Carlos Fidelis: Enquanto o Brasil enterrava os mortos da covid, Flávio passeava de lancha com empresários da vacina Covaxin
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Uma festa com garotas de programa, um suposto Rolex e a proximidade de Flávio Bolsonaro com empresários da Covaxin: revelações da revista piauí levantam novas questões sobre as relações entre interesses privados e poder político durante a pandemia.
Por Carlos Fidelis Ponte*, no site do Cebes
Estive na CPI da Pandemia e acompanhei depoimentos de familiares que perderam filhos, pais, mães e companheiros para a Covid-19. Guardo especialmente a lembrança de um pai que, ao falar da morte do filho, recusou que sua dor fosse tratada como “mimimi”.
Aqueles testemunhos me marcaram profundamente. Ainda hoje recordo o sofrimento e a indignação de pessoas que buscavam respostas para mortes que poderiam ter sido evitadas. É impossível recuperar aquelas cenas sem pensar nas revelações da revista piauí sobre um passeio de lancha de Flávio Bolsonaro com empresários que, meses depois, estariam envolvidos no escândalo da Covaxin.
Era 17 de julho de 2020. O Brasil já contabilizava mais de 76 mil mortes pela Covid-19. Somente no dia anterior, haviam sido registrados 1.299 óbitos. Enquanto hospitais enfrentavam a emergência sanitária e famílias enterravam seus mortos, Flávio Bolsonaro participava, segundo reportagem publicada pela piauí em 21 de outubro de 2026, de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília. Os anfitriões eram Danilo Trento e Francisco Maximiano, respectivamente diretor institucional e proprietário da Precisa Medicamentos, empresa que posteriormente negociaria a vacina Covaxin com o governo Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, baseada no relato de uma pessoa presente e no cruzamento de registros de voos, documentos e testemunhos, os empresários levaram de São Paulo três garotas de programa para o encontro. Flávio compareceu acompanhado de Alexandre Santini, seu sócio em uma loja de chocolates.
A testemunha afirma que o senador esteve na cabine da lancha com uma das mulheres e recebeu de Danilo Trento, ao final do passeio, um relógio Rolex. Procurados pela piauí, Flávio, Maximiano e Trento não apresentaram esclarecimentos até o fechamento da reportagem.
Flávio se apresenta como conservador e defensor dos valores tradicionais da família. As revelações suscitam dúvidas sobre a coerência entre esse discurso e sua conduta pessoal. Mais grave, porém, é a possibilidade de empresários interessados em negócios com o governo terem oferecido entretenimento e presentes ao filho do presidente.
Quem pagou a festa? Qual era o interesse dos anfitriões? O Rolex foi efetivamente entregue? A questão ultrapassa a moral privada e alcança as relações entre dinheiro, interesses empresariais e poder político.
Três meses depois, em 20 de outubro de 2020, Flávio intermediou uma reunião entre Francisco Maximiano e Gustavo Montezano, então presidente do BNDES. Participou da videoconferência, destinada a discutir um empreendimento de telecomunicações. O senador reconheceu a intermediação, mas afirmou que o assunto era a expansão da internet nas regiões Norte e Nordeste, sem relação com vacinas, e negou vínculos comerciais ou financeiros com Maximiano. O BNDES informou que nenhum financiamento foi contratado. O encontro, contudo, demonstra que a relação entre Flávio e Maximiano não se limitava à convivência social: o senador abriu ao empresário as portas da direção de um dos principais bancos públicos do país.
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Em 25 de fevereiro de 2021, o Ministério da Saúde assinou um contrato de aproximadamente R$ 1,6 bilhão para adquirir 20 milhões de doses da Covaxin, desenvolvida pela indiana Bharat Biotech e negociada no Brasil pela Precisa Medicamentos. A contratação foi cercada de denúncias de irregularidades e pressões sobre servidores.
No Acórdão 1179/2025, o Tribunal de Contas da União identificou documentos adulterados, tentativas de modificar indevidamente condições de pagamento e tratamento preferencial na negociação. O contrato foi rescindido em agosto de 2021, sem entrega de doses nem pagamentos pelo governo federal. As conclusões do TCU documentaram irregularidades graves, sem atribuir participação de Flávio nelas.
O escândalo ganhou dimensão ainda maior quando o deputado Luis Miranda e seu irmão, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, relataram à CPI que haviam procurado Jair Bolsonaro em 20 de março de 2021.
Segundo os dois, apresentaram documentos, denunciaram irregularidades na negociação da Covaxin e relataram pressões para acelerar procedimentos de importação. O deputado afirmou que Bolsonaro prometeu acionar a Polícia Federal e mencionou Ricardo Barros como possível envolvido, o que Barros negou.
O governo sustentou que a denúncia fora encaminhada ao Ministério da Saúde, onde o contrato teria sido considerado regular. Por que alertas dessa gravidade não produziram uma resposta capaz de dissipar as suspeitas?
Em 2022, a Polícia Federal concluiu não haver elementos suficientes para caracterizar prevaricação de Jair Bolsonaro. A Procuradoria-Geral da República, comandada por Augusto Aras, pediu o arquivamento do inquérito. A ministra Rosa Weber rejeitou inicialmente a fundamentação, mas acolheu posteriormente novo pedido, baseado na insuficiência de elementos para prosseguir. Aras recebeu críticas de setores políticos e jurídicos que viam na PGR uma postura de proteção ao governo. O arquivamento encerrou aquela investigação, mas não eliminou as irregularidades identificadas na contratação nem as questões políticas suscitadas pelas denúncias.
Na CPI, Francisco Maximiano negou que Flávio tivesse intermediado o acesso da Precisa ao Ministério da Saúde. Questionado se o senador havia aproximado a empresa de Jair Bolsonaro, exerceu o direito ao silêncio. Danilo Trento admitiu ter encontrado Flávio em eventos públicos.
Durante o depoimento de Emanuela Medrades, diretora da Precisa, o senador a parabenizou por sua atuação na negociação, apresentada por ele como uma tentativa de economizar recursos públicos. Também minimizou o escândalo porque não houve desembolso federal, como se a ausência de pagamento eliminasse a gravidade das irregularidades em uma contratação pública.
O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de Maximiano por falsidade ideológica, uso de documento falso e fraude em contrato, e de Trento por fraude em contrato. Flávio também figurou entre os nomes incluídos nas recomendações, mas por incitação ao crime, imputação sem relação com a Covaxin.
Essas recomendações não equivalem a condenações judiciais. As revelações da piauí acrescentam ao episódio uma dimensão até então pouco conhecida: a convivência pessoal do senador com empresários que se tornariam protagonistas de um dos maiores escândalos da gestão federal da pandemia.
Agora candidato à Presidência da República, Flávio não pode tratar como assunto privado a possibilidade de ter recebido benefícios de empresários interessados em negócios com o governo de seu pai.
Precisa esclarecer quem custeou o passeio, se recebeu o Rolex e quais relações manteve com Maximiano e Trento. A ausência de condenação criminal não dispensa a responsabilidade política. Quem pretende governar o Brasil deve começar por explicar suas próprias relações com o poder econômico.
Ao recordar a CPI, volto àquele pai que se recusava a aceitar que a morte do filho fosse tratada como “mimimi”. Ele não compareceu ao Senado para pedir homenagens, mas para exigir que aquela vida fosse levada a sério. Sua indignação representava a de famílias que, enquanto enfrentavam perdas irreparáveis, esperavam proteção e respeito das autoridades.
É essa lembrança que torna tão perturbadora a imagem descrita pela piauí: uma lancha, uma festa e um suposto presente de luxo em um país que enterrava dezenas de milhares de vítimas. A exigência daquele pai permanece atual: as vidas perdidas não podem ser tratadas com desprezo, assim como as relações entre negócios e poder, cultivadas durante a tragédia, não podem ser encobertas pela indiferença.
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.




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