Paulo Kliass*
(…) “Lá, ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha” (…) [GN] – Presidente Lula, em outubro de 2008.
Em outubro de 2008, o Presidente Lula assim se referiu ao início da grande crise internacional, que havia começado nos mercados bancário e financeiro nos Estados Unidos e depois se espalharia para a Europa, afetando gravemente os principais países do globo.
Naquele momento, é fato que o Brasil conseguiu se proteger razoavelmente bem dos efeitos negativos daquela grave recessão que atingiu boa parte das nações, por todos os continentes. Um dos principais fatores para tanto referia-se, com certeza, à própria natureza do nosso sistema bancário à época.
Não obstante o processo generalizado da globalização financeira, os principais bancos atuantes no Brasil ainda eram nacionais e públicos. Assim, a quebradeira generalizada observada no exterior não se fez sentir internamente de forma tão aguda.
Fomos afetados, por óbvio, pela redução das atividades em escala global, com impacto sobre nosso comércio externo. Mas não ocorreram por aqui as perdas patrimoniais nos mercados mobiliários e imobiliários.
O PIB dos Estados Unidos caiu 2,4% e o da zona do euro registrou recessão de 4%. Já a queda no Brasil foi mais discreta (-0,3%), acompanhando o índice do PIB mundial.
As lições do ocorrido há quase 2 décadas atrás deveriam ser incorporadas pelo governo como elementos de experiência para lidar com a crise atual provocada pelo ataque criminoso dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
A agressão militar a um país estratégico no Golfo Pérsico – e que joga um papel fundamental para assegurar a produção e o fornecimento de petróleo para todo o mundo – está colocando em risco o equilíbrio da oferta, da demanda e da logística de transporte desse importante insumo energético no mundo contemporâneo.
Brasil é autossuficiente na produção de petróleo
O ponto a reter nesse momento é a possibilidade que o Brasil tem de afirmar sua soberania energética, em especial no quesito do petróleo.
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Na verdade, desde 2006 o Brasil atingiu a autossuficiência petrolífera, a partir das descobertas das reservas do Pré-Sal. Isso significa que a produção e a exploração interna de petróleo ocorrem em níveis compatíveis com nossas necessidades internas.
Assim, o País teria todas as condições de se comportar como um ator menos dependente das importações de produtos do complexo do petróleo.
No entanto, a realidade é que o comportamento das últimas diretorias da Petrobrás tem sido o de se orientar mais pelo atendimento às demandas dos acionistas privados e menos pela atuação da empresa como uma engrenagem fundamental para o processo de desenvolvimento econômico, social e ambiental.
Boa parte das leis e regras definidas durante os governos Temer e Bolsonaro permanecem vigentes, em um período em que se buscava o aniquilamento da empresa e sua privatização.
Um bom exemplo deste tipo de conduta que o próprio governo Lula em seu terceiro mandato imprime à Petrobrás refere-se à distribuição de dividendos.
Apenas no triênio 2023/25 o total desse tipo de despesa atingiu a impressionante marca de R$ 210 bilhões. Ou seja, valores que poderiam ser reinvestidos na ampliação da capacidade produtiva da estatal foram transferidos aos acionistas.
Além disso, não foram cumpridas as promessas de campanha relativas à reestatização de unidades do grupo que haviam sido privatizadas nos governos anteriores.
Trata-se de 3 refinarias estratégicas em estados afastados do centro econômico mais desenvolvido no Sudeste.
Assim, permanecem em mãos do capital privado as seguintes unidades de processamento do óleo bruto: i) Refinaria Landulpho Alves (BA); ii) Refinaria Clara Camarão (RN); e, Refinaria Isaac Sabbá (Reman) (AM).
Outra entrega ao lobby financista diz respeito à privatização da empresa de distribuição do grupo Petrobrás, a BR Distribuidora.
O processo foi iniciado em 2019 e concluído em 2021, quando o governo Bolsonaro vendeu a participação acionária do governo federal na maior empresa de distribuição de derivados de petróleo do País.
Reestatizar as refinarias e a BR Distribuidora
Porém, apesar de tais retrocessos, o grupo Petrobrás permanece como importante ator no setor petrolífero nacional e global.
Em 2025, por exemplo, a empresa bateu seu próprio recorde em termos de produção de óleo e gás
Esses indicadores alcançaram a marca de quase 5 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d) em 2025. O resultado é 13,3% superior ao do ano anterior e representa o maior volume já registrado no Brasil. O recorde anterior era 4,3 milhões boe/d, em 2023.
No entanto, essa performance não está sendo acompanhada por um necessário aumento na capacidade de refino interna. A orientação da direção da Petrobrás para elevar os indicadores de rentabilidade econômico-financeira da empresa deixa para segundo plano o atendimento das reais necessidades do Brasil.
Como o foco de mimetizar o desempenho das grandes petroleiras internacionais permanece inalterado, a Petrobrás segue adotando um comportamento de seus preços internos em sintonia com as variações da cotação do petróleo Brent, uma referência do financismo internacional.
Ao invés de se afastar de fato das mudanças introduzidas em 2016, durante o governo Temer, a empresa ainda se move segundo as orientações da política chamada de Preços de Paridade de Importação (PPI).
A ideia é que a empresa promova reajustes nos preços que pratica internamente a cada aumento verificado no mercado internacional. Uma loucura!
Quer seja por decisão de rotina do núcleo dirigente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), quer seja por aumentos causados por eventos extraordinários como a atual agressão bélica contra o Irã.
A observação do gráfico com as cotações do barril ao longo dos últimos 5 anos deixa claro que não faz sentido atrelar os preços internos a tais movimentos.
Afinal, são oscilações que obedecem a fatores totalmente externos à nossa realidade e as altas não costumam significar uma mudança definitiva de patamar. Como o Brasil já é autossuficiente, temos todas as condições de passar ao largo de tais dinâmicas especulativas.
Cotação petróleo Brent (US$/barril) – 2021/26

Ora, tal estratégia só faz sentido para países que dependem totalmente de petróleo importado para assegurar sua demanda interna. Nesse caso, é compreensível que haja alguma mudança, uma vez que os preços internos em tais nações serão diretamente impactados pela elevação dos custos do petróleo ou derivados importados.
Mas como o Brasil já é autossuficiente para as nossas necessidades internas, os preços da Petrobrás deveriam ser estabelecidos em sintonia com os custos de produção da empresa. E isso tem muito pouca relação direta com a cotação do petróleo Brent.
Preços internos não devem obedecer a movimentos externos
Mas o governo faz exatamente o oposto do que poderia e deveria fazer nesse domínio.
Assim por exemplo, em meio às elevações recentes da cotação do barril Brent, a decisão foi de promover um aumento também nos preços dos combustíveis internamente. O anúncio foi de um reajuste nos preços do diesel vendido pela Petrobrás, que sofreram elevação próxima a 12%.
De acordo com declarações da Presidenta da Petrobrás, as razões para tal elevação estão associadas ao conflito no Oriente Médio.
Para ela, (…) “A guerra foi o fator determinante para esse aumento. Eu estava, 20 dias atrás, com tendência de queda de preço” (…) [GN]
O fato concreto é que todo esse movimento, ao longo dos últimos anos, tem sido feito para converter a Petrobrás em uma grande queridinha do financismo internacional.
Em 2025, por exemplo, ela se situou entre as 20 maiores empresas do mundo em termos de pagamentos de dividendos aos acionistas, ocupando a 14a posição. Caso seja considerado apenas o universo das grandes empresas de petróleo, ela está na 3ª posição.
2025 – 20 Maiores empresas por dividendos pagos (US$ bilhões)

Fonte: Janus Henderson
Petrobrás deve voltar a ser nossa
O Brasil está muito distante do cenário da guerra e as consequências de medidas como o fechamento do Estreito de Hormuz não deveriam se constituir em argumentos para a elevação de preços de derivados internamente.
Caso Lula queira realmente assegurar nossa sociedade de que os efeitos desta crise chegarão por aqui também como uma marolinha, ele deve recuperar, de forma urgente, a natureza pública de uma importante empresa estatal, como a Petrobrás.
E isso significa abandonar essa política generosa de distribuição de dividendos aos acionistas privados, promovendo uma elevação na capacidade de investimentos com os lucros apurados.
Além disso, precisaria também reestatizar as refinarias e a BR distribuidora, para melhor atuar no ramo estratégico da energia em nosso País. Finalmente, ele necessita romper com esse automatismo de reajuste de preços dos derivados por conta das especulações nos preços futuros do barril de petróleo no mercado global.
* Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.


Comentários
Zé Maria
https://midias.jb.com.br/_midias/jpg/2026/03/22/vorcaro_e_o_armagedon-1136709.jpg
Panorama Geral e Local:
‘O Armagedon no Irã e as Confissões de Vorcaro’
Jornalista Gilberto Menezes Cortês, no JB
O ano de 2026 se desenhava relativamente tranquilo para o Brasil e os Estados Unidos no final de 2025. Tanto que os presidentes Lula e Donald Trump tinham pré-agendado um encontro na Casa Branca, ainda no primeiro trimestre. Na pauta da reaproximação diplomática entre as duas maiores democracias das Américas, após o distanciamento provocado pela interferência do clã Bolsonaro, que levou à imposição de alta tarifas de importação aos produtos brasileiros e a sanções da Lei Magnitsky a ministros do Supremo Tribunal Federal e do Ministério do governo Lula, estavam a redução das tarifas e a retirada das sanções, que inclui restrições de vistos a brasileiros e a negociação sobre acesso americano a terras raras.
Na virada do ano, o quadro parecia mais favorável ao Brasil, quando a Suprema Corte Americana derrubou o tarifaço do começo do governo Trump, 2025, por não ter sido submetido a referendo do Congresso. A Suprema Corte fez ver a Trump a existência da interdependência e a fiscalização mútua entre os três Poderes (o princípio de pesos e contrapesos, ou “check and balance”) que rege o funcionamento da democracia americana e que Trump quis afrontar desde o primeiro momento. Na sua fixação por “Make a America Great Again”), Trump pensava em atingir a China, a nação mais beneficiada pela globalização, quando as matrizes americanas saíram pelo mundo – sobretudo a Ásia – para instalar linhas de produção com mão-de-obra, tributos e infraestrutura mais rentáveis. O objetivo imediato era reduzir os déficits comerciais dos EUA. Numa segunda fase, a produção seria “made in USA”.
Mas a interdependência das cadeias produtivas trouxe um impacto inflacionário à produção doméstica, de resto privada de elementos fundamentais nas manufaturas do terceiro milênio: os circuitos eletrônicos. Interrompida a cadeia de suprimentos de “chips”, Trump teve de voltar diversas vezes na imposição de tarifas, até a Suprema Corte derrubá-las ao nível de 10%. Nesse intervalo, procurou cortar o acesso da China a minerais críticos das terras raras, ainda que a ideia de anexação da Groelândia e do Canadá (!) como o 51º estado americano tenha esfriado. Cortar o acesso aos minerais que garantem a produção de “chips” e baterias de lítio para carros elétricos ou para armazenagem da energia solar e eólica era parte da estratégia para atacar um ponto fraco à expansão chinesa: a dependência de energia.
Aí Trump e seus assessores vislumbraram uma oportunidade depois do ataque bem-sucedido em parceria com Israel, de Benjamin Netanyahu, às instalações nucleares do Irã – uma ameaça a Israel desde os tempos do Xá Reza Pahlavi, derrubado pela revolução dos Aiatolás, em 1979. A fraca reação do Irã animou Israel e EUA a um ataque maior. Mas, antes, os Estados Unidos precisavam ter garantias de que ficaria ileso (mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo) a um conflito demorado e extenso no Oriente Médio. A oportunidade foi a invasão da Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro, que devolveu, de forma ampla, o acesso das petroleiras americanas às maiores jazidas de petróleo do mundo. Deslocar plataformas do Golfo do México (opps, da América) para o mar de Maracaibo é fácil e tudo está ao rápido alcance da proteção dos “marines” ianques. Assim, Trump acreditou na versão de Israel, que atacar o Irã e destruir a estrutura de comando faria o país se render em guerra breve. Os mísseis estão saindo pela culatra. Trump, cada dia mais errante, adiou os encontros com o primeiro-ministro da China, Xi Jinping, e com o presidente brasileiro, e busca uma saída dos Estados Unidos do centro do palco da guerra, mas cantando vitória americana, claro.
A órbita da gravidade da guerra do Golfo
O site do jornal “The New York Times” fez interessante arte animada para mostrar, numa cópia da órbita de astros celestes, como a guerra entre Estados Unidos e Israel com o Irã está atingindo países que nada têm a ver com o conflito direto. Com a tática do Irã de retaliar as bases americanas nos vizinhos árabes aliados dos EUA, o conflito se espalhou para 13 ou 14 nações do Oriente Médio. Vale considerar que, além do Irã, dono das terceiras maiores reservas de óleo do mundo, foram atingidos o Catar (dono das maiores reservas de gás natural, através do campo de South Pars, dividido com o Irã, atacado por Israel), a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Iraque e o Azerbaijão. Também foram atingidos os principais países europeus (privados do gás da Rússia desde 2022 e agora do gás e petróleo do Oriente Médio), com exceção de Portugal, e os países escandinavos.
A gigantesca Índia foi indiretamente atingida pelo ataque de submarinos americanos a navio da armada do Irã no Sri Lanka, ao sul do país. Os vizinhos Paquistão, Turquia e Síria, que abrigam parte dos nômades curdos, também foram atingidos. Numa órbita mais distante, por integrarem as forças da Otan, a Austrália e o Canadá foram atingidos (este, como o Brasil, por ser exportador de petróleo, tem o bônus da autossuficiência, mas o ônus da pressão inflacionária). Mas os planos iniciais de Trump de atingir a China no custo da energia do petróleo e gás (era o grande importador do Irã, do Catar, do Iraque, da Arábia Saudita e dos Emirados, todos com escoamento pelo Estreito de Ormuz) estão sendo atropelados pela dura realidade.
Trump acreditou piamente nos conselhos dos assessores (os mesmos que diziam que as tarifas não teriam efeitos colaterais) de que “a economia dos EUA estava protegida dos altos preços do petróleo”. Só que “os americanos não estão”, adverte o “NYT”. A economia em geral tem se mostrado resiliente nos últimos anos, mesmo com muitas famílias enfrentando dificuldades. No desespero para frear a escalada do petróleo – que afeta duramente a China, mas impacta o custo de vida dos americanos no ano de renovação de 100% da Câmara dos Deputados e de parte do Senado –, o governo Trump voltou atrás pela ação do “adulto” de seu Secretariado (Ministério), o experiente secretário do Tesouro, homem de “Wall Street”, Scott Bessent, que isentou de sanções por 30 dias as exportações de petróleo e gás da Rússia, aplicadas há quatro anos, e ainda liberou as exportações equivalentes a 140 milhões de barris de petróleo iraniano, que estão embarcados e retidos na passagem pelo Estreito de Ormuz. Os beneficiados são China, Japão e países asiáticos.
Mas a escalada continua. Neste sábado, detritos de um drone iraniano interceptado atingiram um local de extração de petróleo em Fujairah, Emirados Árabes Unidos. Na sexta-feira, o Irã disparou dois mísseis balísticos de alcance intermediário contra Diego Garcia, uma base militar conjunta entre os EUA e o Reino Unido, no meio do Oceano Índico. Nenhum dos mísseis atingiu a base, mas a ação representou o primeiro uso operacional de mísseis balísticos de alcance intermediário pelo Irã e uma tentativa significativa de atingir alvos muito além do Oriente Médio, ameaçando os interesses dos EUA.
Liberdade de ‘Informação’
A revista britânica “The Economist” definiu que o conflito que devasta o Oriente Médio pode ser melhor entendido como “duas guerras paralelas”. Uma é a campanha de ataques aéreos americanos e israelenses contra o regime iraniano; a outra é a guerra do Irã contra a economia global. Ambos são em grande parte unilaterais. O Irã não pode repelir os aviões de guerra que patrulham seus céus e os Estados Unidos não têm um caminho fácil para reabrir o Estreito de Ormuz, a estreita via navegável vital para o fluxo de petróleo, gás e outras mercadorias, ou para impedir ataques iranianos a instalações de produção de energia. Eu comungo da segunda hipótese.
A imprensa americana tem sido muito perseguida pelo governo Trump, especialmente pelo Pentágono, por agir de forma independente e não se limitar a oferecer aos leitores e telespectadores a visão oficial do Pentágono ou do governo Netanyahu. Na sexta-feira, o juiz Paul L. Friedman, do Tribunal Distrital Federal, em Washington, defendeu com veemência a liberdade constitucional de reportar de forma independente e sem controle governamental, derrubando as restrições sem precedentes impostas pela administração Trump aos repórteres, que esvaziaram os corredores do Pentágono de jornalistas tradicionais em um momento de guerra crescente. “Um dos principais objetivos da Primeira Emenda é permitir que a imprensa publique o que quiser e que o público leia o que quiser, livre de qualquer proibição oficial”, escreveu o juiz.
E ele acrescentou: “Aqueles que redigiram a Primeira Emenda acreditavam que a segurança da Nação exige uma imprensa livre e um povo informado, e que essa segurança está ameaçada pela supressão governamental da liberdade de expressão política”, continuou. “Esse princípio preservou a segurança da Nação por quase 250 anos. Não deve ser abandonado agora”.
Livre de pressões, o jornal britânico “Financial Times” viu com olhar crítico e até apocalíptico, a escalada da guerra após o ataque de Israel ao campo de gás de South Pars, no Irã, que se liga, por baixo do Mar Vermelho, ao Catar. O jornal comparou a situação ao “Armagedon”, ao revelar a visão do diretor de Agência Internacional de Energia, com sede em Viena, Áustria, o economista turco Fatih Birol. Em entrevista ao “FT”, ele previu demorar mais de seis meses para a normalização do abastecimento mundial de petróleo e gás.
Ficção e Realidade
A ficção chega à realidade. Na segunda metade dos anos 70, quando cobria as peripécias do Brasil para enfrentar a primeira crise do petróleo (de setembro de 1973, quando o país produzia apenas 15% o petróleo consumido) e dependia do crédito internacional para construir hidrelétricas e reduzir o consumo fóssil de energia nas fábricas, um livro me impressionou muito – “A Crise de 1979” – , que descrevia uma ameaça ainda pior causada pelo conflito entre o Irã, do Xá Pahlavi, e Israel (os persas são inimigos históricos dos hebreus), e que chegou ao ponto de a explosão de uma bomba de cobalto no aeroporto de Teerã (a fórmula inicial de urânio foi modificada por cientista judeu contratado pela equipe do Xá) deixar o petróleo do Oriente Médio inacessível por 30 anos.
Na época, nem China, nem Índia, nem os “tigres asiáticos e o Brasil pesavam na economia global. Mas as peripécias da dança dos petrodólares, descritas pelo ex-banqueiro Paul E. Erdman, me deixaram fascinado. Indiquei o livro a dois diretores do Banco Central na época (e eles confessaram que ficaram dois dias insones). A guerra entre Irã e Iraque iniciada em 1978, e que levou à ascensão dos aiatolás, mergulhou o mundo na segunda crise do petróleo que gerou a devastadora crise da dívida externa dos países em desenvolvimento, que se endividaram para reciclar a economia da crise de 1973 e quebraram com os juros altos (20% ao ano) do Banco Central dos EUA (hoje em 3,75%).
O Brasil Estaria Mal Sem a Petrobras
A comparação com as duas crises do petróleo que sacudiram o mundo no fim do século passado mostra o Brasil bem mais forte. Além de ser autossuficiente em petróleo (mas não em diesel e GLP, que ainda importa cerca de 30%), o país tem uma economia inscrita entre os “tops ten” e pauta diversificada de exportação, que alcança quase 180 países. O principal produto exportado é o petróleo. Em 1973, o país dependia 70% da receita do café (que teve a produção dizimada no Paraná e São Paulo pela geada de junho de 1975, que atingiu as lavouras de milho, feijão e mandioca cultivadas pelas famílias de colonos “meeiros” nas “ruas” do café). O fim do colonato gerou os bóias-frias e uma forte migração para as periferias das cidades (a maioria virou dependente do Funrural, o que explodiu as finanças do INSS). A inflação de alimentos explodiu o déficit público, com os subsídios dos créditos do BNDE à reciclagem industrial na primeira crise. Com a conquista do cerrado, no final dos anos 80, a produção agrícola se estabilizou e a soja virou o maior produto exportado.
O que mudou mesmo foi a capacidade da Petrobras de produzir mais óleo e, ao atuar em todo o território nacional, responder ao desafio de uma crise do petróleo. O Brasil estaria perdido, com os planos do governo Bolsonaro de privatizar 50% do parque de refino da estatal. Na vigência do sistema de PPI (paridade de preços internacionais, implantado em setembro de 2016, no governo Temer), os preços estariam nas alturas, subindo diariamente.
Felizmente deu Lula, que abrasileirou os preços dos derivados em maio de 2023. Mas, já tinham sido vendidas as refinarias de Mataripe (BA), que refina 330 mil barris-dia, que o governo Lula quer recomprar, e a pequena refinaria de Manaus (20 mil barris-dia). A Petrobras continua garantindo mais de 80% do abastecimento de combustíveis. A estatal está aproveitando o fato de o petróleo Brent ter superado os US$ 110 (ela extrai no pré-sal 70% do óleo que utiliza em suas refinarias a um custo ao redor de US$ 21) para acelerar os planos de produzir mais diesel e GLP com ampliação das refinarias.
Cabe observar que o noticiário econômico, além de superficial, parece torcer pelas manobras dos especuladores. Se a Petrobras fornece às distribuidoras 75% dos derivados sem aumento (na gasolina) e com impostos federais zerados no diesel, com subsídio do Tesouro, não é a oscilação da parcela importada – sujeita aos reflexos da guerra – que comanda os preços domésticos. A imprensa tem a responsabilidade de informar melhor. E as entidades de classe, dos importadores à rede de postos, têm a obrigação ética de separar o joio do trigo. Mas acabam fazendo o jogo da especulação, que se reflete no mercado financeiro e nos juros, cuja queda foi cortada pela metade pelo clima especulativo. Vale ressaltar que cada ponto a menos de juros economiza em 12 meses mais de R$ 63 bilhões. A previsão, antes da guerra, era de uma queda de três pontos. A Faria Lima não quer perder lucros fáceis.
O Efeito Vorcaro
O mercado financeiro, que opera sempre especulativamente – para cima ou para baixo –, aguarda, com grande expectativa, as delações premiadas de Daniel Vorcaro à Polícia Federal. O ex-dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. O banqueiro era um arrivista recente no mercado (onde entrou na década passada ao comprar o controle do Banco Máxima, de Saul Sabbá, que antes comprou o Banco Stock, de Toni Rocha). O Máxima tinha um histórico de operações irregulares com fundos de investimento, que levou a Comissão de Valores Mobiliários a processar seus dirigentes na virada do milênio. Vorcaro trocou a placa de Máxima por Master, mas manteve o “modus operandi” de usar fundos para inflar o patrimônio, com a alavanca de captação de CBDs [sic] e outros papéis protegidos até R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), bancado por um pequeno seguro descontado pelas instituições financeiras na captação de recursos.
O ex-cantor gospel mineiro [Zettel?] aproveitou as estreitas relações com igrejas evangélicas, a partir da Igreja Lagoinha (do pastor André Valadão, de BH) para atrair os evangélicos e ampliar contatos políticos com a turma do “Centrão”, muito bem avaliada nos meios evangélicos. Seus contatos com o presidente do PP, o senador do Piauí Ciro Nogueira, quase foram bem-sucedidos: em 2024, quando o Master já fazia água ao vender CDBs com rendimento de 140% do CDI (que era a média do mercado), o senador quase emplacou uma emenda que elevava a R$ 1 milhão a garantia do FGC. Os grandes bancos chiaram e a emenda não foi adiante. Daí, mesmo “comprando” os serviços do então diretor de Fiscalização do Banco Central, Paulo Souza, viu-se em apuros quando o mandato de Souza acabou, em 31 de dezembro de 2024, junto com o de Roberto Campos Neto, que facilitou a vida dos pequenos bancos e de instituições de pagamento com o “open finance” e a redução do capital de cada “player”, o que ampliou a alavancagem do sistema. Mesmo assim, o Master estava baleado. E tentou uma associação nebulosa com o Banco Regional de Brasília, que deixou um rombo de mais de R$ 6 bilhões ao banco do governo do Distrito Federal (Ibaneis Rocha), por cessão de “títulos podres”. O Banco Central agora tenta apertar os parafusos deixados soltos por Campos Neto.
Os estilhaços da confissão de Vorcaro deixam em suspense altas figuras do União Brasil (à frente o presidente Antônio Rueda), já que estados e municípios governados pela sigla foram grandes investidores, pelos fundos de pensão dos funcionários públicos, em papéis do Master, bem acima da garantia de R$ 250 do FGC. Estão nesse caso o fundo de pensão do RJ, cujo governador Cláudio Castro (União) pode apresentar sua renúncia nesta segunda (23) e se livrar de condenação na Justiça para ficar leve e solto a concorrer para o Senado, e alcançar imunidade pelos próximos oitos anos. No Amapá, os estilhaços atingem o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP).
Teme-se também os estilhaços no Supremo Tribunal Federal. O ministro José Antônio Dias Toffoli está envolvido em negócios com o Master, através do SPA Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). O ministro-relator da trama golpista, Alexandre de Moraes, teve o escritório de sua mulher, Viviani Barci & Filhos, contratado por cifras milionárias pelo Master, em fins de 2023…
Nuvens seguem mudando na política
Ao sabor das nuvens, que a cada hora mudam, o cenário político segue mudando e mostrando, a oito meses da eleição, uma cristalização do embate entre o presidente Lula e o herdeiro 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Os dois dividem as preferências atuais no segundo turno. Mas uma raposa da política, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, segue vislumbrando chances para a terceira via, e pretende lançar esta semana a candidatura presidencial do governador Ratinho Júnior (PSD-PR). Ratinho já foi sondado e recusou a vice de Flávio Bolsonaro.
Quem sabe a última fala de Lula sugerindo a candidatura do seu vice, Geraldo Alkimin, a uma das duas vagas de senador por São Paulo, onde Lula precisa reforçar seu cacife eleitoral, ao lado da candidatura do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a governador, para concorrer com Tarcísio de Freitas, não estaria sinalizando um cortejo ao PSD de Kassab? As candidaturas do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ao governo mineiro e a do ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (PDS-RJ), ao Palácio Guanabara já estão aliadas a Lula.
Mas o grande fato da semana pode ser a decisão do ministro Alexandre de Moraes de autorizar a mudança da prisão especial do ex-presidente Jair Bolsonaro na sala especial da PM em Brasília, na “Papudinha”, em prisão domiciliar, depois do recente agravamento do estado de saúde do condenado a 27 anos de prisão pela trama golpista. Moraes teve uma longa conversa com Flávio Bolsonaro, que pediu a transferência e solicitou pareceres sobre o estado clínico do paciente à junta médica que o atendeu no Copa Star, de Brasília.
Íntegra em: (https://t.co/oXRbmj0uGb)
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Zé Maria
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Repare que a Inflação Tarifária verificada pelo Banco Central
é misteriosamente Maior que a do tal ‘Livre Mercado’.
Isto é, ou os ‘Preços Administrados’ são Retroalimentados
ou a Aferição da Pesquisa do BACEN contém Erros.
[Adendo ao Comentário Abaixo (19/03/2026 – 22h08)
Zé Maria
0,25 não é nada diante de 15,
mas é uma boa sinalização;
pelo menos parou de subir.
https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/21055/nota
marcio gaúcho
Governos eleitos pelo povo privatizaram partes importantes da Petrobras. Ações de governos, portanto. Agora não há mais como estatizar as subsidiárias subtraídas do complexo da empresa estatal. Assim, o povo que se dane, porque autorizaram os seus representantes a agir em seu nome. Agora é hora de chorar baixinho, junto ao travesseiro.