Tudo indica que houve manipulação de informações e envio em massa de fake news pelas empresas de tecnologia digital via redes sociais, agora usando também a Inteligência artificial
Por Liszt Vieira*, em A Terra é Redonda
O resultado da eleição no primeiro turno ficou muito aquém do que nós esperávamos, tendo em vista o importante avanço da direita, principalmente no Senado. Mas foi confirmada a previsão de que haveria segundo turno para a eleição presidencial. Todos os institutos de pesquisa erraram, pois todos previram que Lula chegaria na frente de Flávio Bolsonaro por 2, 3 ou 4 pontos.
O objetivo do presente artigo não é fazer uma análise do resultado eleitoral, mas examinar as possibilidades de interferência ou intervenção do governo de Donald Trump, em caso de derrota do seu candidato no segundo turno, o que consideramos difícil, mas bem possível. Afinal, do ponto de vista aritmético, basta Lula tirar um ponto de Flávio Bolsonaro que vence a eleição.
Inicialmente, vamos rever a pressão já desenvolvida pelo governo americano antes da eleição, e refletir sobre o que poderá fazer depois da eleição, em caso da vitória de Lula.
Antes da eleição
A pressão econômica para produzir efeito eleitoral é um dos instrumentos mais poderosos à disposição de Washington: tarifas, sanções financeiras e restrições comerciais. A ideia é provocar impacto negativo na economia brasileira e provocar aumento de preços para desgastar o governo Lula às vésperas da eleição. Além disso, já foi comprovado o financiamento direto do governo de Donald Trump em favor da campanha do seu candidato.
Do ponto de vista diretamente político, o governo de Donald Trump já começou a questionar a confiabilidade das urnas. O governo americano planejou enviar a Brasília os funcionários do Departamento de Estado Riley Barnes e Samuel Samson para reuniões relacionadas ao sistema eleitoral. O Brasil negou os vistos. Segundo fontes ouvidas pelo Washington Post, havia preocupação de que a missão produzisse material capaz de lançar dúvidas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas.
A ideia era questionar antecipadamente a legitimidade da eleição. Se o resultado for desfavorável ao candidato apoiado por Washington, já existiria uma narrativa preparada para contestá-lo. O Washington Post registrou que essas alegações foram contestadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e que missões internacionais de observação consideraram o sistema brasileiro seguro e confiável.
Assim, não parece bem-sucedida a tentativa de produzir uma narrativa internacional de “eleição não confiável”. Mas, em caso de derrota de Flávio Bolsonaro, o governo americano poderia, por exemplo, questionar publicamente decisões do TSE, acusar autoridades brasileiras de censura ou perseguição política, pressionar organismos internacionais a questionar a eleição.
A imprensa americana relatou diversas vezes o apoio diplomático explícito a Flávio Bolsonaro. Na realidade, trata-se de apoio político direto, inclusive através de encontros de alto nível, declarações públicas ou reconhecimento antecipado de determinado candidato como parceiro estratégico. Há registros de contatos entre Flávio Bolsonaro e autoridades americanas, como Marco Rubio e outros integrantes da Casa Branca.
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Outro mecanismo de pressão é a aplicação de sanções dirigidas a autoridades brasileiras, como já ocorreu com o Ministro Alexandre Moraes. Isso teria dois efeitos simultâneos: efeito jurídico/financeiro ao dificultar transações e relações internacionais, e efeito político ao transformar essas autoridades em personagens centrais de uma campanha de desmoralização.
Parlamentares democratas americanos afirmaram que tarifas e sanções já foram utilizadas pelo governo de Donald Trump em relação ao conflito envolvendo Jair Bolsonaro e o STF e pediram a Marco Rubio que reconheça o resultado eleitoral brasileiro. Em setembro, 31 deputados democratas enviaram carta a Marco Rubio denunciando o que qualificaram como uma tentativa coordenada do governo de Donald Trump de pressionar e enfraquecer a democracia brasileira às vésperas da eleição.
Outra possibilidade é uma espécie de “terceirização” da pressão. Ou seja, pressão sobre o Brasil através de aliados regionais dos EUA. O caso de Javier Milei é relevante porque ele participou de evento do PL no Brasil e fez críticas a Lula e a Alexandre de Moraes. Isso poderia criar um ambiente político internacional favorável a Flávio Bolsonaro sem que Washington precisasse aparecer diretamente na campanha.
E poucos dias antes da eleição, o jornalista Glenn Greenwald, hoje alinhado com as posições do governo dos EUA, afirmou que o sistema eleitoral brasileiro é fraudulento porque foi desenhado para garantir a vitória de Lula. Além do apoio da grande mídia comercial ao candidato da extrema direita, ocultando e “naturalizando” a mega corrupção de Flávio Bolsonaro, tudo indica que houve manipulação de informações e envio em massa de fake news pelas empresas de tecnologia digital via as redes sociais, agora usando também a Inteligência artificial.
Segundo a coluna de Jamil Chade, John Kiriakou, ex-agente da CIA e que se tornou uma espécie de celebridade nos últimos anos, foi às redes sociais para denunciar o que ele aponta ser um indício “crível” do envolvimento da agência de espionagem na eleição brasileira. Segundo ele, a CIA estaria agindo nos bastidores da eleição no Brasil, plantando histórias para favorecer Flávio Bolsonaro, criar uma narrativa positiva para ele e induzir a abstenção.
Enquanto isso, órgãos oficiais brasileiros, como a Advocacia-Geral da União e a Polícia Federal, abriram apurações para investigar denúncias e suspeitas de financiamento externo e tentativas de influência política direcionada a influenciar o cenário institucional e pleitos no país.
Depois do primeiro turno
Como Flávio Bolsonaro chegou na frente de Lula, o presidente Donald Trump mudou de postura e elogiou o sistema eleitoral brasileiro pela rapidez na divulgação do resultado, mas chamou o Brasil de Índia. Advertido, horas depois corrigiu o erro.
Essa lua de mel com o sistema de apuração de votos do Brasil deve durar até o segundo turno, provavelmente. Em caso de vitória de seu candidato, novos elogios virão. Em caso de derrota de Flávio, as críticas ao sistema eleitoral retornarão, mas desta vez estarão enfraquecidas pelos elogios anteriores.
Vamos examinar aqui a hipótese de vitória de Lula no segundo turno. Se antes da eleição a interferência visava ganhar votos, depois da eleição, em caso de derrota do candidato de Donald Trump, o objetivo é negar o resultado das urnas, questionando a legitimidade do resultado e estimulando uma pressão internacional para uma revisão ou contestação.
Na realidade, lançar dúvida sobre o resultado já constitui uma forma de interferência política. A própria Abin informou ao governo e ao TSE que elevou para “nível de criticidade” a possibilidade de influência americana nas eleições e identificou uma tendência de escalada da pressão dos EUA sobre o Brasil.
Após o primeiro turno, Marco Rúbio terá à sua escolha um elenco de opções. Entre elas, destacam-se declarações públicas de apoio político, pressão diplomática sobre o TSE e o STF, utilização da pressão econômica como instrumento eleitoral, interferência na divulgação de informações, seja pela mídia ou pelas redes sociais, e não reconhecer oficialmente o resultado.
Três senadores democratas – Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch – enviaram em 29 de setembro uma carta a Marco Rúbio pedindo que o governo de Donald Trump se comprometa antecipadamente a reconhecer o resultado certificado da eleição brasileira, qualquer que seja o vencedor. A grande questão pendente é saber até onde o governo de Donald Trump poderá ir se o seu candidato perder a eleição.
Além das tradicionais sanções econômicas, políticas e diplomáticas, há quem especule sobre a possibilidade de ações violentas e atentados, forjados ou não. Nesse ponto, entramos no terreno da especulação, mas os inúmeros assassinatos e sequestros cometidos pela CIA ou diretamente pelas forças armadas dos EUA autorizam a especulação como válida e prudente.
Por enquanto, Marco Rúbio silencia, Donald Trump elogia a urna eletrônica, mas o big stick voltará se o candidato a gerente da colônia de Donald Trump perder a eleição no segundo turno.
*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de Fragmentos de um discurso ecológico (Editora Gaia). [https://link.amazon/B007S6fn6]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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