Por Marcelo Zero*
O anúncio da retirada das últimas tropas estadunidenses do Iraque traz algum alívio e foi comemorado, naquele país, como uma espécie de independência.
Na ocupação, que durou 23 anos, calcula-se que cerca de 300 mil iraquianos tenham morrido devido à violência trazida pelo conflito.
Mas, se contarmos as mortes causadas indiretamente pelo conflito, como as relacionadas à fome, às doenças, à precarização dos serviços públicos essenciais etc., esse número pode ter ultrapassado a casa de 1 milhão.
Segundo a Universidade de Brown, o número total de mortes ocasionadas pelas guerras ocorridas após o 11 de setembro (no Iraque, no Afeganistão, na Síria e no Iêmen) deve se situar entre 3,6 e 3,8 milhões, a grande maioria civis.
Assim, os iraquianos têm, de fato, algo a comemorar.
Porém, ainda resta, no Iraque, um problema enorme de soberania: além de não ter mais forças armadas capazes de defender o país, Bagdá não recuperou o controle sobre seus próprios recursos econômicos e financeiros.
As empresas que produzem e exportam o petróleo do Iraque, em sua maioria estadunidenses, são obrigadas, por Washington, a depositar seus pagamentos, em dólares americanos, em uma conta específica nos EUA.
O governo dos EUA controla essa conta e envia, no ritmo e na escala que lhe convier, os dólares para Bagdá.
De forma direta, como seria o correto, o governo de Bagdá não recebe um centavo sequer das petroleiras que atuam no Iraque.
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Esse mesmo modelo está sendo aplicado, agora, na Venezuela.
Algo muito conveniente para os EUA, pois reforça a associação entre o mercado do petróleo e o dólar e, ao mesmo tempo, assegura um férreo controle geopolítico em países produtores dessa commodity estratégica. Obviamente, há a tentação de estender esse modelo o máximo possível. O Irã resiste, até agora.
Imaginem se o petróleo brasileiro tivesse que percorrer esse caminho. Seria um desastre para o país.
Fico imaginando se Eduardo e Flávio Bolsonaro já conversaram com Marco Rubio e Trump sobre as nossas reservas de hidrocarbonetos, especialmente sobre o óleo da Margem Equatorial.
Afinal, quem prometeu um lugar para os EUA na equipe de transição e o acesso privilegiado às nossas terras raras pode ter prometido outras coisas. Quem sabe uma venda “camarada” da Petrobras a empresas ou grupos financeiros dos EUA?
Quem sabe o acesso exclusivo às nossas novas reservas?
No mundo repugnante do entreguismo e dos traidores da pátria, tudo é possível. Nada faz corar.
Brasília está muito distante de Bagdá, mas não está tão distante assim de Caracas. E os tentáculos da Doutrina Donroe são poderosos e longos.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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