Hugo Souza: ‘O segredo reside nos nervos’

Tempo de leitura: 3 min
O presidente Lula, em montagem sobre foto de Ricardo Stuckert.

Sempre que uma inquietação bate mais forte, tipo às portas de refrega crucial contra o fascismo, lembro de Auxílio, a encantadora protagonista de Amuleto, romance curtinho de Roberto Bolaño.

Por Hugo Souza, em Come Ananás

Manhã de quinta-feira, 22 de outubro de 2026. Faltam 72 horas para o segundo turno. Serão horas de azougue no corpo e mais ainda as outras tantas até o fim da apuração.

Pudera, com “debate” na Globo, TSE sob MAGA direção, Kassio Com Cinco Meninas No Quarto tentando um golpe por dia, quando não dois, os votos dos rincões de 13 estados viajando em órbita baixa via satélites de Elon Musk.

Sem contar o general André Janones zunindo no ouvido — “Urgente! Explode! Missão! —, que Conceição Aparecida assim conserve.

Em momentos de maior ansiedade, inquietação, palpitação, tipo às portas de refrega crucial contra o fascismo, lembro sempre de Auxílio, um tanto amalucada e imensamente encantadora, protagonista de Amuleto, romance curtinho de Roberto Bolaño.

No dia 18 de setembro de 1968, Auxílio foi a última a saber que o Exército invadira a Universidade Nacional Autônoma do México para prender todo mundo, absorta que estava lendo Pedro Garfias no banheiro das mulheres, no quarto andar da Faculdade de Letras e Filosofia.

Naquele dia, depois de um soldado entrar e sair do toalete sem notar o derradeiro reduto de autonomia da UNAM, Auxílio desceu da latrina, sentou nos ladrilhos, aproveitou os últimos raios de luz para ler mais três poemas de Garfias e, fechando o livro, disse a si mesma: “Auxílio Lacouture, cidadã do Uruguai, latino-americana, poeta e viajante, resista”.

Brasília, Distrito Federal, 13 de outubro de 2026: manifestação de apoio à reeleição do presidente Lula. Foto: Walter Campanato/ Agência Brasil

Naquela época, Auxílio ainda tinha os quatro dentes da frente que viria a perder, um após o outro, nos anos subsequentes, na Cidade do México, Distrito Federal, por falta de dinheiro para ir ao dentista, de vontade de ir ao dentista e de tempo para ir ao dentista.

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Ela não compreendia: por um lado, não se incomodava de não ter os dentes mais importantes da dentadura de uma mulher, mas, por outro, perdê-los feriu-a no mais profundo de seu ser.

“E a perda trouxe consigo um novo costume. A partir de então, quando eu falava ou quando ria, cobria com a palma da mão minha boca desdentada, gesto que conforme vim a saber se tornou popular em alguns ambientes. Perdi meus dentes mas não perdi a discrição, a reserva, certo senso de elegância. A imperatriz Josefina, é sabido, tinha enormes cáries negras na parte posterior da sua dentadura, e isso não tirava nem um pingo do seu charme. Ela se cobria com lencinho ou com um leque; eu, mais terrenal, habitante do DF alado e do DF subterrâneo, punha a palma das mãos sobre os lábios e ria e falava livremente nas longas noitadas mexicanas. Meu aspecto, para os que acabavam de me conhecer, era o de uma conspiradora ou de um ser estranho, metade sulamita, metade morcego albino. Mas eu não ligava para isso. Lá está Auxílio, diziam os poetas, e ali estava eu, sentada à mesa de um romancista com delirium tremens ou de um jornalista suicida, rindo e falando, segredando e contando fuxicos, e ninguém podia dizer: vi a boca ferida da uruguaia, vi as gengivas nuas da única pessoa que ficou na Universidade quando os granadeiros entraram, em setembro de 1968. Podiam dizer: Auxílio fala como os conspiradores, aproximando a cabeça e cobrindo a boca. Podiam dizer: Auxílio fala olhando nos olhos do outro. Podiam dizer (e rir ao dizer): como é que Auxílio consegue, apesar de ter as mãos ocupadas com livros e copos de tequila, sempre levar a mão à boca de maneira tão espontânea e natural? Onde reside o segredo desse seu jogo de mãos prodigioso? O segredo, meus amigos, não penso levar para o túmulo (não há que levar nada para o túmulo). O segredo reside nos nervos. Nos nervos que se tensionam e se alongam para alcançar as beiras da sociabilidade e do amor. As beiras espantosamente afiadas da sociabilidade e do amor.”

“Perdi meus dentes no altar dos sacrifícios humanos.”

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