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Diário da Resistência


A evangélica que pediu perdão público por voto em Bolsonaro: “A ‘gota d’água’ foi quando ele começou a imitar alguém com covid e falta de ar”
Jacqueline Rolim, que é pastora da Assembleia de Deus, votou no presidente em 2018. Durante a pandemia, se arrependeu tanto da escolha que fez que chegou a postar um vídeo nas redes sociais pedindo perdão. Foto: BBC Brasil
Política

A evangélica que pediu perdão público por voto em Bolsonaro: “A ‘gota d’água’ foi quando ele começou a imitar alguém com covid e falta de ar”


16/05/2022 - 21h33

‘Fez piada com falta de ar’: a evangélica que pediu perdão público por voto em Bolsonaro

Por Nathalia Passarinho – @npassarinho, da BBC News Brasil em Londres

“Venho publicamente pedir perdão pelo meu voto equivocado para presidente da República do Brasil”.

Essa frase foi dita pela pastora Jacqueline Rolim, da Assembleia de Deus, em Brasília, em vídeo postado nas redes sociais. Com as mãos unidas em formato de prece, ela convida outros evangélicos a participarem de um protesto contra Jair Bolsonaro.

Eleitora do presidente em 2018, Jacqueline diz que a “gota d’água” para que se arrependesse a ponto de pedir perdão publicamente foi o dia em que Bolsonaro imitou pessoas com covid com falta de ar.

“Mudei de opinião durante a pandemia, quando ele começou a imitar alguém que estivesse morrendo sem ar. Ele não comprava vacina e ficava dizendo: ‘é só uma gripezinha e ficava imitando alguém arfando, tentando respirar'”, lembra.

“Eu tenho bronquite asmática. Eu sei o que é ficar sem ar. Isso me doeu e eu entendi que ele estava agindo com impiedade, como um anti-cristão totalmente.”

O vídeo do pedido de perdão, publicado em setembro do ano passado no Instagram e Facebook, chocou parentes e colegas de Jacqueline na igreja.

Ela chegou a ser excluída do convívio de alguns pastores. Mas acabou conhecendo e se aproximando de outras evangélicas que, como ela, se decepcionaram com Bolsonaro.

“Minha irmã me chamou de comunista no WhatsApp, ficou escandalizada. Pessoas da igreja me abandonaram e me rejeitaram. Até pessoas que eu conheço desde criança, que são pastoras, deixaram de me seguir nas redes sociais e não têm mais contato comigo, não querem conversa”, contou ela em entrevista à BBC News Brasil.

“Mas eu também conheci um grupo de mulheres evangélicas negras que pensam como eu e que querem mudar o que está acontecendo com o Brasil.”

O poder do voto das mulheres

Pesquisas de intenção de voto mostram que homens evangélicos continuam com Bolsonaro, mas as mulheres estão praticamente divididas entre Lula e o presidente. Foto: BBC Brasil

Em 2018, quase 70% dos evangélicos votaram em Jair Bolsonaro — apoio maciço que ajudou a alimentar a ideia de que seriam um grupo quase homogêneo, que vota em bloco.

Naquele ano, os evangélicos definiram o resultado, dando 11 milhões de votos a mais a Bolsonaro na disputa com o candidato do PT, Fernando Haddad.

Mas, neste ano, pesquisas de intenção de voto mostram que a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa tem provocado rachas nesse eleitorado — homens evangélicos continuam com Bolsonaro, mas as mulheres estão praticamente divididas entre os dois candidatos, conforme as últimas pesquisas de opinião.

E, segundo especialistas, são as evangélicas, que em sua maioria são de baixa renda, pretas e pardas, que poderão definir quem vai presidir o Brasil a partir de 2023. Afinal, elas são quase 60% dos evangélicos no Brasil.

“Eu não tenho dúvida de que as evangélicas negras vão decidir essas eleições”, diz a antropóloga Jacqueline Teixeira, professora da Universidade de São Paulo e autora de livros e artigos sobre crescimento evangélico no Brasil.

Casada e mãe de quatro filhos, Jacqueline está entre as 31% de mulheres que migraram o voto de Bolsonaro para Lula, conforme a pesquisa de opinião Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (11/05).

“Hoje eu voto no Lula porque é o único dos candidatos que se apresentam que correspondem às necessidades do povo trabalhador, do pobre, e que tem uma agenda pacificadora”, explica a pastora.

Mas qual foi a mensagem de Bolsonaro que atraiu o voto de Jacqueline em 2018?

De Lula para Bolsonaro e de volta a Lula

Jacqueline Rolin conta que foi excluída do convívio de alguns pastores e parentes após declarar voto em Lula e criticar publicamente Bolsonaro. Foto: BBC Brasil

A pastora de Brasília conta que votou em Lula na eleição de 2002, mas se frustrou com o petista quando ele se aliou a partidos de centro-direita para governar, como o PMDB e o PP.

“Quando o Lula foi eleito em 2002, pela primeira vez, foi uma festa. Só que logo ele começou a negociar com o pessoal da direita”, diz.

“Quem gostava das ideias que ele pregava antes, como os trabalhadores, ficou decepcionado. Foi o meu caso. Eu fiquei muito decepcionada, eu me senti traída.”

Na eleição de 2018, Jacqueline votou em Marina Silva no primeiro turno. “Era uma mulher preta, evangélica, que tinha boas propostas para o país.”

No segundo turno, se viu obrigada a escolher entre o candidato do PT, Fernando Haddad, e Bolsonaro.

“A gente ficou entre a cruz e a espada. Eu não confiava no candidato petista. E eu não concordava com o Bolsonaro, mas também não o conhecia, porque quando me senti traída eu me alienei. Não quis mais saber de política, não queria me envolver mais”, conta.

Jacqueline, então, optou por Bolsonaro por ele se dizer cristão e falar constantemente em Deus.

“Escolhi ir lá sem compromisso, sem conhecimento. Eu pensei: ‘Vou arriscar. Não me importo mais. Ele está fazendo uso do nome de Deus, usando o versículo. Quem sabe ele faz alguma coisa por causa de princípios cristãos, né’.”

Na entrevista à BBC News Brasil, ela se emocionou algumas vezes ao falar do momento em que se arrependeu do voto em Bolsonaro.

“Jesus é amor. O meu compromisso é com o amor e eu vejo meus irmãos que dizem pregar o amor e que ainda estão com Bolsonaro. Eles ainda não perceberem que o governo é totalmente contrário à atitude de amor, de inclusão e de acolhimento às pessoas que não têm recursos.”





7 comentários

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Zé Maria

21 de maio de 2022 às 22h57

A Contrição é uma Virtude Humana.
Certamente, o Perdão será concedido,
ao confirmar 13 na Urna Eletrônica.

Responder

Henrique Martins

18 de maio de 2022 às 12h47

https://www.brasil247.com/brasil/nao-vejo-risco-nenhum-de-bolsonaro-nao-aceitar-derrota-diz-mourao

Deixa de hipocrisia Mourão. Se não és igual a ele estás se igualando.

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Martins

18 de maio de 2022 às 12h34

Sinto muito mas, esses bolsonaristas arrependidos eu não acredito. Bolsonaro está há séculos na politica, conhecemos a biografia dele. Foram mostrados videos antes da eleição onde ficou claro o que ele pensa. Nós avisamos e você não quis acreditar. Estamos nesta situação de desgraça graças ao voto de muitos evangélicos. Aprenderam a lição mesmo?

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José Josias da Silva

18 de maio de 2022 às 09h00

Bem-vinda de volta, Senhora Pastora Jacqueline Rolim. Deus te abençoe, ilumine e proteja sempre.

Responder

Zé Maria

18 de maio de 2022 às 00h45

IHU On Line Nº 538

“Grande Sertão: Veredas. Travessias”

“Travessia. Essa é a outra forma que Guimarães Rosa encontrou
de nos ensinar a escrever e dizer a palavra ‘Vida’.
A última palavra de sua obra ‘Grande Sertão: Veredas’ é que liga
o fio do tempo, o passado e o presente, de um Brasil, que tanto
antes como agora, é o país que poderia ter sido, mas nunca foi.

A ‘jagunçagem’, para usar um termo do autor, é uma forma política presente em muitas instâncias e nos joga diante de desafios e contradições enormes.
Para tratar de literatura e do Brasil atual, oito especialistas se debruçam sobre a obra de Guimarães Rosa.

1) Faustino Teixeira, professor e pesquisador
do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Religião da Universidade Federal de Juiz
de Fora – UFJF, faz uma apresentação da obra
em perspectiva com vários autores e leituras de
Guimarães Rosa.

2) Kathrin Rosenfield, professora nos programas
de pós-graduação em Letras e em Filosofia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS,
fala sobre o dilaceramento existencial brasileiro
em Grande sertão: veredas.
“Um terceiro alicerce para a tradição imaginária
brasileira seria a recuperação artística da
musicalidade das falas regionais e das suas
saborosas metáforas concretas.”

3) Willi Bolle, professor titular de Literatura na
Universidade de São Paulo – USP, lembra que
“enquanto Gilberto Freyre usa o símbolo de um
entrelaçamento harmonioso ( ‘&’ ) entre senhores
‘&’ escravos, Guimarães Rosa, através dos dois
pontos ( : ) acentua o antagonismo entre
os donos de territórios e casas ‘grandes’ e os
que moram em casebres nas ‘veredas’”.

4) Marcia Marques de Morais, professora
da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais – PUC Minas, faz uma leitura da obra
de Guimarães Rosa em chave psicanalítica.
“Guimarães Rosa trata a linguagem, essa sim,
a verdadeira protagonista de sua obra. Esse trato,
para além de ser um traço lúdico a apresentar
desafios para o leitor, piscadelas do autor em
direção a seu leitor, é, sem dúvida, propiciador
do enlace entre literatura e psicanálise.”

5) Eduardo de Faria Coutinho, um dos mais
renomados acadêmicos em Literatura Comparada
e professor titular da disciplina na Universidade
Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, escreve sobre o
convite ao pensar ético que Guimarães Rosa
convoca.
“Sufocado por um cotidiano calcado na continuidade,
que se expressa pela repetição mecânica de atos e
gestos, o homem, e em particular o adulto comum,
não percebe a automatização a que se sujeita.”

6) Adair de Aguiar Neitzel, professora titular da
Universidade do Vale do Itajaí – Univali, discute as
mulheres rosianas.
“É pelas mãos de Diadorim que Riobaldo passa
do estado físico para o estético e deste para o Moral.
Mas é uma relação marcada pela ambiguidade,
contradição, angústia de estar se envolvendo com
um homem.
Essa tensão que se estabelece entre ambos,
por conta de uma paixão impossível na jagunçagem,
torna esse amor uma neblina.”

7) Eduardo Guerreiro Brito Losso, professor
associado de Teoria Literária do Programa de
Pós-Graduação em Ciência da Literatura da
UFRJ, relaciona a literatura de Guimarães Rosa
à mística.

8) Terezinha Maria Scher Pereira, professora da
UFJF, relata a multiplicidade de Guimarães Rosa.

Este numero da revista contou com a importante e fundamental
parceria do Prof. Dr. Faustino Teixeira, a quem agradecemos a
generosa contribuição.

A presente edição ainda conta com o artigo de João Ladeira,
em que analisa o filme “Estou me guardando para quando o
carnaval chegar” (2019, de Marcelo Gomes);
e a entrevista intitulada “A trama conceitual antimetafísica de
Nietzsche”, concedida pelo professor da Universidade Estadual
do Oeste do Paraná – Unioeste, Wilson Antonio Frezzatti Jr.

Íntegra:

http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao538.pdf

Responder

Henrique martins

17 de maio de 2022 às 14h48

https://noticias.r7.com/brasilia/general-santos-cruz-e-internado-em-brasilia-apos-principio-de-infarto-17052022

Viche. Nao sei porque cargas d’água me lembrei do Bebiano.

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John Jahnes

17 de maio de 2022 às 00h35

Antes tarde do que nunca,. Ela seguiu o exemplo de DIMAS, o tal bom ladrão que jesus levou junto com ele. Piores são os que ainda estão como o MAU LADRÃO, Vão todos para o inferno juntos com o Bolsonaro e a família dele.

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