Ângela Carrato: Jornal Nacional faz vista grossa às questões graves não respondidas por Flávio Bolsonaro e suas mensagens cifradas
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Por Ângela Carrato*
Sucessões de mentiras, ausência de qualquer explicação para sua corrupção explícita, golpismo e mensagens cifradas.
Essa é a síntese da entrevista do candidato do PL à presidência da República, Flávio Bolsonaro, aos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, do Jornal Nacional, na noite de sexta-feira.
Penúltima da série com os candidatos melhores colocados nas pesquisas de intenção de voto e no dia seguinte à inquisição a que o presidente Lula foi submetido por estes mesmos jornalistas amarra-cachorros da família Marinho, era previsível que contivesse algumas perguntas indigestas para o filho de Jair Bolsonaro.
O JN precisava tentar desfazer a impressão de que quis prejudicar Lula.
Daí ser previsível que a primeira pergunta fosse, como realmente aconteceu, sobre os R$ 61 milhões que Flávio Bolsonaro pediu e recebeu do então dono do banco Master, Daniel Vorcaro, preso por corrupção.
Há três meses Flávio Bolsonaro vem enrolando e anunciando que “em breve” faria a prestação de contas sobre este dinheiro. Não fez durante a entrevista e disse que tal prestação já havia sido realizada.
Renata e Tralli dispunham de todas as informações para cobrar do candidato como, onde e de que forma isto havia sido feito, até porque não se trata de dinheiro de Vorcaro, como afirmou Flávio, mas de dinheiro roubado pelo banco Master de aposentados e pensionistas cujas contas estavam naquele estabelecimento.
Possivelmente, a razão para a dupla de jornalistas afrouxar o questionamento tenha a ver com o ataque do candidato ao grupo Globo, ao afirmar que as empresas da família Marinho também receberam dinheiro do banco Master para financiar eventos em Nova York.
O ponto no ouvido dos jornalistas certamente os orientou a defender a empresa, com o argumento de que tudo foi feito de forma transparente e seguindo as regras para anunciantes. O ponto deve igualmente tê-los orientado a mudar de assunto, pois foi o que aconteceu.
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Flávio ainda tentou jogar a responsabilidade pela corrupção do banco Master no colo do governo Lula, como a própria Globo havia tentado no dia anterior.
O candidato do PL também responsabilizou a “conivência do Banco Central” com os problemas do Master ao governo Lula, quando se sabe que tudo começou na gestão de Jair Bolsonaro e se aprofundou após o BC ter se tornado independente, também no governo Bolsonaro.
Em seguida, o senador Flávio passou a recitar aquela manjada lista de acusações, sem quaisquer provas, contra Lula e os petistas, sem nenhuma reação da parte fos entrevistadores.
Nos 40 minutos da entrevista, Flávio Bolsonaro citou nove vezes negativamente o presidente Lula e em número até superior o PT e os petistas. O correto, do ponto de vista jornalístico, não seria a dupla de entrevistadores lembrar-lhe que o objetivo era esclarecer os fatos e não sair agredindo outros candidatos?
Isso também não foi feito.
Em seguida, os entrevistadores passaram a questionar o filho de Jair Bolsonaro sobre a tentativa de golpe, liderada por seu pai, em 8 de janeiro de 2023, lembrando que ela lhe valeu condenação e pena de 27 anos e três meses.
De novo, ao invés de responder, Flávio partiu para a agressão aos ministros do STF Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, dizendo que seu pai havia sido julgado “pelos inimigos”.
A dupla de entrevistadores corretamente argumentou que há depoimentos de militares de alta patente provando que Jair Bolsonaro atentou contra o estado de direito, a exemplo do comandante de brigada Batista Júnior e do general Freire Gomes.
Novamente, ao invés de responder, Flávio disse que um desses militares “está pedindo votos para Lula” e ficou por isso mesmo.
A acusação é grave e os dois jornalistas deveriam ter pontuado e cobrado seriedade e evidências do candidato.
De novo, ficou por isso mesmo.
Flávio Bolsonaro voltou a afirmar que, se eleito, vai anistiar o pai e todos os presos e sentenciados pelo 8 de janeiro, por se tratar de gente “inocente e de bem”. Entre a gente “inocente e de bem” ele inclui os autores do Plano Punhal Verde e Amarelo, que previa o assassinato de Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes.
Mais uma vez os entrevistados perderam uma ótima oportunidade para que ficasse explicitada a posição golpista e violenta de Flávio Bolsonaro.
Mudou-se de assunto, com o tema passando a girar em torno dos ataques de Flávio e de seus familiares às “urnas eletrônicas”.
Como existe uma infinidade de matérias de jornais, áudios e vídeos nos quais ele coloca em dúvida a lisura das urnas eletrônicas, a saída que encontrou foi dizer “falei equivocado” e que irá responder “com o resultado das urnas”.
Contrariando todas as evidências (resultado de pesquisas, os poucos políticos e partidos que o apoiam e as fracas manifestações populares), garantiu que será eleito em 4 de outubro, “no primeiro turno” e se recusou a responder se aceitaria um resultado negativo.
Mais uma vez, faltou um questionamento firme e sempre dentro dos marcos do que ensina a técnica jornalística, por parte da dupla de entrevistadores. Bastaria que perguntassem, por exemplo:
— O senhor pretende adotar a mesma postura do senador Aécio Neves que não aceitou o resultado das urnas e partiu para contestar a eleição de Dilma Rousseff em 2014?
Contestação que deu origem ao golpe que a derrubou.
Em qualquer emissora não golpista, esta seria a pergunta. Mas para os amarra-cachorros da família Marinho, isso é absolutamente impensável. A Globo foi parte decisiva do golpe contra Dilma, como está fartamente documentado.
O assunto seguinte levantado pelos entrevistadores foi a tarifa de Trump contra vários produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Neste item, é impossível saber quem se mostrou mais distante da realidade dos fatos: entrevistado ou entrevistadores.
Abordou-se apenas se o irmão, Eduardo Bolsonaro, e ele próprio, foram os responsáveis pelas taxações de Trump contra os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.
Não se mencionou que tal taxação é parte de uma guerra aberta de Trump contra o Brasil e o governo Lula e, muito menos, que ela é parte de uma ação maior, anunciada por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, para retomar o controle sobre a América Latina, considera por eles “quintal” dos Estados Unidos.
A TV Globo tem ignorado este assunto em seus telejornais. Para ela, a questão da soberania brasileira, tão necessária e bem defendida pelo governo Lula, simplesmente não é assunto.
Tanto que os amarra-cachorros da família Marinho nem pensaram em colocar os fatos no seu devido lugar, quando o candidato Flávio Bolsonaro acusou Lula de ser o responsável por estas taxações, de “provocar Trump” e de “atacar Marco Rubio”, quando o mundo inteiro sabe que é exatamente o contrário.
Bastaria aos entrevistadores lembrar ao candidato que Trump tem taxado e ameaçado os governantes dos mais diversos países. O Brasil não é caso isolado.
Como fazer isso se o grupo Globo joga contra a soberania brasileira e historicamente sempre esteve e está alinhado ao imperialismo estadunidense?
Esta entrevista serviu ainda para que Flávio tivesse palanque para tentar desmentir que é contra o PIX e apoiar todo o kit neoliberal tão apreciado pela família Marinho.
Ele criticou o crescimento da dívida pública e a elevada taxa de juros, atribuindo-os ao governo Lula.
Outra vez, os entrevistadores dispunham de dados para contestá-lo.
A dívida pública brasileira, como aponta o FMI, organismo insuspeito de conivência com o governo Lula, ocupa a 33ª posição no mundo. Acima do Brasil ,estão países como Japão, França, Reino Unido, China e os Estados Unidos. E nenhum deles está prestes ao colapso financeiro como alardeado pelo candidato do PL.
A dupla de jornalistas fingiu que não viu.
O mesmo pode ser dito em relação à alta das taxas de juros, herdada do governo Bolsonaro e que Lula vem tentando reduzir a todo custo. O Banco Central, tornado independente no governo do ex-capitão, impede que isso aconteça por pressão do mercado financeiro, tão querido e elogiado pela família Bolsonaro.
Ao contrário do que seria de esperar, também esta entrevista deu espaço mínimo para as chamadas questões sociais. Flávio não respondeu se o ajuste fiscal que pretende fazer, caso eleito, passaria pelo congelamento do salário mínimo.
Também não respondeu como iria baixar os juros, recitando o mantra de sempre: combater a corrupção, reduzir o número de ministérios e o de funcionários comissariados.
Sobre meio ambiente, disse que não é negacionista mesmo não admitindo que esteja acontecendo mudança climáticas. Numa prova de absoluta ignorância sobre o tema, pretende combater estas mudanças com saneamento básico.
Se a dupla Renata e Tralli tivesse alguma preocupação em fazer uma entrevista minimamente séria, bastaria lembrar ao senador Flávio que a redução do número de órgãos e ministerios foi feita por seu pai e resultou na quase destruição do estado brasileiro, com gravíssimos prejuízos para a população.
Salta aos olhos, por outro lado, o tema dos mais de 700 mil mortos pela pandemia de covid-19 não ter sido sequer tocado nesta entrevista.
O fato de Jair Bolsonaro não ter comprado vacinas no momento adequado e de adotar posição negacionista transformou o Brasil no lamentável vice recordista mundial em mortes por covid19.
Como profissionais bem informados, Renata e Tralli sabem disso e teriam o dever de questionar o filho de Bolsonaro sobre situação tão terrível.
Todas estas passadas de pano para Flávio Bolsonaro não podem ser consideradas erros ou imperícia dos entrevistadores.
A avaliação que faço é de que tudo isso integra uma jogada do grupo Globo para livrar a cara do candidato do PL dos crimes que ele e o pai cometeram com vistas a uma anistia.
Serviu igualmente para que o candidato disponha de farto material para utilizar nas redes sociais, mostrando que enfrentou e venceu a “comunista” Globo. Óbvio que de comum acordo com a própria.
Como se isso não bastasse, chamo atenção para dois outros fatos nesta entrevista, marcada por sinalizações e recados não percebidos por todos.
Quase no final, Flávio Bolsonaro, anunciou, meio que do nada, que seu ministro da Saúde será Cláudio Lottenberg, dizendo que Renata e Tralli sabem que é. Se sabem ou não, não vem ao caso, mas era obrigação da dupla pedir que ele informasse os telespectadores.
Não foi feito.
Para quem não sabe, Lottenberg é o atual presidente da Confederação Israelista do Brasil (Conib), entidade que esteve na linha de frente no combate aos governos petistas e na defesa do governo sionista de Israel.
O anúncio deste ministro antes mesmo de ganhar as eleições, teve um duplo objetivo: buscar o voto da rica e poderosa comunidade israelita brasileira e o apoio do governo israelense para a sua candidatura. Inclui-se no pacote a expertise do estado sionista em redes sociais e ataques por drones e a atuação do seu serviço secreto, o Mossad, contra adversários.
A exemplo de Trump, o primeiro-ministro de Israel, o genocida Benjamin Netanyahu, mais de uma vez já disse não gostar de Lula e que espera que ele não seja reeleito.
Por último e, não menos importante, aquelas duas palavras – Medina e Elmo – escritas a caneta na palma de mão de Flávio não eram parte de uma “colinha”. Ao que tudo indica, são mensagens cifradas que pretendeu enviar.
Medina significa muitas coisas, dentre elas o nome de uma cidade da Arábia Saudita, país com o qual os Bolsonaros mantem fortes vinculos de amizade e do qual Jair recebeu várias joias de enorme valor como presente.
Já elmo, mesmo também possuindo várias significações, denomina um capacete utilizado por guerreiros na Idade Média, para se prevenirem de golpes dos adversários. Aparece com frequência na Bíblia e nos cultos evangélicos.
Como os maçons, Flávio enviou mensagens cifradas. Terão sido só estas?
Seja como for, engana-se quem acredita que Renata e Tralli confrontaram Flávio Bolsonaro e o filho do Jair saiu-se mal desta entrevista.
A jogada da Globo é muito mais complexa e o candidato do PL continua sendo a opção por ela preferida nestas eleições. Tanto que foi cuidadosamente preservado nesta pseudo-entrevista.
Num ato falho, o próprio Flávio disse isso, ao afirmar que seu papel ali era “conscientizar” as pessoas.
Não me consta que o objetivo de uma entrevista com candidatos à presidência da República seja conscientizar quem quer que seja. O objetivo deve ser informar sobre o candidato, suas propostas e programa.
E isso passou quilômetros luz de acontecer.
*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo




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