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Carlos Azevedo: O brasileiro é corrupto? Uma leitura de Elite do Atraso, de Jessé Souza
Fotos: PT/RJ e Vermelho
Política

Carlos Azevedo: O brasileiro é corrupto? Uma leitura de Elite do Atraso, de Jessé Souza


01/11/2019 - 22h50

O brasileiro é essencialmente corrupto? Uma leitura de Elite do Atraso

por Carlos Azevedo, no Vermelho 

A Elite do Atraso — Da Escravidão à Lava Jato, de Jessé Souza (Editora Casa da Palavra/Leya, 2017) é um bombardeio à tese do patrimonialismo, do “homem cordial”, movido pelos sentidos e não pela razão, que busca o sucesso pelo “jeitinho” e não pela lei, postura que generalizada no Estado resultaria em governos comandados por políticos corruptos. Esse Estado corrupto é que impediria o “puro e honesto” mercado de promover o desenvolvimento do país.

Jessé Souza escreve que a ambição de seu livro “é dotar a esquerda, ou seja, a visão que expressa os interesses da minoria esquecida, de uma reflexão que supere a mera proposição de um programa econômico alternativo”.

Ele propõe uma insurreição contra a corrente hegemônica da sociologia brasileira que tornou incontestável, verdade absoluta, a tese do patrimonialismo como característica predominante nas mentes e corações dos brasileiros, refletida na administração do Estado e nas relações sociais entre nós.

Questiona a tese nascida na USP pela obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e desenvolvida por Raymundo Faoro em  Os Donos do Poder.

É a tese do brasileiro “homem cordial”, que se deixa comandar pela emoção, pelos sentimentos em vez da razão, que se rege pelas relações de compadrismo, que em vez de obedecer à lei busca o famoso “jeitinho brasileiro”, que favorece os laços pessoais em detrimento da lei e do mérito. Assim criou-se o “brasileiro genérico”.

Essa falsa singularidade resulta num sentimento de inferioridade perante os estrangeiros, o chamado “complexo de vira-lata”. É a ideia naturalizada de que o brasileiro seria essencialmente corrupto em contraposição aos “puros” norte-americanos e europeus.

Segundo o autor, esse preconceito está entronizado na nossa sociedade. Na esfera do poder, ele se traduz pelo patrimonialismo, herdado de Portugal, que teria formado a nossa elite política essencialmente corrupta que se apossou do Estado.

Souza considera que essas concepções falseiam a realidade social brasileira. Ao apontar o patrimonialismo como o principal problema nacional, parecem conter uma crítica radical de nossas mazelas – mas na verdade distorcem o que é central, o conflito de classes, tornado invisível, substituído por um falso conflito entre Estado patrimonialista corrupto e o mercado, este sim, virtuoso.

Assim, tornam literalmente invisível a verdadeira elite de rapina que se encontra no mercado, dominado por oligopólios e atravessadores financeiros.

A escravidão é a semente

Em oposição ao patrimonialismo, o autor apresenta o sistema escravista que dominou todas as relações sociais no país durante três séculos e meio como o berço de todo o sistema de classes que se desenvolveu desde então – sistema que, na essência, se mantém até os dias de hoje.

Desde o período colonial, a produção agrícola de monocultura tinha como antagonistas, de um lado o português dono de grandes extensões de terras, e de outro, os escravos, indígenas e africanos.

O senhor comandava de forma autárquica (distante da administração de Portugal) e era o poder absoluto.

Dominava até a religião, tinha capela própria em casa e o padre era seu dependente.

A sua vontade, regras impostas por ele mesmo, era a lei. Seus escravos eram mantidos submissos a ferro e fogo e essa vontade total e indiscutível era dona da vida e da morte desses seres considerados como coisas, alvos de toda a violência, de humilhação e desprezo.

As condições de trabalho no eito eram terríveis e quaisquer reações de rebeldia tratadas com suplícios hediondos e a morte.

Devido a esse clima, a casa grande vivia em permanente tensão, assombrada pelo temor de um levante da senzala, e assim se desenvolveu um ódio covarde dos negros.

O senhor tinha o poder sobre os corpos dos seus escravos e estabelecia relações de intimidade com as escravas que trabalhavam na casa grande, relacionamento que Gilberto Freyre qualificou de “sadomasoquista”, porque envolvia ao mesmo tempo proximidade e crueldade, uma sexualidade com aparência de familiaridade, mas que ao cabo era sempre imposta e sem limites.

Dessas relações geraram-se os bastardos, mestiços, que muitas vezes eram mantidos na família e também podiam ser tratados como filhos quase tanto quanto os filhos da mulher branca casada com o senhor, a depender de seu humor ou conveniência.

Esse sistema escravocrata, patriarcalista e familista, iria sobreviver como elite adaptando-se às transformações políticas e econômicas que se deram com a chegada da família real ao País e o início da modernização da economia.

Entrincheirado nos seus casarões urbanos, transmitia a seus herdeiros sua ideologia autoritária, seu desprezo ao trabalho manual e o ódio covarde à “rua”, isto é, aos negros e pobres.

A libertação dos escravos, em 1888, sem os indenizar, sem lhes oferecer terras para cultivar nem condições de educação, e retirando dos senhores a obrigação de sustentá-los, resultou em uma grande precarização.

Formalmente libertos, os negros – que eram maioria no país no momento da Lei Áurea – ficaram submetidos a vender sua força de trabalho aos antigos senhores por salários miseráveis.

Em seguida, com a importação maciça de imigrantes europeus, habituados ao trabalho assalariado e com mais experiência técnica, a mão-de-obra de negros e pobres foi desprezada.

Amontoada em favelas, sem terra, sem trabalho, sem escola, a população negra foi empurrada para a marginalidade reforçando o preconceito e o ódio secular contra ela.

Desde então, o Estado e a sociedade afluente justificam o repúdio e o abandono dessa parte da população, cristalizando uma pérfida visão do negro como preguiçoso, mentalmente inferior, de tendência criminosa, violento, ladrão, assassino, que pode ser morto sem qualquer repercussão.

O medo dos escravistas da “rebelião negra” foi substituído na atualidade pela definição do negro como “inimigo da ordem”. Esses milhões de abandonados pelo Estado viriam a formar o que o autor chama de “ralé brasileira”.

Escravos na colheita do café. Marc Ferrez, 1882, Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, aqueles setores da população criados à sombra da elite escravocrata, os bastardos, mestiços, mulatos, brancos pobres, foram se desenvolvendo como artesãos e, na medida em que a economia se tornava mais complexa, nas profissões da indústria incipiente, no comércio e serviços.

Era uma classe média que nascia dependente da elite e a seu serviço. E importante: afinada ideologicamente com a elite, tanto na ambição de fazer parte dela quanto no ódio e desprezo pelos negros e pobres.

No seu desenvolvimento posterior, a sociedade veio a constituir quatro classes.

Da elite do atraso à “ralé brasileira”

Souza critica as concepções de classe do liberalismo e a de inspiração marxista, o primeiro pela simplista divisão da sociedade em faixas de renda: A, B, C, D, E, como se só o bolso fizesse a diferença entre as classes. E a segunda por focar apenas no lugar ocupado na produção.

Classifica ambas como economicistas, ressalvando que a de inspiração marxista está mais próxima da realidade.

Mas esta não consegue explicar o principal: por que algumas pessoas escolhem certo tipo de ocupação ou de lugar na produção?

É preciso partir do “berço”, ou seja, da socialização familiar primária para compreender as classes e sua formação.

As classes são reproduzidas no tempo pela família e pela transmissão afetiva de dada “economia emocional” pelos pais aos filhos.

São um fenômeno sociocultural e não apenas econômico. São os estímulos que a criança de classe média recebe em casa para o hábito da leitura, para a imaginação, o reforço constante de sua capacidade e autoestima que fazem com os que os filhos dessa classe sejam destinados ao sucesso escolar e depois ao sucesso profissional no mercado de trabalho.

Os filhos dos trabalhadores precários, sem os mesmos estímulos ao espírito e que brincam com o carrinho de mão do pai servente de pedreiro, aprendem a ser afetivamente, pela identificação com quem se ama, trabalhadores manuais desqualificados.

Isso é o que possibilita, em um caso, o sucesso, e em outros, o fracasso social como já havia sido enunciado por Florestan Fernandes.

Considere-se a importância do exemplo que vem do ambiente e da convivência em casa.

Além disso, a simples comparação entre o estímulo que o filho de classe média recebe tendo a melhor escola e sendo sustentado durante anos para apenas estudar, e o filho do trabalhador mais pobre, sem exemplo familiar em quem se inspirar e frequentando más escolas, além de logo ter de trabalhar, forma o cenário da desigualdade aguda que reduz a pó o conceito de meritocracia e põe em ridículo a vaidade do profissional bem sucedido “por méritos próprios”.

Os privilégios de uns e a carência de outros são decididos desde o berço.

O quadro geral da sociedade mostra no topo da hierarquia social as antigas famílias proprietárias rurais de cafeicultura que se entrelaçaram com as redes de comercialização nacionais e internacionais e mais tarde assumiriam o comando da produção industrial e se associariam ao capital financeiro, resultando na elite atual.

Mais abaixo, como elemento dinâmico da livre empresa em expansão, aparece o “estrangeiro”, o imigrante, com produtividade 1/3 maior que a do antigo escravo e que vai eliminando a concorrência do negro.

A ele se juntam os segmentos mais cultos ou semi-instruídos de origem nacional, brancos pobres, mulatos empenhados na busca do “embranquecimento”, entre eles descendentes dos bastardos e agregados da antiga casa grande. Vão formar a classe média.

Abaixo desse segmento dos incluídos no mercado competitivo se desenvolveu uma plebe nacional composta por brancos e mestiços que vieram do campo para a cidade e que se inseriram nos interstícios da nova ordem como artesãos, prestadores de serviços, operários, formando a classe trabalhadora, sempre reprimida e que teria seu acesso à política só a partir das grandes greves do final dos anos 1970.

E, mais abaixo de todos, a “ralé brasileira” dos novos escravos, que representa um terço da população, negros e pobres que são alvo da repressão violenta do sistema, desprezados e humilhados pelas outras classes, abandonados pelo Estado, com ganhos miseráveis, sem acesso à educação, à saúde, sem direitos e, como antes e até hoje, podem sem assassinados impunemente.

Para o autor, a grande questão social, econômica e política do Brasil é a existência continuada dessa ralé de novos escravos. Sem que essa questão se resolva, o Brasil não avança como nação.

No seu desenvolvimento, a elite herdeira dos senhores de terras e escravos, que em número representa uma ínfima minoria, veio a dominar o mercado e concentrar o capital econômico, controlando o Estado, atuando na retaguarda dos políticos por ela patrocinados e eleitos e encaixando seus apadrinhados na máquina estatal para assumir e manter as rédeas do poder (são como os “aviõezinhos” no tráfico de drogas).

Mas essa larga hegemonia que se desenvolveu ao longo do século 20, e se mantém, não poderia se realizar sem o auxílio de uma outra classe, a classe média.

Ela é a mais estratégica para o padrão de dominação social instaurado porque detém o que o autor chama de “capital cultural”, ou seja, a posse de conhecimento útil em suas mais variadas formas, que seus membros adquirem desde o berço, na família até os bancos da universidade.

Para controlar o Estado e o mercado a elite do dinheiro precisa contar com o capital cultural, isto é, com o conhecimento dos profissionais engendrados no seio da classe média: economistas, engenheiros, juízes, advogados, enfim todos os que reúnem preparo técnico para fazer girar a máquina da economia, da política, da área cultural etc.

Para conquistar corações e mentes da classe média por meio do convencimento e torná-la seu “cão de guarda”, a elite do dinheiro manipulou a peso de ouro a esfera pública.

Esta é a instância em que se trava o debate das grandes ideias que mobilizam a sociedade – a área da intelectualidade, a universidade – e os setores que divulgam essas ideias, a imprensa e a indústria cultural.

Por exemplo, nasceram na USP as ferramentas ideológicas para promover a dominação: a tese do patrimonialismo como problema central do país, em detrimento da herança escravista, e a tese do populismo, que serve para depreciar e desmobilizar as lutas populares e as tentativas desenvolvimentistas como os governos de Getúlio Vargas e de Lula.

Naturalizando essas ideias que desaguam no “brasileiro cordial”, no “jeitinho brasileiro” e em que a singularidade do brasileiro é ser corrupto, a elite do dinheiro “comprou” a classe média.

Explorando a lenda da moralidade, suposto apanágio da classe média, colocou no centro do debate a questão da corrupção (mas seletivamente só a corrupção dos governos populares), assim tornando invisível o que realmente é principal: a violenta luta de classes que se trava na sociedade, com a brutal exploração da força de trabalho, imposta pela violência física e simbólica, e justificada pelo ódio e preconceito contra as massas populares, herança do sistema escravista.

A quatro frações da classe média

A classe média, colonizada pela elite do dinheiro, é a classe estratégica para o processo de dominação do Estado e sociedade.

Essa classe, que representa um terço da população, se apropriou do capital cultural, isto é, forma a intelectualidade, desenvolve e difunde as ideias hegemônicas.

Entretanto, nem sempre é reacionária e sobretudo não é homogênea. Na atualidade ela se apresenta em quatro nichos: 30% dela forma a fração protofascista; 35% é a fração liberal; 20% é a fração expressivista; 15% é a fração crítica.

Estas duas últimas frações são as mais instruídas, que tendem a perceber a própria vida e a vida social mais como invenção cultural e menos como natureza já dada. Entre elas há uma subdivisão importante.

A expressivista representa mais da metade dessas duas frações próximas. Prioriza temas identitários, como a defesa do meio ambiente, de minorias, sustentabilidade e responsabilidade social das empresas. O charme dessas posições é que elas aparecem como emancipadoras. Temas fundamentais, mas que são uma inversão das hierarquias.

Porque, num país onde tantos levam uma vida miserável, a superação da miséria deles é a luta primeira e mais importante.

As lutas pelo meio ambiente e pelas minorias são levadas a cabo em substituição a uma pauta mais abrangente que permitiria ligar essas lutas à luta geral contra todo tipo de opressão material e cultural.

Sem essa ligação, a questão da divisão da riqueza e poder, que é o que realmente importa na sociedade, fica em segundo plano e o capitalismo financeiro fica muito à vontade.

A outra subdivisão é a crítica, que representa 15% e é a menor entre todas as frações da classe média.

O que a caracteriza é menos uma posição política, mas, sim, sua atitude em relação ao mundo social que é percebido como construído, e que da mesma forma que foi construído pode ser reconstruído.

Essa postura se contrapõe à percepção conservadora do mundo que seria dada pela natureza e à qual só cabe se adaptar, adotada pelas frações majoritárias. A pequena fração crítica navega em mares turvos em luta constante contra a corrente dominante.

A frações protofascista e liberal, segundo as pesquisas do autor, representam 65% da classe média.

Estão na área do conhecimento técnico, aquele conhecimento que serve diretamente às necessidades do capital e de sua reprodução e de menor contribuição para a transformação da própria personalidade. Nesse setor, procura-se estar junto com a maioria.

Para evitar a insegurança e o risco, busca-se a segurança das certezas compartilhadas. O mundo compartilhado confere a sensação de que ele é a sua casa. Essas são as frações mais suscetíveis à influência da imprensa monopolista que articula e hegemoniza o discurso dominante e vende a esse público cativo e imbecilizado pela manipulação da realidade a sensação de tranquilidade das certezas fáceis. Essas são também as frações do moralismo.

A fração protofascita se espraia da classe média para setores das classes populares que, com o golpe de 2016, se viram com liberdade para expressar legitimamente seu ódio e ressentimento. O ódio às classes populares aqui é aberto e dito com orgulho.

O pacto antipopular

O pacto da elite do atraso com a classe média promoveu a conspiração que provocou a morte de Getúlio Vargas, em 1954, o golpe militar de 1964, que derrubou o governo de Jango, e o golpe de 2016 que tirou Dilma do poder.

Em todos os casos a justificativa, infundada, foi a corrupção. Em todas essas oportunidades, foi fundamental o papel da mídia.

No golpe contra Dilma, representou papel fundamental o conluio entre a Rede Globo (seguida pelo restante da grande imprensa) e a Operação Lava Jato. Por que isso acontece?

Na Europa e nos Estados Unidos, a esfera pública, que é a esfera da intelectualidade, das universidades, do debate das ideias e de seus multiplicadores, a imprensa e a área cultural, desenvolveu-se promovendo formas de comunicação que manifestam posições plurais (como as TVs públicas na França, Inglaterra, Alemanha, etc).

Bem diferente disso, no Brasil a esfera pública foi desde sempre monopolizada pela elite do dinheiro hoje formando o grande complexo empresarial da mídia empenhado em mistificar e falsear a realidade para um público cativo e despreparado porque sem acesso à educação e à formação de uma consciência autônoma e crítica. O seu alvo principal é a classe média.

A Globo, tendo participado da corrupção sistêmica do País desde há muitos anos, como denunciou Emílio Odebrecht em seus depoimentos à Lava Jato, traiu seus comparsas e se apresentou sem culpa, tirando onda de “virgem no cabaré”.

Como a Globo conseguiu tanto poder? Com base no seu monopólio virtual da informação, logrou manter uma sociedade imbecilizada e desinformada, subjugou os poderes da democracia representativa e cooptou o aparelho judiciário-policial do Estado e ajudou, como nenhuma outra instituição, o aprofundamento de uma crise sistêmica. Praticou crimes contra a democracia e não perdeu a concessão pública.

Este é o resultado da colonização da esfera pública pelo poder do dinheiro. É uma esfera pública para inglês ver, dominada pelo capital e sem qualquer pluralidade de opiniões. O mecanismo que viabiliza esse tipo de dominação é uma imprensa desregulada e venal e que participa do esquema elitista dominante do saque e rapina do fruto do trabalho coletivo.

A Globo é a roupagem perfeita para um capitalismo selvagem e predatório que chama a si mesmo de emancipador e protetor dos fracos e oprimidos.

O mais cruel é que as possibilidades de redenção real são tanto mais impossíveis quanto maior a influência dessa mensagem mistificadora produzida pela emissora. Como no golpe de 2016, quando a Globo ajudou a impedir a continuidade de um processo de ascensão social dos pobres que era real.

A Globo e a operação Lava Jato são os agentes principais dessa verdadeira regressão civilizacional que sacode o país deixado em frangalhos, econômica, política e moralmente.

O resultado é que a cruzada contra a corrupção promovida pela Globo, o resto da grande mídia, e pela Lavo Jato, feriu de morte nosso jovem experimento democrático e estigmatizou a bandeira da igualdade social.

E para finalizar:

Não vamos ser ingênuos. O início da Lava Jato foi a perspectiva de se acabar com o sonho dos BRICS e dos brasileiros que aspiram um país próspero para a maioria.

Para os EUA, o Brasil e a América Latina só entram como fornecedores de matéria-prima, sem acesso a progresso industrial e tecnologia de ponta. Afinal, se existe uma coisa que não muda na América Latina, é que os EUA estão por trás de todos os golpes de Estado.

* Carlos Azevedo é jornalista

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3 comentários

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a.ali

02 de novembro de 2019 às 21h59

excelente texto e o último parágrafo é um resumo doído e verdadeiro.

Responder

Zé Maria

02 de novembro de 2019 às 19h02

.
.
“A Classe Média Opera por Signos de Prestígio”
Marilena Chauí, Filósofa Brasileira

Pela Caracterização realizada por Marilena Chauí no Debate
“A Ascensão Conservadora em São Paulo” (https://youtu.be/KrN_Lee08ow),
extrai-se que foi a Classe Média Urbana, especialmente a de São Paulo,
quem elegeu Jair Bolsonaro, sentindo que chegou ao Poder com a FamíGlia
Bolsonaro, e pela qual se sente ideologicamente plenamente representada, especialmente no que se refere a um Conceito Distorcido de Ética
assim descrito pela Filósofa:

“A sociedade paulistana pensa que ética é um conjunto de regras,
normas, preceitos de controle cotidiano de todos os comportamentos.
E, portanto, ela ignora o que seja verdadeiramente a Ética, isto é,
o Exercício da Consciência, da Liberdade e da Responsabilidade”.

Daí o Protofacismo se espalhou por todo o País, tendo como Lema,
ou seja, como “Núcleo Ideológico: a Segurança e a Ordem”.

https://www.viomundo.com.br/politica/marilena-chaui-a-classe-media-paulistana-e-sinistra.html
.
Sobre a divisão das Classes Sociais, Jessé de Souza também se aprofunda no Tema na Obra “A Classe Média no Espelho”, baseado em Pesquisas Próprias.

Segue um Excerto da Belíssima Introdução que até mesmo ultrapassa
a Sociologia, aproximando-se da Filosofia, pelo próprio Autor do Livro:

“Infelizmente, o grande obstáculo para se alcançar um conhecimento efetivo,
emancipador e autônomo está não somente na maior ou menor clareza
das ideias, mas sim no medo diante da verdade. Embora possa ser libertadora
e emancipadora, a verdade também pode ser bastante incômoda.

Apesar de dizermos o contrário para nós mesmos, todos nós amamos as mentiras
que confirmam a vida que levamos na prática e que legitimam as nossas ilusões.
E detestamos a verdade que nos mostra que somos diferentes daquilo que imaginamos.

O que espero do leitor e da leitora não é a paciência para destrinchar
algo especialmente difícil, tampouco que tenha conhecimentos prévios.

O que peço é que tenha coragem, pois a covardia é a grande aliada da mentira,
inclusive da mentira que nos vendem como ciência.

Assim, nas redes sociais costumamos nos proteger dos conteúdos contrários
ao que acreditamos e, nos livros, só buscamos aquilo que confirma as nossas convicções.

A covardia e a mentira são falsas aliadas de todos nós e excluem tudo o que há
de generoso e belo na natureza humana. Elas nos transformam formigas que,
ainda que produtivas e ordeiras, repetem a mesma vida há de anos.

Só a verdade abre caminho para o aprendizado, e isto só é possível
quando superamos o medo.

Concordando ou discordando do que será dito, aposto que [o leitor e a leitora]
e não ficará indiferente.

Antes de tudo, porém, teremos de desconstruir as mentiras, pretensamente científicas,
que nos contaram a vida toda.
Tais mentiras são de dois tipos.
No primeiro, com o intuito de sermos mais domináveis, somos induzidos
a nos ver como homens e mulheres excepcionalmente capacitados.
Esta é a grande cilada do liberalismo hegemônico, o pressuposto implícito
de todas as ciências ensinadas nas universidades. Segundo ele, somos
“indivíduos” autônomos e livres, que vivem num mundo transparente e claro.

O mundo social está aí para ser conquistado por nós, basta que sejamos
disciplinados e diligentes.

Mais adiante, contudo, vamos ver o quanto há de equívoco nessa ideia,
mesmo sendo ela a base não só do senso comum da rua, mas também do ensino
da economia, do direito, da política, da psicologia e da sociologia, tanto no Brasil
como no resto do mundo.

A falsidade dessa ideia é de fácil demonstração, como se verá.

Mais importante é saber por que, sendo falsa e superficial, todos nós preferimos
acreditar nela.
O motivo é simples: ela estimula nosso narcisismo infantil, ou seja, o desejo de
nos vermos como fortes, inteligentes e poderosos. A felicidade está logo ali na esquina, e depende apenas de nossa vontade livre e autônoma para ser conquistada.

O nosso ego é “inflado” por essas concepções que nos atribuem um perfeito
controle sobre nós mesmos e nos dizem que sabemos de onde viemos, o que
somos e o que queremos.

Elas também reforçam a ilusão de que a vida em sociedade, com toda a sua
complexidade, é de fácil compreensão.

Neste mundo, que nos seria completamente transparente, não existe mistério
nem mentira – e querer é poder. Amamos essas mentiras porque nos dão
a impressão de que não somos limitados nem estamos submetidos a
constrangimentos e impossibilidades.

Temos a impressão de que podemos tudo, basta querer.

Entretanto, o custo de amar as mentiras é altíssimo.

São justamente essas mentiras – que somos todos fortes e autônomos e que
o mundo é benigno, justo e de fácil compreensão – que nos tornam escravos
de uma ordem social determinada. Uma ordem social que tem donos.

Tais ideias só se tornaram hegemônicas porque existem aqueles que lucram,
e muito, com isso.

É mais fácil explorar as pessoas quando elas acham que são livres e autônomas.

Reclamar do quê e de quem, se o mundo é perfeito e transparente?

Se há algo errado, então o erro só pode estar em nós mesmos, que não somos
suficientemente livres, autônomos, diligentes ou disciplinados.

É exatamente por isso que existem essas mentiras, que estão por toda parte:
nas escolas, nas universidades, no cinema, na televisão, nos jornais,
nas propagandas – e em tudo o que vemos e ouvimos desde que nascemos.
Essa é a função delas.

O mesmo se dá com a própria ideia de classe social.

Como pode existir classe social, se somos todos indivíduos livres, autônomos
e poderosos?
Admitir que pertencemos a uma classe social é reconhecer que somos “reduzidos” a alguma coisa. Como fica nossa liberdade? E nossa autonomia?

Por conta disso, inventou-se uma ideia de classe social que não restringe
ninguém, não reduz a liberdade de ninguém nem retira a autonomia de nenhum indivíduo.

E nenhuma classe social é mais escravizada por essas mentiras sociais
de liberdade e de autonomia individual do que a classe média.

Entre todas as classes sociais, a classe média – assim como a dos excluídos –
é também a menos conhecida. Mas isso acontece por razões opostas.
Enquanto os excluídos são simplesmente invisibilizados e desprezados,
a classe média representa um ideal desejável e de grande força simbólica.

Ao contrário da classe dos proprietários – admirada mas sempre suspeita
de abuso econômico – e da classe trabalhadora – percebida como grandeza
massificada –, a classe média está intimamente associada ao individualismo
e à autonomia individual.

E não existe valor mais alto no Ocidente do que a autonomia individual.

Além disso, uma sociedade de classe média é percebida como igualitária e justa,
conciliando os registros positivos do trabalho produtivo, da liberdade individual
e da vida democrática.

Daí se entende por que, quando no poder, o Partido dos Trabalhadores
tenha escolhido elaborar a sua narrativa – sobre a importante e histórica
ascensão social dos excluídos sociais que efetivamente viabilizava,
elevando-os ao patamar da classe trabalhadora, ainda que precária
– com base no advento de uma suposta “nova classe média”.

Essa estratégia de marketing míope nem mesmo era necessária,
pois tal ascensão ocorreu de verdade e foi inédita na história do nosso país
patologicamente desigual.

O fato de ter sido adotada mostra o quanto é sedutora a ideia de classe média.
Esta é a força simbólica a que me referi.

O economista Marcelo Neri[*], o pai da ideia de uma “nova classe média”,
simplesmente deduziu a suposta nova classe a partir da renda média,
como se uma classe social fosse construída apenas pela renda.
*[Vide: “A nova classe média: o lado brilhante da pirâmide”].

O problema é que essa definição liberal de classe social, que permite ‘falar’
de classe, ao mesmo tempo que retira dela qualquer efeito importante,
continua a ser hegemônica, tanto no campo da direita como no da esquerda.

O recurso à definição de classe social baseada na renda torna possível falar de classe social e manter completamente intocadas as mentiras sobre liberdade e autonomia.

Ora, essa concepção impede a compreensão do mundo social, sobretudo
porque distorce e inverte o que está no centro da ideia de classe.

A classe social é, antes de tudo, reprodução de privilégios, sejam eles positivos
ou negativos. O problema é que muitos privilégios positivos, como a posse de
conhecimento valorizado – precisamente o tipo de capital monopolizado pela
classe média real – são literalmente invisíveis.

A possibilidade de aprendizado efetivo na escola requer a existência anterior,
no ambiente doméstico e desde a mais tenra idade, de estímulos emocionais
e morais (também invisíveis).

Ninguém nasce com capacidade de concentração, disciplina e autocontrole,
amor à leitura, pensamento prospectivo ou de pensamento abstrato.

Em seu conjunto, essa herança imaterial permite a reprodução do privilégio
da classe média real de uma geração a outra, transmitindo, por meio da
socialização familiar típica da classe, o bom aproveitamento escolar e,
mais tarde, o ingresso privilegiado no mercado de trabalho.

A renda também ajuda a aprofundar a desigualdade, na medida em que
as famílias de classe média podem comprar o tempo livre dos filhos
apenas para o estudo.

Nas classes populares, por outro lado, os filhos começam a trabalhar e estudar
aos 12 ou 13 anos.
Mas a injustiça começa no berço e fica evidente aos 5 anos de idade, quando
uns chegam à escola como vencedores e os outros como perdedores.

Ou seja, a renda auferida pelos integrantes adultos da classe média só existe
por conta dessa reprodução invisível de privilégios positivos na infância
e na adolescência.

Por aí se explica a renda diferencial dos indivíduos da classe média em relação
aos das classes populares. Ao tornar invisível a reprodução de privilégios,
a pseudociência liberal se torna manipuladora, invertendo causas e efeitos.

Ela legitima privilégios injustos atribuindo-os ao ‘mérito individual’
– a tal ‘meritocracia’ hoje tão em voga – e chega até mesmo a culpar as vítimas
do abandono pela sua própria exclusão.

O objetivo deste livro é precisamente oferecer uma percepção desse segmento
fundamental da nossa sociedade, a classe média, de tal forma que seja superado
o superficialismo com o qual ela costuma ser vista atualmente.

Dada a dimensão de desejo evocada pela ascensão social, mesmo quando
fantasiosa, a classe trabalhadora precária – os “batalhadores brasileiros”,
na definição que utilizei em livro da época [“Os batalhadores brasileiros:
nova classe média ou nova classe trabalhadora?”] – adorou a ascensão
imaginária tanto ou mais do que a ascensão real.

Hoje em dia, o trabalhador precário não se considera pobre, mas de classe média.
Os pobres são apenas os excluídos e marginalizados.

A classe média real, por sua vez, se vê como ‘elite’, contribuindo para
um autoengano fatal e de consequências terríveis para o destino
da sociedade brasileira e da própria massa da classe média.

Espero que este livro possa contribuir para a autocompreensão
tanto dos indivíduos dessa classe social – da qual faço parte –
quanto da sociedade brasileira como um todo.

Nesta tarefa, é crucial o entendimento adequado da classe média real.

Primeiro, numa classe tão mal conhecida – e da qual a nossa ignorância
leva em conta apenas a renda, imaginando os seres humanos como páginas
em branco, sem família nem passado –, o que se requer é esclarecer
que indivíduos são esses que possuem bem mais do que uma carteira
mais recheada”.

Íntegra em: http://www.fetrhotel.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Jesse%CC%81-Souza-A-Classe-Me%CC%81dia-no-Espelho.pdf

Responder

    Zé Maria

    03 de novembro de 2019 às 20h07

    O Livro de Jessé Souza é absolutamente Esclarecedor.

    Atenção especial às entrevistas apresentadas, sob o título
    “TRAGETÓRIAS DE VIDA” (a partir da página 143 do .pdf),
    que dão uma demonstração do que se passa nos meandros
    da denominada “Alta Classe Média”, evidenciando o caráter
    ético ou, a depender de quem, antiético nas relações
    interpessoais, principalmente profissionais, dos indivíduos
    pertencentes a esse Grupo, mas sobretudo demonstram
    claramente a influência da “Elite Financeira Dominante”
    na formação de um Pensamento Homogêneo, ou seja,
    de um Consenso Ideológico no Segmento Analisado,
    Antipetista, salvo as raríssimas exceções de praxe.

    Já o Espectro do Segmento Social que o autor chama
    de “Massa da Classe Média”, por ser mais Numeroso,
    é Heterogêneo, diferentemente do anterior. Entretanto,
    apresenta uma característica comum entre os membros,
    qual seja, “a construção dos Privilégios” Sociais “baseados
    na apropriação do Capital Cultural” Social “mais valorizado
    e prestigioso”, diante da Desigualdade de Oportunidades
    na Sociedade Capitalista como um todo.
    Isto é, “a Meritocracia e o Privilégio Estético” estão na Base
    de “um processo que torna invisível” e socialmente “justificável”
    tal “privilégio das camadas médias”, notadamente no que se
    refere à Escolarização e à Ascensão Profissional, e, portanto,
    a uma Renda Maior que lhes permite acessos exclusivos em
    Círculos Sociais Elitizados, benefícios não raro Conquistados
    pela Origem Familiar.
    .
    “O Mito Nacional Hegemônico é um Instrumento
    poderosíssimo nas Mãos da Elite Dominante”

    “O que marca o atual Momento Histórico é a Dominação
    Simbólica, Social e Econômica do Capital Financeiro”

    “O Brasil do ‘Jeitinho’, do Patrimonialismo e da Corrupção
    só serve para moralizar a Dominação de Poucos sobre Muitos”

    “O elemento especificamente brasileiro vai ser dado pela forma
    das relações de classe, ou seja, as relações peculiares entre
    a classe média e a elite, de um lado, e, de outro, entre a classe
    média e as classes populares.
    O mito nacional hegemônico, que estamos chamando de
    “Liberalismo Vira-Lata”, é que vai explicitar essa relação e
    a forma singular que assume em nossa sociedade.”

    Jessé Souza
    A Classe Média no Espelho
    (Página 223 do .pdf)

    http://www.fetrhotel.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Jesse%CC%81-Souza-A-Classe-Me%CC%81dia-no-Espelho.pdf


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A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.