Por Grupo de Defesa do Instituto Adolfo Lutz, no Informativo Adusp Online
A desmobilização e transferência do Instituto Adolfo Lutz para viabilizar a construção de um “hospital inteligente” representa um risco significativo à infraestrutura de vigilância em saúde do Estado de São Paulo. Embora a expansão da capacidade assistencial seja desejável, as funções desempenhadas pelo Instituto Adolfo Lutz são distintas, complementares e insubstituíveis na promoção e na proteção da saúde da população.
Como laboratório central de saúde pública e referência em diversos agravos, o Instituto desempenha papel essencial na vigilância epidemiológica, no controle sanitário de alimentos, água e medicamentos, na resposta a emergências de saúde pública e na produção de conhecimento técnico-científico. Sua estrutura técnica, seu corpo especializado e seu patrimônio técnico-científico constituem ativos estratégicos do estado de São Paulo, com impactos de abrangência nacional.
O fortalecimento da assistência hospitalar não deve ocorrer mediante o enfraquecimento da vigilância em saúde, constituída pelas vigilâncias epidemiológica, sanitária, ambiental e laboratorial. Um sistema de saúde resiliente depende da coexistência e da integração entre hospitais de excelência e instituições de referência em saúde pública. Dessa forma, recomenda-se a busca de alternativas locacionais e de planejamento que permitam a implantação do novo hospital sem comprometer as atividades, a autonomia e a capacidade operacional do Instituto Adolfo Lutz.
Entre suas atribuições de maior relevância, o Instituto destaca-se por ser o único laboratório que realiza o diagnóstico de botulismo, enfermidade de elevada letalidade, cuja confirmação laboratorial é essencial para a adoção de medidas terapêuticas e epidemiológicas oportunas. A interrupção ou comprometimento dessa capacidade pode resultar em atrasos diagnósticos com impacto direto na morbimortalidade dos pacientes e na investigação de surtos alimentares.
A instituição exerce papel singular no controle laboratorial da qualidade da água utilizada em clínicas de diálise, atividade fundamental para a segurança de milhares de pacientes submetidos a terapias renais substitutivas, e qualquer fragilização dessa estrutura pode aumentar riscos relacionados à contaminação microbiológica e química, com potencial impacto sobre a saúde de uma população altamente vulnerável.
Além disso, ele realiza o monitoramento laboratorial da qualidade da água consumida pela quase totalidade dos municípios do estado de São Paulo, produzindo informações essenciais para a vigilância ambiental e para a prevenção de surtos de doenças de transmissão hídrica. Trata-se de uma atividade de proteção coletiva cuja interrupção ou redução comprometeria diretamente a capacidade do Estado de detectar precocemente eventos de contaminação.
Na área de vigilância epidemiológica, o Instituto Adolfo Lutz desempenha papel central na vigilância laboratorial das arboviroses, incluindo dengue, zika e chikungunya, doenças que representam importantes desafios de saúde pública em todo o território nacional. Também integra a rede de mundial vigilância dos vírus respiratórios, incluindo o SARS-CoV-2, a influenza e outros agentes com potencial epidêmico, sendo reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como National Influenza Center, e fornece dados indispensáveis para o monitoramento da circulação viral, identificação de variantes e definição de estratégias de controle.
Sua relevância também é reforçada por sua atuação como laboratório de referência nacional para as meningites bacterianas, contribuindo para o diagnóstico, caracterização de agentes etiológicos, monitoramento epidemiológico e avaliação de estratégias de imunização. A perda ou fragmentação dessa capacidade pode comprometer a qualidade e a tempestividade das respostas às doenças meningocócicas e a outros agravos invasivos de elevada gravidade.
O Instituto mantém ainda capacidade técnica para atuar frente a agentes biológicos de alto risco, incluindo vírus causadores de febres hemorrágicas e outras doenças emergentes, como o ebola. Essas competências exigem a manutenção de infraestrutura laboratorial de contenção biológica altamente especializada, equipes treinadas, protocolos rigorosos de biossegurança e experiência acumulada ao longo de décadas. Tais capacidades não podem ser transferidas ou reconstruídas rapidamente sem riscos à segurança sanitária nacional.
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Por fim, um dos aspectos mais sensíveis e potencialmente críticos de um eventual processo de transferência do Instituto Adolfo Lutz refere-se ao seu extenso acervo de amostras biológicas e coleções microbiológicas acumuladas ao longo de décadas de atuação em vigilância laboratorial e saúde pública. Esse patrimônio científico é composto por centenas de milhares de amostras clínicas, isolados bacterianos, virais e fúngicos, materiais biológicos históricos, cepas de referência e amostras relacionadas a doenças de interesse epidemiológico internacional.
Grande parte desse material está associada a agentes biológicos classificados em elevados níveis de risco, incluindo microrganismos enquadrados no grupo de risco 3, como Bacillus anthracis, Yesrsinia pestis, Brucella abortus, Mycobacterium tuberculosis, Burkholderia mallei, hantavírus, arenavírus, entre outros, cuja manipulação e movimentação requerem infraestrutura especializada, protocolos rigorosos de biossegurança e pessoal altamente treinado.
A movimentação física de um acervo dessa magnitude representa uma operação extremamente complexa, envolvendo riscos biológicos, logísticos, de segurança pública e regulatórios. Qualquer falha durante o transporte, armazenamento temporário ou reinstalação pode resultar em perda de amostras, comprometimento da rastreabilidade, interrupção de séries históricas de vigilância epidemiológica ou acidentes biológicos de larga escala, considerando que tais agentes são considerados de uso dual, ou seja, podem ser utilizados como armas biológicas para fins de bioterrorismo.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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