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Antônio David diverge de Vladimir Safatle sobre o subproletariado


18/07/2013 - 13h31

por Antônio David, especial para o Viomundo

Em artigo publicado recentemente no Viomundo, procurei discutir a tese de Vladimir Safatle segundo a qual “o ciclo do ‘lulismo’ acabou por não ter tido condição de aprofundar suas políticas”. Entre outros pontos, argumentei naquele artigo que, “ao amparar-se nessa constatação /…/, Safatle está olhando apenas para o proletariado e ignorando solenemente a existência do subproletariado”.

Em seu mais recente artigo na Folha de S. Paulo, Safatle procurou enfrentar a questão do subproletariado. O mote é a revolta dos trabalhadores da usina de Jirau (RO).

Nesse artigo, Safatle afirma que a revolta dos trabalhadores de Jirau teria sido o “ensaio geral para as manifestações de Junho”. Ele argumenta que os trabalhadores não apenas “atearam fogo em alojamentos e ônibus”, mas também “na afirmação de que o subproletário brasileiro preza a ausência de radicalismo e a segurança” – tese presente no livro Os sentidos do lulismo, do cientista político André Singer, e reproduzida por mim em meu artigo.

Safatle constata ainda que “depois de Jirau, veio uma sequência quase ininterrupta de greves: de policiais, bombeiros, professores, coveiros”, para então apresentar aquela que parece ser a tese central do artigo: “se há algo que une tanto o subproletário quanto a classe média, é a consciência de que o processo de ascensão social produzido pelo lulismo esgotou”.

Não ficou claro quem faz parte do que Safatle chama de “classe média”, haja vista a grande confusão em torno de sua caracterização, assunto do qual Wladimir Pomar tratou com grande competência em artigo publicado recentemente pela Fundação Perseu Abramo. De qualquer forma, não me parece fazer sentido a afirmação de que para a classe média “o processo de ascensão social produzido pelo lulismo esgotou”, pois desde o aparecimento do lulismo essa classe rejeita o processo de ascensão social.

Quanto à consciência dos policiais, bombeiros, professores e coveiros – ou seja, da classe trabalhadora –, creio que é necessário mais pesquisas para sabermos o quanto de verdade há na afirmação por ele feita. Pois, embora as manifestações aparentemente deem razão para Safatle, as greves parecem desmenti-lo: se há greves, em geral é porque os trabalhadores sentem que seu poder de barganha é maior.

Contudo, o foco deste novo artigo de Safatle parecer ser o subproletariado. E aqui há um grande problema. Isso porque, se é verdade que Safatle escreveu acreditando tratar do subproletariado na figura do trabalhador de Jirau, na prática todas as afirmações que ele faz dizem respeito não ao subproletariado, mas ao novo proletariado.

A compreensão das classes e suas frações no Brasil é assunto complicadíssimo. Faltam estudos sobre o tema. Ademais, com a política de valorização do salário mínimo ocorrida sob o lulismo, houve flutuações demográficas ainda mal compreendidas que implicaram na incorporação de parcela do subproletariado ao proletariado – muito provavelmente os trabalhadores de Jirau façam parte deste contingente.

Como não sou especialista no assunto, deixo para os especialistas a difícil tarefa de explicar as diferenças entre as duas frações da classe trabalhadora no Brasil, que envolvem não apenas questões econômicas, bem como as recentes flutuações. Limito-me a apontar para o que alguns estudiosos do tema têm dito: que o subproletariado era enorme em tamanho em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez, e ainda é enorme em tamanho – em meu outro artigo, já havia alertado para o fato de que, em 2011, dos brasileiros em idade ativa, 23,6% ganham até 1 salário mínimo, e 22,4% ganham de 1 a 2 salários mínimos.

Quanto aos trabalhadores de Jirau, se levarmos em conta que uma das características do subproletariado é que, exatamente por estar abaixo da condição proletária, essa fração não tem condições de fazer greve, é duvidoso situar tais trabalhadores nessa fração, haja vista suas não apenas suas greves, mas também suas reivindicações (reajuste salarial, aumento na cesta básica, pagamento de hora-extra, ampliação da licença), próprias do proletariado.

Assim como é próprio do proletariado a organização sindical. Aliás, lendo o primeiro parágrafo do link, datado exatamente de abril de 2011, tampouco parece correta a afirmação de que os trabalhadores de Jirau “[não se sentem] representados por sindicatos”.

Em entrevista para o Brasil de Fato concedida em 2012, o cientista político André Singer já tratara das greves nas hidrelétricas, sobre as quais afirma: “Esses setores são tipicamente setores de baixa remuneração e alta rotatividade. Para essa parcela desse novo proletariado podemos ter a expectativa de valores compatíveis aos do velho proletariado”.

Antes de seguir adiante, gostaria de fazer duas ponderações sobre os trabalhadores de Jirau – na verdade são duas hipóteses, que requerem pesquisas para serem confirmadas.

Em primeiro lugar, se desenhássemos a pirâmide social brasileira, provavelmente veríamos os trabalhadores de Jiraú situados na fronteira entre o subproletariado e o proletariado, ou um pouco acima dela, ou mesmo um pouco abaixo, no caso de uma parcela. Provavelmente tal proximidade traz consigo características em comum, o que alimenta e explica a confusão – ou seja, assim como há trabalhadores que se parecem com classe média, também há proletários que se parecem com subproletários.

Em segundo lugar, é provável que os trabalhadores situados nessa faixa de fronteira entre o subproletariado e o proletariado ou um pouco acima dela sejam o elo mais fraco da cadeia de trabalho, ou seja, aqueles que mais sentem a opressão da dominação capitalista no Brasil. É uma hipótese.

O ponto para o qual quero chamar a atenção, no entanto, é o que vem a seguir. Diz respeito a algo do qual já havia feito menção no artigo anterior. Cito-me: “Não é raro ler e ouvir que o subproletariado não existe; há ainda aqueles que reconhecem a existência dessa fração de classe, mas que atribuem a ela o que na verdade faz parte do proletariado. Estou falando do curioso fenômeno da invisibilidade do subproletariado”.

André Singer, que teve o mérito de ter reabilitado a categoria de “subproletariado” na análise das classes sociais no Brasil, já havia alertado para este problema em Os sentidos do lulismo, quando afirma que os eleitores de baixíssima renda “tendem a ficar invisíveis para os analistas” (p.53).

Em suma, se Safatle escreveu “Onde tudo começou” para rebater a crítica que lhe foi dirigida, ainda há o que dizer. Pois, imaginando tratar do subproletariado, ele apontou para o (novo) proletariado. Incorreu no mesmo erro.

Por que, afinal, o subproletariado é invisível – tão invisível que assim permanece mesmo aos olhos de quem quer olhar para ele? Não tenho resposta para essa pergunta. Aqui novamente, deixo a tarefa para os que têm capacidade de cumpri-la.

Se Safatle voltar seus olhos para o subproletariado, provavelmente chegará a uma conclusão diferente, pois é duvidoso que essa fração de classe tenha “a consciência de que o processo de ascensão social produzido pelo lulismo esgotou”.

Não é isso o que as pesquisas mostram. Nem tampouco o que se ouve dos pobres. Agora, se o que está em jogo para Safatle é a necessidade de construir essa consciência, isso é outra história. Mas, mesmo para um projeto político, é imperativa a justa compreensão da realidade como ela é e não como imaginamos ser ou gostaríamos que fosse. Afirmar algo que não é, mas que queremos que seja, é uma tática que pode ser útil politica e eleitoralmente, mas tem seu preço. O risco é a petrificação do discurso – não só do próprio discurso, mas do discurso alheio. Pode ser emburrecedor. É exatamente o que vemos quando o governo insiste em chamar a nova classe trabalhadora de “nova classe média”.

Indo além na crítica, tampouco me parece que haja algo relevante que una subproletariado (e proletariado) e classe média. A rigor, se há algo que une um e outro, esse algo é do âmbito do superficial, pois no que realmente importa essas classes querem o exato oposto.

Enquanto os trabalhadores de Jirau, policiais, bombeiros, professores, coveiros etc. fazem greve, a classe média abomina as greves. Enquanto os trabalhadores reclamam por mais Estado e mais direitos, a classe média reclama por menos Estado – ou, se reclama por mais Estado, é apenas para si e na forma de policiamento, e queixa-se, ao lado da burguesia, por ter de pagar impostos – e sente-se prejudicada pelo bolsa família e pelas cotas nas universidades.

Ao mesmo tempo, muitos dos apontamentos feitos por Safatle são justos, corretos e necessários: quando afirma que os baixos salários são “incapazes de dar conta dos gastos em um país onde somos obrigados a pagar por educação e saúde, onde não se pode contar com transporte público e onde o preço dos imóveis explodiu devido à especulação imobiliária”; quando reivindica “um Estado capaz de oferecer serviços públicos que eliminassem os gastos das famílias com educação, transporte e saúde”; quando afirma que “o governo deveria ter partido para uma reforma fiscal” que obrigue os ricos a pagar impostos e que, para tanto, “seria preciso outra ideia do que significa ‘garantir a governabilidade'”.

Penso inclusive que Safatle poderia ter ido além em sua crítica ao lulismo. Se o fizesse, talvez chegasse à conclusão oposta. Pois, na verdade, o grande problema do lulismo parece estar exatamente no fato de não ter se esgotado – ou seja, em ter mantido as condições para sua perpetuação. Pois, se o lulismo guarda em si uma vocação igualitarista, isto é, se o objetivo é o combate à pobreza e à desigualdade, então como explicar que, passados dez anos, o subproletariado ainda exista e em tão elevado número?

O próprio André Singer chama a atenção para isso em seu livro: “o reformismo fraco, por ser fraco, implica ritmo tão lento que, por vezes, parece apenas eternizar a desigualdade” (p.199). Se o lulismo tem um pecado, esse pecado está na longa duração. A pobreza e a desigualdade estão caindo, mas muito lentamente – e talvez mais lentamente ainda com Dilma.

A esquerda tem grandes e complexos desafios a enfrentar, desde desafios políticos e ideológicos até desafios organizativos. Quem pode resolvê-los são os trabalhadores e suas organizações. Mas penso que o enfrentamento destes desafios envolve um esforço teórico, e os intelectuais (de dentro e de fora das universidades) têm um papel fundamental, qual seja, combinar esse tipo de abordagem feito por Safatle em seus justos e necessários apontamentos com a justa compreensão das classes e suas frações, com uma leitura da sociedade brasileira que apreenda nosso atraso histórico e nossas profundas divisões, o que equivale a dizer, com os impasses legados pela formação do Brasil. Essa é a síntese que carece ser feita.

Sob o risco de ser simplista – pois o problema vai muito além disso –, talvez o dilema maior no interior da esquerda brasileira possa ser formulado nestes termos: enquanto alguns conseguiram ver o subproletariado e o levaram em conta – sob o custo de terem privilegiado a luta eleitoral e parlamentar e a governabilidade e de negarem a radicalização política, o que levou alguns à degeneração e à traição –, outros privilegiaram a necessidade de reduzir a desigualdade rapidamente e de afirmarem a necessidade da radicalização política – e o custo parece ter sido a incapacidade de verem o subproletariado ou, entre os que conseguiram vê-lo, de lidar com essa fração de classe, o que os levou a marginalizar a luta eleitoral ou a engajar-se nela de forma caricatural.

Desnecessário dizer que essa é uma generalização. Seria importante considerar as experiências de governos e mandatos democrático-populares na história recente, além de movimentos sociais que organizam essa fração de classe e que, de uma forma ou de outra, tomam parte na luta eleitoral, dos quais o mais expressivo é o MST. Mesmo assim, apesar da generalização, essa é uma dicotomia real. Ela não só existe como parece ser predominante na esquerda. Superá-la é a chave para a superação do paradoxo do lulismo. Há quem se esforce por superá-la. Disso depende a promoção do igualitarismo e da soberania popular.

PS: a quem tiver interesse em dados sobre as condições de trabalho na construção civil, recomendo um recente estudo do Dieese sobre o assunto; em relação às greves, há um outro estudo do Dieese que trata do assunto.

Antônio David é pós-graduando em filosofia na USP e mantém uma página no Facebook para divulgação de pesquisas e análises sobre o Brasil.

 Leia também:

Vladimir Safatle: Não dá mais para esconder Jirau no meio da floresta

Antônio David: Solução brasileira ou islandesa?

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18 comentários

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Elias

20 de julho de 2013 às 04h08

Fiquei aguardando o termo lumpemproletariado e cheguei ao fim do texto (longo e repetitivo) sem encontrá-lo. Lumpemproletariado: “no vocabulário marxista, termo designativo da camada flutuante do proletariado, destituída de recursos econômicos, e especialmente caracterizada pela ausência da consciência de classe” (Houaiss). Por mais que Karl Marx continue atual, temos de convir que a classe trabalhadora hoje não se confunde mais com classe operária. Depois da Constituição de 1988, e até um pouco antes, a palavra operário foi substituída por trabalhador. O Partido dos Trabalhadores mudou a nomenclatura da esquerda no Brasil. Talvez até sem querer. A “luta de classes”, velha expressão dos anos 1960, hoje só é citada por sonhadores e saudosistas. Alguém fez humor com isso dizendo que há luta de classes na favela. E não parece impossível que haja mesmo algo semelhante, sem nada a ver com o conceito marxista. E já foi dito também que não há classe média e sim “classes médias”. Agora temos um subproletariado. Interessante. E o “sobreproletariado”? Eis a questão. O “sobreproletariado” faz fronteira com a classe média? Qual delas? Classe média remediada, classe média-média, classe média-alta, classe média-altíssima? Para cada uma há um plano de saúde (risos). Voltando ao proletariado. Desde quando o proletariado foi homogênio? Gráficos, passamaneiros, metalúrgicos, comerciários, balconistas, bancários, motoristas, metroviários… E os chefes, os subchefes, o pessoal da administração, sim, os engravatados dos escritórios, são todos proletários? Não. Hoje são todos trabalhadores. Assim como não se diz que um ferramenteiro é um proletário, não se diz que um engraxate é um lúmpen. Como disse, a nomenclatura mudou e não foi apenas isso. Muita coisa mudou de meados do século 20 para esses 13 anos do século 21. Não faço comentários longos, e este foi bem além da conta. Mas não posso deixar de dizer aos abutres de plantão: Enquanto a esquerda acadêmica e vaidosa rói unha por ciúme, Lula, como já demonstrou nos oito anos de mandato, segue forte para continuar a alavancar mais os que vivem na miséria e na pobreza. Com Dilma em 2014.

Responder

assalariado.

19 de julho de 2013 às 14h20

Antônio David, realmente, este post é uma generalização de situações porém, dentro do quadrado da luta entre exploradores x explorados. A questão é amarrar tudo isso, e canalizar para as lutas vindouras. Visto que, o que ficou claro para eu, é que, os acadêmicos em geral nunca tiveram e nem tem a preocupação de (socializar) seus conhecimentos sobre o que é luta de classes para com a periferia. Acadêmicos, venham pra periferia, venham!

Pra mim, o que mais ficou claro, e que, já leu um pouco sobre luta de classes, foi esta parte que define para mim o que é (pauta de esquerda) x (pauta de direita). Isso é o que separa a burguesia e seu espelho ideológico (leia -se classe média reaça), do povo nação e assalariados na condição de explorados pela burguesia patronal. Este é o trecho, a bifurcação ideológica que ficou muito claro, e que, divide as vozes das ruas:

” Enquanto os trabalhadores de Jirau, policiais, bombeiros, professores, coveiros etc. fazem greve, a classe média abomina as greves. Enquanto os trabalhadores reclamam por mais Estado e mais direitos, a classe média reclama por menos Estado – ou, se reclama por mais Estado, é apenas para si e na forma de policiamento, e queixa-se, ao lado da burguesia, por ter de pagar impostos – e sente-se prejudicada pelo bolsa família e pelas cotas nas universidades.”

Sim, a pauta não é a mesma, percebe? Encima destas aspas que abro, ficou evidente e definido isso aqui:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UiVDtWb7K48

Sobre o proletariado e os seus filhos, digo, o sub proletariado lembro, nada mais são do que aqueles 500.000 que estão presos e empilhados nos presídios Brasil afora e/ ou aqueles que vão te assaltar, logo ali, na próxima esquina.

O que diferencia o proletariado do sub proletariado(?), no que diz respeito a exploração do (CAPITAL X TRABALHO) é; a partir do momento que você arruma um emprego de carteira assinada ou não, você deixa de ser sub proletariado e passa a ser proletariado, justamente porque, você desse momento em diante (numa analise rasa), começou a fazer parte da cadeia produtiva do capital. Ou seja, esta produzindo de alguma forma, (MAIS VALIA) para os donos do capital, mais conhecido entre nós como lucros. E assim você passa ser um “sobrevivente”.

Quanto ao novo proletariado de Jirau, a única novidade é que a (MAIS VALIA = LUCROS), triplicou com relação ao velho assalariado e de alguma forma, o que sobra mesmo é: qual será a sua consistência e consciência politica, enquanto assalariado explorado pela burguesia patronal?

Ah, sim, o sub proletariado estão entorno de 30% da nação ou pprvolta de 60 milhões de irmãos. Sim, são aqueles que o bolsa família não atingiu e nem vai atingir. Entre esses irmãos deserdados pelos donos do capital estão os idosos abandonados, desempregados permanente, soldados do trafico, exercito industrial de reserva( leia -se desempregados), miseráveis, menor abandonado, os drogados (cracolandia), …

Abraços Fraternos.

Responder

Leo V

19 de julho de 2013 às 12h31

Da direita à esquerda: fogo das ruas sacode a política institucional

A disputa continua: de onde vai sair a grana para a Tarifa Zero nos governos da direita? E os governos do PT e base aliada? Vão se mexer e promover logo a Tarifa Zero com ônus para os ricos?

por Simara Pereira e Victor Khaled — publicado 19/07/2013 09:50

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/da-direita-a-esquerda-fogo-das-ruas-sacode-a-politica-institucional-1776.html

Responder

Mardones

19 de julho de 2013 às 09h07

“(…) tampouco me parece que haja algo relevante que una subproletariado (e proletariado) e classe média. A rigor, se há algo que une um e outro, esse algo é do âmbito do superficial, pois no que realmente importa essas classes querem o exato oposto.

Enquanto os trabalhadores de Jirau, (…), coveiros etc. fazem greve, a classe média abomina as greves. Enquanto os trabalhadores reclamam por mais Estado e mais direitos, a classe média reclama por menos Estado – ou, se reclama por mais Estado, é apenas para si e na forma de policiamento, e queixa-se, ao lado da burguesia, por ter de pagar impostos – e sente-se prejudicada pelo bolsa família e pelas cotas nas universidades.”

Acertadíssimo na análise. E aqui, ele foi simplista mesmo:

“Sob o risco de ser simplista – (…) –, talvez o dilema maior no interior da esquerda brasileira possa ser formulado nestes termos: enquanto alguns conseguiram ver o subproletariado e o levaram em conta – sob o custo de terem privilegiado a luta eleitoral e parlamentar e a governabilidade e de negarem a radicalização política, o que levou alguns à degeneração e à traição –, outros privilegiaram a necessidade de reduzir a desigualdade rapidamente e de afirmarem a necessidade da radicalização política – e o custo parece ter sido a incapacidade de verem o subproletariado ou, entre os que conseguiram vê-lo, de lidar com essa fração de classe, o que os levou a marginalizar a luta eleitoral ou a engajar-se nela de forma caricatural.”

Espero mais reflexão sobre esse simplismo, pois a generalização foi criminosa. Talvez, entre os que são tidos como radicais – e esse simplismo é típico da direita – são aqueles que desejavam uma postura mais firme do governo e do PT em relação a temas centrais (e isso não é radicalização) como, por exemplo, a política econômica que privilegia os rentistas.

Acho muito importante esse debate das ideias do Safatle e do David. A esquerda precisa mesmo de muito debate, pois ‘ser governo’ inutilizou muita gente que se dizia esquerda.

Responder

    Roberta Ragi

    19 de julho de 2013 às 10h26

    Concordo com vc, Mardones, concordo mesmo.

    Acredito tb que temos de acompanhar esse debate sobre o papel da esquerda e sobre os limites do lulismo, nesse momento, como instrumento concreto para pensar e projetar a ação política progressista de que necessitamos. Ao debate, então, que a realidade urge! E aos melhores argumentos!

    O David tb cumpre esse papel, com Safatle e tantos outros.

Roberta Ragi

19 de julho de 2013 às 05h01

David, gostei muito do seu texto. E considero importantíssimo que pessoas de dentro e de fora das Universidades procurem entender o fenômeno do lulismo para que tenhamos melhores condições de ler o presente, pensando na construção do futuro. Vc chega, ao final do seu texto, à ideia de que a esquerda brasileira está dividida: de um lado, os que, em favor do subproletariado, incorporam-se à luta eleitoral, aceitam os percalços da governabilidade e recusam a radicalização política; de outro lado, aqueles que, incapazes de levar em conta o subproletariado, marginalizam a luta eleitoral e pedem mudanças mais rápidas, aliadas à radicalização política. Eu lhe pergunto: se há um risco, como vc bem mostrou, em não levar em conta a realidade do subproletariado, o que poderia, certamente, favorecer à petrificação do discurso, não há outro risco evidente em continuar considerando de esquerda um tipo de política de coalizão pautada por privatizações (petróleo, gás, aeroportos, portos), pelo financiamento (por parte do BNDES) de projetos privados duvidosos, por uma gestão complicada da dívida pública (que continua a consumir grande parte das nossas riquezas), pela ausência de reformas essenciais (tributária, política etc.)? Eu, sinceramente, tb gostaria de ver essas análises e essa conta, dentro dos critérios que vc exige: os critérios do pé no chão – de forma a buscar o que é, e não o que deveria ser (ou o que eu imagino que seja)… Talvez aí esteja um outro nó do problema… Precisamos estar certos de que este governo atual continua sendo um governo dos trabalhadores (subproletariado ou proletariado). Caso contrário, não devemos seguir o cortejo fúnebre… Mais: temos a obrigação ética de renovar e reconstruir os caminhos que um dia o PT trilhou.

Responder

abolicionista

18 de julho de 2013 às 19h48

O desenvolvimentismo ataca novamente. É o gênero tragicômico dando as caras novamente, gênero tão cultivado nesse entreposto comercial que chamamos de nação. A primavera lulista acenou com a possibilidade de superar leitura tradicional de nossa sociologia, a saber, a de que o Brasil só mudaria com uma revolução, ou seja, com uma mudança radical de nossas estruturas. O lulismo colocou isso de molho, reduziu um pouquinho a desigualdade (embora, com a migração de capitais para paraísos fiscais, não tenhamos como medir a ponta de cima do bolo, com o que qualquer análise da desigualdade pode ser contestada). De todo modo, o lulismo proliferou marajás e aliviou a miséria. Quanto a mudanças estruturais, praticamente nada ocorreu. Prova disso é o pânico que toma conta dos governistas a cada eleição. Basta o PT sair do poder para que tudo desabe como um castelo de cartas. Como isso ficou óbvio pra todos, resta tentar desqualificar o pensamento dissonante com a alcunha de “intelectual de classe média”. Xingamento duplo e duplamente preconceituoso: primeiro, usa do anti-intelectualismo típico de discursos fascistas e, ao mesmo tempo, finge não reconhecer a capacidade da crítica de tomar pé da totalidade e das contradições que atingem, inclusive, sua própria classe. Enquanto isso, o mundo ruma para uma catástrofe ecológica e humanitária. Mas, apesar de tudo, sabe-se que nós chegaremos lá, resta saber aonde…

Responder

lincoln secco

18 de julho de 2013 às 16h33

Antonio, parabens pela análise séria.

Responder

Roberto Locatelli

18 de julho de 2013 às 13h44

Como os teóricos de classe média “viajam” na maionese. Refiro-me aqui tanto a Safatle como ao Antônio David.

Antônio David diz que o tal “subproletariado” (?) é invisível. Melhor dizer que a classe média intelectual não os nota. Mas certamente eles não são invisíveis nas comunidades onde vivem, nem são invisíveis perante os patrões para os quais vendem sua mão de obra. Ou seja, a classe média se acha mesmo o centro do Universo: se ela não nota o tal “subproletariado” (?) fica decretado que ele é invisível.

Quanto a Safatle, dizer que uma greve de peões de obra desaguaram nas arruaças promovidas pelos mauricinhos e patricinhas do tal movimento passe livre (a soldo da CIA?) é mais um delírio intelectual típico de certa esquerdinha psolenta.

Responder

    Silas

    18 de julho de 2013 às 16h07

    Parabéns Roberto, você dize em três parágrafos o que o David gastou 26.

    Antônio David

    18 de julho de 2013 às 16h56

    Caro Roberto,

    Você tem toda razão. Imaginei que fosse pressuposto que o subproletariado não fosse invisível para si mesmo nem para os patrões que o exploram.

    Eu procurei chamar a atenção não apenas para o fato de o subproletariado ser invisível para alguns intelectuais, como você bem nota, mas em particular (como tentei explicar no penúltimo parágrafo) para aqueles que estão engajados em dizer as verdades que Vladimir Safatle diz.

    Se eles erram por não ver o subproletariado, como você bem nota, eles acertam em tomar parte no debate dizendo o que é necesśario dizer.

    AD

    Flavio Lima

    18 de julho de 2013 às 16h58

    Muito bom, Roberto.

    Lucas Gomes

    18 de julho de 2013 às 18h14

    Roberto,
    Você conhece algum dos mauricinhos ou patricinhas que compõe o MPL? Soldo da CIA? Quem tá levando o prêmio delírio da vez aqui é você. Isso me soa como mágoa de haddadista que até agora não engoliu a verdade de que o PT não representa a totalidade da esquerda, por mais que se esforcem para defender a idéia de que é PT ou nada.

    DENIS

    18 de julho de 2013 às 18h17

    Caro Roberto, comentário sobre o movimento passe livre(MPL) é leviano e irresponsável.É fácil fazer caricatura e desdenha-la, mas o MPL é um movimento social gestado no Fórum Mundial.Sua insinuação sobre a CIA é típica dos caluniadores que não têm compromisso com a verdade ou a justiça.

    Felipe

    18 de julho de 2013 às 18h45

    Dentre o menu de delírios confesso que o teu é um forte candidato na categoria Demagogia!

    abolicionista

    18 de julho de 2013 às 22h33

    Qual teórico não seria de classe média? Os teóricos de elite?

    Evo

    19 de julho de 2013 às 01h39

    Belo comentário, Abolicionista…

    Talvez nossos estimados “comentadores governistas” estejam esperando pelo “teórico-messias” oriundo da “nova classe-média” e graduado nas maravilhosas universidades privadas oferecidas pelo PROUNI…

    Deita, que a espera vai ser longa!

    Acássia

    19 de julho de 2013 às 16h52

    Oi Locatelli,

    Pensei a mesma coisa: se são dois grupos distintos economicamente e intelectualmente e geograficamente, se não se comunicam,como é que um desses grupos iria se aproveitar de um movimento iniciado por outro?

    Nem houve tanta repercussão fora dos blogs sujos sobre Jirau.


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