Embaixador de Cuba no Brasil, em entrevista: “O povo cubano está determinado a resistir até o fim”

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Rua da cidade de Havana, capital de Cuba Foto: Reprodução

Por Redação

Em 14 de junho, o embaixador de Cuba no Brasil, Víctor Manuel Cairo Palomo, concedeu entrevista a  Pedro Amaral e Berna Menezes, da revista Linha Vermelha.

Pedro é escritor, mestre em Relações Internacionais e doutor em Letras pela PUC-Rio. Berna, historiadora e secretária-geral do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

A seguir a íntegra da entrevista.

Por Pedro Amaral e Berna Menezes*, na revista Linha Vermelha

1 – Um dos fatos mais impressionantes da história recente foi, sem dúvida, o ataque dos EUA à Venezuela, com o sequestro de Maduro e da primeira dama, que seguem mantidos reféns pelos criminosos, e submetidos a um tribunal farsesco. A agressão impressionou, ademais, pela facilidade encontrada pelos gringos, e pela rápida naturalização do fato, pela comunidade internacional e até mesmo pelo povo venezuelano. Que lições os povos latino-americanos, em especial os brasileiros e os cubanos, podem extrair disso? De que forma Cuba tem se preparado para evitar ou enfrentar uma possível invasão ianque?

Embaixador Víctor Palomo: A agressão militar contra a Venezuela, em 3 de janeiro de 2026, violou as normas do direito internacional e constituiu um ato que deveria ter sido firmemente condenado por toda a comunidade internacional. Nenhum governo pode reivindicar o poder de invadir outro país, assassinar pessoas e sequestrar o Presidente e a Primeira-Dama. Embora tenha sido uma ação surpresa, este deplorável evento ocorreu após meses de imposição de medidas coercitivas unilaterais, um bloqueio naval, execuções extrajudiciais e ameaças de uso da força contra a Venezuela. Desde o início da movimentação irregular de tropas estadunidenses em direção ao Caribe, Cuba tem alertado repetidamente sobre a necessidade de condenar essas ações e impedir uma escalada.

Este ato brutal contra a dignidade de nossos povos, nos lembra que jamais podemos esquecer a natureza expansionista, criminosa e fascista do imperialismo estadunidense.

O imperialismo estadunidense tem sido o perpetrador, patrocinador ou financiador de inúmeros crimes contra nossa região ao longo de sua história. Portanto, os povos que foram vítimas de agressões e bloqueios genocidas não se surpreendem com as ações traiçoeiras do governo dos EUA em 3 de janeiro.

O povo cubano sempre deixou claro que o imperialismo não pode ceder nem um centímetro, como expressou o heróico guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara. A resistência épica de 32 cubanos que morreram em combate desigual na Venezuela não deve ser esquecida e serve como exemplo de luta para nossa nação.

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Cuba está sujeita a uma guerra multidimensional travada pelos EUA. Enfrentamos o mais longo bloqueio econômico, comercial e financeiro da história. A partir de janeiro de 2026, o bloqueio energético, que tentou paralisar o país, foi reforçado. Enfrentamos também uma guerra midiática para justificar a perversidade da punição coletiva à qual o povo cubano está sendo submetido.

Diante desse cenário, Cuba tem o dever de se preparar para exercer seu direito à legítima defesa, caso seja atacada. A doutrina da guerra de todo o povo cubano tem uma ênfase defensiva e é a base da resistência tenaz e permanente que o inimigo que tentar invadir nosso país encontrará.

Esperamos que nossa tradição de luta e experiência em combate sirvam de dissuasão para o inimigo que decidir atacar militarmente, mas, como já dissemos em inúmeras ocasiões, qualquer ação militar dos EUA, por mais limitada que seja, encontrará resposta.

Há mais de 60 anos, Cuba segue uma política externa aberta ao diálogo com os EUA para resolver, em igualdade de condições, os complexos problemas que existem entre nossas duas nações. Deixamos claro que nem o sistema constitucional cubano, nem a soberania de Cuba, nem o direito do nosso povo à autodeterminação para escolher seu próprio sistema político estão em negociação.

Somos uma nação de paz. Não queremos a guerra, mas o que o Brasil precisa entender é que a grande maioria dos cubanos está determinada a resistir a qualquer custo, até o fim.

Em condições difíceis e sujeitos a um bloqueio ilegal e genocida, continuamos a resistir de forma criativa e não renunciamos ao nosso direito ao desenvolvimento. Estamos transformando nossa matriz energética para reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis e alcançar nossa tão almejada soberania energética. Da mesma forma, continuamos a atualizar nosso modelo econômico de acordo com o Programa Econômico e Social do Governo. Nossos objetivos são aumentar a capacidade energética, a produção de alimentos, a eficiência empresarial e o bem-estar geral de nossa população.

Dessa forma, estamos nos preparando para resistir à guerra multidimensional à qual o governo dos EUA está submetendo o povo cubano.

Os povos da América Latina e do Caribe devem se unir e impedir que o governo autoritário de Trump e Marco Rubio prive nossa região de sua soberania e nos submeta aos interesses das elites do poder daquele país.

2 – Em países como o Brasil, o senhor sabe, a situação de Cuba divide até mesmo o campo da esquerda – parte da qual, na prática, fornece um apoio envergonhado ao bloqueio, na medida em que hesita em apoiar a revolução cubana, por ter reparos a fazer ao processo. De que forma podemos enfrentar esse desafio, travando o combate ideológico-político de modo eficaz, adaptado à época atual e à demografia dos nossos países, nos quais a juventude representa parcela expressiva da população?

O embaixador de Cuba no Brasil, Víctor Manuel Cairo Palomo Foto: Reprodução

Embaixador Víctor Palomo: O bloqueio contra Cuba é amplamente condenado pela comunidade internacional. A grande maioria dos brasileiros de diferentes orientações políticas com quem conversei sobre o bloqueio reconhece que se trata de uma política fracassada e genocida que viola o direito internacional.

Acredito que haja uma falta de compreensão sobre Cuba. Há uma falta de informação, e o que se lê e se ouve nas redes sociais reflete a guerra digital à qual estamos submetidos.

Por exemplo, a crise no sistema energético cubano é frequentemente tratada de forma tendenciosa pela opinião pública. Por que não se menciona que a crise está fundamentalmente ligada ao bloqueio dos EUA?

Cinco dias de bloqueio impedem o financiamento de reparos em uma usina termelétrica, que custam cerca de US$ 100 milhões.

Doze dias de bloqueio representam o orçamento anual de manutenção do sistema elétrico nacional: US$ 250 milhões.

Dois meses de bloqueio equivalem ao custo do combustível necessário para atender à demanda nacional de eletricidade: US$ 1,6 bilhão.

Os EUA  dedicaram recursos significativos para distorcer a imagem de Cuba no exterior, como parte de sua tentativa de isolar nossa Revolução. Cuba não conseguiu construir um país em circunstâncias normais. Tivemos que construir um país sob constante cerco, sob ataques de todos os tipos, sob as pressões mais perversas imagináveis. Cuba teve que se reinventar após cada ataque brutal do imperialismo, e ainda permanece de pé.

Muitas vezes me pergunto como é possível que pessoas preocupadas com os direitos humanos em todo o mundo não se oponham ao genocídio contra Cuba. Que humanista e defensor do bem-estar humano pode concordar com a privação da vida de crianças por falta de medicamentos, com a limitação de cursos escolares, com a restrição do acesso das pessoas a transporte, eletricidade, água e ao direito a uma vida digna?

O bloqueio contra Cuba é desumano, e tudo o que coloca vidas em risco deve ser moral e eticamente rejeitado.

A Embaixada de Cuba está se esforçando para ampliar sua presença nas redes sociais, na imprensa, em plataformas digitais e em outros meios de comunicação para disseminar objetivamente a realidade de Cuba.

Informações absurdas sobre Cuba estão sendo disseminadas sem verificação prévia.

As novas gerações devem preservar a memória histórica. Devem compreender de onde viemos e o que defendemos. A melhor maneira para os jovens brasileiros apreciarem nossa realidade é visitar o país, aprender sobre nossa história, nossa cultura e nossa forma de se relacionar com o mundo. Essas são as melhores maneiras de tomar conhecimento do que está acontecendo no meu país e do que significa ter uma revolução socialista, humanista e proletária a apenas 145 quilômetros dos EUA.

3 – O grande fato geopolítico, hoje, é possivelmente a disputa entre China e EUA pela hegemonia global, que em alguns momentos traz à lembrança os tempos da Guerra Fria, que tanto marcaram a República de Cuba. Como nossos países podem navegar nessa disputa, considerando que os EUA hoje se mostram mais belicosos que nunca, e a China difere da União Soviética em aspectos decisivos?

Embaixador Víctor Palomo: O governo dos EUA declarou, em sua mais recente Estratégia de Segurança Nacional, que a China é seu principal adversário. Promove também o ressurgimento do Corolário Roosevelt e o uso da força para impor a paz e seus interesses. O Secretário de Estado, um mitômano incontrolável, considera a região da América Latina e do Caribe sua esfera de influência exclusiva. A pressão exercida sobre os países da região para limitar ou romper os laços comerciais e estratégicos com a China é notória.

Como parte da busca por pretextos para justificar a inclusão absurda de Cuba como uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA, Marco Rubio fabrica histórias sobre bases militares chinesas e russas em Havana sem qualquer evidência.

Os EUA têm se dedicado a promover golpes de Estado, fraudes eleitorais, interferência nos assuntos internos dos Estados e o estabelecimento de bases militares em toda a região. A ameaça à paz na região tem sido e continua sendo o governo dos EUA.

Somente os países que afirmarem sua soberania serão capazes de confrontar com sucesso essa política agressiva dos EUA. A região conta com parceiros extrarregionais que são positivos para a integração e o desenvolvimento de nossa população. Temos o direito de escolher com quem nos relacionamos, sem a imposição de interesses geopolíticos de Washington.

4 — Como o Sr. avalia a experiência da participação cubana no programa Mais Médicos pelo Brasil? Valeu a pena? Serviu para aproximar nossos povos e culturas? Quais foram os principais desafios enfrentados? Seria possível e desejável realizarmos uma iniciativa semelhante no futuro próximo? Qual é a prioridade, hoje, no curto prazo?

Embaixador Víctor Palomo: A presença de profissionais cubanos no Programa Mais Médicos no Brasil foi benéfica para o povo brasileiro. Foi um programa exemplar de cooperação Sul-Sul que obteve significativo reconhecimento. Nossa cooperação contribuiu para a expansão da cobertura médica do sistema de saúde brasileiro em municípios com alta vulnerabilidade socioeconômica e acesso limitado.

Há muitas histórias de vida dentro do Programa Mais Médicos. Este projeto ajudou a fortalecer os laços históricos entre nossos povos e mostrou ao povo brasileiro a solidariedade e o humanismo que caracterizam os profissionais de saúde cubanos.

Atualmente, uma iniciativa semelhante ao Mais Médicos com a participação de médicos cubanos não está na agenda bilateral. Temos muitas oportunidades de trabalhar juntos no setor da saúde. Reativamos o Comitê Binacional de Saúde e estamos trabalhando para avançar em diversas áreas de interesse comum.

5 – Cuba e Brasil ainda hoje se comunicam muito menos do que deveriam; a presença cubana em nosso cotidiano ainda é pequena, para além das deturpações e caricaturas de que a grande mídia costuma se ocupar. Como podemos mudar essa realidade, sem esperar, ingenuamente, que os barões da imprensa, no Brasil e no exterior, atuem contra os interesses econômico-políticos que representam?

Embaixador Víctor Palomo: As relações entre Brasil e Cuba passam por um bom momento. Há um diálogo político fluido no mais alto nível. Cooperamos em diversas áreas. Existem fortes laços entre nossos povos, e várias organizações da sociedade civil brasileira mantêm relações com suas contrapartes cubanas.

Defender Cuba é defender a dignidade, o humanismo, a solidariedade e o direito dos povos da América Latina e do Caribe de não serem subjugados por uma única potência.

Essa defesa de Cuba deve ser expressa nas redes sociais. O debate de ideias também deve ocorrer nas redes sociais. Estamos trabalhando para promover a cultura cubana de forma mais ampla no Brasil. Queremos organizar mais espaços para debate e discussão na mídia, inclusive nos principais veículos, para que a realidade cubana seja melhor compreendida.

6 – Ao contrário da extrema direita, que tem se organizado, inclusive em nosso continente, preparando uma ofensiva sobre nossos países. O Brasil é uma potência regional, dirigido pela esquerda. Lula tem sido tímido na relação com os países que têm tido uma posição altiva e soberana ante a agressão imperialista, como Colômbia, México, Cuba. Como Cuba tem rompido o objetivo norte-americano de isolar politicamente e economicamente a ilha?

Embaixador Víctor Palomo: Desde 1959, o governo dos EUA tentou isolar a Revolução Cubana. Após 60 anos, podemos afirmar que a política estadunidense de tentar isolar politicamente o nosso povo fracassou.

Cuba conduziu uma política externa em defesa dos princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas. Promoveu a paz, o respeito à soberania dos povos e o direito à autodeterminação.

Mantivemos relações com a grande maioria dos Estados do mundo, respeitando as normas de convivência pacífica entre os Estados.

A comunidade internacional testemunha que somos uma Revolução que transformou o conceito de Martí de que “Pátria é Humanidade” em realidade e princípio fundamental da nossa política externa.

Quero destacar a inabalável solidariedade do Presidente Lula com a Revolução Cubana, com o povo e o governo cubanos em nossa luta contra o bloqueio. O Presidente Lula exerceu liderança internacional contra essa política genocida dos EUA.

Recentemente, em conversa com a Presidente do México, o Presidente Lula reiterou sua posição e expressou preocupação com a crise humanitária causada pelas medidas coercitivas unilaterais contra o nosso país.

Movimentos de solidariedade, movimentos sociais, forças políticas e sindicatos têm realizado importantes campanhas de arrecadação de fundos para apoiar Cuba com doações de painéis solares, medicamentos e alimentos.

Atualmente, o imperialismo ianque, em declínio, representa uma ameaça aos nossos povos. É hora de uma marcha unida para deter as tentativas do fascismo ianque de neocolonizar nossa região.

*Pedro Amaral é escritor, mestre em Relações Internacionais e doutor em Letras (PUC-Rio).

Berna Menezes é historiadora, secretária-geral do PSOL Nacional.

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