VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Lelê Teles: Depois de servir ao MDB, PT será regurgitado em uma ilha ignota
Foto: Alan Santos/PR
Política

Lelê Teles: Depois de servir ao MDB, PT será regurgitado em uma ilha ignota


06/01/2021 - 15h01

O PT e o sinal de Jonas

Por Lelê Teles

nu como vimos ao mundo e aglomerados em uma praia deserta, estávamos nós três, ascetas em isolamento social voluntário desde sempre: eu, o venerando mestre cafuna e o sapientíssimo cacique papaku, último espécime de sua etnia.

a lua já ia alta e uma deliciante e escamosa carapeba crepitava na fogueira de gravetos e gravanhas – este último vocábulo é um significante sem significado, criado por manoel de barros, cuja única utilidade é servir como material para poesia.

fumávamos, esses três reis magros, o cachimbo do velho cacique e jogávamos conversa fora, maiêuticamente.

areia morna por baixo, céu estrelado por cima e a bruma leve levitando no meio.

falamos sobre deus e o diabo, sobre o cristo loiro de roliúde, o colorismo do movimento negro, o feminismo branco, o vitiligo de maicou djéquisson e sobre a grande buceta que se abriu como arte no solo pernambucano.

“brennand, lembrou mestre cafuna, erigiu diversos falos firmes por hellcife; no marco zero, ele colocou um pirocão de 32 metros de altura a causar calafrios nos transcendentes transeuntes que já não transam a algum tempo; mas a xoxota que brota na terra, aquela vulva seca que se liquefaz em chuvas hídricas, como a fenda funda e fértil de gaia, causou alvoroço no patriarcado e nas mães e futuras mães dos patriarcaloides” protestou o mestre, cafunescamente.

lembrei aos amigos que ao redor do mundo abundam fálicas esculturas e obeliscos, estátuas de homens com suas piroquinhas nuas estão por toda a europa; nos jardins, as senhorinhas deixam-se fotografar, sentadas ao chafariz, tendo ao fundo a escultura de um garotinho nu, a mijar em jacto na fonte.

nos natais, todo presépio tem aquela presepada do menino-deus com a vareta de fora; o problema, segui meu raciocínio, é que a vulva de gaia estava fora de um contexto erótico ou pornográfico, e fora deste contexto, a buceta é uma boca silenciada; nela só se fala ao ginecologista.

a putificação das mulheres e a pornificação da vida, nessa armadilha que é o pornôcapitalismo, faz com que as mulheres tenham duas bucetas: uma, que é estimulada a ser mostrada ao mundo, como mercadoria; e a outra, silente, que recebe o nome de vagina. 

resulta, paradoxalmente, como excesso de exposição e ocultamento; francsico brennand disse certa vez que “a gente não sabe nada sobre o ciclo menstrual e das marés”, acrescentando que a sociedade não apenas desconhece a sexualidade como a banaliza. 

esse é o mal estar, essa é a infelicidade da caretice castrada pelas carolas e pelos canalhas.

papaku lembra que sua tribo era feliz porque não conhecia a palavra felicidade, e muito menos o seu antônimo; por isso, não viviam freudianamente em busca de uma e em fuga da outra. 

os papaku também desconheciam a palavra natureza, essa que é feita de árvores, águas e animais; para os papaku, eles, as árvores e os animais não podiam existir de forma dissociada, “não pode existir a natureza e a gente, isso é bobagem”, desconversava o grande cacique de bunda nua.

pergunto ao nobre cacique sem tribo, que estava vestido apenas com uma minúscula tanga de penachos, o que ele achava dessa aliança das esquerdas em apoio à baleia rossi.

papaku gosta de exemplos bíblicos. como aquele hurão, do voltaire, tentaram catequizá-lo, mas ele acabou por mostrar que são hipócritas as pessoas que usam um livro de lendas e fábulas para enganar o povo, prescrevendo-o como se da verdade falasse.

mas costuma dizer que gosta do livro e o lê sempre.
papaku se esquivou em falar das esquerdas, optou por lembrar apenas do partido dos trabalhadores sem trabalho.

segue o fio do nosso sábio de penachos:

qual jonas, o petê lançou-se de cabeça no lamoso mar em tormenta, oferecendo-se em oferenda e deixando-se engolir, tragado como fumo, pelo cetáceo emedebista.

passará três dias no ventre de baleia (rossi).

depois disso, será regurgitado em uma ilha ignota.

terá o petê, como o jonas da fábula, aprendido a lição? 

sairá o petê, uma vez ressurrecto, às ruas e vielas de nínive, a farejar o cheiro do povo e pregar a boa nova, como bem cobrou certa vez um certo mano brown?”

ninguém disse mais nada e mais nada lhe foi perguntado.

como a carapeba já estava no ponto, brindamos.

palavra da salvação.

PS do Viomundo: Como é tradicional deste site, publicamos artigos expressando posições políticas com as quais não concordamos. Aliás, preferimos que sempre que possível seja assim.





Nenhum comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.


Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding