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Diário da Resistência


Eliara Santana: Não basta apenas tirar o bode na sala; é preciso lembrar como o transformaram em carneirinho
Desnudando a mídia

Eliara Santana: Não basta apenas tirar o bode na sala; é preciso lembrar como o transformaram em carneirinho


05/08/2019 - 15h17

Não adianta apenas tirar o bode da sala

por Eliara Santana*

“É preciso que tudo mude para que tudo continue como está”.

A frase, proferida por Don Fabrizio, personagem de O Leopardo, livro essencial de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, que se tornou um filme maravilhoso de Luchino Visconti (com uma deslumbrante Cláudia Cardinale), retrata as articulações da burguesia que ascendia em meio à decadência da aristocracia.

Ela é lapidar porque mostra que processos aparentemente transformadores são, na verdade, rearranjos para que permaneça o mesmo status quo.

Isso tudo me inquieta novamente porque estamos vivendo cotidianamente um misto de angústia e perplexidade diante da avassaladora onda de coisas estúpidas proferidas pelo atual presidente da República e das ações de desmonte do país.

E me incomoda muito porque a onda de coisas estúpidas e boçais provoca editoriais inflamados. Mas o desmonte por trás do projeto de governo não acende paixões, aliás, nem é referenciado dessa forma.

No entanto, o “espiral de infâmias”, como citado pelo editorial da Folha de S. Paulo, não começou neste mês. Ele é antigo, bem antigo.

Como, então, passou despercebido até há pouco tempo? Não havia infâmia suficiente para que os editoriais gritassem? Foram poucas as falas boçais para que suscitassem indignação? Não creio.

Exatamente por isso, precisamos, agora, retomar um pouco o passado para entender que Bolsonaro não é um sujeito apenas, um indivíduo cujos impropérios atingem a Nação.

Bolsonaro precisa ser entendido como um projeto, por isso, simplesmente tirá-lo de cena porque sua fala incomoda não será solução para nossos gravíssimos problemas. Antes de esquecer o passado, precisamos compreendê-lo. E compreendê-lo significa, em alguns aspectos, entender o processo que culmina na ascensão de uma figura com tamanha bagagem de coisas impublicáveis.

Precisamos compreender o passado recente para entendermos que o impeachment de Dilma Rousseff começa a ser desenhado em 2013, envolvendo amplos atores e setores, empenhados na desconstrução do projeto de governo petista.

Precisamos compreender o passado recente para entendermos que o antipetismo foi construído paulatinamente, e, nesse processo, construiu-se também o ódio à política e abriram-se as portas para a intolerância.

Precisamos compreender o passado recente para entendermos que esse processo (impeachment) não se encerraria com a saída de Dilma, e assim foi costurado.

Precisamos compreender o passado recente para entendermos o papel decisivo da imprensa naquele momento e hoje – para o bem e para o mal.

Precisamos compreender o passado recente para entendermos que a pauta Lula Livre se casa visceralmente com as denúncias trazidas pelo The Intercept, pois revelam que o processo foi absurdamente conduzido para retirar um ator político do cenário brasileiro.

Precisamos compreender o passado recente para entendermos que a imprensa, ao naturalizar falas e ações preconceituosas do então candidato à Presidência, estava tomando uma efetiva decisão em relação a um determinado grupo.

Precisamos compreender o passado para enxergarmos que a sistematização de mentiras, a criação de inimigos comuns pela propaganda e ações do poder econômico conduziram as eleições de 2018.

Precisamos compreender o passado para entender que Bolsonaro usa declarações aparentemente idiotas para desconstruir o peso de problemas reais, como fez com os dados sobre desmatamento (ele reconstrói discursivamente, pelo uso de uma linguagem totalitária, a realidade).

Precisamos compreender o passado para questionar por que o peso da perplexidade de parte da imprensa e de outros grupos recai sobre o discurso aparentemente bizarro do presidente, mas não nomeia sua intenção real, que é destruir o país, acabando com direitos conquistados, como em relação à Previdência, à reforma trabalhista, à privatização das universidades públicas.

Precisamos compreender o passado para saber por que nunca houve uma grande matéria, na imprensa hoje perplexa, desnudando as relações com a milícia.

Precisamos compreender o passado para entendermos por que os jornais proibiram, na campanha, a referência a Bolsonaro como candidato de extrema-direita, preferindo enquadrá-lo no outro polo de uma disputada democrática.

Precisamos compreender o passado para entendermos por que a pauta Lula Livre, a despeito de opção partidária, não entra em cena. Os vazamentos provam que houve uma armação profissional para que o ex-presidente fosse preso e não pudesse voltar à cena política.

Precisamos compreender o passado para entendermos por que o Jornal Nacional saiu em defesa da Lava Jato e de Sérgio Moro mesmo com todas as denúncias tão evidentes.

Precisamos compreender o passado para entendermos por que o Jornal Nacional manteve o silenciamento positivo de Jair Bolsonaro, evitando reproduzir sua fala direta, nos primeiros meses do governo.

Precisamos compreender o passado para questionarmos a ausência de membros-chave do governo (e do projeto Bolsonaro), como Paulo Guedes e Hamilton Mourão, do noticiário. O que andam fazendo? Como? Onde? Por que não aparecem?

Precisamos compreender o passado para sabermos que discurso de ódio não brota e não tem origem no indivíduo solitário – ele tem um sujeito, uma voz (ou várias) de autoridade que diz que a intolerância é legítima, que a eliminação do outro que não é igual a você é legítima.

Por que precisamos entender esses elementos e como eles se relacionam?

Porque essa compreensão de um passado que é recente nos dará a percepção de um contexto pleno de significados, dando as condições de atuarmos como atores decisivos no processo de resgate do Brasil das trevas.

E rever o passado não significa rever mágoas, significa buscar na história os elementos que nos darão a compreensão essencial de um todo que é complexo e desafiador, podendo projetar o futuro.

Entender o passado vai nos permitir ver que a imprensa corporativa é uma instância de poder que está alinhada aos grupos dominantes, que ameniza uma situação inaceitável quando, até pouco tempo, classificava as declarações inaceitáveis do atual ocupante do Palácio do Planalto como “polêmicas”.

Sobretudo, precisamos juntar todos os elementos do passado histórico para entendermos COMO foi possível um ex-militar de muito baixa patente, conhecido e reconhecido pela verborragia racista, homofóbica e preconceituosa alcançar a presidência da República de um país gigante, rico, plural e que conquistou tantos avanços nos últimos anos.

Desculpem-me por talvez dizer o óbvio. Mas me parece que agora se torna muito fácil simplesmente tirar o bode da sala, por causa da imensa sujeira, sem nenhum questionamento a quem comprou o bode e o vendeu como carneiro manso.

PS: Pra não dizerem que só falo mal da imprensa, o JN de sexta-feira, dia 2, fez uma boa matéria sobre a demissão do presidente do Inpe, com seis minutos, nomeando como “ataques” as falas de Bolsonaro.

Aquela matéria no ponto para mostrar a truculência de governo, com uma fala forte do diretor do Inpe. Muito boa, como só o JN sabe fazer. Coincidência ou não, segue firme o pitoresco flerte, quase caso de amor, de Bolsonaro com Sílvio Santos.

Aguardemos os próximos capítulos da novela. Pode ficar interessante.

*Eliara Santana é jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.

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3 comentários

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Luiz Augusto Fonseca

12 de agosto de 2019 às 18h04

Não se deve esquecer que parte considerável da população brasileira é fascista, autoritária, corrupta, bronca, grotesca, ignorante, desinformada e basicamente estúpida. E isso perpassa todas as classes econômicas, sociais, raciais, etc.

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Zé do rolo

05 de agosto de 2019 às 21h03

É de da náusea ao ler que o Noblat do jornal O Globo do grupo família lixo marinho de que o Lula não poderá ter o direito constitucional da progressão de pena porque o governo não quer, os militares não quer e o escárnio do mercado?deve ser o mercado financeirofinanceiro também não quer.
Que alguns ministros SIM quer colocar o direito constitucional garantido ao Lula que é a progressão de pena só que uns outros ministros não por fazer parte da turma do escárnio do judiciário instaurado por Moro em parceria com mercado financeiro e extrema direita corrupta isso é um absurdo pela misericórdia que tipo de ditadura estão instaurando em nosso país mesmo nós tendo o direito à democracia e nossa constituição. É um nojo o que o Moro e seus aliados estão fazendo em pleno século XXI em nosso país. Nem mesmo nos tempos sombrios da ditadura militar tinha tamanho escárnio e armações sujas no âmbito judiciário.

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Zé Maria

05 de agosto de 2019 às 19h25

Na sequência do Golpe de Estado de 2016, gestado em 2013,
as Eleições Presidenciais de 2018 foram fraudadas por um
Grupo de Procuradores do MPF na Lava Jato sob o Comando
e Articulação de um Juiz Federal, Sérgio Moro, o Protegido
dos Herdeiros do Roberto Marinho na Irmandade Secreta
dos Conchavos Místicos, Políticos e Econômico-Financeiros.

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