O ERRO DO BARÃO
Por Manuel Domingos Neto*
Com o rapto de Maduro, o flibusteiro que ainda dá as cartas no jogo internacional estendeu a guerra à América do Sul, espaço que Washington sempre julgou reservado para si.
Agora, o Brasil sofre por não ter corrigido erro do cometido pelo Barão do Rio Branco há mais de um século: agregar quase um milhão de quilômetros quadrados ao nosso território brasileiro contando com aparato militar dependente da Alemanha.
O Barão convenceu Hermes da Fonseca a enviar oficiais brasileiros para estagiar no Exército do Kaiser. Inadvertidamente, ou não, nos meteu em marmotagem dispendiosa e enganadora: introduzir modernidade militar em país arcaico.
Defesa Nacional não se compra em balcões. Potência militar que vende material de guerra compra a submissão do cliente.
A ilusão de uma força militar moderna em país sem cientistas e industriais persistiu depois da Primeira Guerra Mundial. Sob orientação de espertalhões franceses, o Exército foi transfigurado.
Obviamente, guerras contra potências imperiais não entraram nas cogitações dos instrutores franceses e de seus alunos. Todos estavam de olho em imaginários enfrentamentos com nossos vizinhos. Tal perspectiva nos afundava. É inimaginável defender um país como o Brasil sem o abraço fraterno dos sul-americanos.
Após vultosos gastos, inclusive em estaleiros ingleses, chegamos à Segunda Guerra incapazes de nos defender dos submarinos alemães. Para manter um mínimo de dignidade, coube-nos integrar, subalternamente, o aparato guerreiro dos Estados Unidos.
Findas as hostilidades, nossas fileiras imaginaram-se extensão da OTAN, concebida pelo Pentágono para dominar o mundo.
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As oligarquias fardadas ou de paletó detentoras das rédeas da República ignoraram lição milenar, replicada por Maquiavel: Estado sem armas próprias fica sobre o talante de seu provedor. O erro do Barão foi naturalizado.
Nas últimas décadas, mesmo com os anúncios de transição da ordem mundial, os senhores do Estado persistiram esbagaçando recursos públicos no balcão das potências estrangeiras.
O envio de soldados brasileiros aos Estados Unidos foi intensificado. Multiplicaram-se as operações conjuntas em território nacional, inclusive na Amazônia. Oficiais brasileiros e estadunidenses tornaram-se amigos de infância.
Eis que, em lance rápido, na madrugada de Caracas, o flibusteiro desmoraliza a dissuasão prometida solenemente pelas cúpulas militares: tivesse o Brasil “capacidade de projetar força no entorno estratégico” e exercesse de fato a liderança no subcontinente, tarefa da qual não pode escapar, o rapto de Maduro teria ocorrido?
Ao governo brasileiro, sobra o jus esperniandi diplomático, enquanto o noticiário entretém o povo com a novela “Quem traiu Nicolás Maduro”.
Passa da hora de rever os fundamentos da Defesa Nacional. Não há diplomacia convincente desamparada de força bruta.
Sem força bruta não há sustentação de fronteiras nacionais, ordenamentos jurídicos, regras comerciais nem “livre circulação” por terra, mar, ar, espaço cibernético, espaço sideral…
Força bruta é a principal linguagem das relações interestatais. Queiramos ou não, marcos civilizatórios são corolários da brutalidade. Liberdades, também.
A guerra chegou, não tem data para terminar e ninguém pode prever seu resultado.
Cabe cuidar da Defesa Nacional corrigindo o erro do Barão.
Sepultemos as ilusões. A Política Nacional de Defesa decretada no final do ano passado nasceu velha e fez-se pó na madrugada do último sábado.
Grandes fabricantes estrangeiros de material de guerra não ajudarão a manter nossa soberania. Suspendamos a gastança inútil.
Que tal sinalizar a construção efetiva de uma nova Defesa Nacional fechando os dispendiosos escritórios militares brasileiros em Washington e Londres?
Lula é amado. Precisa, também, ser temido. Do contrário, coitado do Brasil.
*Manuel Domingos Neto é doutor em História pela Universidade de Paris. Autor de O que fazer com o militar – Anotações para uma nova Defesa Nacional (Gabinete de Leitura).
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo




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