Eleonora de Lucena: O que está em jogo é a própria ideia de país

Tempo de leitura: 3 min

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Truculência

por Eleonora de Lucena, na Folha de S. Paulo, em 22/08/2016 

O Brasil entrou no centro da disputa geopolítica mundial. Tem riquezas naturais, mercado interno, posição estratégica. Construiu economia diversificada e complexa, terreno para grandes empresas nacionais e ambiente potencial para desenvolvimento de tecnologias de ponta.

Os Estados Unidos, acostumados a nadar de braçada no continente, começaram a ver o avanço chinês no que consideram seu quintal. Investimentos, comércio, parcerias com os orientais cresceram de forma exponencial.

Não parece ser coincidência a intenção norte-americana de voltar a ter bases militares na América do Sul (na sempre sensível tríplice fronteira e na Patagônia, que vigia o estreito de Magalhães, curva entre dois mundos). Nem parece ser ao acaso a escolha dos alvos do momento: a Petrobras, as grandes empresas e até o programa nuclear.

Nos últimos anos, o país mostrou zelar por sua autonomia e buscou alianças fora da influência dos EUA. Com China, Rússia, Índia e África do Sul, o Brasil ergueu os Brics e um banco de desenvolvimento inovador.

Aqui, reforçou o Mercosul -alvo imediato de ataque feroz do interino, afoito em mostrar serviço para o Norte e ressuscitar relações subalternas.

Esse contexto maior escapa da verborragia conservadora, ansiosa em reduzir a crise atual a um confronto raso entre supostos corruptos e hipotéticos éticos.

Bastaram poucas semanas para deixar evidente a trama hipócrita e podre do bando que tenta abocanhar o poder.

O que está em jogo é muito mais do que uma simples troca de governo. É a própria ideia de país.

Falar de luta de classes e de projeto nacional deixou alguns leitores ouriçados. Mas, apesar da operação de marketing em curso, os objetivos do atropelo à Constituição são claros: concentrar riqueza, liberar mercados, desnacionalizar a economia, desmantelar o Estado.

O discurso dos sem-voto que se aboletaram no Planalto tenta editar um macarthismo tosco, elegendo um inimigo interno. Agridem os de vermelho (sempre eles!), citados como os culpados de todo o mal, numa manobra conhecida dos movimentos fascistas desde o início do século 20.

Quem se atreve a discordar do rolo compressor elitista é logo tachado de “maluco” pelos replicantes da direita raivosa. Dizem que os que apontam as contradições atuais são saudosos do século 19.

Viúvos do século 19 são os que querem agora surrupiar direitos e restabelecer condições de exploração do trabalho daqueles tempos. Com a retórica de uma suposta modernidade, atacam conquistas sociais e pregam o desmonte da corajosa Constituição de 1988.

Alegam que a matemática não permite que o Estado cumpra suas funções perante os cidadãos. Para eles, a matemática deve servir apenas aos mais ricos e a seus juros maravilhosos. Num giro chinfrim, mandam às favas o tal controle do deficit público: gastam tudo para atender corporações, amigos e ganhar votos.

Com uma cortina de fumaça, arriscam confundir esquerda com autoritarismo. Projetam, assim, no adversário, os seus desejos ocultos. Afinal, o programa dos não eleitos só poderá ser implantado integralmente num regime de força, que censure e elimine a voz dos mais fracos.

As exibições de truculência absurda nos estádios da Olimpíada, proibindo manifestações de “Fora, Temer!” e rasgando os direitos constitucionais de livre manifestação e opinião, parecem ser uma terrível amostra de tempos sombrios pela frente.

O Senado vai enfrentar o julgamento da história.

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Comentários

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MARIA MIRTES MARTINS COHEN

Para onde foram os comentários políticos sobre o que disse Kassab ao Kenedy Alencar na segunda, ontem? Afinal, ser de direita é dizer que estamos dando um golpe baseados no fato de que vivemos em um semiparlamentarismo? Foi isto que disse Kassab. Admitiu o golpe e foi ignorado.

Serjão

Alguém em sã consciência achou que o Império do Norte fosse deixar que o Brasil saísse de sua órbita?
O Golpe vem do Norte e a base interna é a rede golpe, a rede goebbels, os Capo Marino!

Urbano

O intestino…

Edgar Rocha

E quem liga pro julgamento da História? São imediatistas, egocêntricos e inconscientes os que agem para dissolver a democracia brasileira. A História, todos sabem, é um exu de encruzilhada. Dá ao homem a resposta que se deseja ouvir. E informações incômodas podem facilmente ser escamoteadas, ocultadas, interpretadas ao gosto do freguês que dela se apossa e forja sua versão. Não há julgamento da História se esta aceita e legitima métodos e paradigmas que justifiquem o distanciamento do rigor científico em benefício da patrimonialização dos fatos. Antes que me acusem de adepto da ridícula “escola sem ideologias”, é bom que fique claro que a opção ideológica na construção do conhecimento não deveria ser dissociada do rigor ético e técnico. A História enquanto disciplina nos deixa inúmeras brechas neste sentido. Infelizmente, esta não é como a Engenharia: se um engenheiro erra no cálculo, a estrutura rui e as consequências são sentidas na pele. O erro Histórico, por outro lado, é o tijolo que pode manter uma estrutura em pé por muito mais tempo que deveria. Tanto se fez para dar à elite paulistana a aura de vanguarda cultural e progressista do país… Só para ficar num singelo – mais amargo – exemplo. Se quiserem, perguntem o que dirão Lincoln Secco e os uspianos sobre as Jornadas de Junho de 2013.
Não conto com o julgamento da História. Isto me soa mais como uma ameaça. “Temos um diploma e uma editora e sabemos usá-los”! Melhor se liássemos o botão de “Dane-se” e reagirmos, a despeito do que contarão os sábios.

    Malvino

    É isso mesmo Edgar, esse papo de julgamento da História me parece um péssimo consolo que alguns aí arrumaram para se agarrar; como se os canalhas fossem se preocupar com isso; eles riem desse papo, isso sim.

FrancoAtirador

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É sempre Bom Lembrar que, na Área Estratégica da Energia Nuclear,

o Brasil Desenvolveu Tecnologia Própria no Enriquecimento de Urânio.

http://ecen.com/eee54/eee54p/enriquec_uranio_brasil.htm

http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2006-05-06/brasil-desenvolve-tecnica-propria-para-enriquecimento-de-uranio

https://brasiliano.wordpress.com/2008/07/27/brasil-desenvolve-supermaquina-de-enriquecer-uranio/
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