Bernardo Ricupero: O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história

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À esquerda, o presidente Nicolás Maduro sendo transportado no navio de guerra USS Iwo Jima, após ser sequestrado por forças estadunidenses. À direita, o diretor da CIA, John Ratcliffe, o presidente Trump e o secretário de estado, Marco Rubio, acompanhando a operação militar na Venezuela que bombardeou bases militares e sequestrou o presidente Maduro. Fotos: Wiki Commons

O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história

Por Bernardo Ricupero*, em A Terra é Redonda 

1.

Em 1902, Alemanha, Reino Unido e Itália bombardearam portos venezuelanos. Alegaram que o país não pagara dívidas. Tal ação claramente violara a “Doutrina Monroe”, estabelecida em 1823 pelo então presidente dos EUA James Monroe, e, segundo a qual, seu país não aceitaria a intervenção de potências europeias nos negócios americanos, assim como não se envolveria nos negócios do Velho Mundo.

É verdade que a mensagem que James Monroe enviara ao Congresso, criando a doutrina que ficou conhecida com seu nome, era ambígua; afirmava a oposição ao colonialismo europeu, mas deixava a porta aberta para o expansionismo norte-americano.

Tal ambiguidade refletia a própria situação da ex-colônia que se transformava em potência, caracterizando o que foi chamado de “anticolonialismo imperial” (Sexton, 2011).

No entanto, dois anos depois do bombardeio a portos venezuelanos, em 1904, em meio a nova ameaça de uso da força por parte de potências europeias por conta de dívidas contraídas por nações americanas, no caso a República Dominicana, os EUA esclarecem sua posição por meio de uma nova mensagem presidencial ao Congresso. Afirma o então presidente Theodore Roosevelt que “qualquer país cujo povo se comportar bem contará com a nossa calorosa amizade”.

Por outro lado, o “crônico mau comportamento, ou a impotência que resulta no afrouxamento dos laços da sociedade civilizada, pode levar na América, assim como em outras partes, a requerer, em última instância, a intervenção por alguma nação civilizada, e, no hemisfério ocidental, a adesão dos EUA à Doutrina Monroe possivelmente os force a exercer, mesmo que relutantemente, em casos flagrantes de mau comportamento ou impotência, um poder de polícia internacional”. (Roosevelt in Holden e Zolov, 2000, p. 101).

2.

A reelaboração da Doutrina Monroe, mais de oitenta anos depois, passa a estabelecer que os EUA poderiam agir tanto como juiz como polícia em relação a seus vizinhos americanos. A inovação conceitual indicava a posição mais afirmativa do país no cenário internacional: de colônia a império.

O que ficou conhecido como “corolário Roosevelt” da Doutrina Monroe instituía como condição para a intervenção norte-americana a infração das regras de segurança – e não apenas o não pagamento de dívidas – condição que a nova potência determinava por ela mesma, agindo tanto como juiz como polícia.

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Na passagem do século XIX para o XX, os EUA emergiam como potência. Se tornavam a maior economia mundial, possuindo, já em 1913, um nível de industrialização 10% superior ao do Reino Unido (Bairoch, 1982). Significativamente, em 1898, o país se envolvia, pela primeira vez, com aquela que ficou conhecida como Guerra Hispano-Americana num conflito fora de suas fronteiras.

Os combates, que se iniciaram, pouco antes, com a luta pela independência de uma das últimas colônias espanholas, Cuba, levaram a que fora um dia a “invencível armada” a mobilizar a maior frota naval até então a cruzar o Atlântico, estimulando igualmente revolucionários filipinos a se levantarem em armas por sua emancipação política.

O resultado da guerra foi a cessão por parte da Espanha das suas possessões de Porto Rico, Filipinas e Guam para os EUA. Cuba se tornou independente, em 1902, mas a Emenda Platt, que vigorou até 1934, garantiu a possibilidade de intervenção norte-americana na ilha.

Tais iniciativas correspondiam bem a um momento histórico que o historiador britânico Eric Hobsbawm (1988) chamou de “era dos impérios”.

Marca infame dessa época é a Conferência de Berlim que, em 1884, dividiu o continente africano entre as potências europeias. Nesse quadro havia, em 1901, 140 colônias, protetorados e dependências, que correspondiam a 2/3 do espaço da terra e 1/3 da população mundial (Herring, 2008).

Na verdade, a América foi menos afetada pela partilha do globo entre antigas potências, como a Inglaterra e a França, e novas, como a Alemanha, o Japão e os próprios EUA.

No caso do chamado Novo Mundo, a quase ausência de colônias se devia, em boa medida, à Doutrina Monroe, que induziu o imperialismo europeu a respeitar a “esfera de influência” de Washington, como ficara claro na disputa territorial anglo-venezuelana, de 1895-96, decidida por um arbitramento praticamente imposto pelos EUA.

Mas os EUA não utilizavam na época apenas a força. Ou, como resumiu Teddy Roosevelt, deveriam, ao lidarem com seus vizinhos, “speak softly and carry a big stick”, o que o historiador e diplomata brasileiro Manoel Oliveira Lima traduziu sugestivamente como “cacetão” (Lima, 1937, p. 222).

Buscando atrair outras nações americanas, o país elaborou o que ficou conhecido como panamericanismo, o termo tendo sido cunhado pelo Evening Post, de Nova Iorque, em meio aos preparativos para a I Conferência Internacional de Estados Americanos realizada, entre 1888 e 1889, em Washington.

O objetivo do encontro era organizar uma união aduaneira nas Américas, o exemplo da unificação alemã estando ainda fresco. Apesar do fracasso da iniciativa, em boa medida por conta da oposição de países como a Argentina e o Chile, mais nove conferências panamericanas foram realizadas, ocorrendo até meados do século XX, e surgiu o embrião da Organização dos Estados Americanos (OEA), ainda ativa hoje em dia.

3.

Em 2026, mais de cem anos depois dos bombardeios estrangeiros a portos venezuelanos, os EUA atacaram Caracas. Cerca de 150 aviões desmantelaram a defesa aérea da capital do país sul-americano, abrindo caminho para que helicópteros transportassem quase 200 soldados altamente treinados.

O resultado da operação foi a morte de em torno de 100 pessoas – entre eles, 32 militares cubanos, mas nenhum norte-americano – e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que serão julgados nos EUA.

A acusação que pesa contra Nicolás Maduro não é mais de dívidas não pagas, mas, como deixou claro o presidente norte-americano, Donald Trump, na entrevista coletiva que se seguiu ao ataque, o que tem sido chamado de narcoterrorismo. O termo justificou, desde o final de 2025, ataques norte-americanos a barcos no Caribe e em outros mares, que custaram a vida a pelo menos 115 pessoas.

É verdade que não se insistiu muito na desculpa do tráfico de drogas como motivo do ataque norte-americano. Até porque a Venezuela tem participação irrisória na venda de fentanil para os EUA, potente opioide que causa a maior parte das mortes por overdose no país. Em contraste, o tráfico venezuelano é principalmente de cocaína e destinado à Europa.

Na verdade, o sequestro de Nicolás Maduro é melhor entendido à luz da Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pela Casa Branca em novembro de 2025.

Significativamente, o documento diz querer “afirmar e realizar um ‘corolário Trump’ à Doutrina Monroe” (National Security Strategy, 2025, p. 5), que o presidente norte-americano tem chamado de “Doutrina Donroe”.

A Estratégia insiste na necessidade de ter prioridades – o que não teria ocorrido com a política dos EUA depois da Guerra Fria, envolvida com o que chama de globalismo – o país devendo, ao contrário, se focar no hemisfério ocidental.

Nessa referência, o documento assinala que a região é fonte de recursos estratégicos importantes. Afirma também que os EUA precisariam garantir o domínio de fontes de energia citando, num tom passadista, petróleo, carvão e energia nuclear, já que elas abririam caminho para a reindustrialização e o florescimento da classe média do país.

Se poderia, nessa toada, interpretar o motivo do ataque norte-americano à Venezuela como o acesso às maiores reservas de petróleo do mundo. No entanto, a retomada da produção petrolífera venezuelana a níveis razoáveis demanda investimentos vultuosos, não sendo seguro que as grandes petroleiras norte-americanas estejam dispostas a se arriscarem num país sabidamente instável.

4.

Mas se é duvidoso que os EUA atacaram a Venezuela por conta do petróleo é certo que não o fizeram em defesa da liberdade.

É sintomático que a palavra “democracia” não foi mencionada em nenhum momento da entrevista coletiva de Donald Trump. A própria Estratégia de Segurança Nacional norte-americana afirma não desejar impor a democracia a nações cuja história e tradição não correspondem a esse regime político.

Em outras palavras, a ação militar dos EUA não foi realizada para promover uma mudança de regime na Venezuela que poderia levar a uma situação caótica, como ocorreu no Iraque pós-Saddam Hussein.

Ao contrário, o governo norte-americano tem demonstrado disposição de conviver com o governo da sucessora de Maduro, sua vice-presidente Delcy Rodríguez.

No que se refere ao governo venezuelano, a recíproca também parece ser verdadeira, Delcy Rodríguez e seus ministros têm dado seguidas demonstrações de disposição de colaboração com os EUA.

Antes, Nicolás Maduro tinha indicado que estaria disposto a garantir o acesso dos EUA ao petróleo e outras riquezas venezuelanas em troca de sua manutenção no poder.

Em outras palavras, há sinais de que os EUA desejam fazer da Venezuela uma espécie de protetorado, como foi Cuba enquanto vigorou a Emenda Platt.

A participação chinesa, russa e iraniana na exploração do petróleo venezuelano tem, portanto, seus dias contados.

No entanto, é improvável que os EUA consigam reverter a presença cada vez maior da China na América Latina. Desde o ano 2000 até 2023, o comércio exterior chinês com a região cresceu exponencialmente, 38 vezes, ao passo que a participação dos EUA se reduziu de 54% para 37%. A China é atualmente o segundo maior parceiro comercial da América Latina, sendo o principal do Brasil, Chile, Peru e Venezuela (CEPAL, 2025).

Em termos amplos, pode-se interpretar o sequestro de Nicolás Maduro como basicamente uma demonstração de força. Nesse sentido, é possível considerar que a hegemonia norte-americana sobre a América Latina se baseia cada vez mais na coerção e menos no consentimento. Sintomaticamente, diferente do que era costume para os EUA, não se justificou o ataque à Venezuela com base na defesa da democracia.

Retoma-se assim o “big stick”, mas não o “speak softly”, de Teddy Roosevelt. Chega a ser curioso como a ação norte-americana na Venezuela é reminiscente da “era dos Impérios”.

No entanto, há uma diferença significativa entre os dois momentos; os EUA eram, na passagem do século XIX para o XX, uma potência em ascensão, são hoje uma potência em declínio.

*Bernardo Ricupero é professor no departamento de ciência política da USP. Autor, entre outros livros, de Romantismo e a ideia de nação no Brasil (WMF Martins Fontes) [https://amzn.to/4gVZizw]

Referências

BAIROCH, Paul. “International industrialization levels from 1750 to 1980”. Journal of European Economic History, v. 11, n., 2, 1982.

Comisión Económica para América Latina y el Caribe. Las relaciones entre América Latina y el Caribe y China: áreas de oportunidad para un desarrollo más productivo, inclusivo y sostenible, 2025.

HERRING, George. From colony to superpower. New York: Oxford University Press, 2008.

HOBSBAWM, Eric. A era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1988.

HOLDEN, ROBERT; ZOLOV, Eric (editors). Latin America and the United States: a documentar history. New York: Oxford University Press, 2000.

SEXTON, Jay. The Monroe doctrine: empire and nation in the Nineteenth century America. New York: Hill and Wang, 2011.

LIMA, Manoel de Oliveira. Memórias (estas minhas reminiscências…). Rio de Janeiro: José Olympio, 1937. National Security Strategy. White House, 2025.

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