Fernando Nogueira da Costa: O Purista e o Pragmático

Tempo de leitura: 4 min
Ilustração: Fernando Nogueira da Costa/IA

Por Fernando Nogueira da Costa*

No Café da Esquerda, estabelecimento famoso por servir café forte à esquerda da mesa, opiniões mais fortes à direita e nenhuma sobremesa no centro, encontraram-se dois velhos conhecidos.

O primeiro era Marxiano, marxista de extrema-esquerda, leitor disciplinado dos clássicos da trilogia Marx-Engels-Lenine e fiscal voluntário da pureza ideológica alheia.

O segundo era Petista, militante experiente, acostumado a eleições, plenárias, sindicatos e, sobretudo, à misteriosa arte de contar votos no Congresso Nacional.

Marxiano abriu a conversa:

— Companheiro, o problema do PT é simples: abandonou a luta de classes para fazer conciliação de classes.

Petista tomou um gole de café.

— Pode ser. Mas antes de acabar com as classes, preciso conseguir 257 votos na Câmara.

— Reformista!

— Aritmético.

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Marxiano abriu um livro grosso.

— Marx ensinou: “A história de todas as sociedades…”

— “…é a história da luta de classes”. Conheço. Mas ele não conheceu o presidencialismo de coalizão brasileiro.

— Desculpa oportunista!

— Talvez. Mas você conhece algum capítulo de O Capital explicando como aprovar o orçamento com vinte partidos no Congresso?

Marxiano franziu a testa.

— Primeiro conquistamos o poder. Depois fazemos as transformações.

— Excelente. Como conquistamos?

— Mobilizando os trabalhadores!

— E quantos votos teremos?

— Milhões!

— Ótimo. E deputados?

Marxiano voltou ao café.

— Isso é eleitoralismo burguês.

— Infelizmente, no Brasil democrático, presidente eleito precisa conviver com deputados burgueses, trabalhadores, ruralistas, evangélicos, ambientalistas, liberais, socialistas, conservadores, progressistas e alguns cuja ideologia depende da próxima votação.

Marxiano ficou horrorizado.

— Você está dizendo ser necessário conversar com a direita?!

— Conversar até com quem não gosta da conversa.

— E fazer alianças?

— Quando necessárias.

— Com liberais?

— Sim.

— Com empresários?

— Também.

— Com antigos adversários?!

Petista sorriu.

— Às vezes até transformamos um antigo adversário presidencial em vice-presidente.

Marxiano quase derrubou a xícara.

— Traição de classe!

— Frente Ampla.

— Capitulação!

— Cinquenta por cento mais um.

Marxiano levantou-se indignado.

— A esquerda deve apresentar seu programa integral e jamais abrir mão de seus princípios!

Petista concordou:

— Ótimo. Apresentamos o programa idealizado.

— E executamos!

— Se ganharmos a eleição.

— Ganharemos!

— E se obtivermos minoria no Congresso?

Marxiano hesitou.

— Mobilizamos as massas.

— Enquanto isso, quem aprova o orçamento?

Silêncio.

— Quem aprova o Bolsa Família?

Silêncio.

— O Minha Casa, Minha Vida?

Mais silêncio.

— O aumento real do salário mínimo?

Marxiano pediu outro café.

Petista prosseguiu:

— Veja, companheiro, existe uma diferença entre ter um projeto político e imaginar possuir sozinho a sociedade. O Brasil não é uma assembleia estudantil ampliada para mais de duzentos milhões de pessoas.

— Mas a sociedade está polarizada!

— Justamente por isso precisamos construir maiorias.

— A polarização exige posições firmes!

— E a democracia exige convivência entre posições firmes.

Marxiano encontrou finalmente uma contradição:

— Então você aceita governar com pessoas defensoras de ideias opostas às suas?

— Evidentemente.

— Isso é absurdo!

— Chama-se democracia.

Marxiano consultou mentalmente sua biblioteca.

— Mas um governo de esquerda deveria representar os trabalhadores!

— Deve. Mas governa também quem não votou nele.

— Inclusive os ricos?

— Pagando impostos, de preferência.

Marxiano não achou graça.

Petista resolveu explicar com uma metáfora.

— Imagine o Brasil como um ônibus.

— O proletariado deve tomar a direção!

— Concordo. Mas metade dos passageiros quer ir para outro lado.

— Precisamos conscientizá-los!

— Durante a viagem?

— Sim!

— Perfeito. Enquanto você conscientiza, alguém precisa dirigir.

Marxiano começou a desconfiar daquela dialética rodoviária.

— E para onde vai seu ônibus?

— Na direção de menos pobreza, mais emprego, educação, SUS, moradia, democracia e desenvolvimento.

— Isso não é socialismo!

— Nunca disse ser.

— Então você desistiu da transformação histórica!

— Pelo contrário. Estou tentando fazê-la acontecer sem esperar o dia da prometida transformação final.

Marxiano bateu na mesa:

— Reformas não eliminam as estruturas!

— Mas mudam a vida das pessoas.

— A desigualdade continua!

— Mas a pobreza pode cair.

— O capitalismo continua!

— Mas o trabalhador pode conseguir emprego, salário maior e direitos.

— A burguesia continua existindo!

— E continua votando.

— As transnacionais continuam!

— E podemos negociar investimentos, empregos e tecnologia com elas.

Marxiano respirou fundo.

— Você relativiza tudo.

— Não. Eu contextualizo.

— Falta-lhe teoria!

— E a você falta Congresso.

Nesse momento, o garçom aproximou-se.

— Senhores, o café vai fechar.

Marxiano protestou:

— Não aceito! O povo tem direito ao café!

O garçom respondeu:

— Concordo. Mas preciso da maioria dos sócios para manter o estabelecimento aberto até mais tarde.

Marxiano olhou para Petista.

Petista levantou as sobrancelhas.

— Não diga nada.

— Eu não disse.

— Está pensando.

— Maioria simples ou absoluta?

Marxiano finalmente riu.

Saíram juntos. Na porta, ainda tentou a última ofensiva:

— Um dia você compreenderá: sem ruptura não há verdadeira transformação!

Petista respondeu:

— E um dia você compreenderá: sem maioria não há sequer governo para tentar transformar alguma coisa.

Seguiram pela mesma calçada durante alguns metros. Na primeira esquina, Marxiano virou bruscamente à esquerda.

Petista continuou pelo centro da calçada, desviando dos demais pedestres contra sua direção, negociando passagem e procurando uma saída possível.

Moral do apólogo: O dogmático prefere perder sozinho com o programa íntegro; o pragmático prefere governar acompanhado com parte dele. Na democracia, princípios indicam o destino, mas alianças ajudam a construir a estrada — porque transformar uma sociedade plural e democrática exige não apenas ter razão, mas formar maioria.

Obs.: o apólogo ilustra o debate na esquerda entre o purismo ideológico marxista e o pragmatismo político em ambiente democrático

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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