Giovanni Mesquita: Irã, o texugo-do-mel

Tempo de leitura: 5 min
Ilustração criada por I.A.

Por Giovanni Mesquita*

Encontrei esta descrição do texugo-do-mel no Google:

“é famoso por ser um dos animais mais destemidos e resistentes do mundo. Possui pele extremamente grossa e solta, alta resistência a venenos de cobras, inteligência para usar ferramentas e uma dieta onívora, além de ser compacto, robusto e ter garras poderosas para cavar”.

Pensei de cara “Mas esse aí não é o Irã?”

Depois, vi alguns vídeos em que esses bichinhos enfrentam predadores temíveis, como leões e hienas.

Adivinhem de que animais eu lembrei? Pois é… da velha e decadente águia-careca, aquela que pintaram de laranja, e da famosa hiena que atende pelo gentil apelido “Bibi” – que gracinha, um genocida de pés delicados. Essa fábula que nós assistimos traz importantes ensinamentos morais, políticos e militares.

No estudo do caso, fiquei um pouco confuso com esse negócio de proxy war!

Eu pensava que era quando dois países poderosos queriam brigar indiretamente e mandavam um subalterno para a guerra.

Mas Trump, esse revolucionário dos costumes, mudou isso.

TACO (veja PS do Viomundo) foi convencido, ou chantageado, pelo minúsculo Israel a se envolver num conflito com uma nação que faz guerra há 3.000 anos.

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Antes da sua “brilhante” intervenção, parte dos iranianos andava às turras com o seu próprio governo. Agora, formam um exército uníssono. Uma frase muito lembrada nesse período é “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

Bingo! Trump, mesmo sendo um macaco velho, meteu a mão nessa cumbuca e não sabe como tirar. Está perdendo na guerra e na propaganda. Como o exército de um homem só, ele está acabando com o mito da democracia estadunidense e reforçando inimigos estratégicos.

Um dos pontos mais questionados pelos partidários do multilateralismo dos BRICS – essa organização que teve Lula como um dos fundadores – era o fato de ela nunca ter composto uma aliança militar.

Por que não temos um Pacto de Varsóvia, uma OTAN para chamar de nossa?

Bem, a estúpida guerra contra o Irã criou, na prática, essa aliança. Uniu Irã, Rússia e China, todos países do BRICS. Tirante a Índia, que anda chutando contra o patrimônio, a aliança militar foi estabelecida. A China está entrando com armas e grana; a Rússia, com seus satélites, dados de inteligência. Dizem que a milagrosa melhoria da mira dos iranianos tem uma ajudinha sino-russa.

O Brasil e a África do Sul recentemente se encontraram e concordaram que é necessário se preparar para as violentas convulsões do império moribundo. Isso pode indicar o fecho da articulação militar que falta aos multilaterais.

Mas, como vimos, o problema, antes de ser militar, é político. Nós sabemos que nossas Forças Armadas não têm como sua principal missão a defesa do nosso país e do nosso povo. Elas sempre se comportaram como uma tropa de cipaios. Para quem não sabe, os cipaios eram soldados indianos recrutados pelo Império Britânico para manter a Índia sob o domínio dos ingleses.

A diferença é que o império hoje é outro. Alguém poderia dizer: “O governo Lula deveria investir mais em defesa!”.

Mas ele investe! O Brasil gastou neste ano 26 bilhões de dólares, sendo o 11º orçamento militar do planeta.

Já nosso “texugo-do-mel” fica apenas na 16ª posição, com 23 bilhões de dólares. Então, o problema não é dinheiro? Não! É político. Parece que no Irã não há tanta filha de militar solteira e nem coisas como morte ficta, gastos com Viagra, picanha e leite condensado.

Mesmo com todos esses recursos, a força das nossas forças é pífia. Mas como mudar a realidade das Forças Armadas nacionais? Como convencê-las de que o boné do MAGA não deve fazer parte do fardamento?

Nessa guerra – e, para ser justo, isso já havia sido demonstrado na Ucrânia – a características das armas mudaram.

O que mudou? Teria sido a estratégia de guerra assimétrica?

Tem gente que se excita usando esse termo como se isso fosse uma grande novidade. Os farroupilhas faziam guerra assimétrica contra o Império do Brasil, os guerrilheiros da Sierra Maestra idem. O Vietnã…

Então, parece que os recursos tecnológicos são a grande estrela desses confrontos. A introdução dos chips e dos sistemas digitais transformou a forma de humanos construírem suas máquinas e de construir as máquinas que fazem máquinas.

Há um reluzente exemplo desse transformar uma tecnologia baseada na robustez e nas grandezas em soluções de estruturas pequenas, leves e de fácil manejo.

Num vídeo do Youtube, que vi há muitos anos, eles comparavam os belíssimos e caros relógios suíços com os relógios digitais japoneses, que se poderiam comprar em qualquer camelô.

Eles faziam exatamente a mesma coisa: marcavam a hora. Mas, em pouco tempo, no relógio de chip entrou uma calculadora, um termômetro, uma bússola etc. Enquanto o charmosíssimo Patek Philippe, pelo qual o Reinaldo Azevedo lambe os beiços, só marca a hora mesmo.

E nosso “texugo-do-mel”, que tem “inteligência para usar ferramentas” e forma 233.695 engenheiros por ano, resolveu usar esse povo para construir cidades e fábricas subterrâneas, projetar misseis, drones e rápidas lanchas, equipadas com mísseis cruzeiros antinavios e antiaéreos.

Esses nerds de Alá desenvolveram sistemas que captam a presença dos jatos “invisíveis” dos EUA.

E, ao serem os primeiros a derrubarem um F-35, demonstraram a boa educação persa: “Desculpem-nos! Não sabíamos que ele era invisível”. E depois do caça invisível, teve o trailer Resgate ao Piloto Invisível…

Um dos projetos mais interessantes do governo Lula, em parceria com o MST e a China, é produzir uma grande quantidade de pequenas máquinas agrícolas e pequenas ferramentas elétricas.

O objetivo é viabilizar um exponencial aumento da produção dos pequenos e médios agricultores e da chamada agricultura familiar. O Sul é onde a mecanização desse setor é a mais forte, chegando a apenas 50%. No Norte e Nordeste, não ultrapassa a 25%.

Mesmo com todo esse atraso, a pequena agricultura ainda é responsável por quase todo alimento que comemos. Vicejando esse projeto, teremos uma revolução no campo e no prato. O caminho não são as grandes e caras máquinas, mas sua evolução menor, mais barata, que vem com internet e máquina de café.

Mas o que isso tem a ver com DEFESA?!!! Tudo.

Há uma expressão antiga e interessante que fala em “munição de boca”. Um país que não precise tanto se preocupar com a barriga pode se dar ao luxo de trabalhar com a mente. Ouvi muitas opiniões sobre como consertar nossas Forças Armadas, como abrasileirá-las, e nenhuma me pareceu factível em curto prazo.

Na história, vimos o que fizeram os franceses depois da Grande Revolução. Eles, que por alguma razão, não confiavam no Exército Real, criaram Armée révolutionnaire, convocando os cidadãos que juraram lealdade à pátria e não ao rei.

Em abril de 1831, no Brasil, os liberais, que se viram na obrigação de depor o déspota D. Pedro I, perceberam que o exército tinha mais amor por Portugal do que pelo Brasil. Mesmo no pós-independência, o Exército de Linha ainda tinha 78% de sua oficialidade composta por portugueses natos.

Para contrabalançar a situação, foi criada a Guarda Nacional (GN). Faziam parte dela os brasileiros entre 21 e 60 anos. A GN estava subordinada ao Ministério da Justiça e, localmente, aos juízes de paz. E a sua oficialidade era eleita em pleitos locais.

Ao que aparenta, só mudou no coração das Forças Armadas a nação alienígena.

E, como palpitar é livre, aí vai o meu pitaco sobre como solucionar esse imbróglio: criar uma nova força militar vocacionada às modernas tecnologias de defesa.

A educação desse cidadão-soldado teria seu início nas escolas técnicas federais (IFEs) e completaria sua formação nas universidades públicas, em turmas mistas de militares e civis, nos cursos de engenharia, matemática, ciência da computação, história, sociologia… Soldados da nação, formados junto à sociedade civil, deslocados para o auxílio a populações em situação de desastres, de carência de saúde, de alimentação, educação etc. Essas missões seriam aulas práticas de empatia e patriotismo.

A nova matriz bélica estaria diretamente subordinada ao poder da sociedade civil organizada e das instituições democráticas. Nasceria livre das amarras das péssimas tradições militares que herdamos e viria em substituição a essas.

Seria a vanguarda na transição para um verdadeiro sistema de defesa, com a finalidade primordial a salvaguarda da soberania do nosso povo sobre o controle do seu destino.

Difícil?

Considerando que o problema de defesa não é militar, mas sim político, qualquer caminho para solucioná-lo é difícil. Mas o Irã, nosso valente “texugo-do-mel”, mostrou o caminho. Precisamos de avanços tecnológicos e povo nas ruas.

PS do Viomundo: TACO é um apelido muito famoso de Trump nos EUA. TACO é a sigla da expressão Trump always chickens out, que em português significa Trump sempre amarela/se acovarda.

*Giovanni Mesquita é historiador e museólogo.

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