Por Fernando Nogueira da Costa*
No Café da Esquerda, estabelecimento famoso por servir café forte à esquerda da mesa, opiniões mais fortes à direita e nenhuma sobremesa no centro, encontraram-se dois velhos conhecidos.
O primeiro era Marxiano, marxista de extrema-esquerda, leitor disciplinado dos clássicos da trilogia Marx-Engels-Lenine e fiscal voluntário da pureza ideológica alheia.
O segundo era Petista, militante experiente, acostumado a eleições, plenárias, sindicatos e, sobretudo, à misteriosa arte de contar votos no Congresso Nacional.
Marxiano abriu a conversa:
— Companheiro, o problema do PT é simples: abandonou a luta de classes para fazer conciliação de classes.
Petista tomou um gole de café.
— Pode ser. Mas antes de acabar com as classes, preciso conseguir 257 votos na Câmara.
— Reformista!
— Aritmético.
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Marxiano abriu um livro grosso.
— Marx ensinou: “A história de todas as sociedades…”
— “…é a história da luta de classes”. Conheço. Mas ele não conheceu o presidencialismo de coalizão brasileiro.
— Desculpa oportunista!
— Talvez. Mas você conhece algum capítulo de O Capital explicando como aprovar o orçamento com vinte partidos no Congresso?
Marxiano franziu a testa.
— Primeiro conquistamos o poder. Depois fazemos as transformações.
— Excelente. Como conquistamos?
— Mobilizando os trabalhadores!
— E quantos votos teremos?
— Milhões!
— Ótimo. E deputados?
Marxiano voltou ao café.
— Isso é eleitoralismo burguês.
— Infelizmente, no Brasil democrático, presidente eleito precisa conviver com deputados burgueses, trabalhadores, ruralistas, evangélicos, ambientalistas, liberais, socialistas, conservadores, progressistas e alguns cuja ideologia depende da próxima votação.
Marxiano ficou horrorizado.
— Você está dizendo ser necessário conversar com a direita?!
— Conversar até com quem não gosta da conversa.
— E fazer alianças?
— Quando necessárias.
— Com liberais?
— Sim.
— Com empresários?
— Também.
— Com antigos adversários?!
Petista sorriu.
— Às vezes até transformamos um antigo adversário presidencial em vice-presidente.
Marxiano quase derrubou a xícara.
— Traição de classe!
— Frente Ampla.
— Capitulação!
— Cinquenta por cento mais um.
Marxiano levantou-se indignado.
— A esquerda deve apresentar seu programa integral e jamais abrir mão de seus princípios!
Petista concordou:
— Ótimo. Apresentamos o programa idealizado.
— E executamos!
— Se ganharmos a eleição.
— Ganharemos!
— E se obtivermos minoria no Congresso?
Marxiano hesitou.
— Mobilizamos as massas.
— Enquanto isso, quem aprova o orçamento?
Silêncio.
— Quem aprova o Bolsa Família?
Silêncio.
— O Minha Casa, Minha Vida?
Mais silêncio.
— O aumento real do salário mínimo?
Marxiano pediu outro café.
Petista prosseguiu:
— Veja, companheiro, existe uma diferença entre ter um projeto político e imaginar possuir sozinho a sociedade. O Brasil não é uma assembleia estudantil ampliada para mais de duzentos milhões de pessoas.
— Mas a sociedade está polarizada!
— Justamente por isso precisamos construir maiorias.
— A polarização exige posições firmes!
— E a democracia exige convivência entre posições firmes.
Marxiano encontrou finalmente uma contradição:
— Então você aceita governar com pessoas defensoras de ideias opostas às suas?
— Evidentemente.
— Isso é absurdo!
— Chama-se democracia.
Marxiano consultou mentalmente sua biblioteca.
— Mas um governo de esquerda deveria representar os trabalhadores!
— Deve. Mas governa também quem não votou nele.
— Inclusive os ricos?
— Pagando impostos, de preferência.
Marxiano não achou graça.
Petista resolveu explicar com uma metáfora.
— Imagine o Brasil como um ônibus.
— O proletariado deve tomar a direção!
— Concordo. Mas metade dos passageiros quer ir para outro lado.
— Precisamos conscientizá-los!
— Durante a viagem?
— Sim!
— Perfeito. Enquanto você conscientiza, alguém precisa dirigir.
Marxiano começou a desconfiar daquela dialética rodoviária.
— E para onde vai seu ônibus?
— Na direção de menos pobreza, mais emprego, educação, SUS, moradia, democracia e desenvolvimento.
— Isso não é socialismo!
— Nunca disse ser.
— Então você desistiu da transformação histórica!
— Pelo contrário. Estou tentando fazê-la acontecer sem esperar o dia da prometida transformação final.
Marxiano bateu na mesa:
— Reformas não eliminam as estruturas!
— Mas mudam a vida das pessoas.
— A desigualdade continua!
— Mas a pobreza pode cair.
— O capitalismo continua!
— Mas o trabalhador pode conseguir emprego, salário maior e direitos.
— A burguesia continua existindo!
— E continua votando.
— As transnacionais continuam!
— E podemos negociar investimentos, empregos e tecnologia com elas.
Marxiano respirou fundo.
— Você relativiza tudo.
— Não. Eu contextualizo.
— Falta-lhe teoria!
— E a você falta Congresso.
Nesse momento, o garçom aproximou-se.
— Senhores, o café vai fechar.
Marxiano protestou:
— Não aceito! O povo tem direito ao café!
O garçom respondeu:
— Concordo. Mas preciso da maioria dos sócios para manter o estabelecimento aberto até mais tarde.
Marxiano olhou para Petista.
Petista levantou as sobrancelhas.
— Não diga nada.
— Eu não disse.
— Está pensando.
— Maioria simples ou absoluta?
Marxiano finalmente riu.
Saíram juntos. Na porta, ainda tentou a última ofensiva:
— Um dia você compreenderá: sem ruptura não há verdadeira transformação!
Petista respondeu:
— E um dia você compreenderá: sem maioria não há sequer governo para tentar transformar alguma coisa.
Seguiram pela mesma calçada durante alguns metros. Na primeira esquina, Marxiano virou bruscamente à esquerda.
Petista continuou pelo centro da calçada, desviando dos demais pedestres contra sua direção, negociando passagem e procurando uma saída possível.
Moral do apólogo: O dogmático prefere perder sozinho com o programa íntegro; o pragmático prefere governar acompanhado com parte dele. Na democracia, princípios indicam o destino, mas alianças ajudam a construir a estrada — porque transformar uma sociedade plural e democrática exige não apenas ter razão, mas formar maioria.
Obs.: o apólogo ilustra o debate na esquerda entre o purismo ideológico marxista e o pragmatismo político em ambiente democrático
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo




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