Geandro Ferreira Pinheiro: O Brasil que não cabe na vitória…

Tempo de leitura: 9 min

… e a vitória que não resolve o que a tornou tão difícil

Por Geandro Ferreira Pinheiro*, no Substack

“A revolução social do século XXI não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro.”

Paráfrase de Karl Marx, d’O 18 de brumário de Luís Bonaparte

Lula venceu. A extrema direita foi derrotada na disputa presidencial. É uma vitória importante, que merece ser comemorada. Impedimos o retorno do bolsonarismo ao governo federal e mantivemos aberta a possibilidade de ampliar direitos, enfrentar desigualdades e disputar outros rumos para o país.

Mas nenhuma derrota eleitoral é uma derrota histórica definitiva. Nem a deles.

A reação do candidato derrotado mostrou, já na noite de domingo, que a disputa não terminara. O filho miliciano de Bolsonaro anunciou que pediria a anulação da eleição, alegando quebra de isonomia pela prorrogação da votação até as 19h — embora sua própria campanha também tivesse solicitado a extensão. A campanha de Lula denunciou redução das frotas e obstáculos ao deslocamento de eleitores, que provocaram mobilização nas redes e caronas solidárias. As ocorrências exigem apuração e responsabilização. Após a demora do TSE, o Ministro Zanin do STF autorizou a continuidade da votação apenas nas seções ainda abertas. Os números esvaziam a acusação do bravateiro: segundo o TSE, apenas 34.393 votos foram depositados depois das 17h, cerca de 0,03% do total, diante de uma vantagem de 4,43 milhões para Lula.

A contestação ganhou outra dimensão nos dias seguintes. O inconformado deixou o Brasil pela Argentina e chegou aos Estados Unidos em 28 de outubro. Em carta golpista, agradeceu a Milei e Trump pelo apoio recebido, alegou fraude sem provas e se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Trump confirmou a autorização de entrada nos EUA.

Essa tosca iniciativa encontrou resistência até entre antigos aliados. União Brasil, Republicanos e Podemos reconheceram a vitória de Lula, assim como numerosos governos estrangeiros. Esse isolamento imediato não significa que a direita conservadora e reacionária tenha abandonado seus projetos políticos, suas alianças ou os interesses que representou durante a campanha. Muito menos que a força social do bolsonarismo tenha desaparecido.

Recorrer à Justiça é legítimo. Deslegitimar uma derrota sem apresentar provas, autoproclamar-se vencedor e buscar respaldo externo é outra coisa. É golpe! O roteiro tem antecedentes no “aecismo” de 2014, quando o PSDB contestou a vitória de Dilma Rousseff, aprofundados nos ataques posteriores do bolsonarismo às urnas e às instituições. A fuga e a carta não demonstram, por si, capacidade de reverter a eleição. Mas a articulação com atores estrangeiros e as declarações de Trump, que voltou a pôr o resultado brasileiro sob suspeita, exigem atenção à soberania brasileira. O reconhecimento da vitória limita o espaço imediato para aventuras institucionais. Não elimina, contudo, as bases sociais e políticas do bolsonarismo, que tornaram possível a candidatura derrotada.

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O Brasil que levou a extrema direita tão perto de voltar à Presidência continua existindo. Suas bases sociais, sua presença nas instituições, suas formas de organização e sua capacidade de organizar valores, pertencimentos e expectativas de futuro não desapareceram com a apuração dos votos. Tampouco mudaram, por força das urnas, as condições econômicas, sociais e políticas que alimentam sua expansão.

Antes do primeiro turno, o Brasil não cabia na eleição. Depois, os resultados do primeiro turno mostraram que tampouco cabia, por inteiro, nas análises que fazíamos dele. A vitória nas urnas não elimina essa distância entre o país que imaginávamos conhecer e aquele que efetivamente chegou às urnas.

Seria um erro transformar a vitória eleitoral numa espécie de absolvição de nossas insuficiências políticas.

A esquerda sempre disse que uma eleição não resolve tudo. Seria estranho esquecer essa assertiva depois de vencermos.

A disputa eleitoral revelou uma sociedade profundamente transformada, na qual a extrema direita deixou de representar apenas uma reação política episódica. Passou a organizar concepções de mundo, explicações para as dificuldades da vida e projetos de futuro para parcelas expressivas da população. Não se trata apenas de uma força que disputa governos. Disputa o senso comum, os valores, as relações sociais e a própria maneira como milhões de pessoas compreendem o trabalho, os direitos, suas necessidades e as possibilidades de ascensão e futuro.

Essa transformação não ocorreu por acidente. Explicá-la e atribuí-la e somente à desinformação, à instrumentalização da religião ou à eficiência das redes digitais é uma explicação preguiçosa e cômoda. Põe nos outros toda a responsabilidade e poupa nossas próprias insuficiências. Tampouco bastam defender índices positivos que pouco dizem sobre a vida cotidiana de quem mal consegue chegar ao fim do mês. A situação de uma parte importante do nosso povo continua difícil, não está boa. A esperança que já venceu o medo no passado, parece, para muitos, ter encolhido até caber na escolha do menos pior, mas que anuncia mudanças. Há processos muito profundos, relacionados às precarização do trabalho e da vida, o endividamento e a exigência de que cada pessoa encontre sozinha uma saída para problemas pessoais e coletivos, criaram terreno fértil para promessas de ordem, proteção e ascensão individual. O capitalismo contemporâneo produz essas condições. A extrema direita lhes dá tradução política.

Uma vitória eleitoral não reverte esses processos. E seria ingênuo supor que quatro anos adicionais de governo, mesmo com possíveis e importantes avanços, não produzirão automaticamente outra consciência política. Por exemplo, a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana e feriados, enviada ao Congresso na reta final da campanha, pode trazer alívio concreto à população, caso seja aprovada. Mas nenhuma medida, por mais justa que seja, constrói sozinha uma identificação política duradoura.

Aqui reside um dos problemas mais difíceis que a vitória nos coloca. O governo Lula tem conquistas que merecem ser reconhecidas e defendidas, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, a promulgação do fim da escala 6×1, a lei que prevê o perdão de débitos federais dos MEIs e a medida provisória que proibiu as bets. Nada disso é irrelevante para a vida concreta. A experiência recente, porém, mostrou que melhorias econômicas e sociais não se convertem necessariamente em identificação política com quem as promoveu.

É preciso, porém, avançar além dessa constatação. As pessoas interpretam suas condições de vida por diferentes mediações políticas, culturais e ideológicas. Deste modo, atribuir a derrota de uma posição política à suposta ingratidão de quem recebeu benefícios através de políticas públicas seria cômodo demais. Salário, religião, medo da violência, dívidas, trabalho e expectativas de futuro se combinam de maneiras que não obedecem à contabilidade das realizações de um governo. A pergunta que precisamos enfrentar é outra: quanto estamos efetivamente transformando as condições de vida e as relações sociais que moldam essas experiências? Quais permanecem intactas?

Uma política pode melhorar a renda e manter famílias inteiras submetidas ao crédito caro, ao aluguel e à insegurança permanente no trabalho. A ampliação dos serviços públicos alivia necessidades urgentes, mas seus limites aparecem quando saúde, educação e infraestrutura continuam submetidas à expansão de negócios privados e à rentabilidade do capital. Benefícios reais convivem, assim, com as relações sociais que alimentam o descontentamento e as promessas reacionárias.

As conquistas importam precisamente porque alteram a vida de pessoas concretas. Mas seus limites precisam ser enfrentados e ultrapassados.

O desafio não é apenas fazer mais do que fizemos. É fazer também o que não tivemos disposição, condições ou ousadia para realizar. Precisamos enfrentar o que adiamos por falta de força, por escolhas políticas ou por concessões que acabaram se tornando permanentes.

Isso exige recolocar no centro da política perguntas que a campanha tantas vezes deslocou. Quem controla a riqueza socialmente produzida? Quem decide sua distribuição? A quem serve o fundo público? Que interesses comandam as possibilidades de desenvolvimento do país? Que relações de poder sustentam a desigualdade brasileira?

Significa também reconhecer que a conciliação de classes não é uma solução neutra. Ela administra conflitos e pode abrir espaço para conquistas em determinadas circunstâncias. Mas conserva a capacidade de veto dos grupos que concentram riqueza e poder. Transformada em horizonte permanente, corre o risco de transformar aquilo que deveria ser uma condição provisória de ação política no limite definitivo do próprio projeto de sociedade, e acaba definindo antecipadamente quais mudanças nem sequer serão colocadas em disputa.

Não se trata de ignorar as dificuldades reais de governar, nem de imaginar que a vontade política basta, por si só, para superar e enfrentar desafios. Mas tampouco podemos transformar essas relações em justificativa. Governar implica enfrentar relações de força historicamente constituídas. O peso do capital financeiro, a concentração da propriedade e o poder econômico sobre o Estado impõem limites reais. Reconhecê-los é necessário. Tratá-los como imutáveis significa aceitar que os interesses dominantes estabeleçam, para sempre, a fronteira do possível.

A questão não é simplesmente o que será possível fazer diante da realidade existente. É também o que faremos para modificar aquilo que hoje define os limites do possível. A análise da correlação de forças tem sido um limite à ação política, Mas a correlação de forças é também o que precisamos transformar. Essa disputa desaparece quando o realismo se confunde com acomodação.

Os jornais da mídia corporativa já começaram, na própria noite da vitória eleitoral e em todos os editoriais do dia seguinte, a cobrar ajuste das contas públicas, contenção de despesas e sinais de confiança ao mercado financeiro. O Congresso que sairá destas eleições tem maioria conservadora, com forte presença da extrema direita. Essa pressão é real, e não pode ser tratada como uma fatalidade diante da qual o governo só disponha de concessões.

O governo reeleito precisa governar de frente para o povo, com o povo. Se necessário, de lado ou de costas para os interesses que procuram impor sua pauta por meio do Congresso. Isso não significa dispensar a disputa parlamentar. Significa não reduzir a política a acordos de cúpula e chamar a sociedade a participar dos conflitos que definirão orçamento, trabalho e direitos. É do povo organizado e mobilizado que pode vir a força necessária para alterar aquilo que hoje parece intransponível.

As disputas dos próximos quatro anos não se farão apenas a partir do governo. Precisamos reconstruir organizações populares e vínculos nos territórios, ampliar a presença nos locais de trabalho, nos sindicatos, nos movimentos e nos espaços comunitários. E escutar o país real, inclusive quem não votou conosco, sem tratar milhões de brasileiros como ignorantes, manipulados ou ingratos.

Nas últimas semanas ocupamos as ruas, disputamos as redes, construímos vínculos e mobilizamos milhões. Há força, há sementes, há muito sobre o que construir. Não começaremos do zero. Mas seria um erro imaginar que aquilo que construímos para vencer a eleição já seja suficiente para transformar a sociedade.

2030 está logo ali. E justamente por isso não pode ser nosso horizonte. Nem pode ser reduzido à escolha da liderança que sucederá Lula. Se toda a nossa expectativa voltar a se concentrar na próxima eleição, voltaremos a subordinar a política à administração de políticas sociais entre ciclos eleitorais.

Não podemos transformar nossa excepcional vitória eleitoral em quatro anos de espera pela próxima eleição. O bolsonarismo carrega um projeto duradouro de reorganização da sociedade. Precisamos construir outro, capaz de enfrentar as relações econômicas e políticas que tornam possível sua expansão. Conservar as conquistas é indispensável. Parar nelas seria insuficiente.

Enquanto isso, as transformações econômicas, sociais e culturais que alimentam a extrema direita continuarão influenciando valores, comportamentos e expectativas, enquanto se aprofundam as mudanças no trabalho e na vida cotidiana que ajudaram a torná-la tão forte.

Precisamos recuperar a ousadia de imaginar e construir outra sociedade. Uma sociedade em que a riqueza socialmente produzida sirva à vida de todos, não aos privilégios e à acumulação de poucos. Em que direitos sociais não sejam concessões, mas conquistas que se ampliam. E em que o poder econômico não determine os limites da democracia. Uma sociedade capaz de realizar o princípio de que “de cada um, segundo suas capacidades, e a cada um, segundo suas necessidades”. Não se trata de recuperar um passado recente perdido ou de tomar as conquistas de 1988 como o limite de nossas ambições. Não basta resistir ao que querem destruir. É preciso transformar radicalmente aquilo que tornou possível sua ascensão.

Esse horizonte não cabe num mandato presidencial, nem pode depender apenas da ação de um governo. Mas precisa orientar escolhas feitas agora. Prioridades orçamentárias, políticas públicas, conflitos assumidos e direitos pelos quais se está disposto a enfrentar interesses poderosos. Não se pode permanecer com promessas abstratas de um futuro sempre adiado.

Se nada disso modificar as decisões concretas do presente, inclusive as de quem governa, o futuro continuará sendo uma promessa eternamente adiada, alimento da desesperança, e a frustração seguirá alimentando a insatisfação.

A vitória de Lula importa. E muito. Seria absurdo desprezar a diferença entre os projetos que estavam em disputa e diminuir o que uma vitória bolsonarista poderia produzir. Mas defender a vitória não significa suspender a crítica. Significa levá-la suficientemente a sério para não permitir que se esgote na preservação do que já existe.

Comemoremos, sim! A celebração, porém, não pode funcionar como ponto final para o balanço político que o próprio processo eleitoral nos impôs. Repetir os caminhos conhecidos e esperar outro desfecho seria desperdiçar as perguntas que a campanha deixou abertas. Defender conquistas exige reconhecer seus limites. A tarefa é justamente transformar essa contradição em movimento político. Precisamos tirar a transformação do futuro indefinido e trazê-la para o conflito político de agora.

O dia seguinte à eleição começou muito antes de 25 de outubro de 2026. Confirmado o resultado, já não basta reconhecer o tamanho do desafio. Precisamos decidir o que fazer com o país real que as urnas voltaram a expor.

É hora de fazer da análise prática política, e da prática uma possibilidade concreta de transformação.

Uma análise que não muda nossas escolhas e nossa maneira de agir corre o risco de virar apenas comentário sobre a realidade. E de nos deixar levando lapada atrás de lapada por quatro anos, até uma derrota maiúscula em 2030. A vitória de 2026 não pode ser apenas um adiamento.

A eleição terminou. O Brasil que não cabia nela continua aqui.

E nosso horizonte não pode ser apenas governá-lo por mais quatro anos. Tem de ser transformá-lo.

*Geandro Ferreira Pinheiro é sanitarista e membro do Fórum de Trabalhadoras e Trabalhadores da Fiocruz

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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