VIOMUNDO

Diário da Resistência


Entrevistas

Allen Frances: Um alerta a médicos e pais sobre o déficit de atenção


11/11/2011 - 01h12

Enviamos o e-mail como tantos outros, sem grandes expectativas já que o destinatário era um figurão. Psiquiatra e professor Emeritus da Unversidade Duke, o Dr. Allen Frances presidiu a força-tarefa que elaborou o DSM-IV, o manual americano de diagnósticos das doenças mentais, publicado em 1994. É uma verdadeira bíblia para os psiquiatras americanos. Com base no que está escrito ali, eles decidem os diagnósticos. Em geral, o tratamento envolve drogas. Agora, está em elaboração o DSM-V, que vai promover mudanças na versão anterior. Foi por conta das mudanças que escrevi o e-mail. Surpresa foi o telefonema, menos de vinte minutos depois de apertar a tecla “enviar”.

O Dr. Frances chamou de volta rapidamente e explicou: “É muito importante falar sobre isso, promover o debate”. Ele está preocupado. Acha que a versão anterior do DSM ampliou demais as definições de algumas doenças, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, permitindo incluir no diagnóstico pessoas que, segundo ele, jamais deveriam ter sido tratadas. Pior, diz ele, o DSM-V pode tornar o problema ainda maior. Por isso, o dr. Frances está encabeçando um abaixo-assinado pedindo mudanças e sugere que profissionais da área, do mundo inteiro, se unam para pressionar.

No Brasil, a grande maioria dos psiquiatras infantis adota os critérios americanos para diagnosticar e tratar o TDAH, apesar das grandes diferenças entre a nossa cultura e a dos Estados Unidos. Este transtorno é detectado por um conjunto de comportamentos da criança considerados desviantes. Diferentes do que se espera, na média. Mas me parece que o comportamento esperado das crianças, no Brasil, tem lá suas diferenças em relação ao que os pais e educadores esperam da criançada aqui nos Estados Unidos.  Neste fim de semana, do dia 11 ao dia 14, vai se realizar em São Paulo um seminário sobre “Medicalização da Educação”. Serei uma das palestrantes. Por conta disso, decidi fazer a entrevista com o Dr. Frances.

Viomundo – O sr. tem escrito, com frequência, a respeito do grande número de casos de TDAH nos Estados Unidos e no mundo. Por quê?

Allen Frances – Eu acho que já existe um aumento surpreendente e alarmante do número de diagnósticos de TDAH e se segue a isso o excesso de prescrições de estimulantes. Parte disso tem a ver com mudanças feitas no DSM-V mas é, principalmente, consequência da campanha de marketing agressiva da indústria farmacêutica, que começou três anos depois da publicação do DSM-V. E foi incentivada por dois motivos: trazer para o mercado novas drogas que ainda estavam sob patente e por isso mesmo poderiam ser vendidas por um preço alto. Em segundo lugar, nos Estados Unidos houve uma mudança na regulamentação que permitiu à indústria farmacêutica fazer propaganda direta ao consumidor, permitindo a eles colocar anúncios na TV, divulgar informação na internet, atingir pais, crianças, professores e médicos, especialmente clínicos gerais que foram encorajados a ver TDAH em comportamentos que antes não eram considerados parte do TDAH. Isso incentivou diagnósticos fáceis e um grande aumento no número de prescrições. O DSM-V promete piorar isso tudo ainda mais.

Viomundo – Como?

Allen Frances – Reduzindo os padrões para se chegar a um diagnóstico infantil e pior, mais temerário, tornando muito mais fácil chegar a um diagnóstico em adultos. E isso é um problema porque sintomas de distração e falta de concentração estão presentes na maior parte da população e também em todas as doenças psiquiátricas. De acordo com o critério sugerido pelo DSM-V, várias pessoas que têm problemas normais de concentração no dia-a-dia serão erroneamente diagnosticadas com TDAH. E também vai aumentar o número de diagnósticos equivocados de outras doenças psiquiátricas.

Viomundo – O Sr. pode dar exemplos mais concretos sobre as mudanças desses padrões?

Allen Frances – No caso do TDAH, a doença tem que aparecer antes dos sete anos de idade. Isso foi feito para limitar o diagnóstico a pessoas que tinham sintomas clássicos desde cedo e diferenciá-las das pessoas que mais tarde apresentam problemas de atenção, comuns na vida, ou que tenham outras doenças psiquiátricas. O DSM-V vai elevar o critério para 12 anos de idade, tornando tudo mais confuso e incluindo adolescentes e adultos. Será um grupo de TDAH que não fazia parte do DSM-IV. E também vai reduzir de 6 para 3 o número de critérios exigidos (nota do Viomundo:  o DSM-IV lista vários sintomas de TDAH e se o paciente apresentar 6 deles, é diagnosticado como portador. De acordo com o DSM-V, bastarão 3 itens da lista).

Será facílimo para adultos normais, eu e você, sermos diagnosticados com a doença e mais difícil para pessoas com outras doenças psiquiátricas que causam problemas de atenção e distração, serem diagnosticadas corretamente e não com TDAH. E existe outro problema: os remédios usados para tratar TDAH são muito populares para melhorar desempenho ou como recreação entre os “normais”. Nos Estados Unidos existe um enorme mercado secundário, ilegal, dessas drogas, compradas com prescrição médica e passadas adiante para serem vendidas. Então, não é apenas um problema para pessoas que serão erroneamente diagnosticadas, mas também é um problema de saúde pública incentivar o aumento de prescrições dessas drogas quando não é realmente necessário. E torná-las ainda mais disponíveis no mercado ilegal.

Viomundo – E me parece, também, que não existe um estudo científico conclusivo a respeito dos possíveis efeitos colaterais do uso de longo prazo desses remédios para os cérebros das crianças, que ainda estão se desenvolvendo.

Allen Frances – Acho que de forma geral, o que aconteceu nos últimos 15 anos foi uma abertura de mercado massiva de novos remédios para a indústria farmacêutica para o uso de antipsicóticos, antidepressivos e estimulantes para crianças e adolescentes. E isso foi feito como uma experiência de saúde pública e ainda não sabemos quais serão os efeitos. E foi feito com base em pouquíssima informação. Muitas das sugestões do DSM-V podem ser úteis nas mãos dos especialistas que as estão escrevendo. Que se especializam nessa área, têm bastante tempo para avaliar e que usarão os critérios com bastante cuidado. O que eles precisam entender é como tudo isso é traduzido para o mundo real da medicina, com médicos sobrecarregados. O que a indústria farmacêutica conseguiu fazer foi “educar” médicos, pais, professores e muitas vezes as próprias crianças para reinterpretar qualquer problema que estejam apresentando como TDAH. Muitas vezes isso pode ser útil, mas em muitos casos, foi bem além do limite. Existe um problema mundial, hoje, que é do excesso de diagnósticos e de medicalização da TDAH que o DSM-V vai agravar, especialmente no caso dos adultos.

Viomundo– O sr. não participou da redação do DSM-V, certo?

Allen Frances – Não participei até dois anos atrás, quando me alarmou o número de sugestões descuidadas e arriscadas que podem levar ao excesso de diagnósticos e tratamentos. Por isso, venho criticando nos últimos dois anos e meio.

Viomundo – O sr. presidiu a força-tarefa que elaborou o DSM-IV. Quando se deu conta que ele estava ampliando demais as chances de diagnóstico?

Allen Frances – Nós fomos muito cuidados e até conservadores na elaboração do DSM-IV. O que não antevimos suficientemente foi que as sugestões poderiam ser mal utilizadas na medicina geral. Fizemos pouquíssimas mudanças em relação ao sistema anterior. Mas o que acho que aconteceu foi que o material do livro foi promovido, pelas empresas farmacêuticas, de forma que os médicos não usaram os critérios como se sugeria, exatamente, e sim para fazer diagnósticos apressados, sem o rigor exigido pelos critérios estabelecidos. Então, acho que existem duas fases: uma quando foi escrito e outra de como foi usado. E acho que a melhor coisa que o DSM-V pode fazer agora é, ao invés de escancarar a cerca ainda mais, é limitar os critérios e incluir alertas sobre o excesso de diagnósticos. Mas o que o DSM-V está fazendo é tornar ainda mais fácil diagnosticar. E estou sugerindo justamente o oposto.

Viomundo – O sr. tem alguma esperança de que essas mudanças serão feitas?

Allen Frances – Existe um abaixo-assinado circulando agora. Cerca 5.000 profissionais da área de saúde mental o assinaram na primeira semana. Se esse abaixo-assinado decolar e centenas de milhares de pessoas o assinarem, acho que o DSM-V vai ter que tomar conhecimento. No jornal Psychiatric Times existe uma série de artigos sobre o assunto, nas duas últimas semanas (www.psychiatrictimes.com).

Viomundo – No fim de semana vai haver um seminário no Brasil sobre medicalização da educação. Ele foi organizado pelos conselhos regionais de psicologia do Rio de Janeiro e de São Paulo e, entre outras coisas, vai discutir como evitar este excesso de medicalização infantil.

Allen Frances – Isso é  o mais importante. E por isso liguei para você de volta em dois minutos. Porque a sociedade precisa discutir este assunto. Agora, é importante também entender que essa discussão não é contra a psiquiatria. Aqui nos Estados Unidos, a maior parte dessas prescrições é escrita por pediatras e médicos de família, por exemplo. Então, é claro que o DSM-V tem que ser modificado e ser mais cuidadoso. Mas os pediatras que passam seis minutos com uma criança e não tem treinamento específico em problemas psiquiátricos e são muito influenciados pelos vendedores dos remédios… a educação tem que ser ampla, para todos os médicos.

E é preciso, também, reeducar o público porque se espalhou a ideia de que o TDAH é sub-diagnosticado e mais crianças precisam tomar remédios. Acho que isso é verdade para crianças que claramente são portadoras do transtorno. Não queremos que essas crianças fiquem sem o atendimento. Em alguns casos, a medicação é a única saída. Então, é importante enfatizar que isso não é um ataque ao diagnóstico ou à psiquiatria e sim ao excesso. Não queremos que os pais parem de medicar as crianças. Mas queremos que seja um alerta para os pais, que eles devem buscar uma segunda opinião. Queremos reduzir a tendência futura de diagnosticar rápido demais, sem cuidado. Mas para as crianças que realmente precisam, não queremos que sejam desencorajadas. Quando o diagnóstico é feito com cuidado, o remédio ajuda muito. Mas quando não existe esse cuidado, se causa muito mais problemas do que soluções.

Viomundo – E quando falamos de comportamento, que são a base do diagnóstico do TDAH, não existem expectativas diferentes para o comportamento das crianças, em culturas diferentes?

Allen Frances – Esse tema da cultura é muito difícil. Mas não é apenas isso. Se você tem os dois pais trabalhando fora de casa, a criança parece ter TDAH. Se não estivessem trabalhando, talvez fossem mais tolerantes. Então, os temas sociais e culturais têm importância vital para entender o diagnóstico.  Mas é importante notar que se o diagnóstico é feito em um ambiente de muito stress social, é quase a solução mais fácil para problemas reais. E seria um problema tratar como doença um comportamento social normal em uma determinada cultura, que não é considerado adequado em outra.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



36 comentários

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Fernanda

26 de abril de 2013 às 17h04

Deveriam divulgar mais a terapia com NEUROFEEDBACK.

Responder

Barsanullfo

09 de março de 2012 às 10h18

È tudo muito fácil para quem está de fora. Tenho 70anos, sou vidrado em filosofia, matéria onde sou pós graduado e não paro de estudar. No entanto tomo Ritalina faz uns 8 anos e como foi bom para mim, a melhora do foco da atenção é simplesmente fenomenal. Aprendí a usar a Ritalina; tomo no máximo 10 comprimidos por mes, onde concentro os dias de estudo mais intenso. Não sinto um só efeito colateral. Penso que se fosse tratado em criança, a minha vida teria sido bem melhor e meu aprendizado mais consistente.

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Luis Barros

12 de novembro de 2011 às 19h42

Nâo estará o Dr Allen Frances se fazendo de contra para sustentar, afinal de contas, o essencial da ideologia da medicalização da existência sustentada pelo DSM?. Como os absurdos do DSM se revelam cada vez mais claros nada melhor que um "opositor" de dentro erguendo a voz contra os ditos excessos para dar maior credibilidade ao conjunto da obra. A ênfase do "figurão" de que os excessos são cometidos por não psiquiatras e que a crítica deve preservar o diagnóstico e medicação para os que realmente precisam deixam claro sua tentativa de limitar , creio, o que estará sendo posto em questão no seminário em SP, que é justamente o que o DSM toma por uma evidência, seu axioma de base: a objetivação da existência e do comportamento dos homens. Para o DSM, a agitação e falta de atenção de uma criança é um transtorno ou disfuncionamento cerebral regulável por pílulas. Contudo, sobre isso há sérias controvérsias, que a ideologia do DSM tenta desviar e extinguir difundido uma espécie de pensamento único e cômodo.

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NELSON NISENBAUM

12 de novembro de 2011 às 12h32

É um absurdo que tanta gente ainda fica prestando atenção em um polemizador que usa a sua egolatria para explorar o desconhecimento alheio, ganhar cartaz, dinheiro, e de quebra, fundar uma religião. Do resto, já me manifestei o suficiente em outros debates sobre o mesmo tema. Só para finalizar, só quem tem TDAH, e só quem cuida disso com decência é que deveria se manifestar sobre o assunto. O resto é debate religioso, que não leva a canto algum.

Responder

    Francisco Hugo

    12 de novembro de 2011 às 14h45

    Doutor Nisenbaum,
    essa história de “não brinco mais” é muito desrespeitosa.
    Há quem entenda que debate é
    “troca de ideias em que se alegam razões pró ou contra, com vistas a uma conclusão” (acepção 1 do Aurélio).
    Para outros, debate é “altercação, contenda, disputa” (acepção 3 do Aurélio).
    Assim nos situamos.
    Aqui em casa, também faço questão de ter a última palavra: “Sim, Querida!”
    Estamos conversados?

    NELSON NISENBAUM

    12 de novembro de 2011 às 19h28

    Caro Francisco, examine com cuidado o "debate" atual e os anteriores sobre este tema. O que existe aqui é uma religião fundada para pregar esta doença e os seus remédios na cruz. Conte quantos comentários aparecem para defender que a doença existe e que o tratamento também existe, e que os medicamentos são seguros e eficazes. Dá um placar de mais ou menos 20 contra 1. Só que debate, meu caro, se faz entre pessoas que tem intimidade com o assunto que se está debatendo. Debate, seria confrontar a entrevista deste ególatra com as opiniões de outros médicos. Quando entrei neste "debate", defendi minhas idéias e só recebi os adjetivos menos recomendáveis. Então percebi que o que se passa aqui é guerra religiosa, e não troca de idéias e experiências. Sorry about that.

    Francisco Hugo

    13 de novembro de 2011 às 12h58

    Nisenbaum,
    ao me recomendar que "examine com cuidado o "debate" atual e os anteriores sobre este tema" você intenta me desqualificar.
    Não sou moleque!
    Você diz: “debate, meu caro, se faz entre pessoas que tem intimidade com o assunto“.
    Quer dizer: você, eleito⁄escolhido, tem. Nós, os gentios, carecemos da necessária intimidade com o tema.
    “…entrei neste "debate", defendi minhas idéias e só recebi os adjetivos menos recomendáveis” ― clama você.
    Lamento. Há comentaristas menos educados. Mas faz parte. É o risco.
    Por fim, não precisa se desculpar.
    Sei que fundamentalistas não defendem ideias: fundamentalistas impõem ideias.
    Pode ficar com a última palavra: não gosto de perder o respeito por qualquer pessoa.

    NELSON NISENBAUM

    13 de novembro de 2011 às 18h01

    Absolutamente não. Só pedi que examinasse estatisticamente o que se chama de debate neste caso. E tem mais: Debate científico se faz com argumentos científicos, e não com rótulos, aforismas e idéias pré-concebidas, seja para um lado ou para o outro. Se alguém foi desrespeitado aqui e desqualificado fomos nós, os poucos médicos que experientes no assunto, ao tentarmos defender a construção teórica de uma patologia e o seu tratamento correto. Fomos o tempo todo acusados de servir aos interesses da indústria farmacêutica. E nenhum fato ou argumento convenceu os "fundamentalistas". A maioria dos frequentadores deste site tem uma postura anticapitalista e esta orientação política se embrenha nos "debates" sobre este assunto. Não quis dizer que você é moleque e nem te desqualifiquei. Pelo contrário, ao responder o comentário valorizei, e muito, a tua pessoa.

    Alexandre Faria

    28 de novembro de 2011 às 08h25

    Dr. Nelson, bom dia. Não sei qual a intenção da "jornalista". Será que ela acha que Ritalina é calmante? Já me indignei com esse preconceito contra o portador de TDAH, a qual querem lhe negar tratamento. Ninguém ousa dizer ao diabético crônico, que faça apenas dieta e abra mão da insulina. Pois o uso do medicamento trará uma melhora artificial. Ninguém ousa falar com um hipertenso que o mesmo não deve tomar seus medicamentos, mesmo que seja pelo resto da vida, devendo apenas adotar hábitos saudáveis, dietas e privação de sódio. Ao portador de TDAH, como sou, temos que sofrer o preconceito de fundamentalisatas de uma causa que não é clara. Pergunto: Já que a Sr. Heloísa e seus seguidores são tão expertos no assunto, qual tratamento devo seguir? Lembro que a medicina é profissão regulamentada e seu exercício irregular deve ser punido. Como já me declarei antes…Sou advogado, portador de TDAH desde a infância tratado apenas na fase adulta. Inseri a Dra. Katia num debate anterior, mas hoje vejo que não vale a pena.
    Vou acompanhar o Dr. Nelson. Me retiro desses debates vazios.
    Sds

Um alerta a médicos e pais sobre o déficit de atenção

11 de novembro de 2011 às 20h58

[…] Villela, especial para o Viomundo, […]

Responder

Tomudjin

11 de novembro de 2011 às 17h58

Nos tempos dos nossos bizavós, não se fluoretava a água e nem se intoxificava os alimentos.
E assim, como se não precisássemos de cáries, e nem de ervas daninhas, decidimos pela evolução do ser humano acima de qualquer sacrifício. Só não percebemos que a reação contrária seria iminente, diante de nossas ações.

Responder

Martin

11 de novembro de 2011 às 15h37

Parabéns ao Viomundo. Mais uma vez esclarecendo e informando o que acontece "dentro do intervalo entre o 8(oito) e o 80(oitenta).

Att.
Martin

Responder

Helio Filho

11 de novembro de 2011 às 14h59

Só para esclarecer (não pretendo monopolizar o blog):
Sou psiquiátrica clínico com experiència no Brasil e na França (onde fiquei mais de 9 anos), em consultórios, clíncas particulares, mas também em CAPS, asilos, hospitais de custódia, etc. Trato bem os representantes de laboratório que me visitam, mais vivo bem sem o "algo a mais" que por vezes propõem ou insinuam que posso obter, dando "uma ajuda" na prescrição de seus medicamentos.
Não sou um "looser" recalcado, longe disso. Vivo bem.
Ainda acho que é possível ganhar bem e viver tranquilo sem manter com a indústria farmacêutica a relação de sutil faz~de~conta que a maioria mantém ou a promiscuidade explícita, cada vez mais frequente em outros.

Responder

Helio Filho

11 de novembro de 2011 às 14h37

A questão não se limita apenas ao TDAH, abrange toda a psiquiatria.
Precisamos ter em mente que lidamos com uma indústria poderosa que necessita de UM profissional para realizar seus lucros – o médico. Esta indústria controla tudo, desde os ensaios clínicos que chegam "prontos" para ser aplicados (recebo propostas frequentemente) para subsequente publicação em revistas médicas que já foram muito sérias mais hoje são financiadas pela mesma inddústria que financia a pesquisa. O número de publicações é um critério fundamental para a avaliação de currículos, o que influemcia decisivamente a carreira profissional, sobretudo acadêmica, de jovens médicos. Sem contar os convites para jantares, eventos em locais luxuosos, presentes, financiamento de viagens e estadia em congressos no Brasil e no exterior, convites para expor trabalhos em mesas redondas, etc., etc. Aliás, Congressos e eventos são pouco mais do que stands
de propaganda da indústria farmacêutica, com raras exceções.

Responder

Helio Filho

11 de novembro de 2011 às 14h36

Tudo esta engrenagem acrescenta "prestígio" e muitas vezes dinheiro aos profissionais que se deixam seduzir, infelizmente cada vez mais numerosos. Ter prestígio com laboratórios era muito mal visto em 1987, quando me formei em Medicina pela UFBa. Hoje, é sinal de sucesso.
Será que nunca ninguem ouviu falar em CONFLITO DE INTERESSE?
Ou fingem que não sabem o que isto significa?
Ou sou eu estou ficando velho?

Responder

    Wildner Arcanjo

    11 de novembro de 2011 às 17h03

    A ganância e a necessidade de ganhar cada vez mais dinheiro suprimiu tudo isso. Alias, hoje poucos entram em um curso de Medicina, Odontologia, Direito por que gostam. Entram porque são profissões que pagam bem.

    Mari

    12 de novembro de 2011 às 12h14

    Wildner é um boquirroto! Como esse carinha se arvora do direito de falar pro todo mundo que quer ser médico, dentista ou advogado? Vai te catar cara cheio de nove horas. Tá sabendo porque aquela florzinha se chama de onze horas?

    Wildner Arcanjo

    12 de novembro de 2011 às 21h04

    – É ruim escutar o que não se quer. Mas eu falo mesmo, quem tem autoridade para dizer que o que postei não é verdade?

    – No mais, quem fala o que quer escuta também (ou lê também) o que não quer. Seu comentário, no mínimo desrespeitoso não merecia nem réplica mas, vamos lá…

    Bem isto hoje é comum, não só na formação de futuros Médicos e Advogados, mas também na vida profissional de muitos empreendedores que se aventuram em um negócio. Lembro-me de uma palestra que fui assistir no SEBRAE, aqui no RN, onde o palestrante, não me lembro o nome dele, dizia: os empreendedores precisam prestar atenção às oportunidades do mercado (assim mesmo, de forma bem genérica). Fiquei a pensar… O que fazer com aqueles que querem empreender justamente com o que gostam de fazer e não com o que o mercado apresenta sob o nome, a moda diria eu, de oportunidade? Acho que a oportunidade se faz de fazer bem o que se sabe fazer, do que se gosta de fazer, e, dentro da área escolhida (não por modismo) procurar, aí sim, o diferencial. Algo inovador ou melhor feito, ou feito de forma diferente mas, dentro daquilo que a pessoa realmete gosta e tem perfil para fazer.

Helio Filho

11 de novembro de 2011 às 13h59

Sou psiquiatra e tenho cada vez mais pacientes "autodiagnosticados" com TDAH ou que tiveram este diagnóstico sugerido por amigos, familiares ou até colegas de outras especialidades. Trabalho com adultos, tenho pouca prática com TDAH em crianças.
Não prescrevo Ritalina ou congêneres. Pessoalmente acho que o TDAH em adultos é um caso típico de doença criada para vender medicamentos. Não condeno os colegas que prescrevem. Mas sou muito apegado à velha clínica e desconfio de medicamentos na moda. Paciente não é cobaia, não experimento "novos" medicamentos com facilidade se os 'antigos' funcionam.. E, em geral, consigo bons resultados em pacientes que "descobrem" ter TDAH na idade adulta utilizando velhos remédios e uma boa conversa.

Responder

Juli

11 de novembro de 2011 às 13h36

continuação…
A quantidade de pessoas a serem atendidas em hospitais, postos de saúde, clinicas particulares, aumenta a cada ano. Os médicos disponíveis para o atendimento, dessa grande massa, são insuficientes, portanto há uma sobrecarga de trabalho. Médicos sobrecarregados atendem mal, dão diagnósticos não condizentes com o que realmente a pessoa tem, receitam medicamentos errados (trabalho em um hospital e já vi médicos receitarem e aplicarem Morfina para dor de dente, o que a meu ver é um absurdo).
E assim as pessoas passam a seguir um circulo vicioso: ficam doentes – procuram um médico – o médico lhes prescreve um remédio – o remédio as torna mais fracas e dependentes.

Responder

Juli

11 de novembro de 2011 às 13h35

A indústria farmacêutica domina o mercado global, oferecendo uma gama tão grande e distinta de medicamentos…."tem "remédio" pra tudo"!!
Tudo é tão acelerado em nosso cotidiano que buscamos as coisas onde nos parece mais fácil, ou seja, recoremos a medicamentos que nos dao alivio imediato, sem ao menos se importar com as consequências futuras, afinal "nao podemos perder tempo"!

Responder

diogojfaraujo

11 de novembro de 2011 às 10h52

Não consigo entender o fetiche da reporter pelo TDAH… É só pelas criancinhas e por ter um monte de adolescentes tomando Ritalina como se fosse Ecstasy nas baladinhas e matinês??? Se for, irado, meus parabéns, mas sei lá, parece uma cruzada específica… Li agorinha o manifesto do ano passado, e vi que não há nenhuma entidade dos psiquiatras… Sou leigo e tals, mas essa medicalização não é feita justamente pq há déficit desses profissionais? Não é a falta deles que causa os erros de diagnóstico? E os diagnósticos feitos por médicos de família, pediatras e outros não são os são apressados que acabam "entuxando" drogas nas crianças com a influência das farmacêuticas?? E pq não há ninguém do conselho de psiquiatria, ou coisa parecida???

Parabéns pela iniciativa do CFP ou do CRP, não entendi ao certo quem é o responsável pelo evento; drogar crianças a troco de nada é um absurdo incomensurável… Mas ainda fica aquela primeira impressão de briguinha entre profissionais da área em detrimento do bem estar dos pequerruchos… Se estiver a zurrar, sintam-se a vontade pra corrigir e criticar, pq se postei comentário foi pra saber mais!

Responder

    Francisco Hugo

    11 de novembro de 2011 às 18h14

    Diogo,
    em matéria sobre o filme Inside Job, a Heloisa, há tempos, mencionou em um parágrafo o uso abusivo da ritalina como exemplo do poder do dinheiro, o mote do filme.
    Digo com convicção: Heloisa não sabia em que vespeiro estava mexendo!
    Ela é jornalista e o assunto repercutiu: agora a Heloisa sabe o tamanho do imbróglio. E se comporta como boa profissional.
    Não há cruzada. Mas, se houvesse, qual o problema? O que você tem contra os quixotes?

    diogojfaraujo

    12 de novembro de 2011 às 12h02

    Eu tenho algo contra indiretinhas, só isso, e não sei se é o caso, pq nesse ano houve pelo menos seis textos sobre o mesmo tema, e a jornalista é a responsável por um encontro que discute o tema todo o ano. Não desrespeitei ninguém, só apontei minhas dúvidas sobre a intenção do encontro em discutir com todos os profissionais envolvidos. Mais do que isso, apontei uma contradição clara, já que psiquiatras e entidade os representando não participam de tal evento, e a falta deles é apontada como uma das principais causas do abuso nas prescrições dessa droga. Já tomei ritalina, dos dois jeitos possíveis, e a primeira coisa que veio à minha cabeça é como dão uma porra dessas pra crianças, pq alguns efeitos me lembram cocaína e outras anfetaminas muito fortes. Mas gosto de fatos, e não de discursos conspiratórios ou políticos, em casos que envolvam saúde. Por isso que venho aqui e comento. E valeu pera resposta amigo!!!

    Alexandre Faria

    28 de novembro de 2011 às 08h35

    Caro, veja o site da ABDA. Tenho TDAH, sou adulto advogado e questiono, talqual você a cruzada contra o tratamento sério, inserido no mesmo balaio de gatos dos charlatães, que são divulgados aqui. Já indiquei inúmeras vezes os profissionais sérios da área, que tive o prazer de conhecer. Mas sequer foram procurados. uma das médicas chegou a escrever aqui, elogiado pelo Dr. Nelson, figura constante dos debates. Sds

Vera Silva

11 de novembro de 2011 às 09h42

Até que enfim leio palavras de bom senso de um profissional capacitado.
Como psicóloga,trabalhei por muitos anos com problemas de aprendizagem e de adaptação ao trabalho, além de problemas psicológicos gerais. Minhas observações batem com as observações do Dr. Allen.
Felizmente trabalhava com profissionais de neurologia e psiquiatria que tinham esta forma de pensar também.
É preciso muito cuidado com diagnósticos, pois eles criam rótulos e rótulos são danosos para o ser humano: as pessoas passam a ser o rótulo e deixam de ser pessoas.
Vi resultados terríveis em adultos:
1) de como não medicar na infância os casos reais de TDAH resulta em danos sérios para o adulto;
2) de como o diagnóstico errado de TDAH na infância resulta em adultos com sérios problemas.
Acho muito bom que se debata isto que está se tornando um sucesso para os laboratórios e altamente danoso para a vida humana.

Responder

    Marcel

    11 de novembro de 2011 às 11h42

    Será que a forma de pensar do psicólogo também não exerce influência nefasta na educação e desenvolvimento das crianças. Ou seria um saber mais "inocente"?: Fala-se no tal "poder médico". Nunca li /ouvi falar de poder do psicólogo. Mas que ele existe, isso sim.

    Daniel

    01 de abril de 2012 às 11h43

    Olha Marcel, também acredito no que você disse, muitos psicólogos também também contribuem para esse processo de expansão da medicalização, mas que mais influenciam e podem receitar remédios são os médicos, mas isso não tira o psicólogos, educadores, pediatras e tantos outros profissionais de contribuir no processo de medicalização.

Operante Livre

11 de novembro de 2011 às 10h36

Obrigado pela boa notícia de saber que tem mais gente vendo o que vemos. Talvez dê tempo de nos salvarmos.

Não são apenas os médicos que estão sobrecarregados. Os professores também. E como ele apontou na última resposta, os pais também.

Um última instância estas sobrecargas estão relacionadas com a geração de mais lucros, mais rapidamente.
Vejo este cenário como um movimento de queda livre justificado na ciência que também tem suas obrigações de produzir riqueza. Dito de outra forma, os diagnósticos e tratamentos, independente de existirem uma "doença" não são feitos para aliviar sofrimentos humanos, não são feitos para a humanidade e sim para gerar lucros. Um exemplo concreto é o desinteresse por pesquisas para algumas doenças tropicais.

Neste contexto, é de se esperar, sem surpresas, que o DSM seja um laboratório para gerar lucros, se necessário mantendo ou criando sofrimentos, ao invés de orientar para evitar ou aliviar o sofrimento humano. Ou seja, parece que estamos em um movimento de queda livre, sem saber quando nos esborracharemos num fundo escuro.

Não vejo saída para esta estrutura de funcionamento social enquanto a saúde for mercadoria. Como mercadoria, sob a pressão de qualquer outro contexto econômico, o ser humano não vai passar de um equipamento de geração de grana pela grana.

Não sou pessimista. Apenas não acho que se resolve esta questão mexendo apenas no DSM. A coisa pode ficar pior, como ficam os enfermos de algumas doenças tropicais porque no manual da indústria farmacêutica não tem um item cuja primazia seja o homem.

Responder

Roberto Locatelli

11 de novembro de 2011 às 10h17

Os grandes laboratórios seguem a lógica do deus-mercado: é melhor vender do que não vender.

Criam-se, a cada congresso médico, novas síndromes, que já têm o remédio pronto para elas.

A caixa registradora não pode ficar parada.

Responder

    Marcel

    11 de novembro de 2011 às 11h40

    Convém lembrar que a caixa registradora dos psicólogos também não descansa. Haja a vista a industrial editorial, oficinas e participações na mídia… Será que eles são santinhos?

    Helio Filho

    11 de novembro de 2011 às 15h03

    É isso ai, Roberto.
    O TDAH "descoberto" e autodiagnosticado por adultos é pura invenção pra vender Ritalina.

    Elza

    11 de novembro de 2011 às 18h53

    Helio Filho, ñ é invenção o dx de TDAH, as crianças com TDAH sempre existiram, só q ñ se um dx médico nem existia a Ritalina. Eu fui uma cr com TDAH, mas existiam calçadas para eu pular amarelinha num sol tremendo, quando a maioria das crianças do meu ciclo de amizades estavam dormindo depois do almoço. Vc ñ imagina a agitação q é. E como a mnh mãe dava a ordem p/ eu ficar em casa, como ñ conseguia deitar então eu fugia pela janela e mts vzs ainda apanhava por desobedecer as ordens dela e ainda cresci c o "istigma" de "rebelde". Mas tbm ainda bem q ela me colocava pra fazer mts coisas e aí a ansiedade diminuia e como adulto a ansiedade diminuia pq eu focava a mnh energia no trab, viagens, etc…. mas até hj faço análise. O prob é q hj as mães trabalham fora, se culpam por isso e se torna um ciclo vicioso e aí o mercado medicamentoso aproveita determinadas circuntâncias da sociedade conteporânea e pegue tarja preta tanto p/ as crianças como pra adultos. Vc pode trabalhar o TDAH com terapias complementares, c psicoterapia, pq a família tbm é envolvida na terapia qnd a criança é atendida, algumas atividades físicas escolhidas pela própria cr, qnd a msm tiver condições de escolha, mt conversa, mt amor, atenção e carinho.

    Existe uma médica em São Paulo, desculpa ñ lembro o nome, ela é contra essa medicalização nas crianças, q pra variar os brasileiros copiaram dos EEUU.

    Helio Filho

    18 de novembro de 2011 às 21h24

    Cara Elza,
    A Ritalina foi sintetizada em 1968 e desde então foi usada em crianças, um tratamento
    polêmico, mas útli quando corretamente utilizado, com acompanhamento psicoterápico,
    durante certo tempo.
    Não é, pois um NOVO medicamento que corrigirá defeitos em cérebros de adultos, anteriormente
    desconhecidos. Os check-lists largamente difundidos em sala de espera de consultórios (folhetos
    "informativos") e na internet sáo uma piada. Aplicados seus critérios, 95% da população teria
    TDAH, inclusive eu.

    Lu_Witovisk

    11 de novembro de 2011 às 20h49

    o triste é que nada escapa da caixa registradora… nem as crianças. Ô mundo…


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