Fábio Trad: ”Vamos desprivatizar o sistema de saúde de MS para que o SUS seja fortalecido”
Tempo de leitura: 12 min
Por Conceição Lemes
Mato Grosso do Sul (MS), no Centro-Oeste do Brasil, tem 2.946.317 habitantes e 2.024.884 eleitores, informam o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), respectivamente.
Para os seus cidadãos que irão às urnas neste domingo, 4 de outubro, o principal problema do Estado é a saúde pública.
É o que mostra pesquisa realizada pelo Instituto Ranking Brasil Inteligência, que ouviu 2.000 habitantes com 16 anos ou mais de idade, em 30 municípios do Estado, de 7 a 12 de agosto deste ano.
Para 35% dos entrevistados, o maior problema é a saúde pública e a falta de médicos. Depois, aparecem: com 30, 4%, falta de medicamentos e de exames; e com 27%, a corrupção na central de vagas da saúde.
Saúde pública, portanto, à frente de preocupações, como segurança, que costumam liderar essas pesquisas. Os entrevistados podiam mencionar múltiplas respostas. A íntegra dos resultados pode ser lida aqui.

Fonte: Instituto Ranking Brasil Inteligência
Daí a pergunta óbvia aos ex-governadores e ao atual: por que a saúde pública de MS está mal avaliada se privatizaram-na, vendendo o discurso da ”meritocracia”, ”mais eficiência”, ”mais acesso”, ”melhor gestão”, ”qualidade”?
De 2007 para cá, os sucessivos governos de MS abriram mão de administrar a saúde pública do Estado. Foram entregando-a, gradativamente, à iniciativa privada.
É o caso destes hospitais regionais (do interior e de Campo Grande), hoje na mão da iniciativa privada. Os responsáveis pela entrega são os governadores de cada época:
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- Hospital Regional de Coxim ➜ André Puccinelli (MDB/MS)
- Hospital Regional de Nova Andradina ➜ André Puccinelli
- Hospital Regional de Ponta Porã ➜ Reinaldo Azambuja (PL/MS)
- Hospital Regional de Cirurgias Eletivas da Grande Dou ➜ Reinaldo Azambuja
- Hospital Regional, Centro de Especialidades e Centro de Diagnóstico de Dourados, que formam o complexo do HRD ➜ Eduardo Riedel (PP/MS)
- Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), em Campo Grande ➜ Eduardo Riedel.
- Hospital Regional de Três Lagoas ➜ Eduardo Riedel já anunciou que será repassado à iniciativa privada por meio de PPP (Parceria Público-Privada). Atualmente é administrado por Organização Social de Saúde (OSS)
Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) é o maior do Estado. Em 4 de dezembro de 2025, o governador Eduardo Riedel entregou-o à iniciativa privada de meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). Venceu o consórcio vencedor Construcap.
Cadê as alardeadas meritocracia, eficiência, qualidade e acesso?
Mato Grosso do Sul é prova de ineficiência e ineficácia da privatização na saúde.
‘’Nós vamos desprivatizar o sistema de saúde do Estado para que o SUS seja fortalecido e as funções essenciais do Estado, do poder público, sejam retomadas’’, afirma o advogado Fábio Trad, candidato do PT ao governo de Mato Grosso do Sul, em entrevista ao Viomundo.
Trad vai na contramão de gestores pelo Brasil afora, e inova corajosamente. Em prol do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos seus milhões de usuários.
”A Constituição estabelece que a Saúde é dever do Estado. Então, nós vamos constitucionalizar a saúde pública de Mato Grosso do Sul. Não vamos admitir terceirização através de OSS”, expõe.
“Muitas delas delas só servem para abrigar indicações políticas e fazer trabalho em favor de determinados grupos políticos dentro da saúde pública. Muitas dessas OSS também já estiveram envolvidas em corrupção’’, argumenta.
Fábio Trad é advogado e professor de Direito Penal e ex-presidente da OAB de Mato Grosso do Sul. Foi deputado federal por três mandatos.
Disputa a eleição para governador do Estado com outros sete candidatos. Tem como vice na chapa, Dona Gilda. Aparece em segundo lugar nas pesquisas eleitorais.
Segue a íntegra da nossa entrevista.
Viomundo – Nos últimos 19 anos, os sucessivos governadores de Mato Grosso do Sul se notabilizaram pela entrega dos serviços públicos de saúde do Estado à iniciativa privada. O que acha?
Fábio Trad –– Na minha avaliação, evidencia a incompetência dos ex-gestores do Estado e do atual em gerir os serviços públicos, sem que a população veja resultados positivos, efetivos.
Viomundo — Caso eleito, o que propõe?
Fábio Trad – Para começar, o diagnóstico em relação à contratação de OSS nos hospitais do interior. A nosso ver, as OSS são porta de entrada de corrupção e apadrinhamento político, que atentam contra os princípios do SUS, que nós queremos fortalecer.
Então, nós vamos desprivatizar o sistema de saúde do Estado para que o SUS seja fortalecido e as funções essenciais do Estado, do poder público, sejam retomadas.
Uma das questões que mais afligem a população do Estado é a promessa descumprida do atual grupo que nos governa quanto à regionalização da saúde.
Desde 2015, eles pregam que as pessoas que moram no interior seriam atendidas nas suas cidades ou em cidades próximas e, assim, evitariam a superlotação nos hospitais de Campo Grande.
Isso não ocorreu. Hoje, em Campo Grande, nós temos dois hospitais de grande porte: o Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), que é o maior do Estado, e o da Santa Casa Misericórdia, filantrópico.
Eles vivem lotados justamente porque a rede hospitalar do interior do Estado é precária no oferecimento de atendimento de média e alta complexidade. Muitas vezes isso faz com que situações que poderiam ser sanadas nas cidades Polo sejam enfrentadas apenas aqui em Campo Grande.
Também vamos oferecer mais leitos e maiores condições para esses hospitais atenderem média e alta complexidade e estimular a fixação dos médicos no interior do Estado.
Nós vamos fortalecer primeiro a questão relacionada à atenção primária, até mesmo por uma questão de prevenção.
Também queremos tornar transparente e auditável a fila da regulação (de exames, consultas, cirurgias).
Hoje, o cidadão que está na fila da regulação não sabe em que posição está, quantas pessoas estão à sua frente, qual o tempo médio de espera para ser atendido.
Viomundo – Como tornar transparente a fila da regulação?
Fábio Trad – Nós queremos, através de um número de protocolo, dar ao cidadão sul-mato-grossense condições de saber — por telefone, internet ou celular – qual a sua situação na fila, o tempo médio de espera, se tem perspectiva de uma fluência mais ágil ou não.
Esse número não vai identificar a pessoa nem a patologia. É apenas um número de protocolo, para que o cidadão tenha uma posição da sua situação na fila, pois ele não pode ficar no escuro.
É uma das medidas profiláticas, diria assim, para evitar o escândalo que explodiu aqui. O chefe do setor de regulação da Secretaria de Estado foi preso porque cobrava propina de prefeituras para colocar os munícipes dessas cidades na frente de outras se eles pagassem propina.
Isso deve ter causado mortes, já que há mais de 25 mil pessoas na fila aguardando cirurgias eletivas, exames, leitos, vagas e devem ter sido preteridas porque os seus prefeitos não pagaram a propina exigida.
Viomundo — Por que desprivatizar os hospitais regionais, retomando-os para o Estado, enquanto a esmagadora maioria dos gestores pelo Brasil afora está fazendo o oposto?
Fábio Trad — A Constituição estabelece que a Saúde é dever do Estado. Então, nós vamos constitucionalizar a saúde pública de Mato Grosso do Sul. Não vamos admitir terceirização através de OSS [Organizações Sociais de Saúde].
Viomundo — Por quê?
Fábio Trad — Como eu disse antes, muitas delas só servem para abrigar indicações políticas e fazer trabalho em favor de determinados grupos políticos dentro da saúde pública. Afora o fato de que muitas dessas OSS já se viram envolvidas em corrupção.
Nós entendemos que os serviços que elas prestam pode ser exercido, sim, pelo poder público.
Além disso, nós entendemos que o processo de leilão que ocorreu no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande — falam que foi feito só da bata cinza e não da bata branca. [A bata cinza é a parte estrutural e não a parte dos recursos humanos].
Evidentemente, para nós vai ser muito difícil revogar tudo o que foi feito. Mas nós, pelo menos, vamos ter condições de frear esse processo de privatização.
Nós não queremos que isso ocorra. Esse leilão, que ocorreu e está endividando o Estado, é apenas o primeiro passo para a entrega do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul para o mercado.
Nós não queremos também que a vida seja instrumento de ambição, ganância, de lucro de pequenos grupos empresariais aqui de Mato Grosso do Sul.
Viomundo — O seu programa de governo prevê a criação da carreira estadual do SUS. Como seria? Qual a importância dela para o SUS e os trabalhadores?
Fábio Trad — Previsibilidade, profissionalização, impedimento de qualquer interferência de padrinhos políticos para melhorar a situação de um e piorar de outro por conta de parentesco ou mesmo de indicação.
Estímulo para fixação de profissionais no interior. Através desse estímulo fazer com que ele ganhe gratificações ou outras vantagens adicionais na remuneração ou mesmo na carreira e segurança jurídica.
Esses são os valores que nós queremos incorporar com a consolidação da carreira dos profissionais de saúde aqui do Estado.
Viomundo — Mato Grosso do Sul tem 79 municípios distribuídos numa área territorial 357.142,01km². O que pretende fazer para interiorizar os recursos humanos nas diferentes e distantes regiões de saúde do Estado?
Fábio Trad – Para interiorizar, nós temos que, em primeiro lugar, robustecer o orçamento público do Estado.
O orçamento de MS está sofrendo uma grande hemorragia por conta do abuso de isenção fiscal concedida pelo governo do Estado a grupos empresariais da indústria de celulose e da atividade agroexportadora. Só em 2026, Mato Grosso do Sul deixou de arrecadar R$ 11,950 bilhões, para favorecer esses grupos empresariais. Isso é mais do que a soma da previsão de investimento do Estado em saúde, segurança e educação juntos.
Nós queremos estancar essa hemorragia no orçamento. Nós não podemos rescindir o contrato porque causaria insegurança jurídica e desemprego em massa. Mas vamos aplicar o contrato na questão da contrapartida. Nós queremos saber quais as contrapartidas dessas empresas.
Aqui, em Mato Grosso do Sul, essas empresas estão se instalando na Costa Leste. Lá, por exemplo, tem um município chamado Inocência, com 8 mil habitantes.
Só que, para construir essa fábrica de celulose, 28 mil trabalhadores volantes estão lá perto. Colapsou o sistema de saúde, colapsou o sistema de segurança, colapsou o sistema de educação pública.
E, aí, eu pergunto.
Houve planejamento, algum programa de desenvolvimento local?
Por que o governo não planejou para evitar o colapso?
Por que o governo não monitora a contrapartida?
Por que o governo não multa quando a contrapartida não é efetivada?
Isso tudo está no contrato, então o governo é leniente. Se estancarmos esse fluxo hemorrágico no orçamento, nós vamos recuperar receita. Recuperando receita, vamos ter condições de investir no que é prioridade. Saúde, segurança, educação e infraestrutura.
Na saúde, mais concursos públicos para a incorporação de profissionais a fim de fazer com que o Estado esteja presente nos bolsões desérticos do Estado, onde o Estado aqui é praticamente ausente.
Coincidentemente, nessa região de fronteira que o Estado abandonou, Comando Vermelho e PCC estão em constante confronto. Nós vamos recuperar esses territórios.
Viomundo – Por falar em hemorragia, a rede de hematologia do Hemosul está sendo gradativamente desmontada nas regiões e as operações funcionais centralizadas em Campo Grande. O que pretende fazer para que essa rede funcione plenamente, evitando cortes na captação e oferta de sangue e hemoderivados e ainda forneça matéria-prima para Hemobrás?
Fábio Trad — Vou ter que ouvir o setor, as partes envolvidas para que possam apresentar sugestões efetivas, exequíveis, para que eu possa implementar.
Agora, o fato é que o gestor tem que ter a sensibilidade apurada para detectar o que é vital, o que é prioritário. E nesse ponto em particular, vou, evidentemente, me debruçar para, com boa vontade, muito esforço e muita sensibilidade política, atender as demandas do setor e investir naquilo que for possível e desejável para evitar soluções de continuidade.
Viomundo – Entre as demandas prioritárias dos territórios estão a criação da Universidade Federal do Pantanal e o Centro de Farmacologia e Farmacognosia das Plantas Medicinais. O que o acha delas?
Fábio Trad – Se eu disputar o segundo turno e for eleito governador, vou criar a Universidade do Pantanal, em Corumbá, no coração do Pantanal. Vai ser a joia da nossa gestão. Eu penso conciliar na futura universidade produção de pesquisa, alta tecnologia e inovação, preservação e inteligência acadêmica.
Considero fundamental também o centro de farmacologia com remédios do Pantanal, do Cerrado. Tem muita coisa que farmacêuticos, bioquímicos e químicos de Mato Grosso do Sul podem adensar para que a tecnologia farmacêutica avance aqui no Estado e agregue valor aos nossos produtos primários.
Queremos diversificar a matriz econômica do Estado. A gente não quer apenas centrar na questão agroexportadora. A gente quer avançar, exportar também conhecimento e tecnologia. Chega de só plantar e exportar soja e milho!
Viomundo – Para isso, o que pretende fazer?
Fábio Trad — A gente tem que fomentar muitos cursos profissionalizantes e direcionados à tecnologia. Estimular parcerias com universidades públicas daqui do Estado, como a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, a Universidade Federal da Grande Dourados e os institutos federais, para oferecimento e capacitação tecnológica da nossa juventude.
Evidentemente, se tiver algo a ver com agro, vamos tecnologizar o agro também. Por que não?
Não queremos mais uma juventude braçal. Queremos uma juventude tecnológica, cerebral, que potencialize e dê produtividade e competitividade aos produtos de Mato Grosso do Sul.
Viomundo – E as plantações de soja e milho?!
Fábio Trad — Nós vamos construir indústrias de transformação do milho, da soja e – por que não também? – da celulose. Vamos fazer alguma coisa além daquilo que é primário e exportador.
Por quê? Porque a gente garante mais emprego e emprego de melhor qualidade.
Aqui nós 1.700.000 hectares (um milhão e setecentos mil hectares) só de eucalipto. Isso significa o Distrito Federal dentro de Mato Grosso do Sul só de eucalipto.
Isso está comprometendo as nascentes dos rios de Mato Grosso do Sul, que estão cheios de macrófitas flutuando na água.
Isso é veneno. Temos, portanto, tem que reagir. A gente quer desenvolvimento, sim, mas desenvolvimento sustentável, desenvolvimento que respeite a vida.
Viomundo — O PAC da Saúde prevê a construção de uma maternidade em Corumbá com 150 leitos. Isso significa que essa maternidade terá muita ociosidade, porque não nascem 150 crianças por dia em Corumbá e Ladário. Em Corumbá e Ladário juntos são 1.890 a 2.220 nascimentos por ano. O ideal é que o objeto da obra fosse Hospital com Maternidade, que resultaria num grande complexo hospitalar na região do Pantanal e de fronteira com a Bolívia. Caso eleito, levaria a proposta de mudança do objeto de Maternidade para Hospital com Maternidade ao presidente Lula e ao ministro Alexandre Padilha?
Fábio Trad — Nós precisamos construir um hospital e dentro dele a maternidade para atender toda aquela região do Pantanal.
Em Corumbá, há um alto índice de mortalidade materna. Quando a gestante corumbaense tem complicação de parto, é levada para outros polos, a grandes distâncias, e não resistem.
Os ribeirinhos e os trabalhadores das fazendas moram muito distantes da cidade. Isso também provoca alta mortalidade de gestantes.
Portanto, junto com o Ronaldo, que é o superintendente [o médico Ronaldo de Souza Costa, superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul], farei, sim, gestão junto ao governo federal para comprovar, tecnicamente, a viabilidade da construção do hospital e, dentro dele, a maternidade.
Vimundo — O complexo de oncologia do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados já foi aprovado pela Rede HU Brasil (ex-Ebserh) nas diversas instâncias. Ou seja, o Centro de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) do HU da UFGD pode sair, mesmo. Uma conquista histórica para a saúde pública de Dourados e de toda a região. Vai atender 34 municípios. O que planeja para consolidar a Rede de Centros de Alta Complexidade em Oncologia de Mato Grosso do Sul? Tem algum plano nesse sentido?
Fábio Trad — O plano é mobilizar as forças políticas do Estado para gestionar junto ao governo federal recursos para a implementação desse projeto.
O atual governador é um administrador arroz com feijão. Ele não tem a visão de horizonte e é muito adepto da gramática empresarial que não dialoga com o povo.
Então, a nossa intenção é mobilizar as forças políticas estaduais e fazer um grande movimento junto à bancada federal, junto ao Ministério da Saúde, para que possamos efetivamente materializar a oncologia no Hospital Universitário de Dourados.
Viomundo — Em Campo Grande existe o Hospital do Trauma. É um hospital federal que foi construído e equipado pelo Ministério da Saúde, que o cedeu à Santa Casa. Só que é inoperante. As cirurgias ortopédicas esperadas não estão sendo realizadas. Consequentemente, os termos do TAC não foram cumpridos. Tem algum plano para o Hospital do Trauma?
Fábio Trad — Sim, tão logo a gente assuma, priorizaremos as demandas urgentes e estruturadas da saúde pública do Estado e iremos a Brasília, fazer gestões junto ao Ministério da Saúde, junto ao Presidente Lula, Deus queira que assim seja.
Também vamos, claro, iniciar diligências para saber por que: o Hospital do Trauma recebeu recursos e está inoperante; não cumpriu até agora as condições estabelecidas no TAC. Vamos também saber quem é o responsável por isso e denunciar ao Ministério Público.
Viomundo — Mato Grosso do Sul fica no coração da América do Sul, tem quatro biomas preciosos – Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Chaco. À sua direita, a bacia do rio Paraná; à sua esquerda, a bacia do rio Paraguai. E ainda é sobre o Aquífero Guarani. Mas isso tudo está sendo destruído por pasto, monoculturas de soja, milho, eucalipto, que contaminam os rios, inclusive as nascentes, com agrotóxicos. Empresas usam imensidão de água pra fazer celulose, sem pagar um centavo, e ainda estão matando as nascentes dos rios. Como pretende resolver essa situação, preservando as nascentes e mananciais hídricos?
Fábio Trad — Mudando o modelo econômico e de gestão. O nosso modelo econômico é fundamentalmente centrado em privilegiar a agroindústria exportadora. Nós queremos fazer o inverso: prestigiar o setor da agroindústria exportadora, mas não às custas da agricultura familiar, não às custas do trabalho dos assentados, não às custas dos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos.
Nós queremos desenvolvimento, sim, mas nós primamos por um desenvolvimento sustentável. Portanto, vamos aplicar o princípio da progressividade tributária. Quem tem mais, paga mais. Quem tem menos, paga menos. E quem não tem, não paga.
É o que está na Constituição. O governo Riedel está isentando quem tem muito e arrochando quem não tem. Aqui, o microempreendedor e o médio empresário pagam, por exemplo, CMS e o IPVA de valor venal mais caro do país.
Viomundo — O senhor acha que pode ser o governador que vai possibilitar à população viver em equilíbrio com a natureza, água limpa, sem agrotóxicos?
Fábio Trad— Eu vou tentar. E já nos comprometemos com a indicação para as secretarias de Estado de titulares que sejam tecnicamente preparados e comprometidos com a sustentabilidade.
Nós não queremos um Estado poluído, nós não queremos um Estado degradado.
Nós queremos um Estado que otimize os recursos naturais e agregue valor econômico às nossas belezas naturais, aos nossos atrativos naturais, preservando-os.
E isso tem muito a ver, por exemplo, com a indústria limpa do turismo. Como você bem sabe, a cidade de Bonito é o principal destino do ecoturismo da América Latina. A gente pode fazer isso em várias regiões de Mato Grosso do Sul, não apenas em Bonito. E, assim, fazer o desenvolvimento justo para todos.
Viomundo — Gostaria de acrescentar alguma coisa?
Fábio Trad – Sim. Uma coisa é crescimento, outra coisa é desenvolvimento.
Mato Grosso do Sul cresceu, mas não se desenvolveu socialmente. É um Estado em que 62% das famílias vivem com uma renda média domiciliar inferior a dois salários mínimos. Embora tenha um PIB muito alto, essa riqueza não é distribuída para a população.
A renda é concentrada no topo e vai embora, vaza, para o exterior. E, aqui, quem trabalha, vive em condições muito difíceis.
A gente quer fazer com que a riqueza produzida no Estado fique no Estado e melhore a vida das pessoas.




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