Gilberto Maringoni: Erika Hilton e a divisão de recursos partidários
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Por Gilberto Maringoni*, em seu perfil de rede social
Deixemos prolegômenos de lado. Erika Hilton exige dinheiro da direção do PSOL e isso é direito inalienável dela. O que não pega bem é embrulhar a reclamação no papel celofane do direito adquirido e de nobres propósitos, atentando contra a inteligência alheia.
Erika quer mais do que os R$ 2,3 milhões do fundo partidário a ela destinados por acordos internos à sua legenda. O comportamento vai além do cretinismo parlamentar corrente em quem busca ascender na profissão de político profissional.
O passo seguinte é perder o senso de realidade e aderir ao infindável jogo de se eleger tendo como objetivo principal vencer a próxima eleição, depois próxima e mais a próxima, numa espiral que esvazia a disputa de qualquer sentido de projeto de transformação coletiva. A essa prática espalhada nos meios institucionais, soma-se algo que vem se firmando como característica central de sua agremiação.
O PSOL expressa o raro caso de ser um partido autodefinido como de esquerda que, curiosamente, não tem o tema trabalho como eixo central de sua formulação e ação políticas.
O trabalho define a leitura da sociedade pela ótica das classes sociais. Num tempo de erosão, desregulamentação e precarização do mundo laboral, há espaço livre para a utilização de outras características como amálgama de ideários políticos, como é o caso das pautas identitárias.
Elas apontam para atributos importantes das relações de dominação, apesar de nem sempre serem universalizantes. O exame da sociedade pela ótica das classes não estabelece discriminação de gênero, raça, cor ou orientação sexual entre seres humanos, mas articula tais características com o lugar de cada um na hierarquia social.
A esquerda não descobriu ontem os temas ligados à identidade. Ao contrário, tais questões estão estruturalmente vinculadas à história secular das lutas sociais. O tema identitário é fundamental na luta pela emancipação humana, mas ele não pode ser esterilizado.
Se há um movimento político impelido pela relação dialética entre classe e raça, esse é o processo da Revolução Russa, que articulou a organização de mais de uma centena de etnias distintas existentes entre as maiorias oprimidas de parte da Eurásia.
Vale notar também que o Partido Comunista dos Estados Unidos, fundado em 1919, tinha como força principal trabalhadores negros em busca de direitos civis, que só seriam conquistados num processo de transformação social.
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Para ficarmos no Brasil, é importante examinar o programa da Aliança Nacional Libertadora, nucleada pelo PCB em 1935.
Depois de exigir “salário igual para trabalho igual” entre homens e mulheres, a frente política apontava: “Pelas mais amplas liberdades populares, pela completa liquidação de quaisquer diferenças ou privilégios de raça, de cor ou de nacionalidade, pela mais completa liberdade religiosa e a separação da Igreja do Estado”.
Apesar da discriminação ser odiosa já naquele tempo, ainda não existiam como força social as demandas pelos direitos LGBTQIA+. Por esse motivo, justas exigências contra a discriminação de orientação sexual não estavam presentes entre organizações de esquerda.
Sem articular as demandas identitárias com a luta de classes, teremos reivindicações de curto alcance e sem sentido universalizante. Ou seja, abriremos espaço para lobbies estanques, tendentes à despolitização.
A absolutização do identitarismo esvaziado de sentido transformador resulta quase sempre em variados tipos de oportunismo. Nessa métrica, quem é branco, hétero, cis etc. etc. sempre estará no lugar do opressor e todos os demais serão por princípio oprimidos.
Não há luta por corações e mentes, disputa de hegemonia ou a possibilidade do pleno exercício da política. É a negação da ideia do vir a ser e cada um é o que é, indivíduos unidimensionais sem conversa, sem alianças e sem horizontes. Há uma certa reificação do oprimido, condição a ser reiterada e exaltada e não situação a ser vencida e superada.
A difícil vida que Erika Hilton enfrentou merece admiração e aplausos e sua eleição é uma conquista cidadã. Mas vale perguntar sobre quantos/as ativistas não tiveram existência semelhante ou pior?
Hoje ela se tornou uma espécie de “oprimida modelo”, ou alguém que faz de sua condição pessoal uma bandeira de luta, quase como uma pop-star. Que tipo de esquerda é essa em que capacidade de liderança agregadora se transforma em exaltação do sofrimento em busca de ganhos materiais?
Erika Hilton e, ao que parece, a maioria dirigente do PSOL deixaram de lutar por campanhas eleitorais militantes e acessíveis a candidaturas de todo tipo e se deixa levar pela partilha milionária de dinheiro público destinado a cofres partidários.
Erika está no direito de querer dinheiro em qualquer situação. Só não poderá evitar comentários como aquele feito por Millôr Fernandes décadas atrás: “Desconfie de todo idealista que lucra com seu ideal”. Que lucra ou lacra.
P.S. O que ocorre no PSOL é regra ampliada na maioria dos demais partidos. Meu espanto é acontecer numa organização que buscava inaugurar uma “nova política”, como se dizia anos atrás.
*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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