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Ivone Gebara: “Dilma, não estamos atrás de você mas, ao seu lado, com você”


07/11/2010 - 22h39


1 de Outubro de 2010: Dilma Roussef, primeira presidenta do Brasil!

por Ivone Gebara*, em Adital

Adital – A vitória de Dilma é uma grande conquista para muitas de nós mulheres e para o povo brasileiro. Conquista não apenas política, mas de afirmação de que as mulheres no Brasil passam agora a simbolizar o mais alto escalão do poder público do país. É claro que isto incomoda muita gente, inclusive mulheres, para as quais tal representação simbólica não é necessária. Mas, agora todos os irados e as incomodadas terão que lidar com esse fato: Dilma é nossa presidenta!

Nossa alegria pela vitória está misturada com várias apreensões. Uma delas é em relação à imagem que parte da imprensa quer apresentar de Dilma pelo menos no momento. Além de acentuar seu percurso de guerrilheira a chefe da Casa Civil, a meu ver honroso, apresentam-na como “feita” por Lula, empurrada pelo sucesso do presidente, necessitada de Lula, seguidora fiel do presidente. Sem negar o imenso valor de Lula e de seu papel nessa eleição, muitos acentuam a meu ver uma dependência indevida, como se ela não tivesse trajetória política própria. Esquecem que sua história pessoal com seus acertos e erros a levaram a este cargo máximo da República. Esquecem-se que sua experiência de mulher pública se deu em instâncias diferentes do que a dos cargos políticos eleitos pelo povo. Ela não só conheceu os porões do poder ditatorial, mas as tramas políticas institucionais de diferentes tipos. Fez caminhos que nem sempre a grande imprensa quis conhecer e divulgar. Por isso, sua experiência diversa fará dela uma presidenta diferente.

Além disso, invertem o que se dizia no passado em relação aos grandes homens: “Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”! Agora é em relação às mulheres: “Por trás de uma mulher política deve haver sempre um grande homem” (que deve estar no fundo à sua frente). Assim se pensa em relação à Cristina Kischner e agora em relação à Dilma, embora os contextos e situações sejam diferentes. Assim se pensou em relação à Indira Gandhi, a Michelle Bachelet e a tantas outras. Que homens estariam sustentando-as no poder? Ou que homens poderão sustentá-las no poder? Que homens lhes darão as boas idéias para dirigir o país e os melhores conselhos para decisões presentes e futuras? Que homens serão seus ministros e conselheiros?

No fundo a cultura brasileira ainda guarda uma acentuada e preconceituosa hierarquia de gêneros e, sobretudo uma divisão valorativa entre o trabalho doméstico e o público. É com certa desconfiança que se entrega o poder político a uma mulher identificada simbolicamente com as lidas domésticas. E isso é ainda mais evidente quando ela não aparece acompanhada por seu “primeiro cavalheiro”. Os presidentes da república em geral são acompanhados por suas primeiras damas mesmo que já estejam na terceira ou na quarta dama. Elas precisam aparecer ao seu lado como figuras decorativas e mesmo quando são mulheres de qualidade excepcional devem estar em geral caladas. Pouco se conhece da vida e do trabalho da maioria delas. O importante é salvar a aparência. E afirmar que se respeita uma ordem social estabelecida que muitas vezes é ordem fundada na hipocrisia. Mas, quando a presidenta eleita não tem “primeiro cavalheiro” e aparece andando sozinha apoiada nos próprios pés, íntegra e falando em nome da nação que a elegeu, os gigantes do poder só vêm uma alternativa para seu medo: desprestigiar essa mulher e nela as mulheres. Têm a audácia de mostrar propagandas representando-a como boneca oca ou com um homem desenhado no seu fundo. Não consideram a autonomia feminina, sua força criativa e suas capacidades pessoais. De todo jeito, lhe dão chances, sobretudo, se for rodeada de homens políticos cada um tentando abocanhar um pedaço da fatia pública política.

Se ela, Dilma, faz um discurso de agradecimento depois da eleição que para muitas pessoas foi uma verdadeira síntese de sua política na qual incluiu sua condição feminina e a de todas nós brasileiras, dizem que não houve nada de novo. Insistem em afirmar que o discurso foi lido, que é obra de muitas mãos ou que foi longo demais ou que não contemplou isso ou aquilo. Pode até ser em parte verdade. Mas, não há discursos universais e englobantes de toda a complexa realidade em que vivemos. Todo o discurso tem seus limites e seu ponto de vista imediato. No fundo, para muitos não se trata do discurso. É misoginia à flor da pele ou correndo pelas veias.

Atrevo-me a denunciar as muitas violências públicas em relação às mulheres como um ato político educativo preventivo nesse novo momento histórico. Igualmente é uma chamada de atenção para todos nós, mulheres e homens, em relação aos nossos preconceitos e a nossa incapacidade de acolher e provocar o diferente. Escrevo contra os muitos dragões poderosos que estão sempre preparados a lançar seu fogo destruidor acabando com as esperanças do povo e suas pequenas conquistas. Com certeza eles estão enfurecidos com a vitória de Dilma, a vitória de uma guerreira pela liberdade dos pobres, a vitória em parte representativa da força das regiões norte e nordeste afirmando sua cidadania e sua resistência. Também aqui se acusa o povo de ser ignorante e buscar apenas sua sobrevivência ou os favores do poder ou de seguir cegamente os líderes políticos do momento. Mas como ser politicamente consciente se a barriga está vazia? Como sobreviver se não há casa, comida e trabalho? Como sobreviver com o latifúndio, com os senhores ruralistas e com a mentira da propaganda consumista? O povo nortista e nordestino e outros provaram nesses últimos anos o gosto de uma cidadania incipiente apesar das inevitáveis contradições. E acreditaram que Dilma seria uma garantia para suas presentes e futuras conquistas.

Foram essas mulheres e esses homens da seca, dos mocambos, das palafitas, das ocas, dos terreiros, dos mangues com seus muitos aliados, que reconheceram em Dilma alguém capaz de, por sua história e suas lutas, sentir as dores do povo. Não sei como será seu governo. Não sei como será seu Ministério. Não sei como se conduzirá no futuro. Não sei igualmente que armações os dragões furiosos farão para derrubá-la ou para levantar falsos testemunhos contra ela.

Mas hoje ela está vestida de verde-amarelo, coroada com as vinte e sete estrelas que representam os estados do Brasil. Hoje, ela apareceu pisando nos dragões e com sua força interior conseguiu calar os seus urros e seu sarcasmo.

Reacende-se nossa esperança. Não vamos deixar Dilma sozinha. Vamos ser nós, o povo organizado que governa o Brasil, o povo que opina, discute, sugere e cresce em conjunto. Sejamos muitas e muitos a organizar, a governar, a trabalhar a partir de nós mesmos. Temos que ser o que acreditamos que podemos ser. Começar mudando os nossos próprios comportamentos, com as pequenas coisas do dia a dia. Só assim podemos diminuir a força dos dragões e diminuir o medo que eles inspiram.

Para frente Dilma… Somos aliadas da mesma luta e da mesma esperança. Não estamos atrás de você, mas com você, ao seu lado nessa luta que é nossa.

Novembro de 2010.
* Ivone Gebara é escritora, filósofa e teóloga





20 comentários

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Carlos

25 de fevereiro de 2011 às 17h07

vergonhoso o artigo demagogento e bajulatório da senhora gebara. Aliás, "valorosa senhora", pelo que podemos entender, "vossa senhoria", deve estar soltando rojões pela aprovação do salário mínimo de R$545,00 do congresso a mando de sua "chefe" e o vergonhoso piso salarial que é pago aos profissionais da educação, além do reajuste salarial de 62% dos parlamentares federais.
Por último, sugiro que Vossa senhoria procure estudar um pouco mais a lingua portuguesa e verifique que o termo "presidente" é comum para os dois sexos. "volte às carteiras escolares do ensino fundamental"

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ma.rosa

15 de novembro de 2010 às 00h20

a primeira vez que chorei aqui no pc, foi de raiva pelas mentiras e difamaçoes contra e sobre ela a nossa presidenta!
hoje choro de emoçao ao ler e reler este texto. ivone gebara disse tudo o que nos mulheres e homens de bem desta grande e democratica naçao chamada BRASIL gostaria-mos de dizer sempre em alto e bom . parabens cara ivone.

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Pedro

09 de novembro de 2010 às 20h38

Uma coisa tenho que reconhecer: não esperava que meu comentário incial fosse postado no blog, já que necessita de aprovação de um mediador. Fiquei surpreso ao vê-lo exibido hoje. Isso merece elogio, uma vez que a maioria dos militantes apaixonados de esquerda são extremamente intransigentes quanto a quaisquer críticas que suas ideias recebam.
É disso que precisamos, senhores. Debates limpos, como a resposta do Sr. Paulo Silva, e não comparações com elefantes, Dona Ester.

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Fatima Teixeira

09 de novembro de 2010 às 01h37

Pedro você não entendeu nadica do que a Ivone Gebara escreveu. A Dilma será a despeito do s que torcem contra nossa grande Presidenta, primeira mulher a ocupar tal cargo e com a competência para tal.

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Fabio_Passos

08 de novembro de 2010 às 22h13

Quem disse que o Brasil não pode derrotar todos os preconceitos?

Elegemos para o cargo máximo da nação uma mulher que defende pobre!
Temos de comemorar muito a vitória da Presidenta Dilma.

A extrema-direita que morra afogada na própria bilis…

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Maria Lucia

08 de novembro de 2010 às 21h58

Ivone nos fala dos valores de afeto e respeito, de colaboração e defesa da ética.
Durante essa campanha, muitas vezes me revoltei pensando em como era absurdo o tratamento que o PIG e a campanha do Serra davam a cidadã brasileira Dilma Rousseff, cujo único crime é amar o seu povo e o seu país, e ter muita inteligência e capacidade para ser uma ótima presidente.
Dilma terá o apoio de todos nós brasileiros, que nela votaram, para levar adiante sua missão. E tomara que muitos que nela não votaram também se somem no apoio e no respeito!

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    Fabio_Passos

    08 de novembro de 2010 às 22h38

    Não tenha dúvida que a maior parte dos eleitores do farsante (foram enganados!) torcem para que Dilma tenha muito sucesso.

Aline

08 de novembro de 2010 às 21h46

Bravíssimo Ivone!
Estaremos todas e todos ao lado de Dilma, bradando bem alto que nela confiamos!
O povo está agora vacinado contra todas as maldades diabólicas que usaram na campanha contra ela.
Cerraremos fileiras!

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carmen silvia

08 de novembro de 2010 às 20h17

A muito e a duras penas brasileiras e brasileiros estão se construindo como sujeitos de sua própria história,como todo processo é lento,mas graças ao mais longo período de democracia vivido pela sociedade brasileira,é tb gradual,sem retrocesso.O texto da Ivone Gebara,mais que um artigo é quase um manifesto desse momento que vivemos no país.A somatória de Lula + Dilma =possíblidade de inclusão para todos e todas,mais uma vez eles mostraram que isso é possível.

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Pedro

08 de novembro de 2010 às 19h51

Mais tristes do que esse texto fraco e demagógico, repleto de figuras apelativas e distorcidas, são os comentários acima.
Acho que o maior de todos os seus absurdos foi a comparação de Dilma com Nossa Senhora, mãe de Jesus, no trecho que descreve os dragões e as estrelas que a coroam. Isso foi demais.
Ao terminar de ler as palavras da doutora, sugiro que façamos todos um grande abaixo-assinado direcionado aos criadores da NGB (Nomenclatura Gramatical Brasileira) para que passemos a falar "gerenta", "estudanta" e "agenta". Afinal, é um machismo absurdo o uso dessas palavras, assim como "presidenta", sem a marca de gênero feminina.
Que me desculpem os esquerdistas mais radicais; se forem comentar alguma coisa a respeito de minhas opiniões, que o façam sem a raiva e a parcialidade costumeiras.

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    Ester Nolasco

    08 de novembro de 2010 às 21h10

    Pedro, então um cheiro bem fraterno! Mas vc se parece uma elefante numa loja de porcelana chinesa, mestre! Dila é NOSSA PRESIDENTA!!!!

    Pedro

    09 de novembro de 2010 às 20h31

    Muita fineza sua, dona Ester… Estou sensibilizado pelo "cheiro fraterno!"

    Paulo Silva

    08 de novembro de 2010 às 21h41

    Pedro
    Raiva e parcialidade é o que exibiu a campanha de Serra.
    Provavelmente o que vc estranhou é o tom afetuoso e solidário de Ivone Gebara.
    No entanto, o afeto e a solidariede podem ajudar a ultrapassar todo o clima de ódio e o preconceito que a direita disseminou na campanha. Uma campanha montada com mentiras e todo tipo de crimes contra a honra da candidata Dilma Rousseff. Que estão impunes, por sinal!

Josilda Lisboa

08 de novembro de 2010 às 14h39

Brilhante Ivone Gebara! Fui às lágrimas

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gilmar

08 de novembro de 2010 às 12h30

Ivone, seu texto nos remete a sonhos maiores e as lágrimas banham nossa alma como um bálsamo após uma tenebrosa noite de horrores em que todos os pesadêlos foram mortos, sobrepujados e um novo dia nasceu. Parabéns. PS: Os homens estão ao lado de DILMA também.

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sonia amorim

08 de novembro de 2010 às 12h03

Muito bem, dra. Ivone. Assino embaixo, compartilho de sua visão e posicionamento. Parabéns pelo texto e pela lucidez!

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Ester Nolasco

08 de novembro de 2010 às 09h10

Fiquei quase sem fôlego. Um espetáculo de texto

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Viviane Lacerda

08 de novembro de 2010 às 01h01

Ivone Gebara é de uma lucidez que dói e deixa a gente tonta.

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maria e. ferrarezi

08 de novembro de 2010 às 00h55

A Ivone Gebara disse tudo que nós ,mulheres brasileiras,gostaríamos de dizer a Dilma.Estamos com ela porque através dela chegamos na plenitude de que podemos modificar o nosso país à partir de nós mesmas.Avante Dilma ,presidenta e a primeira dama do Barsil.

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mirtes costa

07 de novembro de 2010 às 23h50

A Ivone Gebara da uma geral de como seremos para Dilma, creio que seremos sim aliadas,daremos tudo pra esse imenso País, tudo em apoio e iremos a Luta, somos assim lindas e maravilhosas e toda mulher é bonita porque todas lutam ! acredito sim no Brasil e na Dilma, somos um País rico e ela saberá conduzi-lo

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