Fernando Nogueira da Costa: A Lulista e o Pobre de Direita

Tempo de leitura: 12 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

Apólogo sobre fé, trabalho, dívidas e democracia

Por Fernando Nogueira da Costa*

A Avenida Paulista, em toda sua extensão, parecia um rio vermelho. Bandeiras, camisetas, cartazes e vozes ocupavam a paisagem.

Luliana saía da manifestação convencida de ter compartilhado sua esperança com mais de um milhão de pessoas. Era sua estimativa entusiasmada, não uma contagem verificada com precisão, dado o espraiamento da multidão móvel pelas ruas transversais e laterais.

Chamou um Uber.

O motorista, chamado José, olhou pelo retrovisor e observou os adesivos com o número 13 espalhados pela roupa da passageira. Soltou um suspiro.

— Boa tarde — disse Luliana. — Não vai votar no 13?

— Boa tarde. Não sei. Ultimamente, voto contra qualquer governo.

— Por quê?

— Porque minha vida está uma m… — ele conteve o palavrão ao perceber a passageira — uma verdadeira desgraça! Trabalho doze horas por dia, gasto R$ 5.706 com o aluguel do carro, R$ 2.800 com gasolina, 35% sobre o valor bruto das corridas é retido pelo aplicativo, tudo isso fora o aluguel da minha moradia e os pagamentos de cartões de crédito. Se a vida está ruim, a culpa é de quem governa!

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— Então você votou no Lula em 2022?

— Votei.

Luliana ficou surpresa.

— Por quê?

— Porque eu não aguentava mais aquele negócio da pandemia. Minha mãe morreu de Covid. Eu estava desempregado, e ela dependia do SUS. Ver aquele presidente debochando de vacina, máscara e sofrimento alheio me revoltava.

O carro ficou silencioso por alguns segundos.

— Sinto muito pela sua mãe — disse Luliana.

— Obrigado. Naquela época, a gente tinha de escolher entre trabalhar e morrer de fome ou ficar em casa e não conseguir pagar as contas.

— E a sua igreja? — perguntou ela.

— Foi quem ajudou. O pastor organizou doação de alimentos, os irmãos levaram remédios e fizeram companhia quando eu não podia nem visitar minha mãe.

— Então sua comunidade foi uma proteção social concreta.

— Quando minha família estava desmoronando, ocupou seu lugar.

Luliana olhou pela janela.

— Sabe, José, muita gente da esquerda não compreende suficientemente essa dimensão das igrejas com acolhimento nas periferias. O pertencimento oferece estabilidade e regras de convivência em contextos de grande vulnerabilidade. Mas, infelizmente, há a disciplina social de se votar no candidato indicado pelo pastor.

Ele sorriu pela primeira vez.

— A senhora conhece a expressão “a paz do Senhor”?

— Conheço.

— Pois é. Quando alguém me diz isso, não está apenas cumprimentando. Está dizendo eu pertencer a uma comunidade. Lá no culto, tenho nome, tenho irmãos, tenho quem me escute. Na rua, sou só mais um motorista tentando sobreviver.

— De fato, existem igrejas fazendo trabalho social importante, onde os serviços públicos municipais e estaduais não chegam adequadamente.

Os buracos na via pública

O carro seguia lentamente por uma avenida esburacada quando José reclamou:

— Está vendo, dona Luliana? Mais um buraco! Esse governo do Lula não conserta nada! Depois falam o Brasil estar melhorando…

Luliana olhou para o asfalto e perguntou:

— José, você sabe quem é responsável pela manutenção desta avenida?

— O governo, ué!

— Qual governo?

— Como assim, qual governo? Tem mais de um?

— Pelo menos três esferas de governo: federal, estadual e municipal. E, em certas áreas, as responsabilidades são compartilhadas.

— Então é por isso: ninguém resolve nada! Um joga a culpa no outro!

— Às vezes acontece. Mas também existem regras para distribuir as tarefas. A Constituição de 1988, depois do regime militar ditatorial, organizou o Brasil como uma federação. Os municípios cuidam especialmente dos assuntos de interesse local; os estados, de questões regionais e de outras competências próprias; e a União, de assuntos nacionais. Saúde, educação e meio ambiente, por exemplo, exigem cooperação.

— Parece uma família grande — observou José. — Quando quebra a geladeira, todo mundo diz não ser responsável!

— Boa comparação. É importante descobrir quem deveria chamar o técnico.

O primeiro buraco: a saúde

— Minha mãe esperava meses por uma consulta especializada — lembrou José. — E eu culpava o presidente.

— A responsabilidade depende da etapa do atendimento. A Unidade Básica de Saúde costuma ser administrada pelo município. A prefeitura organiza a atenção primária, equipes de saúde da família, vacinação e serviços locais.

— E os hospitais?

— Os estados coordenam a rede regional e administram hospitais de maior complexidade. Mas existem também hospitais municipais, federais e conveniados. As UPAs podem ter gestão municipal ou outra pactuada. Não é uma separação absoluta.

— E o governo federal faz o quê?

— O Ministério da Saúde define políticas nacionais, coordena o SUS e participa de seu financiamento, juntamente com estados e municípios. Portanto, os três têm responsabilidades.

José pensou.

— Então, se faltar médico no posto do bairro, devo cobrar primeiro da prefeitura?

— Em geral, sim. Mas também vale verificar se existem problemas de financiamento, contratação ou organização da rede. Cobrar corretamente não significa absolver os demais responsáveis.

O segundo buraco: a educação

Passaram diante de uma escola pública.

— Minha filha estudou aqui — disse José. — Quando faltava professor, eu culpava o governo central.

— Essa escola é municipal ou estadual?

— Nunca reparei.

— Pois deveria. Em geral, os municípios cuidam de creches, pré-escolas e ensino fundamental, especialmente nos anos iniciais. Os estados são responsáveis grande parte dos anos finais do fundamental e do ensino médio. Mas há redes municipais com os nove anos do fundamental, além de escolas estaduais com oferecimento também dos anos iniciais.

— E o governo federal?

— Define diretrizes nacionais, presta assistência técnica e financeira, participa do financiamento da educação básica e mantém instituições federais, como universidades e institutos federais. Há universidades públicas estaduais, como as paulistas (USP, UNICAMP, UNESP) e a UERJ, e federais, em todos os estados. Eu, por exemplo, cursei o IE-UNICAMP, graças à política compensatória por cotas adotada nos governos do Partido dos Trabalhadores.

— Não dá privilégios?

— Não. Faz uma reparação histórica. Busca equilibrar as oportunidades para segmentos da população marginalizados ao longo da história brasileira como negros, indígenas, quilombolas e pessoas de baixa renda. Compensa o fato desses grupos terem tido menos acesso a uma educação de qualidade no passado.

— Então, quando faltar professor, tenho de descobrir quem administra a escola.

— Exatamente. A indignação fica mais útil quando encontra o endereço certo.

O terceiro buraco: a segurança

Uma viatura passou com a sirene ligada.

José apontou:

— E os assaltos? Também não são culpa do presidente?

— Segurança pública envolve várias instituições. A Polícia Militar faz policiamento ostensivo; a Polícia Civil investiga crimes; e os estados também organizam seus Corpos de Bombeiros. A União tem Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e responsabilidades nacionais de coordenação e combate a crimes de sua competência.

— E a Guarda Municipal?

— Atua na segurança urbana. Desde fevereiro de 2025, há a possibilidade de policiamento ostensivo e comunitário pelas guardas municipais, respeitadas as atribuições das demais polícias e sem atividade de polícia judiciária.

— Então a Guarda não serve apenas para vigiar prédio público?

— Não. Sua atuação preventiva pode ser mais ampla, dentro dos limites legais.

José balançou a cabeça.

— Passei a vida toda ouvindo a falta de segurança pública ser culpa do presidente.

— O presidente tem responsabilidades, mas a segurança local da comunidade depende mais da atuação estadual e municipal.

O quarto buraco: o transporte

José desviou de outra cratera.

— Agora a senhora vai me dizer o presidente também não ser responsável pelo trânsito?

— Pelo trânsito desta avenida, não é. A prefeitura organiza a circulação urbana, sinalização, manutenção de vias municipais, ônibus locais e regulamentação dos serviços de transporte por aplicativo dentro de sua competência.

— E o estado?

— Cuida de rodovias estaduais e organiza serviços intermunicipais. Em regiões metropolitanas, necessita ter papel importante nos sistemas de trens e metrô.

— E a União?

— Cuida da infraestrutura federal, das rodovias federais e das diretrizes nacionais de transportes, entre outras atribuições.

José soltou uma gargalhada.

— Quer dizer eu ter me enganado porque passei quatro anos xingando o presidente por causa do semáforo quebrado na esquina da minha casa?

— Talvez o prefeito tenha escapado de suas cobranças na hora de votar!

O quinto buraco: saneamento e habitação

O carro passou por um córrego cheio de lixo.

— E isso aqui? — perguntou José.

— A limpeza urbana e a coleta de lixo são serviços municipais. O planejamento do uso do solo, o zoneamento e o Plano Diretor também são atribuições centrais da prefeitura.

— Mas quem cuida da água e do esgoto?

— Depende da organização regional. O município ou uma estrutura regional exerce a titularidade do serviço conforme a legislação; a prestação pode ocorrer por empresa municipal, companhia estadual ou concessionária privada. Estados também coordenam políticas regionais, recursos hídricos e parte do licenciamento ambiental.

— E as casas populares?

— A política habitacional é outro exemplo de cooperação. A União pode financiar programas nacionais, o estado pode aportar recursos e a prefeitura pode oferecer terrenos, infraestrutura, licenciamento e regularização fundiária.

— Então aquela casa popular não nasceu de um único governo?

— Exatamente. Muitas realizações públicas são construídas por várias esferas ao mesmo tempo.

— Na periferia, não urbanizam as favelas!

— Era para o estados fazerem o tratamento de água e esgoto em larga escala com redes de saneamento via companhias estaduais. Mas estão privatizando tudo. Viu, os governos do PT implementaram o Minha Casa Minha Vida!

A descoberta do motorista

José ficou calado por alguns instantes. Depois perguntou:

— Mas, dona Luliana, se o presidente não cuida diretamente de tanta coisa, por qual razão todo mundo culpa o governo federal?

— Porque o presidente é a figura política mais conhecida. Além disso, decisões nacionais sobre juros, impostos, salário-mínimo, crédito, emprego e programas sociais afetam a vida de todo mundo. Existe responsabilidade federal, sim. O erro é imaginar só ela ser culpada de falhas porque substitui todas as outras.

— Posso estar certo ao reclamar do governo federal pelos juros, mas errado ao culpá-lo pelo buraco da rua?

— Exatamente. E mesmo os juros exigem distinguir a política monetária do Banco Central independente, as condições do mercado de crédito e as taxas cobradas pelos bancos.

— Então meu voto para presidente não resolve todos os meus problemas?

— Nenhum voto isolado resolve. Você também escolhe prefeito, governador, deputados, senadores e vereadores. Cada um tem funções diferentes.

José riu:

— Descobri por qual razão a política é tão complicada. É como meu aplicativo: tem motorista, passageiro, plataforma, trânsito, combustível e pedágio. Quando a corrida atrasa, o passageiro só culpa o motorista!

— Embora às vezes o motorista também erra — respondeu Luliana.

— Verdade. Agora entendi: não basta saber reclamar. É preciso saber de quem cobrar e pelo quê. Mas tem uma coisa: meu pastor fala muito de política eleitoral. Prega cristão de verdade ter o dever de votar na direita.

— E você concorda?

— Eu obedeço ao meu pastor. Foi ele quem me ajudou quando eu estava no fundo do poço.

— Gratidão é importante — respondeu Luliana. — Mas você pode agradecer a ajuda e continuar tendo sua própria opinião política.

José pensou por alguns instantes.

— Talvez. Mas guardo um rancor porque a esquerda universitária vive chamando evangélico de ignorante ou “pobre de direita”.

— Há preconceitos e generalizações injustas, sim. E isso não ajuda ninguém a conversar. Esse rancor contra a elite intelectual pode expressar um complexo de inferioridade e deve ser superado com estudo ou leitura.

O endividamento popular

O motorista fez uma curva e perguntou:

— Mas me explique uma coisa: se a economia está tão boa quanto o governo diz, por que eu estou quebrado?

— Antes de responder, preciso saber: o que mais pesa nas suas contas?

— Os cartões de crédito.

— Quantos?

— Perdi a conta.

— Como assim?

— Um banco digital me ofereceu limite. Depois veio outro. Uma fintech aprovou crédito para mim. Aí comecei a usar um cartão para pagar o outro.

— E os juros?

— Um absurdo: cerca de 450% ao ano! Por isso fico revoltado com o governo.

— Os juros do cartão realmente são de amargar. Mas a taxa cobrada no crédito rotativo não é igual à Selic. Os bancos emprestam recursos de terceiros e não os podem assumir o risco de inadimplência. Como em cada três devedores somente um paga as prestações, o adimplente tem de pagar pelos inadimplentes. Essa lei do mercado é uma espécie de lei divina invertida: “os justos pagam pelos pecadores”…

— Então, o Banco Central tem responsabilidade sobre as regras do sistema e nem toda taxa de juro cobrada resulta diretamente de uma decisão presidencial?

José diminuiu a velocidade e emendou outra pergunta.

— A senhora entende de banco?

— Estudei no IE-UNICAMP com o autor do livro “Brasil dos Bancos”. Mas me parece você ainda não ter contado uma parte dessa sua história de endividamento.

Ele hesitou em dizer sim.

— As apostas. Você aposta?

— Bets. Comecei com futebol. Depois passei para outros jogos. Ganhei algumas vezes. Achei ter descoberto uma maneira de complementar minha renda.

— E depois?

— Perdi. Tentei recuperar. Perdi mais. Peguei dinheiro emprestado. Agora, quando chega uma notificação de aposta no celular, fico nervoso. Parece eu ter de jogar ainda mais. Tô usando todas as reservas financeiras da família! Vou me matar…

Luliana não respondeu imediatamente.

— José, isso pode ser um problema sério de saúde, não apenas uma questão de falta de disciplina. A ludopatia atua como um jogo patológico, ou seja, um vício em jogos de azar. É um transtorno mental, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). É caracterizada pela necessidade incontrolável e compulsiva de apostar e jogar, mesmo quando isso traz graves prejuízos financeiros, emocionais, familiares e profissionais.

— É verdade. Assim como o álcool ou a cocaína, esse vício afeta o sistema de recompensa do meu cérebro. Quando aposto, há uma liberação intensa do hormônio do prazer e tenho uma sensação de euforia.

— Com o tempo, provavelmente, seu cérebro passou a exigir estímulos cada vez maiores para sentir o mesmo prazer, criando uma “fissura”, isto é, um desejo urgente de jogar muito forte e difícil de controlar, não?

— O pastor diz ser “tentação”.

— Você pode encontrar apoio espiritual na sua comunidade, mas deve, ao mesmo tempo, procurar tratamento profissional. Uma coisa não precisa excluir a outra.

— Mas a senhora acha eu ser viciado?

— Não posso fazer esse diagnóstico. O que você descreve, porém, é motivo suficiente para buscar ajuda médica. O transtorno do jogo é reconhecido pela classificação internacional de doenças. E o primeiro cuidado seria evitar novas apostas enquanto procura atendimento.

— Engraçado… Eu culpava o governo por tudo, mas não contava para ninguém quanto tinha perdido por conta própria.

— Seu endividamento tem várias causas, José. Algumas são individuais; outras são econômicas e institucionais.

Reconhecer uma não elimina as demais.

Ele suspirou.

— Então também não adianta assumir toda a culpa como sendo minha?

— Não. O crédito pode ser oferecido de forma agressiva, e as apostas podem explorar mecanismos de recompensa muito difíceis de controlar. Mas reconhecer esses riscos também significa recuperar a capacidade de decidir sobre o próprio dinheiro. Por isso, Lula proibiu as bets.

A atual disputa eleitoral

O motorista ficou pensativo.

— E quanto à política? Afinal, quem governou melhor?

— Essa pergunta merece comparação, não torcida — respondeu Luliana. — Podemos olhar emprego, renda, fome, saúde, educação e habitação, sem esquecer o contexto de cada período.

Ela abriu no celular o site Brasil em Jogo: https://obrasilemjogo.com.br/

— Veja: ele reúne comparações entre os governos Bolsonaro e Lula e apresenta propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para 2027 a 2030. É uma fonte útil para localizar temas e documentos – e precisamos conferir os dados originais e distinguir entre resultados do Lula e promessas do Flávio.

José pediu para ela ler alguns pontos enquanto esperavam o semáforo abrir.

— Segundo os dados do IBGE, reproduzidos no site, a taxa média anual de desocupação passou de 9,6% em 2022 para 5,3% em agosto de 2026. A renda média real de todos os trabalhadores voltou a crescer de R$ 3.310, em dezembro de 2022, para R$ 3.738, em junho de 2026. Isto em valores reais, já descontada a inflação. No governo anterior do pai do atual candidato da extrema-direita, o mesmo indicador caiu de R$ 3.343 (dez/2018) para R$ 3.310 (dez/2022).

— Eu mesmo tenho trabalho, mas não tenho descanso — respondeu José.

— E isso nos leva às propostas. O programa de Lula fala em jornada de 40 horas, fim da escala 6×1 sem redução salarial e proteção para trabalhadores de plataformas digitais. Já o projeto de Flávio Bolsonaro enfatiza maior flexibilidade das relações de trabalho e remuneração por hora. São orientações distintas, com risco de maior exploração da força de trabalho com a defesa do “livre-mercado”.

— Mas eu sou motorista de aplicativo e atuo como fosse um microempreendedor. Nenhum desses programas vai pagar minhas dívidas amanhã.

— Não vai. E seria enganoso prometer isso. Uma proposta de proteção aos trabalhadores de plataformas ainda depende de regulamentação. Também é preciso saber como ela afetaria sua renda líquida, sua autonomia e seus custos.

— E na saúde?

— Lula propõe ampliar a rede pública e a atenção especializada. O programa de Flávio prevê maior integração das redes pública à privada, para aproveitamento de capacidade ociosa dos caros hospitais particulares. Na verdade, esse modelo de privatização da saúde não conseguirá oferecer atendimento de qualidade, com financiamento sustentável e acesso efetivo aos mais pobres.

José interrompeu:

— Minha mãe precisava de médico, não de discurso!

— Exatamente. Por isso precisamos avaliar resultados, não apenas intenções.

O motorista olhou novamente os adesivos da passageira.

— A senhora veio daquela manifestação toda de vermelho?

— Vim.

— E acha todo mundo lá pensar igual?

Luliana riu.

— De jeito nenhum. Há sindicalistas, estudantes, aposentados, pessoas religiosas, gente do centro e da esquerda. A própria ideia de Frente Ampla Democrática é permitir pessoas com diferenças importantes cooperarem em torno de regras democráticas.

— Meu pastor diz a esquerda querer acabar com a família.

— Famílias existem em muitas formas, José. Você pode defender suas convicções religiosas sem precisar acreditar toda pessoa com opinião diferente ser sua inimiga.

— E a direita? A senhora também acha todo eleitor de direita ser fascista?

— Não. Ser conservador, liberal ou religioso não torna ninguém automaticamente fascista. O problema começa quando um movimento rejeita eleições legítimas, pretende eliminar adversários ou trata a violência armada como solução de tudo.

— Então eu posso ser de direita e defender a democracia?

— Evidentemente.

José ficou em silêncio. Depois perguntou:

— E a senhora pode ser lulista e admitir erro do seu governo?

— Devo admitir. Nenhum governo merece um “cheque em branco”. Os cidadãos têm de o vigiar e, se for o caso, acionar as instituições para punir os responsáveis por falcatruas.

A conversa chegou ao destino. Antes de encerrar a corrida, José apontou para o celular de Luliana.

— Manda o endereço daquele site? Quero ler com calma. E também vou procurar ajuda para parar com as apostas.

— Mando sim: https://obrasilemjogo.com.br/ . Mas leia os programas completos e compare.

— E sabe de uma coisa? Vou conversar com meu pastor.

— Sobre a eleição?

— Também. Mas primeiro sobre minha dívida. Ele sempre me disse “a verdade liberta”. Acho ter chegado a hora de contar a minha.

Luliana sorriu.

— Espero você encontrar apoio.

José estendeu a mão.

— A paz do Senhor.

— E haja paz democrática também — respondeu ela.

Quando o carro partiu, Luliana percebeu não ter certeza de haver conquistado um voto. Havia conseguido algo diferente: ouvir um trabalhador cuja vida não cabia nos rótulos de esquerda e direita.

José, por sua vez, descobrira sua gratidão à comunidade religiosa, sua crítica ao governo e suas dificuldades financeiras não precisarem determinar automaticamente a mesma escolha eleitoral pregada pelo pastor. Pensando bem, é mais prudente votar no Lula…

Moral da estória: A pobreza não determina uma ideologia, a fé não elimina a liberdade de consciência individual e o sofrimento econômico não possui uma causa única. A democracia amadurece quando a empatia abre caminho para a informação e a escolha política deixa de ser obediência para tornar-se reflexão.

O diálogo democrático começa quando se reconhecem as necessidades materiais, os vínculos comunitários e a dignidade do outro. A política pública deve ser julgada por seus resultados e propostas; a escolha eleitoral, feita sem tutela, coerção ou obediência automática.

Afinal, transformar adversários em interlocutores é mais importante, para a democracia, em vez de os transformar em inimigos.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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