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Lenio Streck: O drible da vaca de Moro no Conselho Nacional de Justiça
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Política

Lenio Streck: O drible da vaca de Moro no Conselho Nacional de Justiça


19/11/2018 - 21h15

Periculum in Moro! É a lei ou não é? Eis a questão!

Por Lenio Luiz Streck, no Consultor Jurídico

Aprendi com o velho Elias Díaz, jurista espanhol: quem colocaria em dúvida que, no Estado Democrático, a legalidade só poderia ser uma legalidade constitucional?

Mas, como tudo por aqui no Brasil, há controvérsias. Muitas.

Pedro Serrano e eu escrevemos um texto denunciando que o juiz Sergio Moro, ao fazer a transição de governo junto com Bolsonaro, aceitar o cargo e montar seu gabinete, infringiu a Constituição, a Loman e o Código de Ética dos juízes.

Dias depois, o CNJ abriu procedimento contra Moro, face à representação (ou mais de uma) que lá ingressou. Ou seja, nossa denuncia tinha fumus boni juris.

Para lembrar: em entrevista, Moro já havia dito por que optara por não se exonerar antes de assumir o Ministério da Justiça (razões de salário, segurança e proteção da família).

Porém, face ao procedimento aberto pelo CNJ, Moro teve que mudar os planos. No dia 15, Moro pediu exoneração, contada a partir de 19 de novembro.

Três deputados ingressaram com pedido de cautelar, para impedi-lo de se exonerar antes de resolver esta e outras pendências administrativas que contra ele tramitam.

A cautelar procede. Se Moro pode se exonerar depois do cometimento da própria infração que causou o último procedimento, abrirá um perigoso precedente, além de tornar inócua a proibição de os juízes exercerem atividade política.

Qual é o busílis? Simples: Um funcionário público comete uma infração (grave) e, como a lei somente impede a aposentadoria ou exoneração se estiver respondendo a processo (PAD), bastará que, aberto o procedimento que poderá levar à posterior abertura do PAD, peça exoneração (ou aposentadoria) para que tudo se extinga.

É a lei levando o drible da vaca. Nítido desvio de finalidade da lei.

Claro que não pode ser assim. Uma república na qual todos devem ser tratados igualmente não pode admitir esse discrimen.

Um membro do MP ou do Judiciário que entre em férias durante o período eleitoral não pode fazer o que quiser.

Nem no período eleitoral e nem nunca. Em férias, o máximo que pode fazer é descansar e viajar.

O certo é que não pode fazer atividade política. É o que aconteceu.

Observe-se que Moro aceitou o convite para ser ministro mesmo sem estar em férias.

Quando viajou ao Rio ainda não estava de férias. Aceitou o convite e depois entrou em férias.

Começou a montar o ministério. É juiz e, ao mesmo tempo, presta serviço ao Executivo, violando a separação de Poderes e a CF.

Registre-se: as férias, para o deslinde da controvérsia, são absolutamente irrelevantes.

Tanto é verdade que nem Moro acreditou na “tese das férias”, pois dela desistiu ao pedir exoneração no dia 15 último.

Se estar de férias legitimava o ato de fazer política, por qual razão então se exonerou antes do tempo?

A resposta é óbvia, pois.

Sigo. O certo é que, aberto um procedimento para apurar esse imbróglio – há outros, como sabemos –, Moro pediu exoneração.

Não teria o pedido o objetivo de tornar prejudicado um eventual PAD (que, por consequência, impediria a exoneração)? Por isso, não há outro caminho a não ser o CNJ conceder a cautelar para sustar a exoneração.

Há evidente periculum in mora, porque, exonerado, não há como o Estado buscar apurar uma infração cometida por um servidor. Não há solução diferente ou intermediária.

De observar que os fatos são ainda mais graves se levarmos em conta que o convite para ser ministro da Justiça foi gestado quando o magistrado ainda exercia sua função, conforme declarado pelo general Hamilton Mourão (e não desmentido).

Também reuniu-se, durante a campanha eleitoral, com o anunciado futuro ministro da pasta a ser denominada Ministério da Economia, Paulo Guedes.

Esse encontro foi confirmado pelo próprio juiz, tudo conforme demonstrado no pedido de cautelar feito pelos deputados.

Se for negada a cautelar, estará aberto um grave precedente: todo funcionário, sob ameaça de um PAD, pede exoneração e zera tudo. E o Estado nada poderá apurar.

Estará criada nova forma de exclusão de responsabilidade de funcionário público: o pedido de exoneração antes do PAD.

Lembro ainda das repercussões do precedente no caso de Marcelo Miller. Também estava de licença prêmio ou férias, estão lembrados?

Simples assim. “It is the law”, como disse o médico para o staff do presidente norte-americano na série House of Cards.

Explico: necessitando de um transplante de fígado, seu médico particular queria furar a fila dos transplantes. A resposta foi negativa.

O diretor do hospital agiu por princípio e não por política. Pela lei, a fila de transplantes não pode ser quebrada.

Nem se pelo presidente da República. Bingo.

Qual é princípio – que sustenta a regra – que seria violado? Simples: uma vida é igual a uma vida. E a do presidente não vale mais.

Tudo para dizer que aqui, no caso, Moro não está acima da lei. Juiz não pode exercer atividade política.

Nem por um dia. Nem por vários dias. Aliás, ele mesmo sempre disse que ninguém está acima da lei. Pois é. Nem ele.

Vamos ver como o CNJ sai dessa sinuca de bico. Numa palavra final, não se diga que há má vontade na discussão dos assuntos que envolvem Sérgio Moro.

Usa-se simplesmente Moro contra Moro. Sua rigidez no uso da lei deve também valer para si.

Daí a questão da licença vernacular e semântica que, com todo o respeito, permiti-me fazer no título deste articulum, usando a expressão latina que trata do perigo da demora em Direito. Trata-se de uma licença poético-republicana.

*Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito

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14 comentários

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Candido

21 de novembro de 2018 às 11h32

Esquece, o autor do texto, que a política está acima do Direito. Aliás, o Direito cumpre serviço para a política. Os juristas costumam acreditar que o Direito vem antes de tudo. Mas a vida real não é assim. Nesse sentido, a questão parece cristalina. O CNJ arquivará o procedimento e Moro assumirá como ministro do MJ. E ainda, esse caso não servirá como parâmetro para outras situações envolvendo servidores públicos. É a política, sr. Jurista!

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Philliph

20 de novembro de 2018 às 17h57

1 homem 2 leis. Esse é o juiz do universo. Largou o osso pq sabe que será escolhido pelo Boçalnato como ministro do Supremo.

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well

20 de novembro de 2018 às 15h42

O Brasil acabou

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lulipe

20 de novembro de 2018 às 15h20

“Lula tá preso, babacas!”

Cid Gomes

Responder

    Nelson

    20 de novembro de 2018 às 23h23

    O problema do Lulipe e do restante da coxinhada, trouxaiada, pataiada era a corrupção? Qual nada!

    O problema deles sempre foi um antipetismo doentio, fanático, porquanto irracional.

    Como a direita não tinha votos suficientes para ganhar no campo de jogo, a democracia, Sérgio Moro, TRTs e STF tornaram-se useiros e vezeiros em corromper a nossa Lei Maior para tirar Lula e o PT da jogada.

    E o Lulipe e sua companheirada de fanatismo, que tanto vociferam contra a corrupção do PT, aplaudem, chegam ao êxtase com a corrupção do Judiciário.

    Registre-se que a corrupção do Judiciário acaba por ser ainda mais danosa do que aquela praticada pelos políticos e outros comuns mortais, vez que parte de um poder que deveria ser o guardião, o último bastião da nossa Constituição.

    Corrupção, portanto, que leva à desestruturação muito mais profunda da sociedade, estágio do qual é muito mais difícil escapar.

Jorge Luis

20 de novembro de 2018 às 10h33

Prezados,

Aposto que Moro será nomeado Ministro do STF. Ninguém pede exoneração de um emprego de juiz à toa.

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Eridan

20 de novembro de 2018 às 10h10

Às vezes eu acho nossos (bons) juristas muito inocentes.

E daí se abrirá precedentes? Não ficou claro que existe uma leia específica para Lula e outra que não alcança Moro?

Ou seja, o que ele fez só valerá para ele. Quando outro tentar fazer…

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Wisoli

20 de novembro de 2018 às 07h58

E Continua o chororô.rs

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    Celso Junqueira

    20 de novembro de 2018 às 12h54

    Tomara que um dia o chororô não seja seu… esse mundo dá voltas.

Jardel

20 de novembro de 2018 às 03h36

Como diria o carrasco do Lula: “não vem ao caso”.

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Geraldo

20 de novembro de 2018 às 00h13

So uma pergunta você ja fez algum comentário sobre as regalias que Lula tem na prisao pois dentro da minha ignorancia o codigo penal e igual para todos nao reconhendo a existencia de ex presidentes

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    maria do carmo

    20 de novembro de 2018 às 12h37

    Geraldo para perguntas cretinas respostas engatilhadas.

    Jardel

    20 de novembro de 2018 às 20h23

    Com regalia ou não o Lula tá preso… e o Aécio? E o Serra? E o Geraldo? E o Temer?
    Não vem ao caso?
    Coxinha BABACA!

Zé Maria

19 de novembro de 2018 às 21h21

.
No Poder Judiciário, a Lei de Moro não se aplica ao Juiz Moro.

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