eduardo Campos (que fora secretário da Fazenda à época) foram inocentados pela Justiça. Mas o arraesismo parecia ferido de morte.
Parecia. Porque na verdade mesmo fragilizado o partido de Arraes e Campos, o PSB, manteve uma razoável estrutura nos pequenos e médios municípios do Agreste, Sertão e Zona da Mata pernambucanos.
Em 2005 a morte de Arraes fez ressurgir uma certa reverência ao legado social do arraesismo no interior pernambucano, onde muitas famílias foram beneficiados por programas sociais e pela rede de proteção (uma espécia de “Estado do Bem Estar Sertanejo”) que Arraes construiu em benefício dos trabalhadores rurais (em especial os cortadores de cana) e pequenos agricultores.
Aliado a isso o favorito, Mendonça Filho, cometeu erros fatais. O maior deles foi ir para cima do petista Humberto Costa, deixando Campos livre para avançar rumo ao interior.
Mendonça tentou reeditar o denuncismo de 1998, só que desta vez contra Humberto Costa. Fez uma campanha moralista e repleta de denúncias sobre a suposta participação de Costa no “escândalo dos sanguessugas” (quando o petista era ministro da Saúde do governo Lula).
A estratégia acabou não dando os resultados desejados. Humberto Costa acabou sentindo o baque e a despencar nas pesquisas. Mas os votos do petista não migraram em massa para Mendonça Filho, pelo contrário, acabaram tendo como destino a candidatura do socialista Eduardo Campos.
Com a capilaridade do PSB jogando a favor de Campos. A reverência e gratidão ao arraesismo também foi um outro fator que jogou a favor do candidato do PSB. Uma bem montada estratégia de marketing e um criativo guia eleitoral na TV acabaram por fazer o resto, provocando um 2º turno, no qual Eduardo enfrentaria o pefelista Mendonça Filho.
O PT, vitimado pelo denuncismo da aliança conservadora PMDB-PFL, acabou sucumbindo. E pagando o preço por não ter uma capilaridade no interior do estado, que lhe garantisse avançar no Agreste e Sertão. Embora fosse forte no entorno da capital, nos municípios da Região Metropolitana do Recife.
Essa força do PT nos municípios da Região Metropolitana do Recife (a começar pela capital, comandada pelo partido – através da bem avaliada gestão do prefeito João Paulo) acabou sendo decisiva para garantir a vitória de Eduardo Campos. Somada a força do PT no Recife e municípios vizinhos a capilaridade do PSB e força do arraesismo no interior, Campos acabou surpreendendo e derrotando a até então considerada imbatível aliança PMDB-PFL (Jarbas Vasconcelos-Mendonça Filho).
Agora a realidade é bem outra. O PSB, por mais que tenha avançado nacionalmente, ainda não é um partido de forte expressão e apelo popular no país.
O arraesismo também é um fenômeno circunscrito ao interior de Pernambuco. E dele Eduardo não terá como se beneficiar nacionalmente.
Por fim, investir no “efeito Fernando Collor” é confiar no imponderável. Pois como acertadamente analisa o sociólogo Marcos Coimbra, não há nenhum sinal de que esse efeito venha a se repetir agora, e nem as condições políticas dadas são as mesmas daquela época para que se repita nos dias de hoje.
Eduardo pode ficar portanto com o amargor da derrota e até prejudicar futuras investidas rumo ao Palácio do Planalto em cenários futuros.
A conferir.
ISIDORO GUEDES, sociólogo, educador e gestor público, é ex-editor de política do jornal A Província da Mata Norte e ex-secretário de Saúde do Município de Goiana – PE.

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    Brasileiro

    19 de maio de 2013 às 15h37

    Parabéns, Isidoro.
    Recordar é viver. Excelente análise.

José X.

18 de maio de 2013 às 12h11

O Eduardo Campos comete um incrível erro de avaliação ao fazer o jogo da direita. De cara já perde 30% dos votos do eleitorado. É isso aí, segue na cola do Serra, do Aécio, da Globo, do Barbosa…O bom de tudo isso é que pelo menos agora ele já deixou cair a máscara,

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    Alberto Nasiasene

    19 de maio de 2013 às 20h43

    Não se deve confundir Pernambuco com o Brasil. Pernambuco nem é um dos maiores colégios eleitorais do país de modo que mesmo que o tal governador que trai o Lula em Pernambuco tenha força eleitoral por lá (mas sem o apoio do Lula a força eleitoral dele irá diminuir em casa), isto é irrelevante para definir eleição presidencial nacional. O que irá ocorrer é a diminuição da bancada do PSB no Congresso Nacional e a debandada de muitos políticos deste partido para outras legendas, por divergências políticas com a orientação centralizadora que o governador de Pernambuco está imprimindo ao partido, sem consultar as bases no país.

    jose tilasco silva

    01 de junho de 2013 às 11h04

    O político tem várias mascaras, uma para da ocasião. A corrida eleitoral é como você olhar para as nuvens, mudam a todo momento até chegar a hora da tempestade.
    O Brasil está precisando de homens sérios e honestos que possam governar esse gigante adormecido e oferecer à sociedade progresso e dignidade.

paulo

18 de maio de 2013 às 10h27

O Brasil , os .eleitores, o governo e os candidatos são outros. Mas a mídia ainda é a mesma, não mudou nada e sempre tentará um novo Collor.

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    JOTACE

    19 de maio de 2013 às 23h57

    A fadiga política traduzida no voto-castigo do eleitorado face a certas situações criadas pelo governo quase leva ao debacle a eleição de Maduro na Venezuela. Convém notar a diferença de anos-luz entre linhas e comportamentos de governo daquele país e o brasileiro que, de fato, sempre se colocou de costas para o povo. Se não surgir um candidato que polarize toda a esquerda brasileira como, por exemplo, o Requião, é de se esperar que o voto-castigo irá pôr abaixo os sonhos petistas de continuidade e os que estão no Poder há tanto tempo serão dele alijados para sempre.

Wanderson Brum

18 de maio de 2013 às 09h02

A direita tem interesse na cadidatura de Campos caso exitosa é seria uma forma de dividir a esquerda, assim como o PT dividiu o Casa Grande e nem super bonder junta mais eles, basta ver os Tucanos dividos entre eles e eles mesmos, ou ainda e a quase falência dos DEMos…

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JOTACE

18 de maio de 2013 às 03h29

BraSil com Requião

O problema é que o Sr. Marcos Coimbra esqueceu não um detalhe, mas muitos do conjunto de sintomas, que servem de base a uma correta diagnose. Sua visão de ‘médico’ petista não evita esteja ele, apesar de erudito, provido de uma visão curta do que se passa no Brasil. Por isso, seu trabalhado raciocínio para induzir como que já reeleita a candidata, a Presidente Dilma. Mas se o autor do artigo puser os óculos adequados que lhe permitam a visão correta enxergará, por exemplo, os milhões de brasileiros descoroçoados com a entrega inexplicável do patrimônio nacional aos piratas estrangeiros e nacionais, e as bandalheiras que continuaram a suceder até com mais ênfase nos três sucessivos governos petistas, particularmente no atual. Mais do que nunca, é a vez do Requião, a vez do BraSil. Como milhões de outros brasileiros, poderei finalmente honrar o meu voto malbaratado com a enganação, a conversa fiada, as promessas falazes dos presidentes petistas sequiosos do poder e cinicamente desrespeitosos dos seus compromissos.

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    AlvaroTadeu

    18 de maio de 2013 às 12h30

    JOTACÊ, se você tiver razão, os milhões de brasileiros que ainda possuem cérebro repudiarão Dilma. Isso é razoável. Mas a forma de repudiar Dilma será votando no Aécio? Claro que não. Desse ponto de vista, os argumentos de Marcos Coimbra são bastante razoáveis. Hoje não se pode garantir quem vencerá as eleições de 2014, mas podemos garantir que nem você nem eu se sairmos candidatos, terá mínima chance de vencer. Todos os estádios que não ficariam prontos, ficaram, a “disparada da inflação” sossegou, já posso contar com belas rodelas de tomate na minha salada. Aécio vai crescer de 10% para 51% até o ano que vem? Se houver exame antidoping nos candidatos como há nos atletas olímpicos e nos de futebol, o PSDB estará perdido.

    JOTACECaro Álvaro Tadeu,

    19 de maio de 2013 às 04h39

    Caro Álvaro Tadeu,

    Grato pelo sua intervenção. Contudo, pareceu-me que você está a colaborar com o raciocínio de que além da Dilma não devem ser considerados outros candidatos ou outros possíveis candidatos. A vitória da candidata de Lula, seria um fait accompli e por isso todos deveriam votar nela. Primeiro que tudo, lembro que o eleitor pode dispor em sua consciência de outras alternativas como por exemplo votar em branco, votar nulo. E ainda pode o eleitor raciocinar que,do jeito em que estão as coisas com a bandalheira oficial da privataria cada dia maior, ele deve optar pelo chamado voto-castigo. Há exemplos terríveis no Brasil, como foi o caso do celebrado Bode Cheiroso eleito vereador em Pernambuco… Um cordial abraço, Jotace

Anderson Santos

17 de maio de 2013 às 23h32

Qual é o problema do Sr. Marcos Coimbra ser petista? A veja, a globo, a folha, o estadão,…todos são tucanos.

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Fabio Passos

17 de maio de 2013 às 23h09

A perspectiva de derrota para aecio e evidente.
Creio que ha possibilidade real dele nao aceitar ir pro sacrificio e desistir.
Pode ser que o candidato do PiG seja serra mais uma vez.

Tem espaco para uma opcao competitiva pela esquerda.
O nome ideal seria Roberto Requiao.

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Sagarana

17 de maio de 2013 às 22h15

Quem vai acreditar nas “pesquisas” feitas pela empresa desse cidadão?

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Willian

17 de maio de 2013 às 17h12

Não há um artigo de Marcos Coimbra que não sirva aos planos do PT. Não sei se ele é petista, mas finge bem.

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    francisco pereira neto

    17 de maio de 2013 às 23h18

    Sinal de bom gosto.

    lulipe

    18 de maio de 2013 às 00h46

    É discípulo de Nostradamus, sabe tudo o vai acontecer nos próximos mil anos. Na política então…Será que ele me enviaria os números da próxima mega-sena???

    francisco pereira neto

    18 de maio de 2013 às 16h25

    Números da mega sena?
    Vai trabalhar vagabundo!!! Kkkkkkk…

    Ricardo JC

    20 de maio de 2013 às 18h55

    Certamente não é discípulo de Nostradamus…mas tem acertado muito mais do que Mervais, Catanhedes, lulipea e willians…isso posso te garantir!!

    Bonifa

    19 de maio de 2013 às 23h03

    Basta não fingir para ser “acusado” de petista.


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