Nelice Pompeu: Mais que nunca precisamos votar em mulheres que defendem outras mulheres

Tempo de leitura: 3 min

Por Nelice Pompeu*

A democracia brasileira ainda não tem o rosto das mulheres.

Somos mais da metade da população, cerca de 52% do eleitorado e, mesmo assim, ocupamos apenas aproximadamente 17% cadeiras na Câmara dos Deputados e em torno de 13%no Senado.

A maioria numérica não se converteu em maioria política. O direito ao voto foi apenas o primeiro passo. Representatividade real, respeito e poder de decisão seguem como desafios urgentes.

Há 94 anos, mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto depois de décadas de mobilização, enfrentando humilhações públicas e o rótulo de incapazes.

Nada foi concedido de forma generosa. Foi arrancado na luta. Entre essas pioneiras, é impossível não reverenciar Almerinda Farias Gama, mulher negra, advogada, sindicalista, que desafiou o racismo e o machismo de seu tempo para afirmar que mulheres tinham, sim, voz e pensamento político.

Desde então, cada avanço foi fruto de pressão e coragem coletiva.

A igualdade formal entre homens e mulheres só foi reconhecida na Constituição Federal de 1988.

A proteção contra a violência doméstica ganhou força com a Lei Maria da Penha.

O assassinato de mulheres por razão de gênero passou a ser tipificado com a Lei do Feminicídio. A Lei 14.192 enfrentou a violência política que tenta nos expulsar dos espaços de decisão. Nada disso caiu do céu. Cada linha dessas leis carrega a marca de quem marchou, denunciou, organizou e resistiu.

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Mas também é preciso dizer o que incomoda: existe hipocrisia.

Há quem veste o discurso feminista em época de eleição e o abandona assim que as urnas se fecham.

Há quem use a pauta das mulheres como vitrine, mas não sustenta na prática o compromisso com creches, combate à violência, igualdade salarial e direitos trabalhistas. Feminismo não é slogan. É responsabilidade pública.

Quando falamos de violência política, falamos de vidas interrompidas.

O assassinato de Marielle Franco marcou profundamente a democracia brasileira. Mulher negra, periférica, defensora dos direitos humanos, ela simbolizava a força de quem ocupa o espaço institucional sem pedir licença. Seu legado segue vivo nas mulheres que decidiram não recuar.

Nesta terça-feira, 24, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal começou a analisar o caso envolvendo os mandantes do crime.

Esse julgamento ultrapassa a responsabilização penal. Ele reafirma que a violência política não pode ser naturalizada. Justiça para Marielle é também defesa da democracia e da presença das mulheres na política.

Enquanto isso, o cenário político nos impõe alertas graves.

“Não tem como não ser de direita”, afirmou Bruno Fernandes das Dores de Souza ao anunciar a intenção de se candidatar como vereador em Ribeirão das Neves, Minas Gerais.

Ele foi condenado a 17 anos de prisão pelo sequestro e assassinato de Eliza Samudio.

O fato de alguém com esse histórico buscar espaço na política nos obriga a reafirmar algo essencial: há quem vota contra mulheres. Há quem normaliza a violência. Há quem transforma agressores em candidatos.

Há mais de nove décadas conquistamos o direito de votar. E até hoje precisamos lembrar que o voto também pode ser instrumento de proteção ou de ameaça.

Não vote em agressores.
Não vote em quem processa mulheres por denunciarem o machismo.
Não vote em assediadores.
Não vote em assassinos.
Não vote em quem vota contra nossos direitos.
Não vote em quem pratica violência política de gênero.

Representatividade sem compromisso não transforma estruturas. O voto isolado da desembargadora Kárin Emmerich em defesa da proteção de uma menina de 12 anos mostrou como é essencial ter mulheres em posições de poder que não relativizem direitos.

Também no mundo do trabalho a desigualdade persiste. A escala 6×1, por exemplo, pesa sobre mulheres que acumulam jornadas dentro e fora de casa. Discutir melhores condições de trabalho é discutir saúde, tempo de cuidado e qualidade de vida. Política pública atravessa o cotidiano das mulheres.

Não aceitaremos retrocessos.

Não aceitaremos que direitos conquistados com tanto esforço sejam enfraquecidos.

Não aceitaremos que a memória das que lutaram antes de nós seja usada apenas como discurso de ocasião.

Nossa geração tem uma tarefa clara: honrar o passado e garantir futuro. Transformar maioria social em força política concreta.

Nas urnas, não cabe ingenuidade. Não basta ser mulher. É preciso compromisso real com a vida das mulheres.

Votemos em mulheres que defendam verdadeiramente outras mulheres.

Mulherar a política é questão de sobrevivência.

Mulher eleita significa mulher viva.

Significa leis que nos protegem.

Significa orçamento para políticas públicas.

Significa transformar poder em cuidado, representatividade em direitos e discurso em prática.

*Nelice Pompeu é professora, promotora legal popular e integrante do Movimento Escolas em Luta

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Comentários

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Zé Maria

Sim, pressupondo que também defende
toda a Classe Trabalhadora Brasileira
e o Estado Democrático de Direito, não @s
Empresári@s Neoliberais e Neofascistas.

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