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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Monge Barros: Lula mandou dizer a vocês que está consciente de ser vítima de armação política

15 de maio de 2018 às 09h46

Da Redação

Nessa segunda-feira (14/05), o monge beneditino Marcelo Barros visitou o ex-presidente Lula, em Curitiba.

Após a visita, o monge relatou à imprensa e aos militantes (veja vídeo acima) que encontrou Lula com muita força, mas indignado com sua prisão política:

“O encontrei muito sereno, bem de saúde, bem disposto e com a cabeça muito boa. Ele mandou um recado para vocês: disse que a força dele é sentir a unidade de vocês e que ele está consciente de ser vítima de uma armação política”.

O monge divulgou uma carta emocionante com  detalhes da conversa com o ex-presidente. Leia abaixo.

Foto: Eduardo Matysiak/Agência PT

A indignação profética de quem ama

por Monge Marcelo Barros

Desde que a justiça liberou visitas religiosas, fui o segundo a ter graça de visitar o presidente Lula em sua prisão. (Quem abriu a fila foi Leonardo Boff na segunda-feira passada).

Eram exatamente 16 horas quando cheguei na dependência da Polícia Federal onde o presidente está aprisionado. Encontrei-o sentado na mesa devorando alguns livros, entre os quais vários de espiritualidade, levados por Leonardo.

Cumprimentou-me. Entreguei as muitas cartas e mensagens que levei, algumas com fotografias. (Mensagem do Seminário Fé e Política, de um núcleo do Congresso do Povo na periferia do Recife, da ASA (Articulação do Semi-árido de Pernambuco) e de muitos amigos e amigas que mandaram mensagens.

Ele olhou uma a uma com atenção e curiosidade. E depois concluiu:

– De saúde, estou bem, sereno e firme no que é meu projeto de vida que é servir ao povo brasileiro como atualmente tenho consciência de que eu posso e devo. Você veio me trazer um apoio espiritual. E o que eu preciso é como lidar cada dia com uma indignação imensa contra os bandidos responsáveis por essa armação política da qual sou vítima e ao mesmo tempo sem dar lugar ao ódio.

Respondi que, nos tempos do Nazismo, Etty Hillesum, jovem judia, condenada à morte, esperava a hora da execução em um campo de concentração. E, naquela situação, ela escreveu em seu diário:

“Eles podem roubar tudo de nós, menos nossa humanidade. Nunca poderemos permitir que eles façam de nós cópias de si mesmos, prisioneiros do ódio e da intolerância”.

Vi que ele me escutava com atenção e acolhida. E ele começou a me contar a história de sua infância. Contou como, depois de se separar do marido, dona Lindu saiu do sertão de Pernambuco em um pau de arara com todos os filhos, dos quais ele (Lula) com cinco anos e uma menina com dois.

Lembrou que quando era menino, por um tempo, ajudava o tio em uma venda. E queria provar um chiclete americano que tinha aparecido naqueles anos.

Assim como na feira, queria experimentar uma maçã argentina que nunca havia provado. No entanto, nunca provou nem uma coisa nem outra para não envergonhar a mãe.

E aí ele prosseguia com lágrimas nos olhos: Agora esses moleques vêm me chamar de ladrão. Eu passei oito anos na presidência. Nunca me permiti ir com Marisa a um restaurante de luxo, nunca fiz visitas de diplomacia na casa de ninguém… Fiquei ali trabalhando sem parar quase noite e dia… E agora, os caras me tratam dessa maneira…

Eu também estava emocionado. O que pude responder foi:

– O senhor sabe que as pessoas conscientes, o povo organizado em movimentos sociais no Brasil inteiro acreditam na sua inocência e sofrem com a injustiça que lhe fizeram. Na Bíblia, há uma figura que se chama o Servo Sofredor de Deus que se torna instrumento de libertação de todos a partir do seu sofrimento pessoal. Penso que o senhor encarna hoje, no Brasil essa missão.

Comecei a falar da situação da região onde ele nasceu e lhe dei a notícia de que a ASA (Articulação do Semi-árido) e outros organismos sociais estão planejando um grande evento para o dia 13 de junho em Caetés, a cidadezinha natal dele.

Chamar-se-á “Caravana do Semi-árido pela Vida e pela Democracia” (contra a Fome – atualmente de novo presente na região – e por Lula livre).

A partir daquela manifestação, três ônibus sairão em uma caravana de Caetés a Curitiba para ir conversando com a população por cada dia por onde passará até chegar em Curitiba e fazer uma festa de São João Nordestino em frente à Polícia Federal.

Ele riu, se interessou e me pediu que gravasse um pen-drive com músicas de cantores de Pernambuco, dos quais ele gosta. Música de qualidade e que não estão no circuito comercial.

Vergonha. Nunca tinha ouvido falar de nenhum e nem onde encontrar. Ele me disse que me mandaria os nomes pelo advogado e eu prometi que gravaria.

Distenção feita, ele quis me mostrar uma fotografia na parede na qual ele juntou os netos. Explicou quem é cada um/uma e a sua bisneta de dois anos (como parece com dona Marisa, meu Deus!).

Começou a falar mais da família e especialmente lembrou um irmão que está com câncer.

Isso o fez lembrar que quando Dona Lindu faleceu, ele estava na prisão e o Coronel Tuma permitiu que ele saísse da prisão e com dois guardas fosse ao sepultamento da mãe.

No cemitério, havia uma pequena multidão de companheiros que não queriam deixar que ele voltasse preso. Ele teve de sair do carro da polícia e falar com eles pedindo para que deixassem que ele cumprisse o que tinha sido acertado. E assim voltou à prisão.

A hora da visita se passou rápido. Perguntei que recado ele queria mandar para a Vigília do Acampamento e para as pessoas às quais estou ligado.

Ele respondeu:

– Diga que estou sereno, embora indignado com a injustiça sofrida. Mas, se eu desistir da campanha, de certa forma estou reconhecendo que tenho culpa. Nunca farei isso. Vou até o fim. Creio que na realidade atual brasileira, tenho condições de ajudar o Brasil a voltar a ser um país mais justo e a lutar para que, juntos, construamos um mundo no qual todos tenham direitos iguais.

Para concluir a visita, propus ler um texto do evangelho e ele aceitou.

Li o evangelho do próximo domingo – festa de Pentecostes e apliquei a ele – os discípulos que estão em uma sala fechada, Jesus que se deixa ver, mesmo para além das paredes que fechavam a sala. E deu aos seus a paz, a alegria e a capacidade de perdoar no sentido de discernir o julgamento de Deus sobre o mundo. E soprando sobre eles lhes deu a vida nova do Espírito.

Segurei em suas mãos e disse: Creio profundamente que isso se renova hoje com você.

Vi que ele estava emocionado. Eu também fiquei. Abri o pequeno estojo e lhe mostrei a hóstia consagrada que lhe tinha trazido da eucaristia celebrada na véspera. Oramos juntos e de mãos dadas o Pai Nosso.

Eu tinha trazido duas hóstias. Eu lhe dei a comunhão e ele me deu também para ser verdadeiramente comunhão.

Em um instante, eram vocês todos/as que estavam ali naquele momento celebrativo e eu disse a ele:

“Como uma alma só, uma espécie de espírito coletivo, muita gente – muitos companheiros e companheiras estão aqui conosco e estão em comunhão e essa comunhão eucarística representa isso.

Eu lhe dei a bênção e pedi a bênção dele para todos vocês.

Foi isso.

Quando o policial que me foi buscar me levou para fora e a porta se fechou atrás de mim, me deu a sensação profunda de algo diferente.

Senti como se eu tivesse saído de um espaço de liberdade espiritual e tivesse entrando na cela engradeada do mundo que queremos transformar.

Que o Espírito de Deus que a celebração desses dias invoca sobre nós e sobre o mundo nos mergulhe no amor e nos dê a liberdade interior para irmos além de todas essas grades que aprisionam o mundo.

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Julio Silveira

15/05/2018 - 11h57

Com a justiçamento feito contra o Lula o sistema judicial nacional se desmascarou.
Escancarou o que qualquer bom brasileiro consciente já deveria saber, que o sistema é o porto seguro de todas as injustiças franqueadas contra o povo no país, vindas da sua elite cleptocratica.

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David

15/05/2018 - 11h49

Toda vez que leio algo em que Lula pode transmitir sua indignação pela sacanagem de que é vítima, eu também fico indignado com a inutilidade de juízes tidos como progressistas e que foram colocados no STF por um partido progressista, que agora se valem de artimanhas jurídicas para não conceder a ele a oportunidade de pelo menos se defender em liberdade.
Enquanto isso, assistimos pessoas que foram flagradas com milhões de dólares em bancos sendo colocados rapidamente fora das prisões.

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Maria Telma

15/05/2018 - 10h37

Lula = a emprego bom com carteira assinada, sinônimo de muitos concursos, sinônimo de crescimento.
Psdb = privatização, gera emprego para gringos, sinônimo de atraso, poucos concursos ou quase nenhum, sinônimo de desemprego em massa. Empregos gerados pelo psdb é o famoso bico.
Psdb é o braço intelectual do PMDB. São neoliberais, pensam no mercado e deixam o povo de lado, só fazem coisas para banqueiro.
Psdb e pmdb são duas faces da mesma moeda, golpe e atraso. Retrocesso, penúria, programa emprego 0, ou seja, demissão em massa, emprego de quinta categoria.

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