VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Marcelo Zero:  Golpe abriu a caixa de Pandora do autoritarismo brasileiro e pode estar ensaiando uma ditadura
Política

Marcelo Zero: Golpe abriu a caixa de Pandora do autoritarismo brasileiro e pode estar ensaiando uma ditadura


16/02/2018 - 17h31

Fotos: Beto Barata/PR, via Fotos Públicas

Golpe pode Estar Ensaiando uma Ditadura

por Marcelo Zero

O governo golpista não está intervindo no Rio por causa da segurança pública.

O Golpe está intervindo no Rio por causa de sua própria segurança.

Era evidente, desde o princípio, que a agenda ultrarregressiva e antipopular do Golpe demandaria crescente geração de um Estado de exceção.

De uma democracia tutelada pelos interesses do grande capital, auxiliado pela mídia corporativa e por uma casta burocrática formada por juízes e procuradores neoudenistas.

A condenação de Lula em segunda instância demonstrou que o golpe cruzou o Rubicão da democracia e mandou às favas todos os pruridos com a vida democrática e a soberania popular.

A intervenção no Rio pode ser o primeiro passo para a implantação de um escancarado regime autoritário civil-militar, que assegure a implantação da agenda ultraneoliberal e que se contraponha à candidatura de Lula e a qualquer possibilidade de resistência popular ao Golpe.

O maravilhoso desfile da Paraíso de Tuiuti mostrou que a população não engole mais o enredo destrutivo do Golpe.

Por outro lado, com a desistência de Huck fica cada vez mais evidente que o Golpe não tem solução político-democrática para se firmar e se perpetuar.

O Golpe teme a democracia e as eleições.

O Golpe e sua agenda têm de se firmar e perpetuar na marra.

Ressalte-se que o “caldo de cultura” para a “solução autoritária” já foi criado pelo Golpe e pela mídia venal, que difunde o medo na população.

O processo do golpe parlamentar que levou ao poder a “turma da sangria” e a Lava Jato partidarizada corroeram o sistema de representação, criminalizaram a atividade política e retiraram a credibilidade das nossas instituições democráticas.

Com efeito, a tentativa canhestra de criminalizar o PT, Lula e o modelo socialmente progressista que vinha vigorando até então acabou resultando na criminalização de toda a atividade política e do sistema democrático de representação.

O voto popular, base última das democracias, foi cassado pela quadrilha que tomou de assalto o poder.

A partir daí, parafraseando Nietzsche, tudo se tornou permitido e o Brasil acabou mergulhando na pior crise econômica, política e institucional da sua história.

O fato é que o Golpe abriu a caixa de Pandora do autoritarismo brasileiro.

Nas manifestações de rua que antecederam o golpe, os partidos conservadores se misturaram com os grupos francamente protofascistas que pediam intervenção militar e condenavam a democracia, a política e tudo que fosse considerado de esquerda ou progressista.

Ninguém, no centro e na direita, se preocupou em delimitar terreno.

Ninguém se preocupou em defender a democracia e a atividade política.

Na ânsia de tirar o PT do poder a qualquer preço, fez-se terra arrasada da democracia brasileira e de suas instituições.

Cassaram 54,5 milhões votos e apearam a presidenta honesta para colocar em seu lugar um grupo que todo mundo, já na época, sabia perfeitamente ser uma quadrilha da pior espécie. Não importava.

O importante era tirar a Dilma e promover as reformas ultraneoliberais que restituiriam as taxas de lucro das oligarquias conservadoras, que nunca tiveram compromisso real com democracia.

O resultado é que, desde o fim da ditadura militar, que a democracia não anda tão em baixa no cenário brasileiro.

Essa afirmativa inquietante pode ser corroborada pela pesquisa anual feita pelo Instituto Latinobarômetro, que, desde 1995, afere a credibilidade das democracias na América Latina.

Nessa pesquisa, pergunta-se aos entrevistados se consideram que a democracia é preferível a qualquer outro regime político ou se, em certas circunstâncias, um regime autoritário pode ser preferível.

Pois bem, o apoio dos brasileiros à democracia como o regime preferível a quaisquer outros caiu de 54%, em 2015, para apenas 32%, em 2016.

Ou seja, hoje em dia 68% dos brasileiros acham que um regime autoritário poderia ser preferível à democracia ou ainda consideram que seria indiferente ter um ou outro sistema.

Para nossa vergonha, estamos na lanterninha em toda a América Latina, nesse aspecto.

Só perdemos para a Guatemala, onde o mesmo índice de apoio à democracia é de 31%.

O mesmo fenômeno explica porque pré-candidatos claramente identificados com a ditadura militar e o autoritarismo, como Bolsonaro, por exemplo, desfrutam hoje de grande popularidade, superando, em muito, políticos tradicionais, à exceção de Lula que não para de crescer nas pesquisas.

A fúria autoritária que tomou conta do país com o processo golpista explica também porque hoje qualquer juizinho de província se julga no direito de proibir exposições de arte, condenar reitores universitários ao suicídio ou de impor a “cura gay”.

O Brasil se tornou um país de reacionários medíocres e caricatos.

Não se enganem. A maior parte da população aplaudirá a intervenção, contra a opinião do Comandante do Exército, General Villas Boas, que acha esse modelo de intervenção “desgastante, perigoso e inócuo”.

A intervenção não resolverá nada, mas poderá criar a falsa sensação de que as coisas estão se resolvendo com o uso autoritário da força, não com o voto.

A depender do resultado, e com o prestimoso auxílio da mídia, poderão ser feitas outras intervenções, não só em Estados, mas contra movimentos sociais e partidos políticos.

Os procuradores da Lava Jato e os juízes comprometidos com o Golpe com certeza acharão “argumentos jurídicos” para tal. Sempre acham.

O Brasil vive um momento muito parecido com o vivido pela Alemanha na República de Weimar.

Lá, os nazistas aproveitaram bem o sentimento de insegurança trazido pela crise para chegar ao poder.

Aqui, a população, ante a crise causada pelo próprio Golpe, poderá ser convencida que a melhor solução é a “saída autoritária”.

É a estratégia que Naomi Klein descreveu na “A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre”.

Cria-se um ambiente de caos, difunde-se o medo e voilá! temos que nos render às “soluções” ultraneoliberais.

Desse modo, a crise provocada pelo próprio Golpe, o desastre social do Golpe, que causa insegurança e medo, poderia ser usado para tentar perpetuá-lo.

Claro que não seria uma quartelada. Seria algo mais complexo e sutil.

Porém, há muitas maneiras de manejar ou melar uma eleição, ou mesmo de postergá-la. Com a mídia e o judiciário ajudando, o céu (ou o inferno) é o limite.

Já não vivemos numa democracia. Vivemos, no máximo, numa semidemocracia.

Mas a intervenção no Rio pode ser o ensaio da passagem da atual semidemocracia para um regime autoritário mais duro, justificado pelo medo e a insegurança e legitimado por um judiciário cada vez mais conservador e prepotente.

E pode não ser apenas no Brasil.

Com a desculpa da “crise humanitária”, o Brasil do Golpe poderia participar de uma intervenção militar na Venezuela.

Com isso, as duas maiores rendas petroleiras da América do Sul ficariam nas mãos de quem apoiou o Golpe desde o início.

Os tempos são ruins, muito ruins. Mas sempre podem piorar.

O Golpe pode estar ensaiando a sua transformação em ditadura.

É melhor botar as barbas de molho. E o samba nas ruas.

Marcelo Zero é sociólogo, especialista  em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI)

Leia também:

Temer  vai à guerra para se manter no poder

Hildegard Angel: Como a Globo “plantou” a intervenção militar no Rio

Ajude o VIOMUNDO a sobreviver

Nós precisamos da ajuda financeira de vocês, leitores, por isso ajudem-nos a garantir nossa sobrevivência comprando um de nossos livros.

Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia

Edição Limitada

R$ 79 + frete

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único

R$ 40 + frete

Pacote de 2 livros - A mídia descontrolada e Rede Globo

Promoção

R$ 99 + frete

A gente sobrevive. Você lê!


10 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Nelson

17 de fevereiro de 2018 às 20h52

Caro amigo Leonardo-pe.

A turma do PT foi apeada do poder, porque colocou o Brasil em um rumo que preservava, em alguma medida, a soberania do país. A meu ver, como já afirmei outras vezes, uma postura tímida.

Essa opção deveria ser bem mais incisiva, incluindo o resgate, para estrito controle público/estatal de setores como as telecomunicações, geração de energia elétrica e petróleo, por exemplo.

E o motivo real para o acosso sem tréguas ao governo venezuelano, que vem desde o ano de 1999, quando Chávez assumiu o poder, é a, isto mesmo, soberania.

Para poder garantir a cada venezuelano e venezuelana a melhora de vida que tinha prometido, Hugo Chávez não tinha outro caminho senão retomar o patrimônio e riquezas do país para estrito do Estado venezuelano.

Responder

    leonardo-pe

    18 de fevereiro de 2018 às 01h25

    concordo com seu Raciocínio! o mesmo acontece na Bolívia com o Gás Natural!

Antonio

17 de fevereiro de 2018 às 08h13

PEZÃO CONFESSA: crime de 2018 foi menor que 2017

Por que Golpe não interveio antes?

No Conversa Afiada:
https://www.conversaafiada.com.br/brasil/pezao-confessa-crime-de-2018-foi-menor-que-2017

Da entrevista do Governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, do MDB, à Globo News, na tarde desta sexta 16/II:

“Sempre soube da violência, e sempre pedi ajuda desde abril de 2014. É a primeira vez que o presidente aceita esse desafio de assumir o comando de estado. Isso foi muito discutido durante muito tempo. Quando falei que houve falha, é porque o que vocês mostraram é verdade. Os números do nosso carnaval foram menores que os do ano passado. A gente não se preparou ali, eu não sei se foi na organização de blocos. A gente tem que conversar com a prefeitura, mais de 200 blocos sem autorização. A gente tem que controlar essa festa”

Em tempo: não deixe de assistir à TV Afiada “Intervenção é o AI-5 dos desesperados”

Responder

Cláudio

17 de fevereiro de 2018 às 04h16

:
: * * * * 04:13 * * * * .:. Ouvindo As Vozes do Bra♥♥S♥♥il e postando:

Poesia contra a distopia (Distopia = Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia. “Distopia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/distopia [consultado em 13-10-2016].)

Poema acróstico para o maior e melhor brasileiro de todos os tempos :

L ouvemos quem bem merece o mais pleno louvor
U m homem simples como as coisas boas da vida
Í ntimo camarada, nosso irmão e amigo de valor
Z elando sempre pelo bem da humanidade querida

I nimigo dos maus, amigo dos bons, trabalhador
N ascido do povo que muito o ama e admira
Á rvore de bons frutos, os de melhor sabor
C onsciência plena de tudo que no mundo gira
I magem perfeita do homem de si senhor
O humano defensor de humana lira

L uz de nossa gente, lutador incansável
U m verdadeiro herói do povo brasileiro
L úcido e consciente do mais admirável
A mor pelo ser humano e verdadeiro

D igno e sincero, fraterno e muito humano
A migo do povo, honesto e sempre lhano

S eja o meu/nosso canto para te louvar
I sso que a voz do povo já disse várias vezes
L ula, o BraSil vive mais feliz só por te amar
V itória da melhor sorte no número treze
A fazer do brasileiro a humanidade a se ampliar.

Autor: Cláudio Carvalho Fernandes ( poeta anarcoexistencialista )

.:.

L uz do povo brasileiro
U m digno e fiel lutador
L astreando com real valor
A honra do BraSil inteiro.

.:.

L ula livrou 36 milhões da pobreza
U m feito memorável sem precedentes
L utando contra a mídia venal, teve a certeza
A bsoluta de estar ao lado dos brasileiros conscientes

.:.

L ivrando da miséria extrema 36 milhões de brasileiros
U m feito sem igual que por si só já bastaria
L ula segue sendo no mundo um dos primeiros
A fazer de seu povo a eterna rima rica de sua poesia

.:.
♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥
* * * * * * * * * * * * *
* * * *
Por uma verdadeira e justa Ley de Medios Já pra antonti (anteontem. Eu muito avisei…) ! ! ! ! Lul(inh)a Paz e Amor (mas sem contemporizações indevidas) 2018 neles/as (que já PERDERAM, tomaram DE QUATRO nas 4 mais recentes eleições presidenciais no BraSil) ! ! ! ! !
* * * *
* * * * * * * * * * * * *
♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Responder

Ramon

17 de fevereiro de 2018 às 01h04

Lamentável e trágico esse governo golpista.
Hoje dia 16/02, vi pelo TV senado, a senadora golpista Ana Amélia e o senador José medeiros, outro golpista, atacando a senadora Gleise na tribuna do senado. O nível intelectual desses dois e da direita com a população é um deboche.
Ana Amélia repetindo o mantra que Dilma cometeu irresponsabilidade fiscal e José Medeiros dizendo que a esquerda tem um discurso muito pacífico nesse momento com os bandidos.
O caminho é tenebroso, que passamos nesse país.

Responder

Messias Franca de Macedo

16 de fevereiro de 2018 às 22h25

O VÍDEO DE DEPOIMENTO NESTA SEXTA-FEIRA, QUE ESCANCARA A FARSA DA LAVA JATO E A PERSEGUIÇÃO CONTRA O PRESIDENTE LULA

Por deputado federal Paulo Pimenta (PT/RS)

16/02/2018
Você verá como os procuradores delimitaram a operação aos anos do governo Lula. Pedro Barusco reconheceu que recebia propina desde 1996 na Petrobras, mas quando ele foi elaborar uma planilha de propinas, após fechar acordo de delação com o MPF, o documento começa em 2003.
Ao final do depoimento o juiz Moro ainda tentou consertar a situação, mas deixou ainda mais explícito que a operação funcionou seletivamente, segundo critérios políticos, e tinha como objetivo principal forjar uma denúncia contra Luiz Inácio Lula da Silva.
Assista e compartilhe! Esse vídeo não será mostrado pela Rede Globo.
https://www.facebook.com/deputadofederal/videos/1826201127472835/

Responder

Nelson

16 de fevereiro de 2018 às 22h03

“Com isso, as duas maiores rendas petroleiras da América do Sul ficariam nas mãos de quem apoiou o Golpe desde o início.”

Para mim, meu caro Zero, o petróleo brasileiro e o petróleo venezuelano ficariam “nas mãos de quem” muito mais do que apenas “apoiou o Golpe desde o início”.

Ficariam sob controle de quem planejou e está a monitorar o golpe, para que todos os seus objetivos sejam atingidos, sem retrocessos.

Dentro do planejamento dos que detêm o poder no sistema capitalista mundial, Estados Unidos à frente, não está previsto qualquer tipo ou nível de tolerância para com projeto nacionais.

O estabelecimento, em definitivo, de um governo mundial, como quer esse grande poder, não admite mais que os estados nacionais trilhem caminhos de soberania.

Por causa disso, já tombaram os governos do Iraque [Sadam Hussein], da Líbia [Kadaffi], da Sérvia [Milosevic], do Haiti [Bertrand Aristide] e estão sendo acossados, violentamente, para que cedam os governos da Síria [Assad] e da Venezuela [Maduro].

Responder

    leonardo-pe

    16 de fevereiro de 2018 às 23h54

    sinceramente não entendo esse fetiche de querer incluir a Venezuela nisso. eles lá não são o povo passa recibo daqui. nem os Militares de Lá. o exercito brasileiro mostrou de que lado está. e não é do povo. é da imprensa.

Lukas

16 de fevereiro de 2018 às 22h00

Dependendo do lado do porrete que você está, uma ditadura pode não ser ruim. Por exemplo, Cuba nem é considerada uma ditadura por alguns.

Responder

Fábio de Oliveira Ribeiro

16 de fevereiro de 2018 às 18h46

Essa intervenção militar no Rio de Janeiro não vai reduzir o poder do crime organizado. Ela vai apenas organizar melhor os criminisos que assaltaram o poder em 2016.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.