Carlos Fidelis: O que não ainda estamos vendo? Algoritmos, dinheiro e a eleição antes da urna
Tempo de leitura: 7 min
*Carlos Fidelis Ponte*
Há alguma coisa na eleição presidencial brasileira de 2026 que precisamos compreender — e rapidamente. A Quaest divulgada em 14 de setembro mostra Lula com 36% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 31%. No segundo, Flávio aparece numericamente à frente: 42% contra 40%, embora estejam tecnicamente empatados.
A vantagem mudou de lado, apesar de Flávio ter sido pego mentindo. Há método nessa loucura? Ou, como diria o já citado Shakespeare, há mais coisas entre o eleitor e a urna do que supõe nossa vã filosofia.
O eleitorado de Flávio existe e tem história. Foi construído durante anos em torno de Jair Bolsonaro e reúne identidade ideológica, antipetismo, conservadorismo e vínculos afetivos que não desaparecem diante de uma denúncia. Seria simplista explicar quase um terço do eleitorado por manipulação digital — e igualmente equivocado tratar milhões de pessoas como incapazes de pensar.
Isso, porém, não significa relativizar os fatos: Flávio mentiu, e isso não pode ser negado. A pergunta torna-se ainda mais difícil: por que uma mentira comprovada não produz necessariamente os efeitos eleitorais que poderíamos esperar? Em que ambiente informacional essas pessoas formaram suas convicções? E o que talvez nós ainda não estejamos vendo?
As revelações sobre Daniel Vorcaro e o financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, tornam a pergunta mais incômoda. Flávio chegou a negar relação com o banqueiro; depois, confirmou que procurou o então dono do Banco Master para obter recursos. Informações do Coaf reveladas pela imprensa mostraram transferências que contrariaram versões anteriores. Ao menos US$ 12,3 milhões foram atribuídos a Vorcaro no financiamento do filme.
As relações do banqueiro com personagens do campo bolsonarista não param aí. Em mensagens de 2024, Vorcaro escreveu que havia bancado os voos de Nikolas Ferreira; o deputado nega ter recebido dinheiro dele. Como as investigações sobre o Master envolvem suspeitas de fraude, desvio e lavagem de dinheiro, dizer simplesmente que os recursos de Dark Horse eram “privados” explica pouco.
O percurso desse dinheiro ganhou um elemento adicional com a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, homologada por André Mendonça. Apontado nas investigações como operador financeiro de Vorcaro, ele confirmou ter intermediado cerca de US$ 12 milhões destinados ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, relacionado ao financiamento de Dark Horse.
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Um roteiro, no mínimo, estranho: quanto mais sinuoso o caminho do dinheiro, mais difícil reconstruir de onde veio, por onde passou e aonde chegou.
E não estamos falando de pouco dinheiro. Os cerca de R$ 61 milhões atribuídos a Vorcaro superam o orçamento estimado de Ainda Estou Aqui e equivalem a mais de duas vezes o custo aproximado de O Agente Secreto. E seriam apenas parte do projeto: o financiamento previsto chegaria a US$ 24 milhões.
O que levaria um banqueiro a investir tamanha soma na cinebiografia de Jair Bolsonaro? Generosidade? Antevisão? Que retorno esperava obter? A questão vai além do filme: dinheiro, acesso e influência também podem disputar o que a sociedade verá — e quem será percebido como corrupto, criminoso ou defensor da ordem.
Em meio ao vendaval, uma certeza se torna cada vez mais evidente: a eleição já não acontece apenas nos debates, na propaganda ou nos jornais. Acontece também na tela do celular, onde uma notícia pode dominar as manchetes e quase não chegar a determinados grupos, enquanto outros assuntos se multiplicam. Velhas técnicas de manipulação ganharam escala, velocidade e opacidade. Para reduzir o impacto de uma informação, nem sempre é preciso escondê-la. Basta soterrá-la.
E influência custa dinheiro. Lembro de Henrique, um amigo querido que já não está entre nós. Com seu humor corrosivo, dizia que estávamos cercados de “filhos da puta”. Talvez estejamos olhando demais para a tecnologia e pouco para eles. Algoritmos não têm projeto político, não fazem negócios nem financiam campanhas de influência. Pessoas fazem.
Quem sabe haja mais organização nessa aparente desordem. Marcos Nobre e outros pesquisadores têm chamado de Partido Digital Bolsonarista uma forma de organização que não apenas usa as redes: organiza-se por meio delas. Estudos sobre WhatsApp, Telegram e X revelam mecanismos de coesão, coordenação e disseminação de desinformação. O que parece espontâneo e caótico pode combinar militância, tecnologia e estratégia, sem depender de um comando central.
O caso Master, por sua vez, leva a discussão às instituições. André Mendonça, relator de investigações relacionadas a Vorcaro no STF, confirmou ter recebido o banqueiro em março de 2025. A condução das investigações e a divulgação dos documentos provocaram forte controvérsia dentro do Supremo. Fachin determinou então o levantamento do sigilo dos documentos relacionados ao caso, ressalvadas diligências cuja divulgação pudesse comprometer sua efetividade. Revelações envolvendo Alexandre de Moraes também precisam ser investigadas. O mesmo vale para os elementos que vieram a público envolvendo
Kassio Nunes Marques: registros de conversas com Vorcaro e pagamentos feitos ao escritório de seu filho por uma consultoria que recebeu milhões do Banco Master também merecem esclarecimento. Ninguém deve ser blindado pelo cargo, nem investigado seletivamente por conveniência política. Mas investigar ministros e desestabilizar o STF são coisas diferentes.
Nessas horas lembro de meu pai comentando sua atribulada vida financeira: “Meu filho, estou abrindo um rombo para tapar um buraco”. Às vezes, tentando resolver um problema, criamos outro maior. Se há erros ou ilegalidades no STF, que sejam investigados e seus responsáveis respondam. Mas destruir a credibilidade da instituição em nome de corrigi-la pode produzir dano muito maior.
Vale o velho alerta: não se joga fora a criança com a água suja da bacia. Corrigir instituições é indispensável; destruí-las em nome de seus erros pode significar perder justamente aquilo que se pretendia preservar.
Seria prematuro atribuir a robôs, algoritmos ou grandes interesses econômicos o desempenho de Flávio. Mas a hipótese de utilização desses instrumentos não nasce do nada. Em 2018, vieram a público indícios de compra, por empresários, de disparos em massa contra o PT pelo WhatsApp para beneficiar Jair Bolsonaro. Oito anos depois, os recursos são muito mais sofisticados.
Será que estamos procurando a manipulação apenas onde é fácil enxergá-la: numa mentira, num robô, num vídeo falso? Há mecanismos mais antigos: repetir até tornar familiar, escolher o que ganha destaque e o que desaparece, encher o espaço informacional com um assunto para retirar atenção de outro. Quem financia influência pode disputar quais fatos serão conhecidos e quais serão soterrados. Precisamos seguir o algoritmo, seguir a rede e seguir o dinheiro.
Voltemos a Flávio. Quantos eleitores conhecem o volume de recursos destinado por Vorcaro ao filme ou as relações que vêm aparecendo entre o banqueiro e personagens do campo bolsonarista? E quantos, nos mesmos dias, receberam repetidamente conteúdos sobre Alexandre de Moraes, STF, criminalidade, costumes, censura ou mentiras sobre o Lulinha? Nós não sabemos. As plataformas sabem muito mais.
Temos então uma questão difícil. Um eleitorado fortemente identificado com Bolsonaro e movido também pela rejeição a Lula consegue reconhecer contradições quando elas aparecem? Ou identidade política, ressentimentos e preconceitos filtram aquilo que será acreditado, relativizado ou ignorado? A manipulação não precisa criar nossos medos. Pode conhecê-los e alimentá-los.
Parcelas expressivas desse eleitorado são trabalhadores, pobres e setores das classes médias, diretamente afetados por decisões sobre emprego, salário, aposentadoria, saúde, educação e impostos. Mas interesses materiais não são os únicos elementos de uma escolha política. Valores, identidades, costumes, medos e rejeições também pesam. Quando entram em conflito, o que prevalece? Em que circunstâncias alguém aceita consequências materiais adversas para derrotar aquilo que considera uma ameaça maior?
Talvez esteja aí algo que também não estamos vendo. O que chamamos de “tiro no próprio pé” pode, para uma parcela do eleitorado, ser em alguma medida consciente. A política mobiliza ressentimentos e desejos de punição. Derrotar o adversário, castigar as instituições ou simplesmente “acabar com tudo isso” pode importar mais que o cálculo das consequências.
Há ainda situações em que a precariedade é tamanha que o risco de perder mais parece pequeno: para quem sente que já perdeu quase tudo, a promessa de ruptura pode assustar menos que a continuidade. O próprio caos pode então adquirir uma dimensão catártica: aceita-se perder alguma coisa desde que aqueles identificados como responsáveis pelo que se rejeita percam também — ou percam mais.
Nesse caso, mostrar o prejuízo material talvez não seja suficiente. É preciso compreender por que ele se torna aceitável. Sistemas que conhecem medos e indignações não precisam fabricar ressentimentos: podem identificá-los, reforçá-los e direcioná-los. Uma organização política que vive nas próprias redes dispõe de condições especialmente favoráveis para isso.
Mas talvez também estejamos olhando pouco para o nosso próprio campo. Intelectuais, militantes e eleitores que votaram em Lula em 2022 mantêm críticas ao governo, algumas delas substantivas, e há sinais de desmobilização em setores progressistas. Criticar Lula não significa apoiar Flávio Bolsonaro, nem elimina o direito de cobrar o governo.
A questão é outra: como críticas, frustrações e desmobilização se relacionam, na reta final da eleição, com a escolha concreta colocada diante do eleitor? Também desse lado, convicções, decepções e rejeições participam da construção do voto ou da mobilização.
E talvez estejamos olhando pouco também para fora do país. O Brasil, por suas dimensões, recursos estratégicos, produção de alimentos e energia, biodiversidade e peso político e econômico, ocupa posição central na América do Sul. Isso ganha relevância num mundo marcado pela crescente rivalidade entre Estados Unidos e China e pela expansão econômica, comercial e tecnológica chinesa na região.
Diante desse avanço, os Estados Unidos voltam a demonstrar interesse em reafirmar sua influência sobre a América Latina, recuperando, sob novas formas, uma antiga concepção da região como sua esfera privilegiada de poder — o velho “quintal” americano.
Que Brasil interessa às diferentes potências?
Um país capaz de definir com autonomia suas alianças, sua política externa e suas estratégias industrial, tecnológica e de desenvolvimento?
Ou um país predominantemente fornecedor de commodities e recursos estratégicos e mercado para produtos e capitais externos?
Que forças políticas nacionais se aproximam de cada um desses projetos e que interesses internacionais podem convergir com elas?
Eleições brasileiras não são decididas no exterior, mas tampouco acontecem num vazio geopolítico.
Se essas perguntas fizerem sentido, explicar escolhas eleitorais pela ignorância não nos levará muito longe. A possibilidade de uma escolha consciente pelo risco exige levar a sério razões, afetos e informações que participam dessas decisões. Problemas concretos da vida, identidades políticas, preconceitos, expectativas e informações recebidas nas redes se combinam na formação do voto.
E o tempo importa. Uma verdade conhecida depois do voto pode ser juridicamente importante e politicamente tardia. A Justiça precisa investigar com rigor e celeridade; a imprensa não deve transformar suspeitas em condenações nem deixar fatos relevantes desaparecerem sob a próxima notícia. E as plataformas não podem continuar sabendo quase tudo sobre a circulação política enquanto a sociedade sabe tão pouco.
Não se trata de decidir pelo eleitor. Trata-se de assegurar condições para que a decisão seja tomada com acesso a informações relevantes — inclusive sobre quem financia, organiza e se beneficia dos mecanismos de influência que procuram chegar até ele. Conhecer, enfim, aqueles a quem Henrique se referia.
Resta uma questão crucial. Uma vitória de Flávio — ou de outra candidatura da direita — pode mudar profundamente o país, da garantia de direitos e do destino de nossos recursos naturais à própria concepção de soberania nacional. Será que quem considera essas alternativas conhece o tamanho dessas mudanças, seus impactos imediatos e seus efeitos sobre as futuras gerações — e está disposto a assumi-los?
A urna registra o voto. A democracia precisa compreender também como esse voto foi construído e quais são efetivamente as suas consequências.
Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.




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