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Eliara Santana: O empresário, a mídia, Bolsonaro e o grande mal para a democracia
Bolsonaro e Rubens Menin. Foto: Divulgação/PR
Desnudando a mídia

Eliara Santana: O empresário, a mídia, Bolsonaro e o grande mal para a democracia


14/05/2021 - 17h21

A CONCENTRAÇÃO DA MÍDIA NO BRASIL E O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICA

A concentração no Brasil é a pior do mundo, e isso tem impactos para o funcionamento da democracia

Por Eliara Santana*, em seu blog

O grande empresário Rubens Menin é o dono da construtora MRV, uma das maiores de Minas.

Ele é também o controlador da CNN Brasil, TV a cabo.

Desde ontem, ele é também o dono da Rádio Itatiaia. Uma das maiores do estado, a mais tradicional das coberturas de esporte e também de política e economia – há alguns reconhecidos jornalistas/apresentadores que são referências para a população, do tipo “ah, vc viu o que o fulano de tal falou na Itatiaia?”.

Pois bem, Rubens Menin também é um reconhecido apoiador de Jair Bolsonaro.

Ele foi um dos empresários de mídia que estiveram presentes no jantar com Jair e membros do governo, em 8 de abril deste ano, e também um dos que elogiaram o discurso de Jair na ocasião.

Bem, ele ser a favor de Jair tendo uma construtora não é grande problema. Ele ser muito a favor de Jair e ter uma TV e uma rádio, ambas potentes, é um grande problema. Por quê? Vejamos alguns aspectos.

O Brasil tem a pior estrutura de concentração de meios de comunicação no mundo – setes grupos/famílias controlam a grande maioria do conteúdo produzido e a distribuição desse conteúdo.

Esses grupos se concentram, em sua quase totalidade, na região Sudeste e detêm grande audiência. Se a TV tem um lugar cativo neste Brasil gigantesco, o rádio é uma potência.

Então, se uma pessoa – cujo perfil é: grande empresário, homem, branco, muito rico, da região Sudeste – detém uma grande TV a cabo (fala com um público X) e uma grande emissora de rádio (fala com público Y) e esse cidadão apoia um determinado político ou grupo político, sendo portanto contrário a outro ou outros, podemos supor que haverá um determinado viés (ponto de vista, conjunto de valores) que vai orientar, de cima, a condução da linha editorial desses veículos.

Mas ter uma linha editorial, em si, também não é um problema. Todos os veículos de mídia têm linhas editoriais que vão orientar e conduzir a produção.

Onde está o problema, então?

O problema está na concentração de muitos meios nas mãos de poucos grupos. Grupos esses que têm um perfil muito semelhante: grandes grupos de empresários, brancos, ricos, da região Sudeste/Sul.

Ou seja, o controle dos meios não está pulverizado – não há grupos diferentes e plurais com acesso a meios de comunicação e, portanto, produzindo notícias e outros conteúdos a partir de um rol plural de formaçoes, pontos de vista, afinidades, orientações politico-ideológicas – basta ver a enorme perseguição às rádios comunitárias no Brasil.

Ou seja, se são os mesmos perfis que têm o controle dos meios, a produção do conteúdo nunca será plural de verdade, nunca vai abarcar a complexidade do Brasil, nunca vai dar espaço de fala e voz a grupos minoritários, sobretudo, nunca haverá espaço de verdade para pensamentos políticos, econômicos e sociais dissonantes.

Vou mostrar um diagrama bem simples:

É uma ilustração para pensarmos, na prática, o que significa esse controle da informação – e por que isso é um mal para a democracia.

Se poucos grupos controlam muitos meios de comunicação, eles controlam a PRODUÇÃO da notícia, o que significa determinado viés predominante, determinados pontos de vista predominantes, sem espaço plural de verdade para outras manifestações.

Ou seja, a abordagem de determinado acontecimento terá somente uma cara. E controlam também a distribuição dessa notícia com um enorme alcance, pois têm condições de espalhar pelo pais a sua produção.

Uma rádio comunitária, que também tem seu viés e seus pontos de vista, tem um alcance super localizado, muito pequeno. Ao contrário de uma rádio potente e capilarizada.

O Brasil não tem TV pública, e a TV do estado fica à mercê de governos.

Por aqui, grandes empresários podem ter rádio, TV, jornal, TV a cabo, distribuidora de filme, de música, revista e por aí vai – isso é a concentração: um grupo sozinho tem MUITOS meios e consegue alcançar centenas de milhares de indivíduos com seus produtos e seus pontos de vista.

Voltando então ao começo do bate-papo: se um empresário tem uma grande TV e uma rádio potente e afinidades com determinado grupo político – o que implica determinado conjunto de valores, de pontos de vista, de visões de mundo – dificilmente seus veículos darão espaço qualificado para outros grupos políticos.

Mas vão fingir que fazem isso.

Porque, no Brasil, há um outro grande problema – por aqui os grandes veículos fingem imparcialidade e neutralidade. E aí, vão produzir a informação como se aquela versão fosse a ÚNICA possível e como se não fosse uma versão, mas a verdade sobre aquele assunto específico.

E vão afirmar com muita sobriedade que o interesse deles é “a informação” – como se informação não fosse um objeto construído.

A produção da notícia envolve um processo de seleção – alguém seleciona aspectos de um acontecimento a partir de uma linha editorial e de determinados pontos de vista e determinado viés.

Portanto, se tivéssemos muitos grupos donos de vários meios, teríamos vários pontos de vista sobre um mesmo assunto – e aí poderíamos formar o nosso próprio ponto de vista a partir de um conjunto mais amplo e diversificado de pontos de vista.

Vou dar um exemplo. Eu posso, num veículo tal, fazer um escarcéu e chamar de corrupção a compra de uma tapioca de R$ 8,30 com um cartão corporativo, ou eu posso mostrar, em outro veículo, que a figura em questão justificou a compra mostrando que estava sem seu cartão pessoal, afinal, foi uma tapioca.

Eu também posso escolher chamar de “orçamento paralelo” ou de esquema de corrupção recursos de 3 bilhões de reais reservados para a compra de deputados. Tudo são escolhas.

Vou dar outro exemplo. Vamos pensar numa reportagem sobre o funcionamento do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Nessa suposta reportagem eu, como editora de determinado veículo, expresso o que aquele veículo tem como linha editorial; então, na seleção dos aspectos para compor a notícia, eu escolho mostrar apenas hospitais e postos de atendimento lotados, pessoas reclamando do atendimento no SUS, muita bagunça.

E como fonte, eu escolho pessoas preparadas, médicos, mas que estão ligados a planos de saúde, ao sistema privado de saúde. Ok. Nada há de errado nisso, é uma escolha, um procedimento.

Feita a reportagem, ela vai gerar no leitor ou espectador ou ouvinte uma determinada reação – o SUS não presta, o melhor é o sistema privado de saúde.

Mas, se eu estou em outro veículo, com outros interesses e pontos de vista, eu posso mostrar hospitais precários, pois existem mas posso mostrar que isso é resultado do corte de investimento na saúde pelo poder público e posso mostrar também que o SUS tem o maior sistema de cobertura vacinal do planeta para países com mais de 100 milhões de habitantes e o único totalmente gratuito nessa situação; posso mostrar ainda que o Programa de Saúde da Família prioriza um atendimento integral e que vai à casa das pessoas. Tudo gratuito.

Enfim, são vários aspectos de um mesmo tema ou assunto.

Mas eu como espectadora leitora ouvinte somente terei acesso a esse conjunto amplo de informações se houver pluralidade dos meios de comunicação, com pluralidade de pontos de vista.

Portanto, a concentração dos meios de comunicação, meus caros, é incompatível com a democracia.

PS.: A rádio é uma potência em termos de comunicação, sobretudo no interior do Brasil. Todo mundo ouve rádio. O dia inteiro.Os empresários bolsonaristas querem uma estação pra chamar de sua.

No ano passado, em setembro, reportagem do jornal O Globo mostrou, a partir de mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) no celular de um empresario, que empresários bolsonaristas estavam fazendo um movimento para a compra de estação de rádio para apoiar as pautas de interesse do governo.

O empresário em questão conversava com o então secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten.

Minas Gerais ouve rádio. E ouve muito a Itatiaia. O Brasil ouve rádio. Rubens Menin, agora dono da Itatiaia, afirmou, após o jantar com Bolsonaro e outros empresários: “Foi uma conversa boa, eu gostei, me deu tranquilidade”, definiu Rubens Menin. Segundo o empresário, “foi uma conversa de alinhamento, não de confusão”.

Enfim, apenas especulações mesmo.

*Eliara Santana é jornalista e doutora em Linguística pela PUC/MG.





6 comentários

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Zé Maria

15 de junho de 2021 às 11h13

https://pbs.twimg.com/media/E34U63GXoAAtF8L?format=jpg

Fascistas Bolsonaristas Manipuladores de Robôs
nas Redes Sociais chamam Twitter de Comunista,
porque a empresa fez uma limpeza de rotina nas
contas suspeitas de serem Bots ou Spams.
https://blog.twitter.com/pt_br/topics/company/2018/como-o-twitter-esta-combatendo-spam-e-automacao-mal-intencionada

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Zé Maria

15 de junho de 2021 às 10h59

Twitter faz uma limpa nos bots e o Gado Bolsonarista pira!

https://help.twitter.com/pt/rules-and-policies/platform-manipulation

https://tecnoblog.net/wp-content/uploads/2021/06/twitter-seguidores-abraham-weintraub-e1623716994714.png

Twitter suspende contas por uso suspeito
e usuários reclamam da perda seguidores.

Muitos usuários do Twitter viram o número
de seguidores despencar nesta segunda-feira (14).
Aparentemente, a situação foi provocada por
mais uma checagem rotineira de identidade
de contas na rede social, com o objetivo de
eliminar bots e spam.

https://tecnoblog.net/451659/twitter-suspende-contas-por-uso-suspeito-e-usuarios-reclamam-censura/

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Nelson

18 de maio de 2021 às 15h06

“Por aqui, grandes empresários podem ter rádio, TV, jornal, TV a cabo, distribuidora de filme, de música, revista e por aí vai – isso é a concentração: um grupo sozinho tem MUITOS meios e consegue alcançar centenas de milhares de indivíduos com seus produtos e seus pontos de vista.”

Mas, se perguntados, todos esses grandes empresários monopolistas vão dizer que amam de paixão o tal de livre mercado, a tal de liberdade de expressão, a tal de liberdade de imprensa e pregar que a concorrência é saudável e o melhor caminho para a sociedade.

Hipocrisia sem limites.

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Sandra Rezende

17 de maio de 2021 às 03h26

Passo a Passo como o bilionário Carlos Wizard se infiltrou na Saúde para espalhar cloroquina entre os brasileiros https://www.brasil247.com/cpicovid/acompanhe-passo-a-passo-como-o-bilionario-carlos-wizard-se-infiltrou-na-saude-para-espalhar-cloroquina-entre-os-brasileiros?amp

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Jonas

16 de maio de 2021 às 20h40

Infelizmente é assim. Por isso que acho que é um desperdício vê tanta TV. Os jornais dão a mesma noticia 10 X e tudo igual.
Piorou se a pessoa vê Siqueira, Datena, ratinho ou similar. Aprender uma receita é mais útil e dá dinheiro se for bom. Esse jornalismo policial enlouquece qualquer pessoa normal.
300 horas de notícia só do Lula não é uma coisa normal. Pq 300 horas de notícia dele e dos outros não ?
E os caras do tucanistao é tudo santo.
O Lula perdeu o dedo TRABALHANDO numa maquina, não foi confabulando com os donos da globo. Se riem do português dele, na verdade, tão rindo do povo mais pobre do Brasil. Rindo do seu pai e da sua mãe tb.
3s f9da debochar de anciã-o.

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Zé Maria

15 de maio de 2021 às 22h44

.
“Fui Repórter do começo ao fim desse ciclo,
ao persistir na defesa da notícia, da Verdade.
E quero me lembrar daqui 20 ou 30 anos que,
num dos momentos mais dramáticos da
Humanidade, me posicionei ao lado da Ciência
e da Vida”.
“Lutei por preservar a Dignidade Profissional
da qual não se pode abrir mão.
Vou sempre me lembrar de quem caminhou
junto comigo nessa Jornada.
Felizmente todos eles sabem quem são”.

Jornalista Corajosa Adriana Araújo,
ao anunciar sua Saída da TV Record,
após 15 anos de trabalho na Emissora.

https://www.uai.com.br/app/noticia/series-e-tv/2021/03/19/noticias-series-e-tv,269865/adriana-araujo-deixa-record-apos-15-anos-me-posicionei-ao-lado-da-vida.shtml

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