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Marcelo Zero, sobre intervenção na Venezuela: Reprise da derrubada de Allende no Chile
Política

Marcelo Zero, sobre intervenção na Venezuela: Reprise da derrubada de Allende no Chile


27/02/2018 - 22h44

Foto: Beto Barata/PR

A Intervenção na Venezuela e o Brasil

por Marcelo Zero*

Aparentemente, os EUA estão pretendendo acelerar os preparativos para uma intervenção mais aberta e incisiva na Venezuela.

Após as declarações de Trump, de que não descartaria uma intervenção militar naquele país, o Secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, em discurso na Universidade do Texas, em 1º de fevereiro, sugeriu que solução para a Venezuela poderia vir de um golpe.

Tillerson, em recente passagem pela América Latina, onde visitou México, Peru, Colômbia e Argentina, concentrou todos os seus esforços em convencer os governos desses países a apoiarem medidas mais duras contra o regime chavista da Venezuela.

Na Colômbia, o Almirante Kurt Tidd, chefe do Comando Sul dos EUA, reuniu-se com militares daquele país para tratar da “desestabilização regional” causada pela Venezuela.

Tidd tem argumentado que a crise da Venezuela “requeria ações militares para enfrentar a situação humanitária”.

O uso das chamadas “crises humanitárias” para justificar intervenções de todos os tipos vem de longe.

A intervenção militar dos EUA contra a Sérvia foi legitimada, por Bill Clinton, como uma ação necessária para lidar com a crise humanitária no Cosovo.

Na ONU, essa lógica um tanto estapafúrdia de responder a crises humanitárias com violência ficou conhecida como a “responsabilidade de proteger” (R2P).

De lá para cá, muitas intervenções militares e políticas do interesse dos EUA e aliados foram também justificadas com essa lógica canhestra de enfrentar crises humanitárias com a “responsabilidade de proteger” as populações atingidas.

As invasões da Líbia e da Síria foram justificadas, ao menos parcialmente, com essa lógica aparentemente altruísta e humanista.

De um modo geral, as “crises humanitárias” são criadas ou agravadas por aqueles interessados na intervenção e na derrubada de regimes considerados inconvenientes ou perigosos aos interesses geoestratégicos dos EUA e aliados.

Esse investimento nas “crises humanitárias” muitas vezes envolve o dispêndio de grandes quantias de dinheiro e o uso de bloqueios comerciais e financeiros.

Na Ucrânia, por exemplo, calcula-se que os EUA tenham gasto cerca de US$ 5 bilhões, para promover os protestos violentos e a “revolução laranja”.

No caso da Venezuela, esse investimento na desestabilização do regime chavista vem de longe.

Em 2002, os EUA contribuíram decisivamente para promover o golpe de Estado contra Chávez.

O fracasso do golpe não impediu, entretanto, que tais esforços continuassem.

Não há dúvida que os EUA apoiam e financiam a oposição mais radical da Venezuela, liderada por Rodolfo López, um político educado em escolas privadas norte-americanas.

Tal apoio inclui o financiamento às violentas “guarimbas” da oposição, que pretendiam criar um clima de guerra civil na Venezuela.

Com a queda dos preços de petróleo, commodity vital para a Venezuela, os EUA aproveitaram para iniciar uma guerra econômica, comercial e financeira contra o regime chavista, de modo a criar carestia e inflação.

O crédito da Venezuela no mercado internacional foi cortado, mesmo com o país tendo pagado suas dívidas religiosamente, o que dificulta enormemente a importação de alimentos, da qual o país depende para satisfazer as necessidades de sua população.

Ao mesmo tempo, as classes dominantes locais escondem alimentos e remédios, os vendem a preços exorbitantes ou ainda fazem contrabando para países vizinhos.

Trata-se de uma tática antiga. Quando Salvador Allende foi eleito no Chile, Nixon ordenou à CIA que fizesse “a economia chilena gritar”.

Com o apoio da elite local, houve locautes, desabastecimento forçado, inflação e carestia.

Na esteira, ocorreram os protestos das “panelas vazias” da classe média chilena, que precederam o golpe de Pinochet.

Protestos depois fielmente copiados por nossa classe média envolvida na pressão pelo golpe contra Dilma Rousseff.

Coincidência? Talvez não.

Muito embora os problemas econômicos e políticos da Venezuela sejam reais e sérios, é óbvio que essa ação de guerra econômica e de incitamento constante ao conflito político violento agrava substancialmente a situação interna daquele país.

Contudo, o advogado e historiador norte-americano, Alfred de Zayas, relator da ONU sobre Promoção da Ordem Internacional Democrática e Equitativa, concluiu, depois de uma visita à Venezuela, que o país não sofre uma crise humanitária, “diferente do que a grande imprensa vem tentando retratar nos últimos dias”.

O relator ainda afirmou que o problema interno da Venezuela tem de ser resolvido de forma diversa.

Segundo ele, a comunidade internacional deve trabalhar a solidariedade com a Venezuela para levantar as sanções impostas pelos Estados Unidos “porque são elas que pioram o desabastecimento de alimentos e medicamentos, é insuportável pensar que tendo uma crise de malária na Amazônia venezuelana, a Colômbia tenha bloqueado a venda de medicamentos e a Venezuela precise recorrer à Índia para obtê-los”.

Tal atitude de solidariedade e entendimento era, aliás, a posição que o Brasil vinha adotando face àquele conflito.

De fato, o Brasil, ao longo dos governos do PT, deu apoio à busca de um entendimento político e pacífico na Venezuela, com o “Grupo de Amigos da Venezuela”, criado no âmbito da Unasul.

O problema é que a opinião do relator da ONU conta muito pouco, ou nada, para os interesses estratégicos dos EUA no subcontinente.

O outro problema é que o Brasil, o principal país da América Latina, mudou radicalmente de posição e passou a apoiar fervorosamente as ações em prol da desestabilização violenta do regime chavista.

Com efeito, a “diplomacia” do golpe fez do isolamento da Venezuela a sua grande razão de ser.

O Brasil foi o principal ator na exclusão da Venezuela do Mercosul, inclusive sob a invocação do Protocolo de Ushuaia, o que não deixa de ser irônico, partindo de um governo surgido de um golpe parlamentar.

Saliente-se que o governo do golpe não poupou esforços para atingir esse objetivo do agrado dos EUA, chegando mesmo a ameaçar com retaliações comerciais o pequenino Uruguai, caso esse país não concordasse com a suspensão da Venezuela.

Essa atitude do Brasil, secundada pela Argentina de Macri, entre outros, de certa forma concedeu uma espécie de “carta branca” para que os EUA passassem a serem mais incisivos na desestabilização do regime chavista, inclusive com a possibilidade ações militares.

Do ponto de vista logístico, uma intervenção desse tipo, seja para a promoção de um golpe, seja para uma ação militar aberta, não acarretaria grandes dificuldades, já que os EUA têm muitas bases militares na Colômbia e no Caribe.

A questão essencial é obter o aval de países da região para legitimá-la.

Aí é que entra o tema da “crise humanitária”.

É necessário apresentar o quadro de um país ingovernável, regido por um ditador que pune a sua população, para bem justificar uma intervenção desse tipo.

Nesse sentido, é tocante ver como certos veículos de comunicação brasileiros se empenham em cobrir o afluxo de venezuelanos em Roraima, sempre sob a ótica de que eles são vítimas de uma “cruel ditadura”, e não de uma guerra econômica contra o regime da América Latina que mais realizou eleições neste século e que acaba de marcar pleito para o dia 22 de abril do corrente.

É difícil de dizer, a priori, se e como o Brasil poderia participar de uma aventura irresponsável como essa.

Não obstante, o governo do golpe já deu mostras de total comprometimento com tal “nobre causa”.

Por outro lado, a realização de exercícios militares conjuntos entre Brasil, EUA, Peru e Colômbia em nosso território, algo aberrante na nossa tradição de defesa da Amazônia, sinaliza que, com o golpe, vieram à tona setores das forças armadas empenhados numa mudança da nossa estratégia de defesa, colocando-a sob a órbita de interesses geopolíticos dos EUA.

Mas é possível se afirmar, a priori, que uma intervenção desse tipo, ainda que parcial e velada, acarretaria consequências desastrosas para os interesses brasileiros.

Obviamente, o conflito interno da Venezuela se agravaria, com danos irreparáveis à nossa relação bilateral com aquele país e ao processo de integração regional, que tanto nos beneficia.

Ademais, há o risco de que o conflito venezuelano acabe se internacionalizando, pois nem a China nem a Rússia veriam com bons olhos uma intervenção desse tipo.

A América do Sul poderia acabar ficando numa situação parecida a regiões instáveis do globo, como a do Oriente Médio, por exemplo.

Enfim, um desastre completo, como soe acontecer em todas as “intervenções humanitárias” que os EUA fazem.

Os países acabam sendo destruídos e as populações que seriam “protegidas” sofrem muito mais.

Só se salva o petróleo, que é desviado para o mercado mais voraz do planeta.

Não se espere, porém, racionalidade do governo dos EUA, ainda mais na gestão de Donald Trump.

Poder-se-ia esperar racionalidade do Brasil. Não mais. Mesmo com mesóclise.

O governo do golpe rompeu com todos os parâmetros e paradigmas e dedica-se, com notável empenho, na destruição e na venda do Brasil.

De um governo como este, que não hesita em ser desumano com sua própria população, atendendo aos interesses do “mercado”, pode-se esperar apoio a “intervenções humanitárias” contra vizinhos, atendendo aos interesses de seus donos. Vira-latas podem ser raivosos.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

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10 comentários

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Luiz A A do Sacramento

03 de março de 2018 às 21h02

Está tudo aí, Nelson. Suas palavras dão a exata dimensão do verdadeiro problema que aflige e deturpa corações e mentes mundo à fora.Por falta de maior empenho. muitas pessoas estão se deixando levar pelos acenos enganosos da mídia hegemônica.

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Nelson

03 de março de 2018 às 19h11

Uma pequena mas importante correção. Eu afirmei que “quase 7 milhões de colombianos que, nos últimos trinta e poucos anos, foram obrigados a deixarem seu país e a se refugiarem em terras venezuelanas”.

Na verdade, o êxodo colombiano em direção à Venezuela iniciou-se pouco depois do assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, em abril de 1948, e veio se intensificando nas décadas seguintes. Foi mais um assassinato político que contou com o apoio do governo dos EUA.

Gaitán, que propunha um projeto nacional e popular, contrariando os interesses dos EUA no país, seria o mais votado na eleição presidencial que iria ocorrer no ano seguinte.

De todo modo, eu nunca vi a mídia hegemônica e seus comentaristas se referirem a tamanho êxodo. Pelo menos não no tom e com a forma exaustivamente repetitiva como a que faz em outros casos, como o da Venezuela e da Síria, por exemplo.

Seletividade abjeta.

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leonardo-pe

03 de março de 2018 às 17h47

sinceramente não entendo por que querem acabar com a Venezuela. e pior, são brasileiros que torcem por isso. indo atrás dos estados unidos e imprensa nacional(que é alinhada com os estados unidos). depois quando se diz que o brasileiro é midiotizado, acham ruim. sobre o macri, esse é outro que cavou sua cova.

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Izaías Almada

02 de março de 2018 às 15h38

O que o comentarista NELSON talvez tenha querido dizer ao tal LEONARDO é que ele é uma dessas pessoas que não conseguem caminhar e mascar chicletes a mesmo tempo: é muito difícil, rsrsrs….

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Leitor

02 de março de 2018 às 10h15

A Venezuela foi asfixiada por sanções internacionais e tb má administração. Não há como negar centenas de milhares de refugiados. As pessoas fogem das suas pátrias quando já nada mais importa deixar para trás.
É doloroso ver isso na América Latina. Estamos nos africanizando e virando campo de caça do capitalismo imperialista e não diria transnacional, torque tem sede e pátria em em algumas nações.

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Leonardo

01 de março de 2018 às 11h30

BURRO é quem acredita que o problema da Venezuela foi preço de petróleo que caiu !!!

E só afetou a venezuela né kk

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    saulo

    01 de março de 2018 às 23h24

    A Rússia também sofreu bastante.
    Teve que alterar diversas políticas econômicas.
    Procure se informar um pouco mais.

Leonardo

28 de fevereiro de 2018 às 09h21

e vcs adoram ver TODO MUNDO PASSANDO FOME IGUALMENTE né?

Vcs ADORAM.

Pergunta lá pro povo venezuelano que não tem o que comer graças as politicas de esquerda, se eles não querem uma intervenção de qualquer tipo.. na vida deles

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    Nelson

    28 de fevereiro de 2018 às 15h58

    Comentário típico daqueles que sublocaram seus cérebros para o Sistema de Poder que domina os Estados Unidos. Aqueles que se deixam manipular pela avassaladora propaganda ideológica e mentirosa desse sistema.

    Infelizmente, não é apenas o Sr Leonardo que se encontra nesse time, mas centenas de milhões pelo mundo afora. Gente que adora pensar com a cabeça de seu amo.

    Eu não tenho visto, da parte dessa gente, e também do Sistema de Poder que domina os EUA, a mais mínima preocupação com o massacre de milhares e milhares de iemenitas que vem sendo provocado pelas forças armadas da Arábia Saudita. Não há a mínima preocupação com os milhões de pessoas a passarem fome no pequeno país asiático.

    Eu não tenho visto a mais mínima preocupação do Sr Leonardo com o povo líbio, o povo que tinha o mais elevado padrão de vida de toda a África e viu seu país ser reduzido a escombros ao mesmo tempo em que era jogado nas mãos de hordas de fanáticos assassinos armados até os dentes pelos civilizados países da Europa e da América do Norte.

    Eu não tenho visto a mais mínima preocupação do Sr Leonardo com o povo iraquiano. A invasão e ocupação do Iraque pelas forças armadas dos EUA e seus cúmplices provocou a morte de mais de 1 milhão de iraquianos. Foram assassinados diretamente pelos bombardeios ou pelas doenças dele advindas.

    Milhares de toneladas de urânio “empobrecido” foram jogadas sobre o país gerando a explosão dos casos de câncer e de nascimento de crianças deformadas. Mas, a mídia hegemônica, hoje tão preocupada com os venezuelanos, que estariam fugindo ou morrendo de fome aos milhões, nada, nunca disse uma vírgula sobre a tragédia iraquiana, provocada, é bom repetir, pelos civilizados da Europa e da América do Norte.

    Eu não vejo preocupação do Sr Leonardo com o sofrido povo haitiano. Por duas vezes, quando os haitianos decidiram usar de seu direito inalienável de escolherem seu comandante, Jean Bertrand Aristide, os governos dos EUA optaram por derrubá-lo.

    Aristide ousava conduzir o país por caminhos que destoavam do prescrito pelos donos do mundo. Obviamente, esses golpes de Estado apoiados pelos EUA só aumentaram ainda mais a o desemprego, a fome, a crise e a penúria do povo haitiano.

    Eu nunca vi o Sr Leonardo demonstrar preocupação com os quase 7 milhões de colombianos que, nos últimos trinta e poucos anos, foram obrigados a deixarem seu país e a se refugiarem em terras venezuelanas.

    Eles fugiam da duríssima repressão que lhes foi impingida por grandes corporações capitalistas. Paramilitares ou o próprio governo fizeram esse trabalho, contra seu próprio povo, em favor das grandes corporações.

    Mas, os órgãos da mídia hegemônica, que sepre se mostram preocupados com os problemas humanitários, tal como fizeram com as vítimas iraquianas, nunca disseram uma vírgula sobre esses milhões de refugiados colombianos.

    Bem, eu poderia seguir escrevendo muitas linhas mais sobre a seletividade da preocupação que têm demonstrado a mídia hegemônica, os governos dos EUA, seus acólitos e adoradores – tipo Leonardo – para com os problemas dos povos.

    Porém, creio que os casos que citei já bastam para demonstrar o quão falsas são essas preocupações. Já bastam para expor o tamanho do cinismo e da hipocrisia de gente que se apresenta como campeã insuperável da defesa dos direitos humanos.

Julio Silveira

28 de fevereiro de 2018 às 05h48

A maquina de guerra assassina e suas corporações ladras yankes, precisam tanto de medo para se justificarem a seu povo que necessitam sempre criar algumas Coreias do Norte mundo afora.

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