VIOMUNDO

Diário da Resistência


Entrevistas

Gilberto Maringoni: Gestão “incompetente” pode derrotar Chávez em 2012


04/08/2011 - 01h07

por Luiz Carlos Azenha

Gilberto Maringoni de Oliveira é de Bauru, Cidade Sem Limites. Fomos colegas de Grupo Escolar Rodrigues de Abreu. A casa dele tinha um pomar maravilhoso, mas era mais fácil apanhar jabuticabas e mangas diretamente na casa de minha vizinha, a Mulher do Bolo, que à tarde servia café com bolo de fubá aos visitantes. Um dia, no grupo escolar, nós nos desentendemos. Uma briga foi marcada. Dada a superioridade física do Gilberto, na hora agá eu fui substituído na briga por meu irmão, José Carlos. Sopapos foram trocados diante do SESI, para algazarra geral da molecada. Não houve nocaute.

O confronto, graças a Deus, não afetou o traço, nem a capacidade intelectual do Maringoni. Como jogador de polo aquático no Bauru Tênis Clube, ele foi um excelente cartunista. Voltaríamos a nos encontrar muito mais tarde, já em São Paulo, ele cursando a FAU e eu a ECA, respectivamente os cursos de arquitetura e jornalismo da Universidade de São Paulo.

Hoje, dentre outros atributos, o Maringoni — que além da formação em arquitetura é doutor em História e jornalista — é um dos melhores analistas brasileiros da Venezuela, país sobre o qual escreveu o essencial “A Venezuela que se inventa“.

Recorri ao amigo para tentar entender os apelos por “unidade” que Hugo Chávez andou fazendo, depois que recebeu o diagnóstico de câncer em Cuba. Seriam os apelos tentativas de evitar disputas internas no Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), o principal partido de sustentação ao governo?

Maringoni acha que o objetivo de Chávez é outro. Ao falar em unidade, faz um aceno a setores da classe média e da classe média alta, para tentar ampliar, ainda que marginalmente, o apelo eleitoral da coalizão governista em ano pré-eleitoral.

Sobre o câncer, Maringoni diz que o presidente venezuelano já politizou o assunto, em aparição na sacada do Palácio Miraflores, quando convocou a multidão a, por assim dizer, “derrotar” a doença.

Depois de ser atingida em cheio pela crise financeira deflagrada em 2008, a Venezuela se recupera ancorada nos preços internacionais do petróleo.

Mas isso, na opinião de Maringoni, não basta. O governo chavista tem sido “marcadamente incompetente”, nas palavras de Maringoni, para lidar com questões que afetam o dia-a-dia dos venezuelanos, como a segurança pública e o abastecimento.

Ao mesmo tempo em que se diz surpreso com as pesquisas que colocam a popularidade de Chávez, depois de 13 anos no poder, perto dos 50% — e enfatizando que Chávez “não é alguém que pode ser derrotado com facilidade” — Maringoni prevê uma disputa acirrada nas eleições presidenciais de 2012.

Mas não se pode descartar o imponderável. Não existe a Dilma de Chávez. Se em Cuba Raul Castro tem a legitimitade garantida por ter sido um dos principais revolucionários — ao lado do irmão Fidel, de Che Guevara e Camilo Cienfuegos –, na Venezuela nenhum dos colegas de Chávez no Movimiento Bolivariano Revolucionário 200 (o MBR200), com o qual o tenente-coronel tentou o golpe em 1992, sobreviveu como força política.

O irmão de Chávez, Adan — governador do estado de Barinas — não tem o mesmo carisma ou apelo popular  e o vice-presidente é um jovem na casa dos 30 anos. Na ausência de Chávez, portanto, a Venezuela mergulhará em um tempo de profunda turbulência política.

Para ouvir a entrevista, clique abaixo:

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16 comentários

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Eduardo Alexandre

09 de agosto de 2011 às 10h46

Aos críticos de Chaves: Compreendo que o chavismo tem graves deficiências no que tange a condução econômica que não se movimentou do sentido de retirara seu país da total dependênciadas exportações do petróleo e que as questões de abastecimento e segurança ficam ao saor da flutuaçãodos preços internacionais desta commoditie, mas que, por outro lado é inegável, que sua popularidade é fruto do fato de apenas nos últimos12 anos a população venezuelana poder desfrutar dos dividendos que esta sua riqueza natural pode proporcionar, é irrefutável. Então a questão é outra: Todas as alternativas a Chaves são pertencentes àquelas forças políticas que desfrutavam com exclusividade dos lucros do petróleo antes da chegada de Chaves ao poder, mantendo a grande maioria dos venezuelanos na mais absurda miséria. O Petróleo de lá é dos venezuelanos tanto quanto a população que nasce naquele país. Então é natural que esta mesma população tenha acesso aos lucres deste sua riqueza. Falar mal de Chaves com a virulência que noto em diversas observações aqui só pode ser pura maldade e a mais completa falta de humanidade.

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wilson

04 de agosto de 2011 às 12h02

Depois de tudo que Chaves fez ,p/ resgatar a dignidade do povo Venezuelano,é muito simplório e inconsistente analisar dessa forma.Governar bem não significa não ter crises.Quem enfrentou um boicote de 90 dias na ppal atividade do pais(Petróleo) não se deixará abater por crise qualquer.Na Venezuela o Povo esta com as idéias de Chaves e não apenas com Chaves.

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Fernando

04 de agosto de 2011 às 11h03

No Brasil o povo compra, mas não tem saúde nem educação.

Na Venezuela o povo não compra, mas tem saúde e educação.

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Filipe Rodrigues

04 de agosto de 2011 às 09h58

A vantagem que Chávez tem sobre Lula é que ele não depende do fisiologismo no Congresso Venezuelano.
Nas últimas eleições o partido chavista (PSUV) teve 97 cadeiras entre 165, enquanto o bloco de oposição formado por 10 partidos teve 65.

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    Lucas

    04 de agosto de 2011 às 18h14

    SIm, mas o partido Chavista também é uma coalizão, com vários interesses diferentes. O Chávez é fator de união, sem ele, é bem possível que o partido se desfaça.

Zé Fake

04 de agosto de 2011 às 09h29

Incompetente ou não, acho que qualquer alternativa de direita vai ser muito, muito pior para o povo venezuelano.

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Marcos Frota

04 de agosto de 2011 às 09h20

A incompetência e a falta de capacidade de trabalho é a marca registrada de todo governo esquerdista..

No Brasil eles são esquerdistas de meia pataca completamente sem moral, não podem ser chamados de esquerdistas, são conservadores que refluem a renda do trabalho para os rentistas do capital, desmoralizados completamente.

Mas Chavez mostra sua face esquerdopata com a incompetência generalizada.

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    augusto

    04 de agosto de 2011 às 11h01

    eu sei que é duro,marcos. Duro aceitar que um esquerdista nordestino e ignorante lhes deu um baile e um ole por oito anos. Que humalla venceu contra um centrista incompetente numa economia em crescimento. Que um indio boliviano mudou o orçamento do seu pauperrimo pais em dois anos., multiplicando-o por 2. e uma cConstituiçao admiravel,extraordinaria, que nem pais europeu tem! que marta suplicy foi incomparavelmente maiseficiente prefeita que kassaboso, tendo este um
    orçamento 2.5 vezes maior (via politica de Lula, nao de serra).
    E que ja é do dominio dos proverbios em todo o mundo que, quem conserta o desastre nacional de qualuer administraçao liberaloide é a esquerda. eh que voce acredita muito no xoque de jestao.
    voce precisa de desenho?

    Nelson

    04 de agosto de 2011 às 20h31

    Será que o Frota é admirador da competência do Carlos Andrés Peres, do Pedro Carmona, o Breve, e de outros que durante décadas e décadas deixaram 90% do povo de um país riquíssimo como é a Venezuela à margem dos frutos da riqueza do país?

ZePovinho

04 de agosto de 2011 às 01h43

Chávez é o Vargas da Venezuela.Nós tivemos o nosso processo,nesse caminho,iniciado em 1930.Talvez aconteça algo parecido com a Venezuela,com um retrocesso para uma retomada depois.
O povo quer demais.Quer ficar rico;não quer cidadania.

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    Marcos Frota

    04 de agosto de 2011 às 11h03

    Mais respeito rapaz.. respeite um homem da estatura de Vargas.. comparando Vargar com esse traste tiranete é mais que uma ofensa… chega a ser uma demonstração de falta de sanidade.

    ZePovinho

    04 de agosto de 2011 às 14h12

    Olha aí,Seu Carmem,o que acho de mais esse comentário seu:

    [youtube yrg1MUVwTZ0 http://www.youtube.com/watch?v=yrg1MUVwTZ0 youtube]

    Nelson

    04 de agosto de 2011 às 21h00

    Meu caro Frota. Ao chamar o Chávez de tiranete, parece que tu esqueces que o Getúlio foi o chefe de uma ditadura aqui em nosso país, de 1937 a 1945.
    E o Chávez, todos sabemos, venceu três eleições para presidente e vários plebiscitos. É preciso destacar que, como "ditador furibundo", o Chávez respeitou a decisão do povo no plebiscito em que foi derrotado. Parece que não se fazem mais ditadores como antigamente, né Frota?
    Em tempo. Possivelmente, se Getúlio Vargas não existisse, se não tivesse havido a chamada Era Vargas, o Brasil não seria nem sombra do que é hoje, mesmo com todos os problemas que temos. A Era Vargas foi fundamental para o país dar um salto decisivo para seu futuro.
    Não à toa, FHC, o Farol de Alexandria, que veio para destruir 60 anos de esforço do povo brasileiro para construir um país melhor, passou seus oito tristes anos de presidência a desancar a Era Vargas e a acusá-la de ser a geradora de todos os males de que padecemos.
    Como não tinha nem 1% do "peito" e da coragem de Vargas, FHC resolveu fazer um governo de impotentes, de "broxas", pregando que o Brasil precisava aceitar ser apenas coadjuvante na ordem internacional.

    Nelson

    04 de agosto de 2011 às 20h39

    Sem dúvida, pode acontecer isso, Zé. Na verdade, ao olhar para o tamanho do poder ao qual Chávez se opõe, eu chego a pensar que é quase um milagre ele ainda estar no governo, que ele já está na "hora extra".

João PR

04 de agosto de 2011 às 01h20

Espero, sinceramente, que os venezuelanos não entreguem o controle do país aos entreguistas que estavam antes de Chavez.

Chavez pode não ser um gênio, mas as notícias que vêm da Venezuela dão conta de que conseguiu pegar o dinheiro que aquele país ganha com petróleo e distiribui-lo melhor entre a população.

O que Chavez tem que entender é que seu governo tem que entrar em outra fase: crescimento, produção interna de alimentos, enfim, algo mais do que politicas sociais.

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    luiz pinheiro

    04 de agosto de 2011 às 08h30

    Concordo total, João PR, mas acrescentando: ele precisa enfrentar o problema da inflação, que corrói o poder aquisitivo, castra as possibilidades de crescimento diversificado da economia e agrava problemas sociais, resultando nessa sensação de "incompetência" a que se refere o Marangoni.


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