Hugo Souza: Viver, viver!

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Presidente Lula durante manifestação na Avenida Paulista, em SP, no domingo, 11 de outubro de 2026. Foto: Ricardo Stuckert

Governo Lula consegue aprovar no Senado o chamado “fim da escala 6×1”, ou seja, dois dias de folga por semana, em vez de um só, para a gente que anda nessa estrada, no “corre”, de alforje ao ombro.

Por Hugo Souza, no Come Ananás

“Varka lava a escada, arruma os quartos, depois acende outro fogão e corre à venda. Há muito serviço, não sobra um instante de lazer”, diz o narrador de Olhos mortos de sono sobre a babá de 13 anos de idade que nunca consegue dormir porque a criança chora, chora e não se sabe quando vai parar de chorar.

Noite após noite, as sombras projetadas pelo candeeiro entram pelos olhos entrecerrados, imóveis, de Varka enquanto ela embala o berço da criança, “confundem-se, em seu cérebro meio adormecido, em imagens nebulosas”:

“Ela vê nuvens escuras, que se perseguem pelo céu, gritando como aquela criança. Mas eis que soprou o vento, sumiram as nuvens, e Varka vê uma estrada larga de macadame, coberta de lama quase líquida. Sobre aquela estrada, carroças deslocam-se devagar em fila, arrastam-se homens de alforje ao ombro e perpassam sombras estranhas. De ambos os lados, vê-se uma floresta, através do nevoeiro gélido. De repente, os homens de alforje e as sombras caem por terra, na lama semilíquida. ‘Para que isso?’, pergunta Varka. ‘Dormir, dormir!’, respondem-lhe. E eles adormecem profundamente e docemente. Pegas e corvos estão pousados pelos fios telegráficos, gritam como a criança e procuram acordar os homens”.

“Me dá a criança! Está dormindo, animal?”, grita a patroa quando Varka já se via em certa isbá escura assistindo a seu pai morrer por complicação de uma hérnia adquirida de tanto e tanto trabalhar e quase nada descansar.

“Mas não há nada tão difícil quanto ficar parada, diante da mesa da cozinha, e descascar batata. A cabeça tende a pender sobre a mesa, a batata parece saltitar-lhe nos olhos, a faca tomba-lhe da mão. Ao lado dela, vai andando de um lado para o outro a patroa gorda e zangada, de mangas arregaçadas, e fala tão alto que sua voz reboa no ouvido. É outra tortura servir à mesa, um inferno lavar roupa, costurar. Há momentos em que se tem vontade de não ligar a coisa alguma, arremessar-se ao chão e dormir”.

Logo chega a noite outra vez e a criança grita, extenua-se de tanto berrar. As sombras do candeeiro “esgueiram-se novamente para os olhos entrecerrados de Varka, bruxuleiam e enevoam-lhe a cabeça”.

Varka vê novamente os homens de alforje às costas, seu pai gemendo até a morte, sua mãe pedindo uma esmolinha, pelo amor de Deus, após seu pai morrer de tanto e tanto trabalhar.

“Compreende tudo, reconhece a todos, mas, através da modorra, somente não consegue compreender aquela força que lhe amarra pés e mãos, que a esmaga e impede-lhe a vida. Olha ao redor, procura aquela força para se livrar dela, mas não a encontra”.

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Por fim, esgotada, confusa, Varka encontra na outra criança, a mais nova que ela, o inimigo que a impede de viver, que a deixa amarrada de pés e mãos. Tomada pela ideia absurda, estraga sua vida de uma vez por todas.

Olhos mortos de sono é um conto de Tchekhov publicado em 1888 a 10 mil quilômetros do Rio de Janeiro, onde naquele ano foi assinada a Lei Áurea, e 100 anos antes da promulgação da Constituição Cidadã, que consolidou a proibição do trabalho para menores de 14 anos no Brasil. Quando um Bolsonaro lamentavelmente ocupou a presidência da República, defendeu um Brasil de pequenos e pequenas Varkas com as cabeças pendendo sobre as mesas, almejando apenas arremessarem-se ao chão para dormir um bocadinho: “quando um moleque de nove, dez anos vai trabalhar em algum lugar, está cheio de gente aí dizendo que é trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil”.

Nesta quarta-feira, 14, o governo Lula conseguiu aprovar no Senado o chamado “fim da escala 6×1”, ou seja, dois dias de folga por semana, em vez de um só, para a gente que anda nessa estrada, no “corre”, de alforje ao ombro.

No Senado, o único voto contrário a mais tempo de descanso, mais tempo de lazer para os trabalhadores brasileiros, foi do ex-vice-presidente, vice de Bolsonaro, Hamilton Mourão.

O Bolsonaro que tenta levar sua família e seus Mourões de volta à presidência da República já prometeu, reservadamente, aos patrões, voltar com a escala 6×1, reverter a maior vitória das classes trabalhadoras do Brasil desde a Constituição de 1988.

Prometeu também, publicamente, mudar a própria Constituição de 88, ao som dos estalos do chicote empunhado no meio da rua pela deputada catarinense que esteve cotada para ser vice na chapa do nepo capitão do mato.

No próximo 25 de outubro, o trabalhador brasileiro, mesmo exausto, não pode e não vai se deixar confundir pelas sombras bruxuleantes — e pelos corvos dos fios telegráficos — sobre a força que lhe amarra pés e mãos, que o esmaga e o impede de viver.

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