Antonio de Azevedo: O próximo conflito nos EUA começará no Colorado. Será a Guerra da Água

Tempo de leitura: 4 min
A seca no Rio Colorado, na região Oeste dos Estados

Por Antonio Sérgio Neves de Azevedo*

Enquanto Washington mobiliza bilhões para conflitos externos, a crise hídrica interna expõe falhas de investimento e os limites de um modelo que insiste em ignorar a água como ativo estratégico.

O dilema entre guerra e água revela, em última instância, uma escolha civilizatória.

Em janeiro de 2026, o Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) publicou o relatório Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era (“Falência Hídrica Global: Vivendo Além dos Limites Hidrológicos na Era Pós-Crise”), no qual reconhece que o mundo já entrou em uma fase estrutural de esgotamento dos sistemas hídricos.

O conceito introduzido pelo documento é decisivo. Não se trata mais de uma crise passageira, mas de um estado em que os sistemas de água deixam de retornar às suas linhas de base históricas.

Em termos simples, a humanidade deixou de viver dos “juros” do ciclo hidrológico e passou a consumir o “principal”, isto é, os estoques acumulados ao longo de séculos.

No oeste dos Estados Unidos, esse fenômeno é visível. O Rio Colorado, essencial para cerca de 40 milhões de pessoas, opera sob estresse permanente. A redução da cobertura de neve, o aumento da evaporação e a demanda crescente transformaram um sistema historicamente confiável em um recurso cada vez mais incerto.

Os fluxos reais permanecem consistentemente abaixo das alocações pactuadas entre os sete estados da bacia, enquanto os reservatórios, como os lagos Mead e Powell, aproximam-se de mínimas históricas.

Em paralelo, a exploração intensiva de águas subterrâneas compromete reservas que não se regeneram em escala humana. A disputa entre Arizona, Nevada, Califórnia e Colorado pelo que resta do rio não é metáfora, é a materialização contemporânea de conflitos por recursos vitais.

Nesse cenário, a água deixou de ser apenas um insumo ambiental para se tornar uma variável crítica na precificação de risco.

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Sua escassez já influencia custos de capital, decisões de investimento e a estabilidade de cadeias produtivas. A crise hídrica deixou de ocupar a periferia e passou a integrar o núcleo da economia política contemporânea.

A comparação com os gastos militares divulgados pela mídia escrita e falada é reveladora.

Os Estados Unidos destinaram cerca de 188 bilhões de dólares ao conflito na Ucrânia, com dezenas de bilhões em assistência militar direta, além de novos aportes no Oriente Médio.

Em contraste, os investimentos em infraestrutura hídrica permanecem insuficientes diante da magnitude do problema, estima-se uma defasagem de 309 bilhões de dólares apenas no setor de água potável, com projeção de atingir 620 bilhões até 2043.

O próprio relatório da ONU-INWEH indica que os danos globais causados por secas já alcançam cerca de 307 bilhões de dólares anuais, valor que rivaliza, por si só, com o esforço de guerra na Ucrânia.

A assimetria expõe a diferença entre a velocidade de resposta a ameaças externas e a lentidão diante de riscos internos estruturais.

Os desafios do século XXI — escassez de água, eventos climáticos extremos e degradação ambiental — não apenas coexistem com riscos geopolíticos tradicionais, como tendem a amplificá-los.

Ignorar esse vetor é subestimar uma ameaça silenciosa, porém sistêmica. Além disso, a falência hídrica não se distribui de forma homogênea, seus custos recaem desproporcionalmente sobre populações vulneráveis, enquanto os benefícios do uso intensivo concentram-se em setores específicos.

Nos Estados Unidos, isso se traduz em disparidades regionais, aumento de tarifas e maior exposição de comunidades periféricas a riscos sanitários e ambientais.

O custo de oportunidade dessa escolha é elevado. Investimentos em modernização de redes, redução de perdas, reuso, proteção de mananciais e adaptação climática exigem planejamento de longo prazo, exatamente o tipo de agenda que tende a ser postergado.

Nesse contexto, é fundamental avançar no diagnóstico: a privatização da água não se apresenta como solução e pode, ao contrário, agravar o problema estrutural.

Isso ocorre por três razões centrais.

Primeiro, há uma incompatibilidade entre a lógica de mercado e a natureza da água como bem essencial, insubstituível e de demanda inelástica. Submetida à maximização de lucro, a tendência é a elevação tarifária e a priorização de áreas mais rentáveis, em detrimento da universalização do acesso.

Segundo, a privatização não resolve o principal gargalo do setor, o investimento de longo prazo em infraestrutura resiliente. Operadores privados frequentemente dependem de garantias públicas, subsídios indiretos ou marcos regulatórios protetivos, socializando riscos e privatizando ganhos.

Terceiro, a financeirização da água introduz um vetor adicional de instabilidade, ao dissociar valor de uso e valor de troca, incentivando práticas especulativas e ampliando a volatilidade de preços, o que, em contextos de escassez, pode significar exclusão social e insegurança econômica.

Isso não implica negar a importância de ganhos de eficiência, inovação tecnológica ou modelos de gestão mais sofisticados. Implica reconhecer que tais avanços dependem de governança pública presente, regulação eficaz e coordenação de longo prazo, elementos que não podem ser substituídos pela lógica de mercado.

A crise hídrica americana não é isolada. Ela expressa a tensão entre dois modelos de ação estatal, a resposta imediata a conflitos e a antecipação de riscos estruturais. Persistir em uma concepção restrita de segurança, centrada no poder militar, pode significar negligenciar a base material do desenvolvimento.

O Brasil oferece um contraponto relevante. Detentor do Aquífero Guarani e da maior bacia hidrográfica do mundo, o país não está imune a essa lógica.

A pressão sobre o Cerrado, o desmatamento na Amazônia e o avanço do agronegócio sobre áreas de recarga hídrica demonstram que a abundância relativa não garante gestão responsável. O que acontece no Colorado é um espelho possível, não uma realidade distante.

Dito isso, a água deixa de ser apenas um insumo ambiental e passa a ser reconhecida como um bem jurídico fundamental, diretamente vinculado ao direito à vida, à saúde e à dignidade humana. Sua escassez impacta não apenas a economia, mas a própria legitimidade das estruturas estatais, ao comprometer a prestação de serviços essenciais.

Recolocar a água no centro da agenda estratégica não é apenas uma inflexão ambiental, é uma exigência imposta pela realidade material.

Ao declarar a entrada na era da “falência hídrica global”, o relatório da ONU-INWEH não apresenta um alerta hipotético, mas reconhece uma ruptura concreta: os sistemas hídricos já não conseguem se recompor dentro dos ciclos naturais que sustentaram o desenvolvimento econômico até aqui.

A segurança hídrica deixa de ser tema setorial e passa a constituir o núcleo da estabilidade estatal.

Postergar investimentos estruturais em água enquanto se multiplicam despesas militares não é apenas uma assimetria orçamentária, é uma desconexão com o principal vetor de risco do nosso tempo.

O século XXI não será definido apenas por disputas geopolíticas tradicionais, mas pela capacidade dos Estados de administrar seus limites ecológicos. Nesse novo cenário, a água deixa de ser pano de fundo e assume o papel de variável estruturante do poder.

Ignorar esse diagnóstico não é apenas um erro de política pública. É recusar evidências. E, como toda recusa à realidade, cobra um preço.

*Antonio Sérgio Neves de Azevedo, doutorando em Direito, Curitiba-PR.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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