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Eliara Santana: Nosso plano deu errado. Vamos enviar a pomba da paz
Desnudando a mídia

Eliara Santana: Nosso plano deu errado. Vamos enviar a pomba da paz


12/07/2020 - 15h25

por Eliara Santana*

A conclusão do título é por minha conta.

É hora de perdoar o PT é o título da coluna do jornalista Ascânio Seleme, no jornal O Globo do dia 11-07.

Em linhas gerais, o artigo afirma que é hora de perdoar o PT, que o país tem 30% de eleitores de esquerda, que o bolsonarismo é o inimigo, que a nação não se reencontra se uma parcela da população for rejeitada, que o PT é o agrupamento político mais forte e sustentável da história partidária brasileira etc. etc.

O artigo-editorial tem pontos deveras interessantes, para muito além da proposta original exposta no título.

Ele não é uma peça de cunho religioso com o perdão pelo perdão.

Ele é uma peça política que enseja um chamado à negociação.

Vou destacar alguns comentários da ordem do discurso e, depois, alguns pitacos mais gerais do significado desse artigo.

“É hora de perdoar o PT”

O título recupera a antiga concepção dos cidadãos de bem — honrados e não corruptos — e faz a eles esse apelo.

Estabelece portanto que um agrupamento X  tem a prerrogativa de perdoar e de decidir o momento de fazê-lo.

Somente os bons e corretos podem fazer isso.

Somente os “cidadãos de bem”. E o momento justifica.

“Esse agrupamento político, talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira, tem de ser readmitido no debate nacional. Passou da hora de os petistas serem reintegrados”

Há uma referência explícita a qualidades do outrora inimigo, como a justificar o perdão.

O que também evidencia a estratégia de seduzir o então  inimigo para que aceite a oferta de perdão.

Há ainda uma marcação temporal importante que remete ao estado de coisas atual como justificativa para esse passo (o perdão).

“A gritaria contra a roubalheira já cansou, não porque se queira permitir roubalheiras, mas porque é oportunista politicamente. Claro que houve desvios de dinheiro público na gestão de Lula e Dilma, as provas são abundantes e as condenações não deixam dúvidas. Mas o PT é maior que isso e, como já foi dito, para ladrões existe a lei”.

O aceno de paz deve ser sedutor, com doses de bajulação, e envolve esquecer o passado, de parte a parte.

Portanto, para selar a paz e pensar no inimigo comum, do lado de lá oferecem o fim do repertório “corrupção” atrelado ao PT e joga luz em suas qualidades.

Liga a corrupção a gestões específicas e marcantes (Lula e Dilma), mas não aos atores — houve desvios nas gestões, não há um agente explícito.

Esqueçamos Atibaia e o Guarujá.

Isso é importante porque revela que compreendem a dimensão de Lula e de Dilma no PT — portanto sabem que o aceno de paz nem será discutido se eles forem preteridos.

“O petismo não é sinônimo de roubo, como o malufismo”.

Desde o começo, os que arquitetaram o golpe sabiam que o PT não inaugurou a corrupção no Brasil.

Mas esse repertório foi utilíssimo naquele momento. Agora não é mais.

“O fato é que o ódio dirigido ao PT não faz mais sentido e precisa ser reconsiderado se o país quiser mesmo seguir o seu destino de nação soberana, democrática e tolerante”.

É de se perguntar se esse “ódio” já fez sentido algum dia, então.

Em algum momento oportuno era aceitável odiar o PT.

Hoje, diante do caos pandêmico e da força que o partido demonstra, apesar de tudo, não mais.

“O Brasil não tem tempo para esperar por uma outra esquerda, renovada e livre da influência do PT. O país precisa se reencontrar logo para construir uma alternativa ao bolsonarismo, este sim um problema grave que deve ser enfrentado por todos”.

O problema é nomeado e ganha predicados. E só alguém forte pode enfrentá-lo.

Então, eis o ponto: descobriram que não dá para prescindir do maior partido de esquerda da América Latina para destruir a praga que está solapando as bases da vida nacional.

O artigo não fala em mea culpa do PT, elenca sua culpa, sua máxima culpa, mas não exige isso que vem sendo quase um mantra mídiatico.

Passado é passado…

“Falo dos eleitores, não apenas dos militantes. Me refiro aos que acreditam na política de mudança do partido, não aos seus líderes”.

Pela primeira vez na imprensa há uma referência positiva a quem vota e escolhe uma proposta de esquerda.

Não são mais os “militantes” — termo que sempre ganhou conotação negativa até evoluir para “militontos” em algumas paragens.

Há a percepção explicitada de que o partido tem uma política de mudança e que há pessoas que acreditam nela.

Feitas as rápidas observações sobre o texto, agora eu quero pensar nessa tessitura do discurso, nesse caminho de significação para além da ode ao PT.

O que sinaliza, no cenário macropolítico pandêmico descontrolado, esse artigo?

Sinaliza, entre outras coisas importantes, um relevante aceno de paz.

Alguns pitacos:

Os sinais de fumaça da paz começaram já no início da semana, com a entrevista do ex-candidato à Presidência da República pelo PT, Fernando Haddad no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Não pela entrevista em si, mas pela não virulência na condução do processo.

Não houve interrogatório, a santa inquisição contra o monstro da corrupção.

Houve uma entrevista, com espaço para Haddad falar mal até de Ciro e de FHC.

No JN, o assunto “contas bloqueadas do PT pelo WhatsApp” não rendeu — apenas uma nota informativa, cabendo até leitura da explicação de Gleisi Hoffman.

Chegaram à conclusão de que criaram corvos, abutres que estão agora a comer os olhos de todos os golpistas, que odeiam o PT, mas não querem um país cheio de praia e riqueza governado pelo Talibã.

Aponta um aceno em direção à paz para combater um inimigo comum, que é forte e descontrolado.

E aqui, minha gente, não significa que as Organizações Globo são legais nem que o PT é um tolo nem que essa que vos fala ama o Bonner.

Significa que há um jogo político em que o ator que tem poder institucional de comando no momento representa um gigantesco retrocesso, com impacto forte verificado naquela parte sensível do capitalismo — o lucro.

As Organizações Globo — e a imprensa neoliberal em geral — estão fragilizadas num governo que é um mix de Talibã com ogros.

Os neoliberais não gostam do combate à desigualdade nem de negros nas universidades, mas acreditam na ciência e sabem que a Terra é redonda.

O altíssimo potencial destrutivo de Jair e sua trupe está escancarado. Bem como a impossibilidade de controlá-lo.

Tentaram de todas as formas (até atenuando nas últimas semanas a cobertura), mas não foi possível.

Ele até passou a usar máscara, mas só isso.

Jair nunca foi o candidato da imprensa neoliberal refinada.

Ele foi o possível para fazer frente a uma vitória da esquerda. E pensavam que ele seria controlável. Perceberam que não é.

Como sinalizou o cientista político Alberto Carlos Almeida, perceberam que Jair vai até 2022 e que o PT será seu adversário.

Daí aquele elogio pra seduzir o único grupo que tem condições de enfrentar o monstro: “Esse agrupamento político, talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira, tem que ser readmitido no debate nacional”.

O artigo-editorial é um instrumento político de negociação e de chamamento à paz.

E acho que é muito positivo para o Partido dos Trabalhadores porque reconhece, sem escancarar, claro, sua força política, sua capilaridade, sua capacidade de organização, sua resiliência.

Enfim, reconhece sua capacidade de vencer os monstros.

Por fim, o artigo-editorial traz o reconhecimento dos grupos que mandam que a criminalização da Política não foi uma boa estratégia para banir do poder aqueles que são contrários às políticas neoliberais, pois os ogros podem estar à espreita.

Jair ameaça clara e abertamente cassar a concessão da Globo, que vence em 2022.

O PT, mesmo espezinhado, nunca fez isso

Por isso, não se assustem se de repente um sapo barbudo for chamado para alguma entrevista…

*Eliara Santana é jornalista e doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.



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15 comentários

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José Carlos R. Campos

27 de julho de 2020 às 21h32

O que a globo está querendo é salvar-se e se safar do papel primordial que representou no golpe para tirar uma presidenta honesta. Se Lula for “esperto” ( e ele é) JAMAIS ACEITARÁ dialogar com a globo. Repito, a globo sabe que bolsonaro irá até 2022(com a banda podre dos militares o apoiando) e quer a A TODO CUSTO evitar que bolsonaro casse a sua concessão. Simples assim!

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Zé Maria

16 de julho de 2020 às 22h34

Heraldo Pereira vai ser âncora da TV Chinesa,
para dar notícias positivas à população,
porque por aqui, apesar de se esforçar ao máximo,
ele está com uma enorme dificuldade.
O número de recuperados já tá manjado.

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Henrique Martins

13 de julho de 2020 às 13h54

Bolsonaro vai manter a turma do gabinete do ódio mesmo após a ação do Facebook.
É claro! Se essa turma resolve abrir a boca o que ele vai fazer?
É o mesmíssimo caso dos ministros de Ricardo Sales e Ernesto Araújo.
Ele está nas mãos deles.

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Mauro

13 de julho de 2020 às 10h55

Me preocupa bastante o que o pt vai negociar com a direita e a globo! Boa coisa não é! Essa galera vai vender até a petrobras se for necessário para voltar a ocupar o executivo. Precisamos fortalecer a esquerda fora da conciliação de classes e do liberalismo da esquerda oficial.

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Nogueira Netto

13 de julho de 2020 às 10h52

O PT pode ficar isolados em 13 capitais nessas eleições, com a impossibilidade de Lula ser candidato, o PT não tem outro nome, uma vez que o partido sempre girou em torno dele. Agora, as outras siglas emplacam suas lideranças, Marina Silva, Flávio Dino e principalmente Ciro Gomes, perante isso, o PT que arrogantemente falou que não é partido de apoiar ninguém, ficou isolado, resta apelar para o discurso do perdão e fazer o que Bolsonaro faz, desviar a atenção para o óbvio, nesse caso, o fato de não ter um projeto claro para o país, mas ser constituído pela vontade ferrenha de voltar ao poder.

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abelardo

13 de julho de 2020 às 09h08

Se fizermos um retrospecto das matérias jornalísticas nos últimos 50 anos, não faltarão motivos para dizer onde a Globo deve colocar a sua debochada sugestão de perdão ao PT. É assim, no mais simplificado vocabulário popular, que avalio onde ela merece ser respondida e também ser lembrada, e por nós condenada, em razão do lado em sempre se colocou e a quem sempre protegeu e acobertou, conforme mostra a própria história do jornalismo. Nós, o povão, sempre fomos o maior alvo dos entreguistas, dos traidores da pátria e gananciosos mercenários rentistas, que compõe a imunda elite brasileira. Sempre somos vítimas de traidores eleitos que usam da confiança do nosso voto, para servir a burguesia alucinada pelo poder, pelo dinheiro, pelo status, mesmo que para isso seja preciso se alinharem em conluio com desonrados corruptos e autoridades malfetoras da República. Querem e tentam tirar cada vez mais do que menos tem, de quem é mais vulnerável e mais precisa de ajuda e oportunidade. Então é ao lado desses traidores que ela sempre se colocou e sempre andou de braços dados e cinicamente nunca fez questão de esconder na prática, mas que tenta sempre desmentir quando tenta se passar, Fake News, por Madalena arrependida do Brasil.

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Geni

13 de julho de 2020 às 08h48

Se o PT for inteligente e decente não aceitara esse acordo.
O problema do Brasil não é a extrema direita é o centro.
E agora que a corrupção chegou no PSDB deixe a sangria rolar, assim como FHC deixou Lula sangrando.

So

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Maria

13 de julho de 2020 às 07h02

Esse artigo em O Globo é a versão atual da Geni de Chico Buarque. Importante relembrar o desfecho.

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Henrique Martins

13 de julho de 2020 às 06h27

A declaração de Gilmar Mendes doeu nas Forças Armadas porque no fundo mesmo a cúpula sabe que ele tem razão.
Todos aqueles que são inteligentes e bem intencionados no país estão vendo ao vivo e a cores o que está acontecendo no país. Não temos sequer um ministro da saúde titular que seja técnico e o presidente da república deu maus exemplos à população a ponto de se contaminar e ainda está colocando a população em mais riscos fazendo propaganda de medicamento que não cura e pode matar.
Temos um louco governando o país de sim. Se não querem pressiona-lo a manter sua loucura sobre controle que ao menos sugiram que ele coloque no ministério da saúde um militar que seja ao menos médico. As forças armadas têm muitos médicos nos seus quadros.
É inadmissível o que está acontecendo no Brasil.
Gilmar está coberto de razão é por isso que elas estão queimadas com a declaração dele.

Bolsonaro está levando a reputação das Forças Armadas para o lixo. Depois o Mourão vai ter que ralar para melhorar a imagem delas.
Sim. Porque cair Bolsonaro vai cair e em total desonra.

Quem viver verá!

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Nilson Moura Messias

13 de julho de 2020 às 00h24

Elara Santana, artigo para ser lido, relido e estudado.

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Marcos Videira

12 de julho de 2020 às 20h12

Esse negócio de perdoar os pecados é conversa pra confessionário. Trata-se do reconhecimento da necessidade de uma Frente Ampla pra derrotar o fascismo que está destruindo o Brasil. Parece óbvio que não dá pra esperar 2022.
Foi aberta a porta da negociação política para o PT entrar com dignidade. Mas Lula já disse que deseja uma revanche em 2022. Se continuar com essa estratégia fratricida, isolando-se, a história colocará o PT na companhia do partidão. As eleições deste ano serão um alerta eloquente aos sectários.

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Henrique Martins

12 de julho de 2020 às 19h57

É inacreditável que tenhamos no mundo um país que diante da pandemia do século não tem um ministro da saúde titular e nem que seja um técnico da área.
Mais inacreditável ainda é que esse país seja o Brasil.

Acorda Brasil!

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Aurélio Dubois

12 de julho de 2020 às 18h20

Eliara

Um pequeno adendo a seu texto.

Há pouco tempo, o “sapo barbudo” foi convidado para uma entrevista ao jornal O Globo, convite feito através do jornalista Bernardo Mello Franco, sob o pretexto de uma série de entrevistas com ex-presidentes.

A proposta foi rejeitada pelo “sapo”, exigindo ele que a Globo se retrate do “tratamento editorial difamatório” que recebeu daquela organização.

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Zé Maria

12 de julho de 2020 às 16h16

No dia em que a Globo admitir que a maior Corrupção no País se estabeleceu
dentro da Força-Tarefa da OLJ de Curitiba no Paraná, sob o comando do DD e
do Marréco de Maringá (e sua Cônje e amigos), com o objetivo de criminalizar
os Líderes do Partido dos Trabalhadores e afastar o PT do Governo, de qualquer governo – derrubando a Presidente da República Dilma Rousseff e prendendo
o ex-Presidente Lula e impedindo sua candidatura em 2018 – e por fim levar ao
Poder Central Bolsonaro e seu Clã de Milicianos, por meio de vazamentos ilegais
e Fake News; talvez aí dê para acreditar em algum tipo de pacificação política
proposta pelos Herdeiros Bilionários do Roberto Marinho, ainda que expressa indiretamente pelos bonecos de ventríloquos nos veículos de comunicação
do Grupo Empresarial Globo. Fora disso, é cordeiro fazendo acordo com lobo.

Responder

    Zé Maria

    13 de julho de 2020 às 19h27

    A Globo que faça “Autocrítica” e “Mea Culpa”, e
    assuma a responsabilidade pelo Golpe de 2016.
    E que não espere 40 anos para admitir a sua
    participação ativa, cotidiana – com Moro e DD –
    na criminalização injusta do PT e de seus líderes.


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